De como Zeus e Ganimedes acabam levando a deusa Hebe ao baile do Rei Sol.
I.
O Chevalier de Lorraine olhou aprovadoramente para seu reflexo no espelho. Era naturalmente bonito, mas estava magnífico naquela toilette. Como era o hábito, naqueles tempos os costumes de fantasia não reproduziam fielmente os trajes do período representado, mas promoviam uma adaptação elegante. Não usava um peplo grego como conviria a Ganimedes, mas uma luxuosa roupa creme trabalhada com fios e pedrarias azuis. Um farto panejamento azul pavão, artisticamente jogado de lado estava preso ao ombro esquerdo e ao quadril direito por fivelas de topázio. Encostado à parede estava o item mais poderoso da sua fantasia: uma espécie de cajado dourado, encimado por nada mais nada menos que uma águia empalhada - que custara os olhos da cara a Monsieur , sem falar no trabalhão para encontrá-la em Paris.
Monsieur entrou garboso, sua fantasia representava Zeus, o senhor do Olimpo, o rei dos deuses, grande sedutor. A roupa consistia em um trajo verde escuro com armadura reluzente e um longo manto vermelho. Usava uma volumosa peruca de cachos castanhos. Junto à espada, pendia de seu quadril de um feixe raios, cuidadosamente revestidos de tecido dourado. Deu uma volta com as mãos na cintura e perguntou:
-Que tal estou, chéri?
-Superbe!
O Chevalier deu-lhe um longo beijo nos lábios. Aquelas roupagens de Zeus e Ganimedes deixavam-no tremendamente excitado. Mas Monsieur pareceu subitamente preocupado.
-O que foi, Mignonette?
-Minha esposa ainda não desceu. Ela nunca se atrasa. É muito rigorosa com a pontualidade.
Os dois elegantes partiram para averiguar o que estava acontecendo com a Duquesa.
II.
Monsieur deu dois ligeiros toques na porta e foi entrando, rebocando consigo o Chevalier. Madame estava de anáguas e espartilho. Refugiou-se atrás do biombo. As criadas estavam com uma cara murcha.
-Mas que trajos são esses, Madame? Ainda assim?- questionou o Chevalier.
-A fantasia não chegou, meu marido. -ela destacou.
-Como não chegou?- respondeu Philippe, irritado.
-Deveria ter chegado hoje cedo e até agora nada. É melhor irem só os dois. Estão muito bonitos... Formam uma dupla harmoniosa. Atingiram a perfeição.
O Chevalier apreciou o despreeendimento da Duquesa. Mas ficou calado porque notou que Philippe não estava gostando. Percebeu que com os elogios entusiásticos, ela queria era despachá-los. Mas ele não iria ao bal masqué de aniversário do rei sem a esposa. No íntimo ele bem que adorava entrar nos lugares conduzindo a Princesa Palatina pela mão.
-Será que não mandaram a sua fantasia para Versailles, junto com a de Marie-Thérèse? Ela é uma tonta. Eu cansei de avisar.
-É possível. Mas o combinado com o costureiro, Monsieur de Villeneuve, é que a roupa da rainha iria cedo para Versailles e a minha seria entregue aqui, em Saint-Cloud.
Monsieur não se deu por achado. Falou com o Chevalier de Lorraine.
-Vá ao meu quarto de vestir e pegue aquelas flores da minha fantasia de bergère.
-Qual? A última?
-Não, aquela que usei no baile do Effiat. Meu vestido era rosa de cetim, lembra-se? Com buquês de flores coloridas. Ah, encontre também a caixa com as máscaras. Rápido, por favor, mon coeur.
-Pode deixar
O Chevalier partiu apressado.
-Agora nós...
Philippe entrou decidido no quarto de vestir de Liselotte de onde voltou trazendo um vestido de seda e rendas que ela nunca usara por julgá-lo enfeitado demais. Passou-o para as criadas e ordenou.
-Apertem bastante esse espartilho, quero ver a cintura de Madame bem fininha.
Madame suspirou, vencida. Aquela noite prometia.
III.
O Chevalier retornou pouco tempo depois, seguido por um criado que trazia uma caixa de madeira com as flores e as máscaras. Madame já estava dentro do vestido de noite lilás. Monsieur pegou uns grampos e fixou a guirlanda no alto de sua cabeça como se arrumasse uma criança. Ela suportou estoicamente. O buquê, ele mandou que uma criada costurasse rapidamente no cinto do vestido. Estendeu a mão aberta para Liselotte. Na palma havia uma mosca de seda preta, dessas que se usavam para simular um sinal faceiro no rosto. Ela ignorou. Detestava aqueles artifícios. Finalmente Monsieur pegou uma máscara violeta e entregou à duquesa. Depois olhou o conjunto.
-Serve. Se perguntarem, diga que é Hebe, filha de Zeus, deusa da juventude.
O Chevalier, que era profundamente detalhista, deu sua opinião.
-Falta a ânfora com o néctar.
Liselotte pegou o leque, as luvas e uma bolsinha de seda.
-A ânfora é por conta de Sua Majestade. Não vou carregar mais nada nas mãos.
A família de Zeus partiu, solene, para o baile de aniversário do rei.
