Capítulo I - Recomeçando novamente.
Encarei a placa a minha frente com um sorriso. Era mais um recomeço. Uma nova paisagem, com pessoas novas e desconhecidas, costumes novos.. tudo novo. A maioria das pessoas abomina a mudança, a repele e a evita por toda vida, entrando em uma monotonia, criando uma rotina cheia de clichês.
Eu não sou uma dessas pessoas. Considero-me o oposto delas. Absolutamente livre e imprevisível.
Qual seria a graça da vida se nós não vivêssemos aventuras? Se cada dia fosse igual ao anterior?
Com meu cachorro em um braço e as minhas malas no outro, eu encarei a minha nova cidade. Era tão bom chegar a um lugar novo, começar da estaca zero, construir novas amizades.
- É isso aí. - Falei animada.
- É isso aí. - Minha melhor amiga concordou.
New Orleans. Esse seria o meu novo lar. É a maior cidade do estado Luisiana, nos Estados Unidos da América. Eu já conseguia sentir a sua energia, fazendo com que meu coração vibrasse de expectativa.
- Seja bem vinda ao paraíso. - Rosalie disse gritando. Eu dei uma gargalhada.
- Espero encontrar emoções aqui. - Falei enquanto voltava a caminhar, já sentindo os meus pés reclamarem pela exaustão.
Havíamos acabado de chegar lá e ainda não tínhamos lugar onde se hospedar e nenhum conhecimento sobre a cidade. Era normalmente assim que fazíamos ao chegar em novos lugares. Porém ao sair, conhecíamos tudo como se fosse a palma da nossa mão.
Eu e Rosalie não nos acomodávamos em um lugar há muito tempo. Nossa vida era constituída por freqüentes mudanças. Sem moradia fixa, nós vagávamos pelos Estados Unidos, nos divertindo e sendo nós mesmas.
Sem medo de julgamentos ou sem nos prender a mais ninguém.
- O primeiro hotel que agente ver, nós paramos. - Ela falou arfante.
- Combinado. - Eu não estava em condições de contradizer. Estava exausta. Não pregava os olhos há umas vinte horas.
Era sempre assim: A ansiedade pelo novo. A incerteza de quando seria a próxima vez que eu me deitaria em uma cama e descansaria. A inconsciência de onde eu estaria dali algumas horas.
Encontramos uma pousada não muito longe da entrada da cidade. Era bem simples, exatamente o que procurávamos. Todos nos olharam quando entramos, pensando que provavelmente éramos algum tipo de prostituta.
Bom, quem mandou ter uma amiga absurdamente linda que adorava usar roupas curtas?
- Com licença. - Eu falei simpática e com um sorriso característico nos lábios. - Sou Bella e estou procurando um quarto.
- Um para as duas? - A recepcionista falou meio desconfiada.
- Exatamente.
Ela ficou hesitante. Ficava olhando para algo em seu balcão de madeira e depois me lançava uns olhares nervosos.
- Sabe.. não é permitido festas aqui dentro, entende? - Ela falou toda envergonhada.
Eu dei um risinho.
- Não se preocupe com isso, querida. - Falei amavelmente. - Não pretendemos fazer nenhum tipo de festa.
Ela ficou satisfeita com a minha resposta. Pegou a chave na mão e pediu para que eu a acompanhasse. Ela não parava de lançar olhares para o meu cachorro, Jake, que a encarava todo excitado no meu colo.
Ele adorava fazer novos amigos.
- Bom, é aqui. - Ela murmurou, parando na frente de um quarto.
Ele era pequeno, tinha duas camas, porém parecia ser extremamente confortável. Rosalie e eu não buscávamos nada formal e caro, gostávamos das coisas mais simples possíveis.
- É perfeito. - Rose respondeu, indo em direção a uma cama e despejando as suas malas.
- Se precisarem de alguma coisa, basta chamar. - A velha falou bondosamente. Havia sumido a sua carranca. - A propósito sou Jean.
