Capítulo 1

Dois Rivais

A névoa descia densa nas ruas escurecidas de Londres. Na esquina, um velho poste piscava insistentemente, deixando as sombras que encobriam os edifícios ainda mais tenebrosas. Ao longe, os sons das buzinas que ecoavam pelas avenidas pareciam ser levados pelo vento, mal alcançando aquela estreita rua de subúrbio, com casas padronizadas e jardins bem cuidados. Mais uma vez a lâmpada do poste piscou até que se apagou de vez, encobrindo assim a chegada de um visitante à rua. A figura encapuzada escondia-se nas sombras à medida que ia avançando rua adentro, seus passos leves e lentos eram imperceptíveis enquanto seus olhos ocultos pelo capuz percorriam cada canto, cada beco do local. A mão de dedos nervosos abria e fechava em um gesto inconsciente e o estranho quase tropeçou nos próprios pés quando subitamente um gato negro saiu correndo de um arbusto de hortênsias. Soltou um suspiro de alívio e apressou ainda mais os passos quando viu que estava perto de seu destino.

A noite, aquele parque infantil de brinquedos com tintas desbotadas e grama rasteira parecia extremamente aterrorizante, ainda mais que encostado na armação dos balanços estava uma outra figura, cuja fisionomia era oculta pela longa capa e cujos olhos brilhavam intensamente na escuridão, parecendo dois faróis de neblina. Apressou ainda mais os passos até que finalmente viu-se frente a frente com a figura no balanço.

- Está atrasado. – atestou, a voz ressoando como um trovão no silêncio da noite, mesmo que a frase tenha saído como um sussurro.

- Não é sempre que estou apto a me curvar as suas vontades. – foi à resposta seca e com um tom de desdém e o viajante pôde ver um sorriso de dentes brancos brilhar nas sombras, um canino mais saliente dando um tom de ameaça àquele gesto.

- Pois deveria. – rebateu divertido, dando um passo a frente e vendo com prazer a sua companhia recuar outro. Percebeu que o corpo esguio tremia por sob a capa, mas não sabia dizer se era medo, raiva ou frustração. Há tempos que ele havia aprendido a ocultar seus sentimentos, seu cheiro, para assim o impedir de saber o que estava sentindo.

- Há algum motivo para você ter me chamado aqui? – perguntou contrariado e outro sorriso de dentes brancos e caninos afiados foi a sua resposta.

- Por que a pressa? Tem medo que nos vejam juntos? – zombou e um bufo indignado foi o que veio do outro.

- Sabe o que pode acontecer se nos virem juntos. – advertiu e uma risada cristalina soou pelo parque, assustando o outro que olhou ao seu redor para verificar se não tinham atraído a atenção de ninguém para eles.

- Não vai acontecer nada. – os brilhantes olhos estreitaram-se de modo frio e desafiador. – Não ousariam a nos desafiar.

- Fale por si só. Lealdade não é uma coisa muito bem empregada dentro do meu povo. – desdenhou e o outro soltou um tsc sob a respiração, estendendo uma mão morena em direção ao rosto de seu companheiro, que recuou hesitante diante do gesto.

- Então mude de lado. Nós somos leais uns aos outros. – atestou firmemente, dando um passo a frente e finalmente tocando o rosto oculto pelo capuz. Rapidamente uma mão pálida ergueu-se e segurou a morena com força, a comprimindo e deixando as marcas de seus dedos na pele escurecida.

- Leais ao ponto de perseguirem e matarem os traidores. – disse firme e num movimento rápido a posição das mãos se inverteu, agora sendo a morena apertando dolorosamente a mão pálida enquanto o dono dela mantinha-se firme e mordia o lábio inferior para impedir um gemido de dor.

- Nós damos chance a eles de se defenderem, não os apunhalamos pelas costas como o seu povo faz. – rosnou lentamente e um sorriso surgiu sob o capuz. A mão foi solta e rapidamente ele a massageou para aliviar a dor.

- Por que me chamou aqui? Não foi para discutir o modo de agir e pensar dos nossos povos que você veio aqui. – ergueu ambas as sobrancelhas e o rosto virou-se, agora com os olhos brilhantes encarando o céu de poucas estrelas da noite londrina.

- Por que não? Já que foi isso que começou a guerra. Vocês nos julgaram e nos condenaram sem nos dar chances de defesa, nos aprisionando naquele mundo fétido com a magia de vocês. – voltou um olhar acusador para o outro.

- Coisa que não durou muito tempo, já que vocês estão de volta, destruindo a tudo e a todos em busca de vingança. – acusou de volta e recebeu um rosnado como resposta.

- Não teste a minha paciência bruxo, ela não é muito extensa. Estamos apenas tomando de volta o que é nosso na esperança de consertar a merda que vocês fizeram.

- Nos matando no processo?

- Se for preciso.

- Se você me chamou aqui para lançar acusações, eu vou embora então. – deu as costas para ele, pronto para partir, mas uma mão firme segurou a sua capa o puxando de encontro a um corpo maior. Um braço envolveu a cintura esguia, o pressionando ainda mais contra o estranho.

- Eu tive um sonho esta noite. – a voz sussurrou perto de seu ouvido, fazendo arrepios descer pela sua espinha. – Eu vi um novo poder. – o tom sério e sombrio o fez enrijecer dentro da sua prisão de membros. – Um novo inimigo está surgindo. Muito maior do que nós, muito maior do que vocês, muito maior do que os trouxas. – o soltou bruscamente e ele virou-se, mirando olhos largos no rosto escondido parcialmente pelas sombras. Como assim uma nova força estava surgindo? Como assim mais um lado para unir-se a guerra? Não tinha como, não podia. O mundo já estava um caos e ele tinha a sensação de que quando tudo terminasse, não sobraria muito do planeta para o lado vencedor, e ainda aparecia mais alguém querendo clamar território? Impossível.

