CAPÍTULO DOIS
O sol JÁ aparecia no horizonte, quando eles saíram da vila, num comboio de veículos 4x4 bem equipados, em direção ao deserto. Para desespero de Hinata, Orochimaru insistira que o acompanhasse no seu jipe.
— Estará muito mais confortável comigo, na frente dos outros veículos... — disse ele, rindo, e acrescentou:
— Os outros sufocarão com nossa poeira.
Era verdade que Orochimaru dirigia a uma velocidade que gerava uma onda pesada de areia fina, mas Hinata ainda teria preferido estar num dos outros veículos.
— Por que não relaxa um pouco? — sugeriu Orochimaru. — Recupere seu sono, a viagem será longa. Mas antes beba um pouco de água para não desidratar.
Obediente, ela aceitou beber da garrafa aberta que ele oferecia.
Talvez fosse mesmo uma boa idéia dormir, reconheceu Hinata, em seguida. Pelo menos assim não precisaria conversar com Orochimaru. Bocejando de sono, cedeu à tentação de fechar os olhos. De fato estava muito sonolenta. Talvez por ter passado grande parte da noite pensando no homem de olhos dourados.
Quase adormecida, Hinata percebeu que o jipe começava a ganhar velocidade.
Finalmente ela acordou com o sol do fim de tarde brilhando no vidro. Ao perceber o quanto dormira, endireitou-se no banco e virou-se para Orochimaru, consternada:
— Você deveria ter me acordado. Quanto tempo ainda falta para chegarmos à ravina?
Orochimaru demorou algum tempo para responder. Quando se virou, a expressão em seus olhos deixou-a apreensiva.
— Não iremos para a ravina — respondeu, presunçoso. — Iremos a um lugar mais isolado, romântico... Onde poderei tê-la só para mim, e lhe mostrar... e ensinar...
Hinata o encarou, apavorada. Queria ter entendido mal, mas a expressão no rosto de Orochimaru dizia tudo.
— Não pode fazer isso! Temos que ir para a ravina. Os outros estarão à nossa espera...
— Eles pensam que tivemos que voltar — anunciou ele, sereno. — Informei que você não estava bem. Foi uma boa idéia colocar pílulas para dormir naquela água que você bebeu.
Hinata o fitava, horrorizada.
— Orochimaru, isso é ridículo. Vou telefonar para os outros neste instante e...
— Não creio que seja possível — observou Richard, com um sorriso de satisfação. — Seu telefone celular está comigo. Tirei de sua bolsa quando parei para avisar que iríamos voltar.
Hinata não pôde acreditar no que ouvia.
— Isso é loucura! Vamos nos juntar aos outros e esquecer...
— Não! — Orochimaru silenciou-a, veemente. — Iremos para o oásis. Há dias planejo uma maneira de conseguir tê-la. Esta é a oportunidade perfeita, e o oásis, o lugar perfeito. Fica no "quarteirão vazio" do deserto, uma área que é terra de ninguém. Isso deveria encantá-la, já que se interessa tanto pela história desta região. Esse oásis já foi usado como parada de caravanas de camelos.
Hinata fixou os olhos nele, apreensivos. Tinha a garganta seca e o coração acelerado. Não tinha propriamente medo de Orochimaru, mas não podia negar que seu comportamento indicava certa obsessão por ela, ou pelo menos uma desagradável determinação, como Sakura suspeitara.
— Veja, lá está o oásis — declarou Orochimaru, desnecessariamente, quando a pista empoeirada fez uma curva numa cha protuberante, revelando uma reunião de palmeiras e outras vegetações, e, mais adiante, a água azul brilhando com o sol do fim do dia.
Quando Orochimaru parou o jipe, a Hinata reconheceu que, em outras circunstâncias, ficaria fascinada diante daquela visão.
A vegetação que circundava o oásis era abundante e densa, sobretudo na margem mais afastada. Algum dia deve ter sido o leito de um rio, pois o que mais poderia ter escavado um caminho pela escarpa no outro lado do oásis? E possivelmente na rocha de superfície tão lisa houvesse uma cachoeira...
Com certeza o oásis tem de ser suprido por uma fonte ou rio subterrâneo, porém, mesmo diante da inegável beleza do oásis e seus arredores, Hinata não tinha a menor intenção de ficar ali a sós com Orochimaru.
Como ele não reagiria positivamente a qualquer tentativa de persuadi-lo a abandonar seus planos, Hinata teria que descobrir um meio de distraí-lo para pegar as chaves do jipe e ir embora, antes que a impedisse.
— Eu trouxe uma barraca e tudo de que precisaremos.
— Ah, como você é esperto! — elogiou Hinata, tentando parecer impressionada. — Enquanto você arruma tudo, eu ficarei aqui, está bem?
Orochimaru sacudiu a cabeça.
— Não, minha querida, acho que não será possível! Não preparei tudo isso para você fazer a bobagem de tentar fugir!