- Obrigada por tudo, Jean! - Eu agradeci.
Jake agora latia e abanava o rabo para Jean. Eu revirei os olhos e corei envergonhada pelo mau comportamento do meu cachorro. Soltei-o no chão, que saiu desesperado para pular nos pés da pobre senhora.
- E desculpe por isso. - Falei meio encabulada.
- Não se preocupe, Bella. - Ela falou bondosamente, fazendo carinho na cabeça do meu cachorro maluco e extremamente sociável.
Dando-nos um ultimo olhar ela se retirou, fechando a porta, deixando-nos explorar o que seria a nossa casa pelos próximos dias. Eu me atirei na cama, suspirando alto, sentindo todas as partes do meu corpo reclamar de cansaço.
- Uau. - Falei grogue.
- Sei o que quer dizer. - Rosalie concordou rindo. - Acho que poderia dormir pela eternidade.
- Concordo plenamente. - Respondi, fechando os olhos.
- Qual vai ser a programação? - A voz de Rosalie parecia distante, como se pertencesse a outra dimensão. Assim como as lambidas carinhosas de Jake.
- Eu estou pensando em passear por aí. - Sussurrei, sem saber se ela me escutava. - Conhecer pessoas, sabe? Pensei em dar uma passada em algum hospital com Jake, ou algo parecido.
Um murmúrio de concordância.
- Eu até iria com você, se não precisasse encontrar a localização dos melhores bares karaokê da cidade.
Eu sorri.
Rosalie odiava hospitais. Já era de se esperar que ela arrumasse uma desculpa para fugir da minha programação. Pelo menos, pela primeira vez, a sua desculpa fazia total sentido aos meus ouvidos.
Ela era musica. Ganhava seu dinheiro cantando em bares e karaokês,divertindo algumas pessoas, inclusive a mim.
A minha programação era um pouco diferente. Como já disse, Jake é um cachorro extremamente sociável, que adora crianças, algo que tem em comum comigo. Por isso adorávamos visitar hospitais, passando as tardes em salas de internação, nos divertindo e divertindo aos outros.
Esse era o meu grande hobby.
Era tão legal sentir a adrenalina passando pelo meu corpo, enquanto eu escondia Jake na minha bolsa e o contrabandeava para dentro do hospital, causando a felicidade geral das crianças.
- Meu deus que calor! - Rosalie gritou, atirando sua roupa suada em cima de mim. Eu dei um salto de susto e ela começou a rir como uma besta.
Eu não agüentei e a acompanhei.
Depois disso veio o silêncio. O bom de Rosalie era que o silêncio entre nós não era constrangedor e desconfortável. Poderíamos passar um dia todo sem pronunciar uma mínima palavra.
Não era necessária aquela tagarelação rotineira e cansativa. Só de estar perto dela era o suficiente para mim. Era uma ótima companhia.
- Fico pensando o que essa cidade está nos reservando. - Rosalie falou de repente, fazendo com que várias lembranças passassem em minha mente.
Tantos rostos, tantas palavras, tantas ações. Pessoas tão parecidas e outras tão diferentes. Lugares tão bonitos e outros tão medíocres e miseráveis.
A minha vida era um belo contraste.
- Espero que sejam novas aventuras. - Eu disse esboçando um sorriso cansado.
- Espero que isso esteja relacionado a um cara maravilhoso vestindo uma calça apertada, definindo a sua bunda musculosa e deliciosa.
Eu ri alto.
- Você só consegue pensar em homens, Rose. Fala sério!
- Eu me lembro da época que você era assim, tá legal? Quando você não tinha caraminholas na cabeça! - Ela gritou, jogando o travesseiro em mim.
Eu sentei indignada, fingindo uma cara de brava.
- Tem que ter uma racional entre nós. - Falei, me gabando.
Recebi uma careta de Rosalie e uma risada sarcástica e escandalosa.