- E? – perguntou um pouco temeroso, planos já pipocando em sua mente, missões surgindo, o que fazer para se defender, quem mandar para investigar o surgimento dessa força e qual seria o grau de perigo do inimigo.

- E apenas isso. – disse num tom desinteressado e a figura menor soltou um longo e indignado silvo por entre os dentes, não acreditando na arrogância da criatura a sua frente.

- Não era mais fácil ter mandado uma coruja ou…

- Coruja é um animal estúpido que vocês insistem em usar como meio de comunicação. Fácil de serem pegas, fácil de serem mortas. Ineficientes.

- Quer saber? Eu vou embora. Você me fez sair no meio da noite, inventar as maiores desculpas, apenas para poder me dizer que sonhou com um inimigo que nem faz idéia de quem seja? Quando tiver algo mais específico, um nome, por exemplo, pode me procurar. – deu as costas para dele, começando a sair do parquinho quando a voz firme e rouca o parou.

- Draco! – ombros tencionaram e Draco virou-se bruscamente para poder encarar a sua companhia. O que tinha dado nele para tê-lo chamado pelo nome no meio de um local trouxa, onde poderia haver espiões escondidos em cada arbusto? – Acha que eu não saberia se estivesse alguém aqui nos espionando? – sorriu escarninho e Draco rolou os olhos sob o capuz de sua longa capa negra de viagem.

- Não sei. – provocou. – Saberia? – um rosnado e o loiro deu um sorriso de triunfo, sabendo que tinha tocado no ponto fraco do outro homem, no orgulho. Ele não gostava que duvidassem das suas habilidades, considerava-se superior, mas somente Draco conseguia colocá-lo em seu lugar e sair vivo para não contar a história. Afinal, ele não podia ficar espalhando por aí que saía de seu quartel general no meio da noite para ter encontros às escondidas com o líder dos demônios em busca de informações sobre os trouxas.

Harry deu um passo à frente, permitindo que a fraca luz da rua iluminasse o seu rosto. Cabelos longos e negros, até o meio das costas, eram presos em um rabo de cavalo na nuca enquanto olhos verdes vivos pareciam brilhar como a íris de um gato. O corpo de soldado estava escondido pelas grossas e pesadas roupas de couro negro e a pele morena por causa do sol parecia opaca diante da luz artificial. De longe as pessoas diriam que ele era um ser humano normal e inofensivo, mas ao vê-lo em batalha, tais conceitos mudavam mais do que depressa.

- Você não muda nada com os anos, Draco. Ainda é o mesmo fedelho mimado que eu conheci. – Draco apenas riu zombeteiro e ergueu uma sobrancelha divertida.

- Você não deve se olhar muito no espelho pelas manhãs, deve lorde Potter? –disse de maneira jocosa e uma mão ergueu-se violentamente, pronta para ir de encontro à bochecha pálida, mas parando na metade do caminho. O loiro permaneceu imóvel, desafiando Harry com o olhar a concluir o tapa, mas o moreno apenas abaixou a mão e soltou um suspiro. Por que ainda se deixava afetar por aquele bruxo metido a sabichão? Draco deu as costas para o demônio, coisa que muitos homens mais sábios jamais fariam, e sua voz pareceu ressoar no silêncio do parquinho. – Mandarei alguém verificar a informação, mas não garanto nada. Sem mais detalhes, nada poderei fazer além de ficar alerta. – disse em um tom sério e profissional, o tom que usava para liderar os bruxos na guerra contra demônios e trouxas, e novamente continuou o seu percurso, parando apenas mais uma vez quando a voz de Harry chegou aos seus ouvidos como um sussurro.

- Draco? – era tão baixa que ele mal conseguia ouvi-la. – Tome cuidado. – pediu e num piscar de olhos sumiu na escuridão, deixando apenas uma trilha de folhas secas e poeira para trás. Draco ainda deu uma última olhada por cima do ombro para onde Harry estivera há segundos atrás e desaparatou.


- Onde você se enfiou? – Draco virou-se bruscamente em direção a voz, fazendo uma pequena careta enquanto retirava a sua capa e a colocava sobre a cadeira perto da escrivaninha em uma das paredes de seu quarto. Passou a mãos pelos cabelos loiros, tirando algumas mechas mais compridas que insistiam em cobrir os seus olhos e deu as costas novamente para o seu visitante, colocando uma perna sobre a mesma cadeira, a bota de combate pesando sobre a madeira e deixando rastros de lama e areia, e enrolou a barra da calça, soltando a faca de caça que carregava no tornozelo.

- Fui dar uma volta… espairecer. – respondeu depois de minutos de silêncio enquanto tirava de seus esconderijos todas as armas que costumava carregar.