"Ele não conseguirá tirar-me do jipe", pensou Hinata, querendo se consolar, e avisou que não estava preparada para sair do jipe. Mas logo percebeu que o subestimara, pois ele estava preparado para tudo.
— Neste caso, minha querida, você não me deixa outra opção. Serei obrigado a usar isto. — Orochimaru enfiou as mãos nos bolsos e retirou um par de algemas. — Eu preferia não chegar a este ponto, mas se você se recusa a fazer o que eu peço, sou obrigado a algemá-la à porta do jipe.
Hinata reconheceu estar errada achando que não precisava ter medo de Richard, e começou a suar frio. Ele já trancara as portas do veículo. Se ela fosse algemada ali dentro, estaria numa enrascada.
— Seria bom tomar um pouco de ar — admitiu, procurando manter a voz firme. — Posso ficar sentada ao lado do oásis, enquanto você cuida de tudo?
— Claro, minha querida — concordou Orochimaru, sorrindo para ela. — Vamos procurar um lugar confortável para você?
Orochimaru a acompanhou em direção ao oásis, mas seu comportamento era mais de um carcereiro do que de um homem que pretendia se deitar com ela.
— Isto servirá — anunciou ele, indicando uma das palmeiras.
Contudo, ao se aproximar e ouvir o barulho de metal, Hinata imediatamente concluiu que eram as algemas. Sem parar para pensar, ela começou a correr, e parecia uma gazela de tanto pavor. O medo a levou na direção da passagem estreita entre as rochas íngremes, ignorando o som de veículos que corriam em alta velocidade pelo terreno acidentado e os gritos de guerreiros a cavalo. Tarde demais para perceber que sons eram aqueles, ela chegou na passagem e se viu diante de um grupo de fugitivos.
O líder era El Khalid, mas quem a avistou primeiro foi um de seus homens, que desviou o Land Rover tão abruptamente que quase capotou.
Atrás de Hinata, na passagem entre as rochas, Orochimaru urrou* e logo saiu correndo em direção ao jipe, ignorando o apuro em que Hinata se encontrava. Ele ligou o motor e voltou pelo mesmo caminho, acelerando o quanto pôde.
Hinata, contudo, sequer percebeu que Orochimaru a abandonava.
O ar à sua volta estava denso de poeira, e os últimos raios do sol faziam brilhar o metal do veículo que corria a seu lado, cegando-a. O motorista debruçou-se para fora da janela, com uma mão presa ao volante, a outra tentando alcançá-la, e um sorriso lascivo no rosto.
Imediatamente, ela se virou para voltar correndo pelo mesmo caminho que fizera. Por menos que quisesse as atenções de Orochimaru, era muito mais fácil lidar com ele do que com a situação em que se encontrava. Mas, para seu pavor, viu seu trajeto de fuga bloqueado por um cavaleiro montado em seu cavalo, que avançava para ela, e tentou fugir.
O som das patas do cavalo misturava-se aos gritos selvagens do homem que a cercava. Ele estava tão próximo que Hinata sentia o calor da respiração do cavalo em sua pele. Seu coração parecia a ponto de explodir. Hinata viu quando eles ficaram lado a lado, e ele se debruçou na sela, estendendo-lhe a mão. Num movimento inacreditável, ele a levantou do chão e a arrastou para o dorso do cavalo, sentando-a de frente para ele, como sua prisioneira.
Soluçando, querendo respirar, o coração batendo alucinadamente, o rosto pressionado contra o tecido rústico da túnica que o cavaleiro usava, Hinata não pôde fazer nada, além de ficar ali, obrigada a respirar o cheiro do tecido, com seu leve perfume cítrico. Ela se retesou. Agora percebia que a colônia com perfume de limão assim como o cheiro daquele homem lhe eram familiares.
As batidas das patas do cavalo se transformaram na batida de seu próprio coração, e ela tentou virar o corpo para poder ver-lhe o rosto.
Como imaginava, só pode ver os olhos de manchas douradas, que lembravam um olho de tigre. Seu coração entrou em total descompasso quando olhou dentro deles e viu fagulhas douradas de puro ódio serem lançadas na sua direção.
Hinata rapidamente virou o rosto, abalada demais para suportar o desprezo que aqueles olhos transmitiam. À distância, viu o jipe de Orochimaru desaparecer, deixando-a para trás, à mercê do destino. Lágrimas jorravam de seus olhos, e uma delas caiu na mão dourada que segurava as rédeas do cavalo.
O cavaleiro sacudiu a mão. Ele falou alguma coisa para o cavalo, que fez meia-volta e voltou para junto do grupo de homens que os observava.
