Capítulo 2: Um passo em direção ao muro
– Então é amanhã? – Disse mexendo dentro de uma panela amassada com a mão escurecida pela sujeira.
Ela o olhou pelo canto do olho e deu de ombros, continuando a descascar uma cebola meio podre.
– Está tão desesperada pra sair que não se contém hehehe... – Forçou um sorriso ao ponto de mostrar os dentes amarelados e tortos. – Garota,não há nada lá fora. Aposto minha vida que é a mesma favela daqui, a mesma desgraça,mas todos cheiram,comem e limpam a bunda com folhas de árvore! – Tentou rir de novo, mas tossiu e escarrou fazendo muito barulho. Mais do que ela gostava.
– Sua vida não vale de nada verme desgraçado. – Arremessou a cebola dentro da panela.
– Oh não! Não diga isso lindinha... – Com os dedos ossudos tentou esmagar a cebola. – Afinal quem comprou seus livros,comida e roupas fui eu. Se não fosse o meu dinheiro, e a pouca compaixão que eu tenho por você, não seria nada aqui.
– E em breve não fará diferença o que você sabe a meu respeito.
– Não entendo essa besteira! Seu irmão era do mesmo jeito, devia é ter ficado aqui como meu parceiro. – Escarrou e cuspiu longe. – Era um covarde, isso sim.
A garota enfureceu e voou em cima dele, derrubando os corpos e a panela, socando o rosto dele.
– NÃO FALE MAL DELE DESGRAÇADO! Ninguém é obrigado a ficar aqui te obedecendo e fazendo seus malditos trabalhos sujos. – Disse segurando-o pela gola da blusa.
– Sim, é verdade. – Ele argumentou com um risinho cínico – Eu sou escroto, ele foi muito abusado me desafiando. – Estava com a cabeça dependurada, o sangue escorria por uma das narinas e ele deu outra risada antes de continuar:
– Mas é também um grande mentiroso! Onde ele está agora? – Encarou-a e sorria debochando dela. – Ein? Não faz a menor idéia de onde ele está não é?!
A garota levantou o punho novamente e projetou outro soco no rosto do homem, um som feito e o sangue escorrendo da boca constataram um dente quebrado. Ela o soltou no chão e colocou a mão no bolso, virando de costas e começando a andar.
– Não vale à pena discutir com você Áballo. Amanhã já estarei bem longe de você e dessa merda de lugar.
Ele levantou a cabeça, meio zonzo, e colocou a mão na boca por conta da dor e do sangue.
– Nem faz idéia do que te espera do outro lado fedelha. – Resmungou vendo-a se afastar, ela não podia ouvir mais nada naquele tom.
O despertador tocou alto e estridente. Ela rolou na cama buscando com a mão o objeto e , assim que o encontrou, puxou com força e arremessou o aparelho contra a parede. Espatifou em pedaços ao lado da porta no mesmo momento em que seu robô guardião entrava. Apesar de máquina houve um certo receio em avançar até a garota que voltava a se deitar.
– Se...se...senho...rita. – Suas rodinhas rolaram bem devagar em direção à cama. – É o dia...que tanto aguardava... –Nenhum movimento debaixo dos lençóis. Moveu a mão metálica e tirou o tecido fino do rosto da jovem.
Descobriu-a com os olhos abertos, fixos num ponto invisível, completamente absorta nos próprios pensamentos. O robô rangeu, estalou e tilintou, mas não pronunciou qualquer outra palavra.
– Será mesmo que há algo lá? – Encarou a máquina que entortou o visor para a esquerda. – Esqueça você não entenderia. – Puxou as cobertas para um lado e jogou as pernas para o outro se levantando. Pegou o casaco que estava no encosto da cadeira e vestiu, atravessou o quarto em silêncio e a passos rápidos chegou à cozinha.
Abriu um armário debaixo da pia, vasculhando, tirando potes, panelas amassadas e escurecidas, talheres. Tirou uma caixa de madeira com algumas ferramentas, chutou a porta e retornou ao quarto. O robô continuava parado com a bandeja, agora voltado para a porta. A jovem colocou a caixa na cama, pegou uma maçã meio mordida que estava junto com o café da manhã e levou até a boca. Sentada na beirada do colchão ela pegou uma chave de fenda comprida e começou a desparafusar a tampa atrás do robô. Baixou a tampa e mexeu ali por algum tempo, cortando fios e trocando fusíveis.
Ela terminou, colocou o colar de identificação no pescoço, calçou o tênis e foi até a porta do apartamento, saindo. Fez um bocado de força e conseguiu arrancar a alça da maçaneta.
– Desculpe, mas eu preciso de um bom motivo para não voltar. – Sussurrou descendo as escadas enferrujadas no fim do corredor e atravessando um pátio de mato alto e entulhos. Levou a mão até a testa e observou o sol forte antes de continuar em direção a base central de comando no muro.
Lá ao fundo, dentro dos becos pôde-se ouvir o som de explosão, pessoas gritando e uma fumaça negra denunciando um incêndio. Ela não se virou para olhar.
– Identificação.– Dizia uma máquina quadrada com uma lente de câmera e uma pequena abertura com um laser de análise.
Assim como outros ela tirou o colar do pescoço e colocou na parte aberta. A luz moveu-se ao longo do cartão na ponta dos dedos da garota. A máquina apitou três vezes e fez um estalo. Puxou o cordão e percebeu que a parede branca abria uma fenda retangular um pouco acima de sua cabeça até o chão bem ao lado da caixa de metal.