- Dar uma volta nos dias de hoje, sozinho, no meio da noite é pedir para morrer. – o visitante o repreendeu e Draco soltou um suspiro exasperado, relaxando os ombros e fixando seus olhos azuis nos negros a sua frente. Severo Snape havia se tornado o seu tutor quando os seus pais morreram em batalha quando ele tinha apenas cinco anos. O homem o treinou em tudo o que sabia: magia, combate, arte das trevas, tudo! Tanto que quando Draco completou dezesseis anos o mestre de poções o indicou ao Conselho da Ordem para ser o novo líder dos bruxos, pois o velho Dumbledore estava deixando o cargo depois de uma batalha que quase o matou. Disse que precisavam de sangue novo, sangue jovem, um comandante que pudesse acompanhar as tropas aos campos de batalha. Alguém que tivesse poder o suficiente para bater de frente com um demônio de alta classe e sair vivo para contar a história… alguém como Draco, que agora, aos dezoito, era o mais jovem líder da resistência bruxa nos últimos duzentos anos.

- Não creio que meros trouxas possam me matar. – desdenhou o loiro. Desprezava os trouxas, os achava uma praga com a sua tecnologia destruindo a tudo e a todos. Claro que nem sempre pensara assim, mas depois que um maldito trouxa, com a sua maldita tecnologia, matou a sua mãe, seu conceito sobre esse povo mudou drasticamente. Em alguns pontos tinha que concordar com Harry: eles não serviam para mais nada além de ocupar espaço.

- Draco, você é o líder da resistência! – Snape começou enquanto via o rapaz desafivelar a sua jaqueta e começar e deslizá-la pelos ombros, ignorando veemente o que ele estava falando. Quando é que o garoto iria perceber a sua importância? Não havia ninguém melhor do que ele para comandar o povo deles, Snape sabia disso, Snape garantiu isso quando treinou o rapaz com tanto ardor durante tantos anos, quando defendeu a indicação de Draco ao Conselho com tanta força. Não queria um dos filhos de Arthur como comandante, eles eram moles demais, piedosos demais, não queria outro Dumbledore no comando, embora o velho bruxo tivesse feito muito por eles nesses últimos cem anos, mas com a idade ele começou a ficar mais complacente e pregando idéias de união entre os povos em vez de guerra.

Era uma idéia ridícula. Não dava para se unir aos demônios, eles eram assassinos a sangue frio. Não dava para se unir aos trouxas, eles eram uns ignorantes governados pelo medo o que levava a destruição. Foram por causa dos trouxas que os demônios conseguiram fugir do mundo onde foram aprisionados. Foram por causa das perseguições que eles fizeram aos bruxos no passado, as mortes, que ocasionou um enfraquecimento da magia, o que permitiu que os demônios de alta classe transpassassem o selo que os prendia no outro mundo. Eles foram uma das causas da guerra, eles condenaram a todos. E eles não mereciam piedade. – A sua importância para o nosso povo é altíssima. Não podemos ficar sem um líder a essa altura dos acontecimentos. Se você morrer por causa de uma ocorrência tola…

- Blá, blá, blá, blá! – caçoou Draco, passando por Snape e dando um tapinha no ombro dele. – Relaxa Severo, e vira o disco que este discurso eu já conheço. – ordenou com um olhar firme. Não estava com disposição de ficar ouvindo os sermões de Snape, não depois do que Potter havia lhe contado. Precisava começar a agir, soltar seus espiões para poder descobrir que força era essa que estava surgindo, e de onde ela iria surgir.

- E então? – Snape disse com um tom arrastado, tirando Draco de seus devaneios. – O que ele te disse? – perguntou com um torcer de nariz o que deixou o seu rosto macilento mais marcado ainda, enquanto cruzava os braços sobre o peito largo, parecendo um grande morcego se envolvendo com as asas.

- Ele quem? – retrucou o loiro desentendido, caminhando até uma cômoda e abrindo as várias gavetas, tirando pergaminhos, penas e mapas de dentro dela.

- Potter, aquela abominação. – desdenhou e Draco tencionou os ombros, apoiando as mãos espalmadas sobre o tampo da escrivaninha e não ousando olhar por cima do ombro para ver a expressão de repulsa de seu tutor.

- Não sei do que você está falando. – desafiou, sabendo que Severo poderia detectar a sua mentira a quilômetros de distância. Os olhos claros prenderam-se no mapa da Grã-Bretanha e nos territórios marcados e ocupados pelos três povos. O território dos demônios parecia ser o que mais crescia com os anos, sufocando o pequeno território trouxa e quase invadindo o bruxo. Franziu a testa. Não era uma batalha muito justa e apesar dos bruxos terem a sua magia e longa vida, ainda sim não era quase nada comparado a força, agilidade e habilidade dos demônios. E quanto aos trouxas, Draco nem sabia dizer como eles sobreviveram até hoje. Talvez fosse porque eles evitavam confrontos diretos com os demônios e preferiam os bruxos, ou talvez fosse sorte, porque inteligência que não era, já que eles não pensavam que sem os bruxos não haveria mais ninguém com calibre para parar a outra raça.

- Malfoy! – Snape chamou com um tom irritado e frustrado. Por que Draco se arriscava tanto? Ele não parava para pensar que esses encontros com o Potter poderiam ser a sua ruína, não importasse quais fossem os motivos? O loiro por acaso tinha esquecido que ele não tinha apenas inimigos fora das paredes de Hogwarts, mas que também tinha dentro delas? Muitos eram aqueles que queriam ver o jovem líder pelas costas. Draco não era carismático, não era agradável, muitas de suas decisões poderiam ser consideradas um pouco duvidosas, mas o seu comando já salvou a vida de centenas de bruxos.