Ao fazê-lo, um veiculo surgiu do nada, ou assim pareceu a Hinata, e veio numa velocidade assustadora na direção deles. Ao volante, estava o homem que primeiro a perseguira. Seu rosto contorcido transmitia puro ódio. Ele mostrou a mão em punho para o seu captor e disse umas palavras num dialeto que Hinata não entendeu. Em seguida, afastou-se e alcançou os homens que esperavam mais adiante a observá-los.
Hinata tinha cem, não, mil perguntas a fazer, mas, antes que pudesse fazê-las, seu raptor freou o cavalo, diante de um homem forte, de estatura mediana, que sinalizava para que ele desmontasse.
Hinata estremeceu de ver o tamanho do rifle que ele usava pendurado ao ombro, e o cinto de munições em torno da cintura, no qual trazia enfiada uma adaga curva tradicional, que parecia perigosa.
A seu lado, estava o homem que a perseguira, gesticulando, com raiva, e apontando para ela. Ele falava tão rápido que Hinata só conseguiu entender algumas palavras.
Pela breve mesura de seu raptor, Hinata concluiu que o homem com o rifle era o líder. No entanto, embora ele obviamente exigisse a obediência de todos os outros, no caso do seu captor era diferente, pois, pelos gestos, ele sutilmente enfatizava sua independência.
— Por que deixou o homem escapar? — Hinata ouviu o líder perguntar, irritado, em zuranês.
Deu-se uma breve pausa, e seu captor respondeu, friamente:
— El Khalid, você deverá fazer essa pergunta a outra pessoa! Um homem a cavalo, por mais rápido que o animal seja, não pode correr mais do que um jipe. Gaara poderia ter pegado o fugitivo, se não tivesse escolhido perseguir uma presa mais fácil.
— Ele pegou a minha presa, e agora quer me desacreditar. A moça é minha, El Khalid — protestou com veemência o homem do Land Rover.
— Ouviu o que Gaara disse, Tuaregue! Qual é a sua resposta?
Hinata precisou morder o lábio com força para não cair na tentação de virar para seu captor e implorar que não a entregasse a Gaara. O líder o chamava de "Tuaregue", usando apenas o nome da tribo, enquanto que no caso do outro homem usava um nome mais íntimo, Gaara. Seria isso uma indicação de que favoreceria a reivindicação do outro? Só de imaginar, Hinata angustiou-se.
Por que seu captor não dizia alguma coisa? Sentia que ele a fitava, mas não conseguia erguer o rosto e olhar para ele. Temia o que poderia ver naqueles olhos.
— Quem tem a moça sou eu e não ele. Ela me renderá muito dinheiro quando a levar de volta para a cidade de Zuran e a devolver à sua gente.
— Ninguém deverá deixar este acampamento enquanto eu não mandar — foi a resposta áspera. — Reuni todos vocês aqui para uma missão especial. Se tivermos êxito, ficaremos ricos. Já que ambos exigem o direito sobre a moça, poderão lutar por ela. — El Khalid fez um sinal com a cabeça, e, antes que Hinata pudesse protestar, estava sendo levada para longe, à força, por dois homens mal-encarados, ambos armados.
Ansiosa, ela se virou a tempo de ver El Khalid tirar do cinto a adaga curva, cuja lâmina brilhava de tão afiada, e jogá-la para seu captor.
Hinata ficou sem ar quando seu captor a pegou, e ele e Gaara se posicionaram. Gaara já tinha na mão uma adaga semelhante, e quase imediatamente golpeou com selvageria o oponente. Os outros homens começaram a formar um círculo ao redor.
Atrás deles, entre os dois mal-encarados, Hinata só conseguia avistar breves relances da luta.
Não que ela gostasse de ver lutas, longe disso. Mas, nesta ocasião, tinha um motivo muito forte para querer saber quem seria o vencedor. Enquanto os homens a arrastavam para longe, os dois oponentes, embora mantivessem a cabeça coberta, tiraram os mantos e túnicas e lutavam de peito nu e descalços.
Já era noite, e lanternas tinham sido acesas para iluminar a cena que, para Hinata, parecia de outro mundo.
A luz de uma das lanternas reluzia nas adagas quando elas eram erguidas, e os sons repugnantes dos corpos em combate ecoavam as batidas dos pés descalços na areia.
Hinata ouviu um gemido de dor, e o clamor de aprovação da assistência; por cima das cabeças, conseguiu ver a mão que segurava uma adaga para o alto, e as gotas de sangue que dela escorriam. Seu estômago revirou. Estaria o homem de olhos dourados muito ferido? Considerando tudo o que já sabia a respeito dele e o que não sabia, o absurdo era que sua ansiedade e sua preocupação não eram com a situação em que se encontrava, mas com ele. Se pudesse, sairia correndo para ficar a seu lado.
Hinata ouviu outro gemido, seguido de mais um clamor de aprovação, mas desta vez a platéia gritava o nome Tuaregue.