- Agora me deixe descansar. - Eu pedi, deitando e colocando o travesseiro na cara. Jake estava deitado ao meu lado, eu o abraçava e fazia carinho em seus pelos macios.
- Eu estou jogando uma praga em você, Isabella Swan! - Rosalie esganiçou. - Você vai conhecer um homem gostoso e vai gamar nele! Confie em mim, sou uma bruxa maléfica.
Eu ri baixinho, fechando os olhos.
- Assim eu espero. - Falei, antes de entrar na escuridão e na inconsciência, entregando o meu corpo, minha mente e a minha alma ao torpor.
Quando recobrei a consciência eu estava mole e sentia como se a minha cabeça pesasse toneladas. Soltei um longo gemido e levei a mão a minha testa. Eu estava suando e um pouco quente, o que era bem estranho já que a temperatura lá fora era fria e úmida.
Sentei-me na cama lentamente, sentindo ainda tudo rodar, perdida na estrada que separava a coerência da incoerência. Ao meu lado ouvi Jake esganiçando. Estava provavelmente precisando passear.
- Já vamos, Jake. - Falei sonolenta, esfregando os olhos com as mãos.
Levantei-me alguns minutos depois, andando como uma morta-viva até a minha mala, escolhendo algumas peças de roupas simples e quentes. Eu nunca fora uma pessoa muito vaidosa, na maioria das vezes usava roupas que não combinavam e que não estavam na moda.
Eu realmente nunca me importara com a minha aparência. Estava feliz daquele jeito.
Ainda cega pelo sono profundo, tateei o quarto escuro em busca das minhas botinas, querendo sair dali o mais rápido possível para explorar a cidade. Jake também parecia extremamente ansioso aos meus pés.
Olhei para cama de Rosalie e constatei que ela ainda dormia tranquilamente. Bom, tem certas coisas que nunca mudam. Dei um sorriso, enquanto abria a porta do quarto.
A claridade fez os meus olhos se fecharem e eu cambalear um pouco. Enfiei um gorro na cabeça, escondendo os meus cabelos desgrenhados e peguei Jake no colo. Fechei a porta sem fazer muito barulho e segui para fora da pousada.
Apesar do frio, estava um dia bonito. Não havia nenhuma nuvem do céu, deixando-o azul celeste e maravilhoso. O sol brilhava, esquentando bem de levinho o meu corpo, deixando o frio confortável e agradável.
Ir para New Orleans havia sido realmente uma boa escolha. Eu estava precisando de uma paisagem bonita.
Coloquei Jake no chão, e esperei que ele me indicasse o caminho. Seguia cheirando o chão e abanando o rabo para qualquer estranho que se aproximasse. Eu o seguia como uma mãe coruja e orgulhosa, observando cada passinho dado.
Andamos assim por uma meia hora e sem querer acabamos parando na frente de um hospital. Ele era grande, parecia ser moderno e bem frequentado. No letreiro estava escrito "Hospital de New Orleans", o que indicava que aquele era um dos mais importantes da região.
Sorri para o meu cachorro.
- Bom garoto. - Falei.
Antes que qualquer um o visse, eu o enfiei dentro da minha bolsa. Jake era um cachorro pequeno, sem raça, que cabia com o maior conforto dentro de minha bolsa colorida e gigante. Era provavelmente uma mistura com yorkshire. (N/A: Uma raça de cachorro, hihi)
Ensaiei o meu sorriso ingênuo e caminhei com passos decididos ao hospital.
O jogo estava começando. Onde eu fazia de tudo para alegrar as crianças ali dentro, onde o meu tempo seria consumido pelas melhores pessoas do mundo. Onde não existia a barreira do possível e do impossível.
A recepcionista me lançou um olhar de nojo e forçou um sorriso falso.
Eu acenei a cabeça para ela e passei reto, fingindo que conhecia muito bem aquele lugar, como se o freqüentasse. Ela pareceu gritar para mim, mas eu a esnobei, sentindo a adrenalina começando a ser espalhada pelo meu corpo.