Porém, isso não contava como ponto favorável aos velhos membros do Conselho da Ordem da Fênix. Ele era jovem demais, impetuoso demais, aventureiro demais, arrogante demais, e, por muitas vezes, irresponsável. Ele era tudo o que um líder não deveria ser e mesmo assim comandava centenas de pessoas. Por isso, se descobrissem o que ele fazia nas suas fugas noturnas, quem ele encontrava, com certeza ninguém pouparia esforços de acusá-lo de traidor, de condená-lo a prisão perpétua em Azkaban ou até de condená-lo a morte. Por que ele não via isso? – Por que você simplesmente não crava este punhal no seu coração? – repreendeu, pegando um punhal que servia de abridor de cartas de cima da mesa de Draco. – Assim poupa as conseqüências que surgirão de seus atos tolos quando os outros descobrirem…

- Descobrirem o que Severo? – sibilou entre dentes, virando-se num piscar de olhos e segurando o pulso magro do tutor, o mesmo que empunhava o abridor de cartas, o apertando dolorosamente. – Não há nada para eles descobrirem. Potter e eu estávamos apenas trocando um favor, já que temos um inimigo em comum: os trouxas, mais nada. E não levante mais a voz para mim Snape, eu ainda sou seu superior. – soltou o pulso com força, voltando a sua atenção para os mapas sobre a mesa. – Eu quero que você chame o Goyle e o Jordan para mim, tenho um trabalho para eles.

- Senhor… – Severo disse entre dentes, inspirando pesadamente diante do acontecido. Sempre que discutiam sobre o Potter os ânimos costumavam ficar exaltados. Toda vez que Snape tentava colocar algum juízo na cabeça do protegido, esse fazia ouvidos surdos para ele. Tamanha arrogância e auto confiança ainda o colocaria em grandes problemas um dia, e não haveria nada que Severo pudesse fazer para poder evitar isso. – Goyle está em Durham, uma tropa de demônios atacou os nossos guardas na cidade, eles estão tentando avançar as fronteiras, Goyle foi para lá com um regimento para poder impedi-los.

- Quando isto aconteceu? – perguntou Draco com uma voz contida, não acreditando que houvera um ataque sem o seu conhecimento. Nada do que acontecia era sem o seu conhecimento.

- Algumas horas senhor, quando o senhor estava… fora. – encerrou Snape com uma expressão vazia e Draco socou o tampo da mesa com força. Maldito Potter! Ele o enrolou com aquela discussão fútil de direitos de propósito. Ele estava armando um ataque em Durham enquanto prendia o líder dos inimigos com conversa fiada. Irado, varreu a mesa com os braços, jogando penas, pergaminhos e livros no chão e deu as costas para ela, apoiando-se na madeira e soltando um suspiro. – Eu sinto muito Malfoy, mas uma ação imediata precisava ser tomada e por isso Dumbledore resolveu mandar as tropas e… – Severo tencionou os ombros quando viu Draco erguer a cabeça e mirar olhos cinzentos no seu rosto em uma clara indicação de que estava irritado. O garoto poderia ser o líder há dois anos, mas, ainda sim, em algumas situações ele era totalmente desacreditado quando Dumbledore resolvia assumir o comando, e o jovem Malfoy detestava isso. Detestava que a Ordem tivesse dado o poder para ele para depois lhe tirar ao seu bel prazer.

- Mande Jordan aqui, quero falar com ele. E mande Lupin se preparar, você também Snape, estamos indo para Durham. – comandou com a voz firme e Severo apenas deu um leve aceno de cabeça antes de sair rapidamente do quarto do rapaz, deixando um loiro furioso para trás. Já era a segunda vez este mês que Potter fazia um avanço no território com a intenção de chegar a Londres, uma cidade ainda pertencente aos trouxas. O problema era que para chegar a Londres eles teriam que passar por territórios bruxos, e Draco não iria permitir que aquele vira-lata de nada pegasse mais uma de suas aldeias puramente mágicas. De jeito nenhum. Armando-se novamente com facas, punhais e derivados, o jovem prendeu a sua varinha na cintura a atou as fivelas de seu longo sobretudo, saindo do quarto as pressas para poder falar com Jordan e partir o mais rápido o possível. Não deixaria Potter sair ileso dessa. Cortaria o rabo daquele lobo abusado nem que isso fosse à última coisa que fizesse.


As labaredas de fogo subiam pelos telhados das casas, com os ventos noturnos espalhando mais rápido as chamas pelos outros edifícios. Gritos eram ouvidos de bruxos conjurando feitiços para poder apagar o fogo enquanto outros conjuravam feitiços para deter seus adversários. Os olhos azuis brilharam na escuridão ao ver um homem negro e alto derrubando um de seus soldados e sorriu torto ao reconhecer a habilidade do homem, além de reconhecer o homem em si. Com passos leves e silenciosos, ignorando tudo a sua volta, aproximou-se do combatente que, rapidamente sentindo a sua presença no campo de batalha, virou-se para poder encará-lo de maneira feroz, com a varinha erguida e um olhar mortal no rosto marcado pelos anos de guerra.

- Black. – sibilou de maneira feroz para o demônio parado a sua frente. Sirius Black poderia ser considerado o mais estranho dos demônios. Ele era sempre brincalhão, bem humorado, para ele cada batalha era um modo de diversão, o inimigo era o seu brinquedo e a guerra seu parque particular. Era irresponsável, como seu afilhado costumava dizer, e muitos ainda se perguntavam como ele tinha conseguido viver por tanto tempo diante de tantas atitudes inconseqüentes. Veja bem, embora demônios fossem imortais, cujos anos não os afetassem, nem as meras doenças bruxas e trouxas, ainda sim, em uma guerra, não era difícil de matá-los. Afinal, uma facada no coração mataria qualquer um.