A luta parecia não terminar nunca, e Hinata começou a passar mal de pensar em tamanha violência e crueldade. Ela percebeu que não podia aceitar qualquer tipo de violência física. A ansiedade inicial de ver o que estava acontecendo foi substituída pelo alívio de ter sido poupada de testemunhar um espetáculo tão repulsivo.
Até que, finalmente, a luta pareceu ter chegado ao fim. A platéia aclamava aos gritos, enquanto Hinata era levada para onde estavam os dois lutadores, juntamente com El Khalid.
Apenas um dos três homens atraía sua atenção. Até que suspirou, aliviada, quando ouviu a multidão gritar "Tuaregue", e o viu erguer as duas adagas, tendo ao lado o oponente, caído no chão, desanimado.
Quando seu raptor se virou, Hinata levou um susto. Ele tinha vários ferimentos no corpo: um corte na pele do rosto, que quase atingira os olhos; outro logo acima do coração; e o sangue jorrava de um terceiro corte no antebraço.
Hinata ficou um pouco tonta, mas ignorou, afastando o olhar do tórax grande e dourado, molhado de suor, que tinha à sua frente. Gaara, ao contrário, não parecia ter nenhum ferimento, o que a espantou, já que o tal "Tuaregue" era sem dúvida o vencedor.
— Eis o seu prêmio — disse El Khalid. — Tome-a.
Seria imaginação sua, ou o leve aceno de cabeça de seu captor para El Khalid era mais cínico do que respeitoso? Se assim era, ninguém mais parecia ter percebido.
Antes de se voltar para Hinata, ele devolveu a adaga de El Khalid, depois se abaixou para pegar a túnica.
Do canto do olho, Hinata viu Gaara com a adaga na mão, supostamente se preparando para guardá-la no cinto.
Em vez disso, ele se lançou na direção das costas desprotegidas de seu captor.
Hinata gritou para avisar, mas parece que alguém deve tê-lo alertado do perigo, pois ele já se virava num movimento tão rápido que seus olhos não conseguiram acompanhar. Com um chute na mão erguida de Gaara, a adaga foi ao chão.
Imediatamente, três homens seguraram Gaara e o carregaram dali. Como se nada de extraordinário tivesse acontecido, seu captor pegou a túnica e se vestiu. Depois, sinalizou com a cabeça para que ela o acompanhasse.
— Venha — ordenou, peremptório.
Seus passos eram tão largos que Hinata teve dificuldade de acompanhar, mas, no instante em que o alcançou, ele parou de andar e se virou para ela.
— Você deve andar atrás de mim — disse, friamente. Hinata não podia acreditar no que ouvia. Andar atrás dele! Os traumas que sofrerá foram esquecidos, diante do orgulho feminino ferido.
— Não farei isso — recusou-se, irritada. — Não sou sua... propriedade... Além disso, em Zuran, os homens andam ao lado das mulheres.
— Aqui não é Zuran, é o deserto, e você me pertence. Posso fazer o que quiser, quando e como eu desejar.
Sem lhe dar oportunidade de responder, seu raptor se virou e seguiu na direção das tendas, que estavam muito bem escondidas, numa área cercada de rochas altas que formavam uma proteção natural.
Numa clareira em frente a algumas tendas, havia várias fogueiras, onde mulheres cobertas de preto cozinhavam. Diante do cheiro forte da comida, Hinata lembrou-se de que não se alimentava há muito tempo, e seu estômago começou a reclamar.
Como era de se esperar, a tenda para a qual seu captor a levou ficava separada das demais.
Um veículo utilitário com aparência surrada estava estacionado ao lado, e, mais atrás, preso por uma corda, o cavalo de seu captor comia, feliz, guardado por um menino.
Mas Hinata não teve tempo de observar os arredores. Uma mão firme no meio das costas a empurrou para dentro da Hinata já vira tendas semelhantes que tinham sido armadas para exposição e com propósitos educativos, num sítio de educação cultural na cidade de Zuran, mas nunca imaginara que fosse ocupar uma delas! Vários candelabros iluminavam a área de estar principal da tenda com uma luz suave, mostrando tapetes ricamente desenhados e o tradicional divã. No chão, havia muitas almofadas e uma mesinha baixa de madeira, sobre a qual estava um bule de café.
Num instante, os acontecimentos do dia pesaram sobre Hinata, e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Por que chora? Pelo seu amante? Não creio que ele esteja desperdiçando lágrimas por sua causa, a julgar pela velocidade com que a abandonou.
Hinata o encarou.
— Orochimaru não é meu amante! Ele é um homem casado...
— Mas é claro. Do contrário, por que a traria para um lugar tão remoto — observou seu raptor, com sorriso cínico.
— Eu não permiti. Ele... ele me forçou...
— Mas é claro! — concordou ele, irônico. Hinata ergueu a cabeça e o fitou com ar de desafio.
— Por que está fingindo que é um tuaregue, quando é evidente que não é?
— Silêncio! — ordenou ele, sério.