Minhas mãos suavam de nervoso e Jake tremia em minha bolsa, mostrando que ele estava apreensivo com a situação tanto quanto eu.
- Acalme-se. - Eu sussurrei para ele.
Rodei por aquele corredor por alguns minutos. Fazia de tudo para evitar voltar ao hall de entrada, tentando não topar com a recepcionista mal criada. A maioria das pessoas não se dava ao trabalho de me notar, continuava em suas discussões sobre os empregos ou então a economia do país.
Era sempre assim em hospitais.
As pessoas eram mesquinhas e tentavam ao máximo evitar o contato com o próximo. Sempre egoístas e preocupadas com o seu problema, quando havia pessoas a sua volta milhares de vezes pior.
Um mundo onde a ganância e a arrogância predominavam, enquanto a generosidade e a bondade é que deviam comandar.
Estava tão compenetrada em meus pensamentos, que não percebera que vinha um homem andando em minha direção. Nós trombamos, fazendo com que Jake ganisse bem baixinho.
- Desculpa. - Falei corando.
Eu o encarei. Era um homem alto e extremamente belo. Não fez questão de sorrir para mim, apenas acenou com a cabeça e continuou o seu caminho, como se nem tivesse trombado com ninguém.
Seus cabelos estavam penteados perfeitamente, assim como o seu avental estava extremamente limpo. Seu rosto era delicado e bem bonito, porém a sua expressão o estragava. Ele era fechado e parecia não abrir um sorriso há muito tempo.
Fiquei encantada com a beleza que exalava dele. Porém fiquei assustada com a sua frieza.
Ele já estava quase no final do corredor quando eu recobrei a linha de raciocínio.
- Ei! - Eu gritei, fazendo-o virar. Movimentava-se como um anjo. - Você sabe onde fica a ala de internação?
Ele me analisou dos pés a cabeça, sem mudar a sua expressão.
- Sexto andar a direita. - Sua voz era melodiosa e extremamente pacífica, porém era sem vida e extremamente monótona.
Ele virou-se para seguir o seu caminho.
- Muito obrigada! - Gritei em resposta.
Fiquei indignada com a forma de ele tratar as pessoas. Não havia feito menção de se virar, seguiu andando sem parar, parecendo que eu nunca havia lhe dirigido a palavra. Parecia que ele era rodeado por um muro impenetrável, separando-o do resto das pessoas.
Balancei a cabeça e tentei esquecê-lo. Apesar dos lábios perfeitos e do corpo esguio, ele tinha uma expressão e uma personalidade que me intrigava e me incomodava.
Escutei um latidinho baixo de Jake fazendo com que eu me concentrasse novamente.
- Obrigada. - Sussurrei, recuperando o foco.
Tirei os olhos verdes e sem vida do médico da minha mente e segui para o elevador, ansiando por ver sorrisos de crianças.
Depois da informação, havia sido fácil encontrar o meu objetivo, fazendo com que meu coração palpitasse de felicidade.
Abri a porta da ala de internação com um sorriso nos lábios, encontrando ali várias camas e nenhum sorriso.
Havia pessoas de todas as idades. Algumas crianças cansadas, adolescentes entediados, adultos mal humorados e idosos pensativos. Sorri para eles, aproximando-me da primeira pessoa que havia colocado os olhos.
Era uma criança pequena e loirinha. Olheiras manchavam-lhe embaixo dos olhos grandes e castanhos.
- Olá. - Falei baixinho.
Jake começou a se remexer ansiosamente dentro da minha bolsa. Segurei o riso.
- Oi. - A menininha falou com a voz bem baixinha.
- Tudo bom com você? - Perguntei bondosamente, abaixando-me e ficando da mesma altura que a cabeça dela.
Agora podia a encarar nos olhos devidamente.
- Acho que sim. - Ela falou confusa. - Quem é você? Mais uma médica?
- Oh, não. - Eu falei me aproximando lentamente. - Eu sou...