- Shacklebolt, prazer em revê-lo! – riu matreiro, fazendo uma reverência exagerada para o seu adversário. Shacklebolt apenas rosnou entre dentes, segurando a varinha com firmeza e a apontando para o coração do demônio.

- O prazer é todo meu. – retrucou venenoso, disparando o primeiro feitiço. Ainda rindo em dando um grande salto, Sirius desviou-se do ataque e deu uma negativa com a cabeça, soltando um baixo tsc para o outro homem.

- Esta reação foi muito lenta. – resmungou, cruzando os braços sobre o peito largo. Mirou com mais intensidade o seu adversário e viu com desagrado que esta noite não poderia se divertir com uma boa batalha. O bruxo estava cansado, com certeza ferido de outros combates com demônios, e não daria o melhor de si em uma luta e ele se recusava a lutar com um auror que não daria o melhor de si. Não tinha graça. – Talvez devêssemos deixar esse embate para outro dia, que tal? – sugeriu maroto e Shacklebolt sacudiu a varinha com força, dando uma negativa com a cabeça. Não deixaria Black brincar com ele mais um dia, não deixaria aquela criatura viver mais um dia. O braço direito de Harry Potter. Sem ele o outro demônio não seria nada e por isso precisava derrubá-lo.

- Não haverá outro dia Black, isto termina hoje! – ameaçou e Sirius torceu o nariz em desagrado diante da teimosia do homem. Soltando um suspiro exasperado, o demônio voltou à posição de batalha e esperou que o outro bruxo fizesse o primeiro movimento. Se ele queria tanto lutar, ele teria a sua luta, mas não seria Sirius o primeiro e dar o golpe, atos precipitados ocasionavam conseqüências inesperadas.

Do outro lado do campo de batalha, três figuras tinham acabado de aparatar no meio do caos, olhando tudo a sua volta com extremo interesse. Casas e pequenos edifícios pegando fogo pareciam iluminar a escuridão que a noite sem lua provocava e os gritos, luzes de feitiços e correria davam à impressão de que a cidade estava em pleno carnaval. Um corpo veio voando em direção as três figuras, que se separaram para não serem atingidas pelo bruxo que caia dolorosamente no chão, rasgando ainda mais as roupas gastas.

- Weasley. – Draco desdenhou para o ruivo caído aos seus pés. – Se continuar desta maneira a sua mãe terá que usar as cortinas de Hogwarts para poder fazer roupas para você. – caçoou e viu os olhos azuis de Ronald Weasley estreitarem em desagrado. Ele era um daqueles que fazia parte do grupo que faria de tudo para depor Draco do cargo de chefia da resistência. Porém, mesmo assim, ainda obedecia as ordens do loiro sem pestanejar… muito.

- Já era hora, não Malfoy? – rebateu irritado, recebendo a mão estendida de Remus para poder se levantar.

- Tsc, mas olha só quem resolveu aparecer no campo de batalha… Draco Malfoy. – uma voz aguda e esganiçada sobrepôs-se ao caos que estava aquele lugar e Draco virou-se para ver-se sob o olhar malicioso de Pansy Parkinson. De todos os demônios que conhecia, Pansy era a pior espécie. Não, não porque ela era a mais sanguinária ou coisa parecida, simplesmente porque ela era a mais irritante e tirava Draco do sério. Só não matava aquela raposa porque achava desperdício de habilidades com ela.

- Parkinson, eu exijo que você e os seus amigos vira-latas saiam do meu território. – disse com uma voz de comando e Pansy riu histericamente para logo depois ficar com as feições sérias e lançar ao rapaz um olhar frio e mortal.

- Quem é você para fazer exigências humano? – rosnou entre dentes e de maneira perigosa, aproximando-se dos quatro homens a passos cautelosos. Draco deu um sorriso escarninho, aproximando-se também da mulher a passos lentos e quando os dois estavam a apenas alguns centímetros de distância, o sorriso de Draco aumentou ainda mais.

- Parkinson… – chamou em um sussurro e Pansy ergueu a sobrancelha fina de maneira indagadora e, antes que pudesse assimilar o que estava acontecendo, a mão do loiro voou até o seu pescoço o comprimindo fortemente e bloqueando a passagem de ar, enquanto com a perna ele dava uma rasteira em seus tornozelos, a derrubando no chão e prendendo o corpo menor dela com o seu. – O que vocês estão esperando? – gritou para os três homens que rapidamente ergueram as suas varinhas e apontaram para ela, cada um gritando um feitiço mais poderoso que o outro, um atrás do outro, até que a mulher apagou, com enormes e feias bolhas púrpuras brotando na pele pálida. Deu mais uma olhada ao seu redor, vendo com desagrado que aquele lugar já poderia dar-se por perdido. Havia mais corpos de bruxos no chão do que demônios, e isso não era bom sinal. – Se espalhem! Mandem todos recuarem. – Snape e Weasley assentiram com a cabeça e começaram a correr em direção a batalha. Remus ia começar a fazer o mesmo quando Draco o chamou. – Lupin! – virou-se para o homem que rapidamente mirou seus olhos castanhos no rapaz. – Quero que você localize o comandante desta missão.

- Como assim? – perguntou Remus confuso. – Com certeza é o Potter. – atestou, pois era um fato conhecido de que Potter sempre liderava todas as missões de ataque.

- Não, não é o Potter. – afirmou Draco convicto, começando a correr em direção ao campo de batalha.

- Como você sabe que não? – perguntou Remus curioso enquanto de rabo de olho via Ron sumir por uma rua paralela para ajudar um rapaz ruivo que lutava contra uns dois demônios, com certeza deveria ser um dos irmãos do garoto.