— Não me silenciarei. Lembro de você na alameda na cidade de Zuran, mesmo que você tenha esquecido.
Hinata ficou quase sem ar quando ele lhe tapou a boca e, com ar ameaçador, disse baixinho:
— Você ficará em silêncio.
Era demais para Hinata! Ela fora seqüestrada, intimidada, ameaçada e agora isso! Com raiva, mordeu com força a mão que lhe cobria a boca, mas ficou mais chocada com o gosto salgado do sangue do que com a selvageria do que ele disse ao se desvencilhar.
— Mulher, você é uma bruxa! — Seu raptor examinou os pequeninos pontos de sangue na almofada da mão, próximo ao polegar. — De modo algum permitirei que me envenene! Limpe.
Hinata olhava para ele sem acreditar. Seu rosto queimava. Ela mesma se chocara com sua atitude descontrolada. No entanto, lá no fundo, reconhecia o perigo na sensualidade de seus próprios pensamentos. Pensamentos que espelhavam desejos reais? Desejos que ela secretamente queria transformar em ações? De forma alguma!
Sentindo a respiração de seu raptor contra sua orelha, Hinata pegou o pano que ele lhe entregava, molhou na tigela de água que estava a seu lado e pôs-se a cuidar da ferida.
De repente, ele a soltou, se afastou e, com a voz rouca, disse:
— Não! Por que eu lhe daria chance de me causar mais danos ainda?
— Por que se comporta assim? — perguntou Hinata, trêmula. — Quem é você? No souk, parecia um europeu.
— Não diga essas coisas. Você não sabe nada de mim! Hinata percebeu na voz de seu raptor que ele a rejeitava e a hostilizava.
— Sei que não é tuaregue — insistiu.
— E você deve saber tudo, claro — zombou ele, numa provocação.
— Sei, sim — confirmou Hinata, corajosa. — Estudei a história e a cultura de Zuran, e sei que um verdadeiro tuaregue jamais descobriria o rosto em público como você, naquele dia na alameda...
Deu-se um silêncio, até que ele falou, em voz baixa, mas muito ameaçador:
— Se eu fosse você, esqueceria tudo sobre a cidade de Zuran e suas alamedas.
Hinata respirou fundo.
— E então, vai me dizer quem você é?
Por um momento, pareceu-lhe que ele não responderia. Depois, ele deu de ombros e falou:
— Quem eu sou não importa. Mas o que sou, sim. Todos nós que prometemos lealdade a El Khalid temos fortes razões para isso. Vivemos fora da lei, como sabe, e seria bom não esquecer.
— Você é um criminoso? Um fugitivo?
— Você faz perguntas demais, e posso assegurá-la que não gostaria de saber quem e o que eu realmente sou.
Foi difícil para Hinata não estremecer de medo diante das palavras ameaçadoras e pedir:
— Pelo menos dê-me um nome que eu possa chamá-lo. Você não pode gostar de ser chamado de Tuaregue. Eu certamente não gostaria de ser chamada de Inglesa!
Para sua surpresa, ele deu uma risada.
— Está bem. Você pode me chamar de... Itachi fez uma pausa. Naquele acampamento de rebeldes, onde a identidade legal de um homem era respeitada como algo privado, ele era conhecido por todos somente como "Tuaregue", e adotara um sobrenome muito comum, bin Sadeen. Mas "Tuaregue" não era o nome que desejava ouvir dos lábios dessa mulher, embora não estivesse preparado para analisar o porquê disso.
— Pode me chamar de Itachi.
— Itachi? — Hinata franziu a testa. — É muito incomum. Não me lembro de ter ouvido antes.
— Foi escolha de minha mãe — disse ele, sem muitas explicações. — E como devo chamá-la?
— Meu nome é Hinata Hyuuga — informou ela, hesitando antes de reunir coragem para perguntar, ansiosa. — Daqui a quanto tempo... poderei voltar para a cidade de Zuran?
— Não sei dizer. El Khalid deu ordens para ninguém deixar o oásis até que ele desse permissão.
Por um momento, Hinata se viu tentada a perguntar o que os levara ao oásis, mas, cautelosa, desistiu.
— Fez bem — disse ele friamente, como que adivinhando seus pensamentos. — Fique aqui. Não saia da tenda.
— Aonde vai? — perguntou Hinata, surpresa, ao vê-lo se afastar.
Itachi virou-se e respondeu, com voz suave:
— Para o meu quarto, para tirar esta roupa suja.
— Ah, e os cortes — lembrou-se ela, culpada. — Não seria bom cuidar?
Itachi deu de ombros.
— Não passam de simples arranhões, e logo estarão curados.
Hinata lembrou-se de algo que a deixou curiosa. — Por que Gaara perdeu a luta, se só você se feriu?
— O objetivo não é retalhar o adversário, mas desarmá-lo.
Quando Itachi se virou novamente, ela olhou na direção da saída.