Não conseguia encontrar nenhuma palavra que pudesse me descrever.
O que eu era? Uma palhaça? Uma amiga? Uma pessoa estranha com boas intenções?
- .. uma criança. - Completei sem jeito. - Assim como você.
Ela pareceu mais confusa ainda.
- Mas você é tão grande. - Ela falou espertamente.
Eu ri.
- Eu sou uma criança diferente. - Sussurrei, como se contasse um segredo.
Ela fez uma careta de compreensão e sorriu para mim.
- Tem uma pessoa aqui que está louca para te conhecer. - Eu falei, enquanto ela me encarava.
Peguei Jake em minha bolsa, colocando no colo dela. Os olhos dela brilharam de felicidade, enquanto ela abraçava o meu cachorro. Jake sabia se comportar no colo das crianças, não ficava agitado e nem distribuindo muitas lambidas molhadas. Ficava apenas abanando o rabo, com os olhos brilhando e a felicidade transbordando.
- Uau! - Ela comentou, atraindo olhares das outras pessoas. - Ele é tão lindo!
Ela parecia outra criança, uma completamente diferente da outra. Seus olhos brilhavam e as bochechas coraram de repente, graças ao prazer do momento. Instantes depois a sua cama estava rodeada de crianças sorridentes e rosadas, querendo mexer em Jake.
Eu sorri em satisfação.
Até os adultos e as adolescentes levantavam os pescoços para lançarem uma olhadela rápida nele.
- Você não me disse o seu nome. - Falei perto da menininha loira que agarrava meu cachorro.
- Jessie. - Ela disse com um sorriso enorme.
- Eu sou Bella. - Falei estendendo a mão para ela.
Ela entendeu e a apertou, ficando assustada por culpa da forma que eu a tratara. Era - provavelmente - a única que não usava o tom de bebê, achando que falava com uma retardada mental.
- E ele? - Ela perguntou animada, indicando a cabeça a Jake.
- Jake.
- Own! Jake você é tão fofo! - Ela disse o acariciando.
Eu me levantei e me afastei, olhando ao meu redor.
- Bom.. eu sei que deve estar sendo um tédio ficar aqui, por isso trouxe algumas coisas. - Falei animada, enquanto abria a minha bolsa.
Para as crianças eu havia trazido uns papeis e uns gizes de cera. Para os adultos eu havia trazido revistinhas de palavras cruzadas e até mesmo jornais. Os adolescentes ficaram com as revistas da moda. E os idosos se divertiam tanto quanto as crianças com Jake.
Às vezes era necessário apenas um sorriso para tudo ficar bem e a atmosfera da sala mudar.
Todos levantaram e vieram em minha direção para pegar alguma coisa. Pareciam tão diferentes das pessoas que eram a instantes atrás. Eu conseguia agora ver a vida em seus olhos.
- Obrigada, obrigada. - Agradeceu uma senhorinha me dando um meio abraço. Ela corria atrás de Jake com as crianças.
Estava uma folia. Pessoas dividindo camas para verem a mesma revista. Crianças sentadas em círculos para desenhar. Senhorinhas fofocando enquantoviam a foto de um galã de novela. Os sorrisos e a empolgação.
Sentei-me ao lado das crianças, ajudando-as fazer alguns traços tortos e belos. Elas pareciam animadas. Parecia que a chama da esperança voltava a ascender no peito delas.
Olhei para o meu lado e vi Jessie sentando-se ali. Ela segurava um bichinho de pelúcia sujo e velho em seus bracinhos, ao seu lado estava Jake todo alegre e saltitante.
- O que achou? - Perguntei.
- Isso está muito legal! - Ela comentou fascinada. - Nunca teve um dia tão divertido!
- Que bom, pequenina. - Falei, beijando o seu emaranhado loiro.
Alguns instantes de silêncio entre eu e ela, quando olhávamos para as pessoas a nossa volta. Jessie parecia ter uma maturidade muito incomum, parecia perceber as coisas rapidamente.