- Porque – o desgraçado me tapeou há não menos de uma hora atrás, era o que ele queria dizer, mas em vez disso falou: – porque sim! – e com isso sumiu dentro de um grupo que estava guerreando, onde seis demônios tentavam subjugar dois bruxos. Remus ainda deu uma última olhada para Snape, como se perguntando ao homem o significado de tudo aquilo, mas o moreno apenas deu um aceno negativo com a cabeça e sumiu por uma outra rua.

O bruxo soltou um suspiro, abaixando-se rapidamente quando um feitiço passou a poucos centímetros sobre a sua cabeça. Um corpo caiu no chão e o homem correu até ele, ajoelhando-se ao lado da auror e procurando entre o corpo ferido e embebido em sangue algum sinal de vida. Os olhos azulados de Alice o encaram totalmente sem vida e Remus viu que não conseguia encontrar a pulsação da mulher. Sentiu seu peito comprimir em pensar na reação de Neville quando soubesse do acontecido. O garoto ainda estava chocado por seu pai ter ido parar no St. Mungus e estar em coma a dois meses por causa da última batalha, sem nenhuma esperança dos médicos de sobreviver, e agora era a mãe. A mãe que tinha ido à guerra no intuito de se vingar pelo marido que pelo jeito iria fazer-lhe companhia em breve. Sentiu uma raiva estrangeira apoderar-se de seu corpo e com os olhos brilhando ergueu-se para mirar o demônio que tinha derrubado um dos seus e com um grito feroz entrou em uma batalha acirrada contra a criatura.

- Bombarda! – Remus gritou, apontando a sua varinha em direção ao demônio e sorrindo vitorioso quando viu o feitiço acertar a criatura no meio do peito, o fazendo decolar por alguns metros de distância e cair com um ruído nervoso de ossos quebrando em cima de uma pedra.

O demônio, que parecia da espécie alada, qual Remus não tinha certeza, ergueu-se lentamente da pedra, mexendo a cabeça e estalando alguns ossos do pescoço enquanto abria as longas asas negras parecendo asas de morcego. Os olhos avermelhados o miraram com malícia e uma língua comprida lambeu os lábios finos. Com o auxílio das asas a criatura pôs-se de pé e flexionou a mão, fazendo garras surgirem nos dedos grossos. As sobrancelhas castanhas de Remus franziram quando os orbes amêndoas viram o demônio voar em sua direção rapidamente e cair sobre si com força, prendendo as suas garras no pescoço pálido do homem.

- Hum! – disse quase num ronronar, usando a grande língua para dar uma lambida na bochecha de Remus, que fez uma careta de nojo diante da ousadia daquele demônio. – Carne fresca. Faz idéia de há quanto tempo eu não provo um humano? – os olhos vermelhos pareciam ter ficado mais escuros, de um tom carmesim. – Ainda mais de um bruxo tão poderoso. – os dedos apertaram mais a garganta de Lupin, que segurava os pulsos finos do demônio com as suas próprias mãos, tentando afastá-lo de si.

– Não resista meu caro, apenas aceite, como a sua amiga aceitou. – e mirou os seus olhos no corpo caído e sem vida de Alice. Soltando um rosnado do fundo da garganta, Remus ergueu um punho e socou com força o belo rosto do demônio alado, o fazendo ficar atordoado diante do impacto e afrouxando um pouco o aperto no pescoço do bruxo, que deu outro soco poderoso no adversário. O demônio soltou suas mãos do pescoço de Remus, que aproveitou a folga para dar um outro soco na boca do estômago da criatura, a afastando de si. Pegou a sua varinha que tinha caído no chão durante o ataque e a mirou no demônio alado, que infelizmente já estava se recuperando dos golpes surpresa e por isso conseguiu acertar o bruxo com as suas garras, gerando três talhos profundos no braço que segurava a varinha, a deixando cair novamente no chão.

- Você é feroz. – riu o demônio com gosto, dando uma inspirada no ar a sua volta e captando o cheiro de Remus, se divertindo ainda mais ao perceber que não havia medo envolvendo o bruxo, apenas determinação. Um outro cheiro também chegou as suas narinas, um cheiro misturado ao odor metálico do sangue que escorria do braço de Remus, mas o demônio não conseguiu distinguir a essência que emanava do humano.

- Você não faz idéia. – Remus sussurrou, seus olhos castanhos parecendo escurecer a um tom quase negro, e com uma velocidade superior a de um ser humano comum, ele avançou novamente no inimigo, pronto para mais um round.

Sirius soltou mais uma risada divertida quando viu Kingsley tentar mais um ataque mal sucedido. O sujeito nem se agüentava em pé, quanto mais tinha forças para poder acertar um demônio com poderes superiores aos dele. Novamente King tentou acertar Sirius, mas seu feitiço passou a metros de distância do moreno, que tudo o que tinha feito era ter saído do caminho.

- Kin, Kin, isso realmente está perdendo a graça. – caçoou, balançando o dedo em uma negativa com um sorriso maroto no rosto.

- Ria Black, ria o quanto quiser, pois esse será o último sorriso que você dará. – rosnou para o outro e Black soltou um rosnado maior e mais pavoroso do que o de Shacklebolt.