— São mais de trezentos quilômetros de deserto entre este oásis e a cidade de Zuran.
A frase objetiva deixou-a apreensiva, quase desesperada. O deserto era uma prisão, um vigia designado pela natureza para evitar que ela fugisse, e Itachi evidentemente sabia disso. Será que também sabia do medo que ela sentira quando Gaara a reivindicara como seu troféu? E o quanto se sentira aliviada quando ele interferiu? E o quanto suas emoções eram complexas e inquietantes? Sinceramente, esperava que não! Ele a deixava muito mais vulnerável do que ela gostaria.
Determinada, Hinata se virou para enfrentá-lo.
— Não vai conseguir escapar impune. Orochimaru alertará as autoridades e...
— Nós estamos no quarteirão vazio, muito alem do alcance do seu amante e das autoridades — retrucou Itachi, friamente.
— Orochimaru é meu chefe e não meu amante. — O rosto de Hinata ficou vermelho ao ver a maneira como ele a fitava.
— Então por que razão vocês estariam no oásis a sós? Mas não me surpreende que você negue esse relacionamento depois da maneira como ele a abandonou.
— Orochimaru deve ter achado que fazia mais sentido buscar ajuda, em vez de ficarmos os dois reféns — replicou Hinata.
— Fazia sentido? Ah, claro, você é européia! — zombou Itachi. -— Aqui no deserto, não faz sentido. Nós agimos com base nas interações com as mulheres, principalmente quando temos uma ligação com uma mulher, um compromisso emocional. Mas na sua cultura isso não é importante, não é? Eu preferiria cortar fora meu coração a abandonar a mulher que eu amasse a mercê de qualquer tipo de desconforto ou perigo.
Aquelas palavras invocavam em Hinata imagens íntimas e intensas que penetravam sonhos tão privados e secretos que o simples som da voz dele era suficiente para trazê-los de volta à mente. Ela sempre quis um homem como esse e um amor assim, mas achava que isso não existia. Por isso, durante a vida inteira, fez de tudo para afastar essas tolices e se concentrar nas realidades da vida.
A forte emoção provocou-lhe um nó na garganta. Ela engoliu em seco e se afastou.
— Se quiser, pode ir — disse Itachi, indiferente. — Se Gaara não a pegar, certamente o deserto cuidará disso.
Hinata não respondeu. Sabia que era verdade.
Embora de costas para Itachi, ela percebeu quando ele saiu da área de estar da tenda e entrou na área de dormir.
A adrenalina que a encorajara a falar tão desafiadora desaparecera, Hinata sentiu-se fraca e trêmula. A tenda e seu dono eram sua prisão e seu vigia, mas também sua segurança e proteção.
Mas não podia esquecer o que Itachi era! Lembrava-se de ter lido em algum lugar sobre o perigo de uma pessoa criar uma dependência emocional intensa com relação ao seu captor. Não podia deixar isso lhe acontecer.
Só porque ele a beijara e a usara? Ela começava a sentir dor de cabeça e náusea da mistura pesada de adrenalina e ansiedade.
Hinata caminhou sobre o tapete macio, e cada barulho a deixava tensa, mas ainda assim foi pega de surpresa ao ver que Itachi entrara sem fazer barulho e a observava.
Ele usava uma túnica branca, de tecido suave, a cabeça descoberta, e os pés descalços. À luz do lampião, o tórax dourado brilhava através do cabelo escuro e fino.
Uma sensação que Hinata não pôde controlar explodiu dentro de seu ser, liberando uma ânsia tão íntima e tão surpreendente que ela prendeu a respiração.
Itachi tinha o cabelo úmido, e se encaminhou para ela, trazendo o cheiro de pele limpa e da colônia suave que Hinata já associava a ele. Ela sentiu o coração acelerar e pular tão descompassado que parecia estar alojado na garganta.
Hinata estava pouco à vontade, muito consciente da diferença entre a aparência limpa de Itachi e a sua, cansada e com o corpo pegajoso. Mas não era só isso que lhe provocava essa sensação. Ela tentou desesperadamente afastar o olhar da mão escura que calmamente fechava os botões da túnica e lhe ocultava o dourado acetinado fosco daquela pele.
Numa tentativa de esconder o que estava sentindo; Hinata perguntou, agressiva:
— Por quanto tempo vai me manter aqui?
Itachi dirigiu-lhe um olhar frio e arrogante. — O tempo que for preciso! Ela engoliu em seco.
— O que... pretende fazer? — Será que ele percebia em sua voz o quanto ela estava nervosa?
Itachi apertou os olhos para examiná-la bem e perguntou, irônico:
— Fazer?
— Sim. Quero dizer... — Hinata interrompeu a frase para engolir em seco de novo. — Quero dizer, como pretende informar a expedição que...
— Você pergunta demais! Existe um ditado no seu país sobre curiosidade, não é?
— Sobre a curiosidade matar?