– Acesso permitido.– Uma porta se formou recuando para trás e para o lado da parede, revelando um corredor branco cheio de outros jovens sentados em bancos, no chão e escorados nas paredes. Ela entrou e foi encarada por alguns, mas não devolveu a desconfiança. Antes que pudesse encontrar um lugar para se recostar a parede ao fundo, do lado oposto, abriu revelando um guarda.
– Façam uma fila! –Ele ordenou e os que estavam no local começaram a se mover. Eleanor esperou que começassem a andar para que pudesse ficar no fim da fila, havia mais gente ali do que percebera.
Postos a andar, seguiram todos atravessando a porta e um grande espaço se abriu, revelando mais jovens, guardas e robôs. Os que fariam o teste estavam sendo enfileirados em frente de portas com detectores de metal. Cada um recebia um conjunto de roupas brancas e um pequeno cartão. Tinham seus chips recolhidos e lhe eram permitidos a passagem pela porta de metal.
– Façam filas separadas: Meninas à esquerda e rapazes à direita. – Disse o guarda que guiava o grupo.
Todos começaram a se movimentar e a garota entrou na fila depois de alguns empurrões e pisarem em seu pé. Levou certo tempo até ser atendida pelo fiscal.
– Registro. – Ele ergueu a mão em direção a ela, que puxou o cordão do pescoço e entregou. A mão enluvada fechou ao redor do pequeno objeto, ele se virou e jogou o cordão dentro de uma caixa repleta de outras identificações. Pegou um saco plástico com um conjunto de roupas e um cartão de papel reluzente, que tinha apenas um número escrito, entregou e mandou-a prosseguir.
– E meu chip? – Perguntou ao homem que lhe atendeu.
– Não vai precisar dele. Vá para a sala indicada e lá lhe darão todas as instruções necessárias. –Tinha um tom rígido, autoritário e meio irritado. Nem se quer olhara para ela ao falar. Enquanto ele estava de costas ela resmungou o imitando, fazendo com que outras garotas rissem um pouco.
Já depois da porta havia outro corredor largo com várias passagens numeradas. Olhou para o retângulo de papel em mãos e caminhou até encontrar sua sala. Na porta uma mulher disse-lhe para trocar de roupa em um vestiário mais ao final das salas, jogar as que vestia fora e depois retornar para falar com ela novamente. Assim o fez. Era uma camiseta branca, uma calça comprida que teve que dobrar a barra e algo como meias de solado áspero. Olhou o suposto "lixo", teve dó de sua jaqueta, fechou os olhos e arremessou o tecido pela abertura.
Chegando a sala foi direcionada a uma cadeira no fundo da sala. Desconfortável, concluiu ao sentar e apoiar as costas no aparador. Respirou fundo tentando relaxar.
– Me sinto como minha velha. – Disse uma voz feminina e suave ao seu lado. – Na boa, nossas medidas estão nos nossos chips, não podiam fazer coisas no tamanho certo?
Ela olhou outra garota de pele escura e o cabelo trançado. Desconfiou, franziu o cenho olhando para os lados antes de responder qualquer coisa.
– É tu mesmo bichinha. Tá nervosa? É sua primeira vez? – Ela voltou a falar, tinha um sotaque estranho e engraçado.
– Um pouco, você já fez o teste antes?
– Alguns de nós são cabeças-duras. Não desistem de tentar alcançar o que desejam. – Ela sorriu virando o corpo na cadeira, ficando de frente para a jovem.
– E o que você tanto quer? – Puxou a calça acima dos joelhos, as barras antes dobradas já se desfaziam.
– Tem gente me esperando do outro lado, no mar.
– E como você tem tanta certeza que tem um mar do outro lado? – Não havia mar qualquer perto. Por mais que os muros fossem altos o vento teria resquícios de sal e areia, o que não acontecia naqueles escombros que as pessoas tentavam chamar de casa.
– Mas tu é desconfiada ein? Eu fui criada com a minha preta, minha vó. Ela vivia aqui muito antes dos muros serem construídos e vivia pescando. Ela foi mandada pra cá e proibida de sair por causa daquela história da "política de proteção". – Ela continuou falando e Eleanor escutava atenta.
– Foi aqui na área norte que minha mãe passou, ela me teve muito cedo e ao que a velha me disse é que ela prometeu me encontrar de novo, no mar. – Fez uma pausa e se ajeitou na cadeira antes de continuar. – Eu era um bebê e não me lembro, mas essa promessa, de algum modo, ficou comigo. – Falou pausadamente, com um ar de tristeza e saudade.
A mais nova olhou para a porta e percebeu que muita gente entrava, a sala estava quase lotada.
– Você vai encontrá-la. – Ela disse e a negra olhou-a sem reação aparente. – Acho que não é a única tentando... – Se encararam um momento, a mais velha deu um sorriso leve e abaixou a cabeça.
– Você também vai encontrar sua pessoa. – Tentou se firmar um pouco na voz, mas na verdade queria chorar pensando na mãe.
– Não tenho tanta certeza... – Antes que pudesse continuar a porta da sala foi fechada fortemente e a mulher das orientações entrou.
– Muito bem. Todos prestem atenção para que eu passe as instruções do teste. – Dito isso um silêncio tomou conta do lugar, todos ficaram sérios e encaram-na. A tensão aumentava.
"É agora!" Pensou, encheu o peito de ar e colocou o corpo para frente.