- Esta brincadeira já está me cansando. – murmurou entre dentes e com um salto cruzou a longa distância entre eles e caiu de pé em frente ao auror, que arregalou os olhos negros diante do movimento, já prevendo a sua morte por causa deste descuido. Com um sorriso predador no rosto, Sirius apenas deu uma última olhada nos olhos de Kingsley antes de lhe dar um soco no peito e uma rasteira e derrubar o homem no chão, golpes fortes o suficiente para imobilizar o bruxo por causa da dor, mas não para apagá-lo. – Não há honra em lutar com um adversário que não tem forças para se manter em pé. – disse sério, parando em cima do auror e apoiando os punhos na cintura.

- E desde quanto você tem honra sua besta assassina? – desafiou Kingsley e viu com certo temor os olhos azuis claro ficarem um pouco mais escuros. Black ajoelhou-se no chão, prendendo o corpo do homem com o seu e segurando na gola de suas vestes, trazendo o rosto dele para perto do seu.

- Vocês bruxos não sabem nada sobre nós e apenas deduzem as coisas… de maneira errada ainda por cima. – sussurrou perto da orelha do homem. – Se tivessem pensado antes de agir, não estaríamos onde estamos hoje, não é mesmo? – e soltou o auror, erguendo-se e saindo de cima dele. – Hoje não um bom dia para morrer. – disse displicente. – A gente se vê Kin. – e começou a se afastar do homem caído, ouvindo o suspiro que ele soltou por ter sido poupado desta vez. Deu mais um sorriso escarninho, de costas para o homem, e começou a fazer seu caminho por entre mortos e feridos, vendo com prazer que os bruxos estavam começando a recuar ao perceber a derrota proeminente. Um grito gutural e um cheiro estrangeiro chegaram aos seus ouvidos e nariz. Era uma mistura de uivo com grito humano enquanto o cheiro era característico de sangue com mais alguma coisa, um cheiro poderoso, que indicava que o seu dono era uma pessoa muito forte. Seguindo seus sentidos, Sirius foi na direção em que o cheiro ficava mais forte, uma idéia se formando em sua cabeça a medida que chegava mais perto do dono, ou dona, daquela essência.

O corpo de Remus bateu contra o tronco de uma das áarvores que ladeavam a rua principal daquele vilarejo, seus olhos castanhos vagavam do demônio que arfava a sua frente por causa dos golpes e feitiços que o bruxo lançou, as pessoas que desaparatavam levando os companheiros feridos com elas. Orbes castanhos fixaram-se na figura de Draco que lutava bravamente com um demônio, o derrotando quase sem dificuldade nenhuma. O loiro demonstrava uma força que às vezes surpreendia o homem. Embora os bruxos conseguissem resistir mais aos ataques dos demônios do que os trouxas, ainda sim Draco, às vezes, parecia entrar em pé de igualdade com essas criaturas místicas, justificando o motivo de ele ter se tornado líder do povo deles. Sua atenção novamente voltou-se ao demônio ferido com quem combatia e rolou os olhos e soltou um resmungo quando viu que a criatura não iria desistir até que o matasse. Com certeza esse era um demônio de classe baixa, do tipo mais irracional.

Veja bem, Remus era um homem letrado, que passou metade da sua vida estudando tudo o que podia sobre o inimigo, de modo a poder proporcionar vantagens nas batalhas para os seus companheiros bruxos. Sabia que os demônios estavam classificados em ao menos quatro categorias diferentes. A categoria D referia-se aos demônios mais fracos, que não conseguiam nem chegar à forma humanóide não passando de animais esquisitos com poderes. A categoria C eram os demônios um pouco mais fortes e os mais feios, pois apesar de possuírem a capacidade de formar sentenças ainda sim o raciocínio era limitado e eram guiados mais pelo instinto da raça. A categoria B, a qual ele acreditava que o demônio com quem lutava se encaixava, era o meio termo da A e C. Conseguiam atingir a forma humanóide, mas sem perder algumas características animais, e apesar de a capacidade de raciocínio ser mais elevada, ainda sim o instinto predominava. E, por fim, a categoria A, a mais temida e poderosa de todas as categorias, poucos eram os demônios de baixa classe que conseguiam chegar a este patamar, na verdade, quando um demônio nascia ele já nascia dentro de uma classe especifica e morreria nela.

Os demônios de nível A eram os mais belos na forma humana e os mais mortais na sua forma primitiva. E era nessa categoria que se encaixava Harry Potter e boa parte de seu bando de lobos demoníacos. Se fosse Potter com quem estivesse lutando, com certeza Remus não estaria vivo neste momento procurando um modo de debandar com os outros sem ser pego no ataque que o demônio estava preparando. Seus olhos novamente cruzaram a rua que agora era adornada apenas por ruína e carnificina, e encontraram os olhos de Draco, que percebeu o dilema do homem mais velho apenas com essa troca de olhares. Podiam sentir a fraqueza de Remus, ver os ferimentos dele a distância, quase cheirar o seu sangue, e por isso sabia que tinha que correr, pois o loiro não iria permitir que o inimigo levasse um de seus poucos homens de confiança. Na verdade, além de Severo, seu único homem de confiança. Draco mais do que depressa empregou todas as suas forças para derrubar logo aquele demônio para ir ao socorro de Lupin, ainda mais quando viu, para seu completo desespero, quem estava descendo a rua em direção ao moreno.

- Acho que está na hora de acabarmos com isso. – riu maliciosamente o demônio alado, afiando as suas garras para poder enterrá-las no corpo do bruxo.