— No seu lugar, eu me preocuparia mais em perguntar se os seus amigos estão dispostos a pagar pela sua liberdade, e quanto, do que como eu pretendo informar onde você está.
Hinata começou a sentir um certo pânico, mas recusou-se a se render ao medo. A morte de seus pais a obrigara a ser auto-suficiente desde cedo, e ela se forçara a adotar o hábito de não depender de mais ninguém e enfrentar verdades e realidades por vezes muito desagradáveis.
E neste momento precisava ter uma resposta para uma pergunta muito desagradável. Umedecendo os lábios muito ressecados, ela o pressionou.
— E se os meus... se a empresa não puder pagar a quantia exigida?
Deu-se uma breve pausa e um relance de algo que ela não conseguiu interpretar nos olhos de Itachi, que disse, com voz suave:
— Nesse caso, terei que levar meus bens para um mercado maior. — Quando ela o fitou, sem expressão, ele ironizou. — Quem mais pagará muito bem por uma mulher jovem e atraente?
Hinata arregalou os olhos. Ele não podia estar falando sério. Podia?
Sem dizer mais nada, Itachi vestiu o turbante de tuaregue, enfiou os pés num par de sandálias e, afastando a cortina pesada, saiu da tenda.
Ela estava sozinha! Se quisesse, podia ir embora. Mas para onde? Tinha certeza de que um grupo de homens como esse, unido pelas atividades ilegais, teria guardas no acampamento. Se tentasse fugir, sofreria a humilhação de ser trazida de volta à força, e, mesmo se conseguisse escapar, sabia que não poderia caminhar até a cidade de Zuran. Não, ela não tinha outra opção além de ser dócil e ficar ali, para ele e para qualquer que fosse o destino que ele escolhesse lhe impor. E Itachi sabia disso.
Qualquer que fosse o destino? E se ele resolvesse achar que ela era desejável? Seu coração batia forte, e um frisson de sensações perigosas que nada tinha a ver com medo ou sofrimento a inundou.
"A desonestidade de Itachi deve compensar", pensou ela, cinicamente, pelo menos o interior da tenda e o mobiliário eram um bom indicador.
Os tapetes que cobriam o chão e as "paredes" eram ricamente desenhados e muito superiores a tudo o que já vira nas lojas. Hinata tocou um deles e passou a ponta dos dedos num dos galhos e no tronco grosso da colorida árvore da vida. Os fios sedosos davam a impressão de ser de verdade, um ser vivo respirando. Se fechasse os olhos, poderia imaginar...
Seu rosto parecia estar pegando fogo, ela afastou a mão do tapete como se estivesse queimando. O divã em madeira entalhada dourada era coberto de um tecido escuro e macio, com almofadas de veludo nas cores das pedras preciosas.
As lamparinas tremeluzentes formavam sombras misteriosas que ecoavam a sensualidade dos tecidos. Um instrumento semelhante ao alaúde descansava no chão ao lado do divã e por trás dele, Hinata avistou uma pilha de livros de capa de couro.
Automaticamente, ela se aproximou e pegou um deles. O título era salientado em folha de ouro, Rubayat, de Omar Chayyam... Um livro de poesias. Parecia fora de lugar. Hinata devolveu o livro para a pilha e sentou numa das almofadas. A cabeça ainda doía, e ela estava física e emocionalmente exausta. De tão cansada, fechou os olhos.
No caminho de volta para a tenda, Itachi parou para ver sua égua, depois do esforço que lhe impusera ao longo daquele dia. Ao vê-lo, ela jogou a cabeça para trás e cutucou-lhe o braço com o focinho, pedindo as guloseimas que Itachi costumava trazer. O menino a quem pagava para vigiá-la logo se levantou de onde estava, a alguns passos da égua, mas voltou a deitar ao reconhecê-lo.
O comentário de Hinata sobre sua herança européia o sensibilizara. Sua mãe fora amada e respeitada por toda a família do lado zuranês, à exceção de Madara e seu falecido pai. Segundo o rei, seu meio-irmão, sua mãe não tivera dificuldade em adotar o estilo de vida do marido. Como ele, amava o deserto e seu povo, mesmo sem ter o sangue puro do deserto, como era o caso de Itachi. Obedecendo ao que prometera à esposa em seu leito de morte, seu pai lhe proporcionara uma educação européia, para que pudesse experimentar sua herança cultural ocidental. Mas Itachi jamais esquecera a conversa ouvida por acaso entre o pai e o oficial do governo britânico que o levaria para a nova escola, em Londres.
— O problema é que o menino não é nem uma coisa nem outra... — dissera o diplomata, num ar de critica, pelo menos assim pareceu a Itachi, na ocasião.
Agora, Itachi reconhecia que o diplomata tinha razão. Embora uma boa parte sua pertencesse ao deserto, havia uma outra parte que só se satisfazia quando ele estava envolvido nos afazeres diplomáticos em Washington, Londres e Paris, e na tarefa de promover Zuran. Itachi crescera cercado do amor dos parentes zuraneses, mas tinha consciência de que era diferente. Não era europeu, mas também não era totalmente zuranês!
Por isso, e sem dúvida agravado pela ausência da mãe, carregava consigo um fardo secreto, a sensação interior de isolamento e solidão.
Mas de algum modo Hinata quebrara suas defesas e tocara um lado seu que estava bem enterrado no fundo de sua alma. Por isso, mais que qualquer outra coisa, a queria fora de sua vida!
Afinal, se, quando criança, via sua herança mista como fonte de confusão e ansiedade, como adulto, aprendeu a vê-la por um prisma mais positivo e a usá-la em benefício das pessoas. Mesmo assim, sabia que, aos olhos de alguns, essa mistura racial e cultural era vista com desprezo.
Com o apoio do meio-irmão, trabalhara incansavelmente no sentido de promover melhores relações entre Zuran e o resto do mundo. De fato, por sua atuação, o Conselho Governante o distinguira ao honrá-lo com o título de Embaixador Especial. Itachi pessoalmente planejara e defendera um projeto envolvendo o intercâmbio de estudantes do Oriente Médio e da Europa, com vista a uma melhor compreensão e integração das culturas. O projeto recebera tantos elogios que seu nome chegara a ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz.
Agora, contudo, suas emoções não tinham nada de pacíficas! E tudo por causa de Hinata Hyuuga! De todas as complicações e problemas que poderiam colocar em risco seus planos, a presença inesperada de Hinata certamente era a última coisa que ele podia querer. Ela representava perigo, para ele e para ela própria. Pela lógica, na situação em que se encontrava, ela deveria estar morrendo de medo, em vez de bombardeá-lo com perguntas. E muito menos sugerir passar adiante o que sabia a seu respeito. Ela poderia arruinar todo seu plano. Em suma, ele não tinha condições de se responsabilizar por Hinata Hyuuga, pois ela poderia ameaçar e inconscientemente, sabotar sua missão secreta. Mas El Khalid já decretara que ninguém deixaria o acampamento. Não fosse isso, Itachi poderia livrar-se dela, passando um rádio e conseguindo um carro e um motorista para levá-la de volta aos amigos e ao amante covarde, ficando livre para levar a cabo sua missão.
Em vez disso...
"Deveria tê-la abandonado ao destino e a Gaara", pensou Itachi, amargo. Ao mesmo tempo, reconhecia, com relutância, que Hinata era forte e corajosa. E sua boca tinha perfume de rosas e sabor de amêndoas com mel. O corpo era esguio como o de uma gazela, e os olhos...
Itachi procurou controlar os pensamentos. Sua cunhada, a rainha, já lhe apresentara inúmeras jovens, mas nenhuma o interessara. Eram gentis demais, dóceis demais e lhes faltava personalidade. Eram obedientes, maçantes, enquanto para ele era fundamental a mulher se orgulhar de sua independência, e, como a fêmea do falcão do deserto, só se deixar domar por um homem — e mesmo assim nos seus termos.
Uma mulher que se derretesse nos seus braços, numa doce paixão selvagem, que correspondesse à sua necessidade masculina intensa; uma mulher que se entregasse de corpo e alma e lhe exigisse o mesmo; uma mulher que corresse pelo deserto a seu lado, e que descansasse a cabeça em seu colo, enquanto o ouvia tocar para ela e ler os mais tenros poemas de amor; uma mulher que fosse tudo o que sua mãe fora, mas ao mesmo tempo não perdesse sua individualidade e sua singularidade.
Há muito tempo Itachi concluíra que essa mulher só existia na sua imaginação, e repetiu para si mesmo que ainda pensava assim. Hinata Hyuuga certamente não era essa mulher. Como poderia ser?
E o principal: como ele podia perder tempo pensando nela, quando sua cabeça deveria estar voltada para questões muito mais importantes? Tinha certeza de que o importante personagem mencionado por El Khalid era Madara.
Embora tivesse tentado persuadir EI Khalid a ser mais especifico quanto à data da chegada da tal pessoa importante, o líder dos rebeldes respondera que ainda não sabia. Itachi relutara em insistir para não levantar suspeitas.
Madara não poderia demorar. Afinal, faltavam apenas cinco dias para a celebração do Dia Nacional de Zuran. Mas havia outro ponto. Madara certamente não receberia bem a presença de Hinata no acampamento — uma mulher que, se o visse, poderia traí-lo quando retornasse à cidade. De fato, do ponto de vista de Madara, seria muito mais simples e seguro não permitir que ela retornasse!
O cheiro da comida cozinhando o relembrou que estava de estômago vazio. Itachi se aproximou da fogueira comunitária, se serviu de ensopado de carneiro e depois pegou do pão sem fermento.