- É, acho que está. – com o braço trêmulo por causa da perda de sangue e o ferimento que latejava nele, Remus apontou a sua varinha para o demônio, seus lábios prontos para murmurar o feitiço mais perigoso e proibido que existia. Não teria dó daquela criatura, não quando era a sua vida que estava em risco. Olhos castanhos mantiveram-se firmes quando viu o demônio voar em sua direção e a língua já estava pronta para soltar as primeiras palavras quando algo inesperado aconteceu, e tão rápido que o homem nem teve tempo de registrar o ocorrido. Em um momento o demônio estava voando em sua direção e no outro estava no chão sendo preso ao asfalto pelo pé de um outro homem, o que o tinha derrubado.

- Tsc, acho que não Smith, não quero vê-lo morto ainda. – a voz de Sirius ressoou divertida e o tal de Smith grunhiu insatisfeito diante da ordem de seu comandante e pelo fato do homem ter impedido o seu ataque. – Reúna os outros, a cidade é nossa, os bruxos debandaram. – e tirou o pé de cima do peito do soldado, permitindo que ele voasse em direção aos outros que sobreviveram à batalha para poder dar o recado do comandante. Ainda sorrindo, Sirius virou-se para o homem recostado no tronco da árvore chamuscada, buscando força e apoio nela. Inalou profundamente, percebendo que o cheiro que sentia vinha dele, o que o tornaria perfeito para o que tinha em mente. Com passos lentos caminhou até o bruxo que rapidamente ergueu a varinha com mais firmeza em direção ao demônio, vendo os olhos azuis brilharem por causa das labaredas de fogo que ainda saíam das casas.

- Eu aconselharia a se afastar. – ameaçou Remus, vendo por cima do ombro de Sirius que Draco tinha acabado de derrotar o demônio com quem lutava e estava correndo na direção deles para poder ajudá-los.

- E eu aconselharia a ficar quieto. – ordenou e num piscar de olhos tinha desarmado Remus e o socado, rendendo o bruxo inconsciente e o jogando sobre um ombro, virando-se a tempo de desviar de um feitiço que Draco tinha lançado em sua direção. Sorrindo para o loiro e se segurando para não entrar em conflito com o líder do inimigo, Sirius fez uma reverência exagerada para o rapaz e sumiu numa nuvem de vento e poeira, deixando um bruxo extremamente irado para trás e nem imaginando que o seu ato impensado ainda lhe daria muita dor de cabeça.


Harry espreguiçou-se e deixou o corpo cansado cair sobre o sofá da mansão Potter em Godric's Hollow, um dos primeiros territórios conquistado pelos demônios depois de sua fuga do submundo que os bruxos tinham criado e os aprisionado. O lugar além de ter sido o abrigo da família Potter desde a época de Lílian e James, também era o quartel general deles, era onde as reuniões eram realizadas, os ataques planejados, os capturados aprisionados, onde boa parte dos soldados de alta classe morava. Similar à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, que além de servir como centro educacional, também servia de abrigo da resistência bruxa. O único lugar onde os demônios não conseguiam entrar por causa da magia poderosa e milenar que envolvia o castelo.

Rolou sobre as almofadas macias do sofá e soltou um suspiro de contentamento. Uma viagem de Godric's Hollow até Londres sempre era longa, ainda mais quando você não queria ser percebido por ninguém, e por isso poderia ser cansativa. Olhos verdes miraram o velho relógio no canto da sala, vendo que já passava das quatro da manhã e Harry perguntou-se como Sirius deveria ter se saído no ataque a Durham. Um sorriso brotou no rosto jovial, mas de mais de duzentos anos de vida, e pensamentos começaram a bombardear a mente do jovem Potter, ainda mais que um certo loiro estava nesses mesmo pensamentos. Harry daria tudo para ter visto a cara do Malfoy quando ele descobriu que o encontro não era apenas para troca de informações, mas sim um modo de impedir que Draco soubesse sobre o ataque.

Suas divagações foram interrompidas quando um furacão, literalmente, entrou porta da mansão adentro. Harry ergueu-se do sofá para ver a figura de Sirius parar no meio da sala de estar e derrubar o que parecia ser um saco de batatas no chão. Aproximando-se um pouco mais o rapaz pôde ver que na verdade o tal saco era um humano em roupas gastas e sujas e o jovem poderia apostar que era um bruxo também, mas não conseguia reconhecer quem, pois os cabelos castanhos, com alguns fios grisalhos, estavam cobrindo o rosto do homem.

- Há algum motivo para ele estar aqui, Sirius? – perguntou curioso para o padrinho que sorriu abertamente.

- Sim! – Sirius respondeu em um tom triunfante e Harry ergueu uma sobrancelha curiosa para ele.

- Como foi o ataque a Durham? – continuou, ajoelhando-se ao lado do homem inconsciente e com as pontas dos dedos começando a retirar os fios de cabelo do rosto dele.

- Perfeito. – retrucou o demônio mais velho, sentando-se espalhafatoso no sofá macio enquanto observava Harry avaliar o novo prisioneiro da mansão Potter. O moreno apenas respondeu com um 'hum' enquanto virava o corpo sobre o carpete caro de sua falecida mãe. Minutos de silêncio se passaram com Sirius aproveitando a pequena folga e Harry percorrendo seus olhos verdes na figura, quando o último soltou um rosnado enfurecido e ergueu-se de supetão do chão.

- Sirius! Você perdeu o juízo? – bradou, fazendo o demônio mais velho piscar seus olhos azuis confusos e cansados para ele.

- Hum? O quê? – perguntou sem entender o porquê do motivo da irritação de Harry.

- O que deu em você para raptar Remus Lupin? O que deu em você para raptar o segundo em comando de Draco Malfoy?

Continuar…