- Eles nunca ficaram tão tagarelas e sorridentes. - Ela comentou de repente. - Era sempre aquele silêncio.
- Agora isso acabou. - Falei a confortando.
- Graças a você, Bella! - Ela passou os bracinhos ao meu redor e me abraçou com força.
- Eu não fiz nada. - Sussurrei para ela.
- Como não? - Ela perguntou confusa.
- Jessie, eu não fiz nada.. foram todos vocês que fizeram isso.
Ela estava atônita e então sorriu.
- Você ajudou.
- Muito pouco, acredite. Vocês só precisavam de um empurrãozinho.
Jessie se calou, mordendo o lábio. Ela devia ter uns nove ou dez anos, era bela e muito pensativa. Ficamos um bom tempo apenas observando os outros ao meu redor.
Eu a achava tão parecida comigo quando eu era menor. Eu era exatamente igual, porém um pouco mais agitada. Era uma observadora nata, e igualmente madura.
Olhei ao meu redor, enquanto sentia o meu sensor de perigo apitando. Sabia que eu tinha de ir embora, mas não queria. Eu queria poder passar a vida ali com eles, apenas os observando.
Ouvi um barulho na porta e engoli um seco. Jake correu para os meus braços e eu o enfiei com agilidade dentro da bolsa.
- O que é isso? - Esganiçou uma enfermeira.
Todos a olharam em choque, menos eu. Eu fiquei olhando para o mesmo lugar de antes, sem respirar, com o coração pulando em meu peito.
Oops!
Eu me levantei apressada, enquanto os olhos da enfermeira maléfica varriam por todo o local. Os sapatinho branco dela fazia um barulho esquisito no chão, deixando-me mais apreensiva.
- Não é nada. - Falou uma das senhora.
- Quem deu permissão a vocês para saírem das camas? - A enfermeira ralhou.
Essa era a minha deixa.
- Eu. - Eu falei me virando.
Ela me olhou dos pés a cabeça com uma expressão estranha. Seria irritação ou repulsa?
- E quem é você?
- Bella. - Falei com um sorriso, tentando passar tranqüilidade e segurança aos outros.
- E por que acha que tem autoridade na minha ala? - Ela disse gross
Pi,pi,pi! Enfermeira louca e possessiva na área!
- Eu só achei que seria legal dar alguma coisa para eles se distraírem. - Comentei com o pulso firme.
Não deixaria que ela acabasse comigo ali. Eu não havia feito nada errado!
- Distraírem? Eles não têm que se distrair! Eles são doentes e precisam se focar em sua doença! - Ela berrou em plenos pulmões.
Eu ia abrir a boca para responder, mas Jake saltou da minha mala e começou a rosnar para a enfermeira, deixando-me sem reação. Eu arregalei os olhos e senti o ar faltando em meus pulmões.
Merda! Merda!
- O QUE É ISSO? - Ela gritou.
- Isso tem nome, ta bom? - Falei me sentindo ofendida, pegando o meu cachorro no colo.
- Oh, meu deus! Onde pensa que está? Em um zoológico público? - Ela gritou descontrolada.
Eu já ia abrir a boca para responder com categoria quando uma voz me cortou e fez as minhas pernas bambearem.
- O que está acontecendo aqui? - Era ele.
O médico incrivelmente belo e frio estava parado na porta nos encarando com a sua expressão fechada e - provavelmente - comum. A postura da enfermeira mudou no mesmo instante. Ela ajeitou a coluna e engoliu um seco.
Eu sei que ele era intimidador, mas não precisava de tanto.
Todos pareceram ficar assustados e eu não entendia o porquê. Ele devia ser só mais um médico ali dentro.
- É essa senhorita aqui, Doutor Cullen. - A enfermeira falou com a voz mais dócil possível.
Eu tentei abafar o riso.
Ele me analisou dos pés a cabeça. Parecia que estava passando um raio-x em mim. E então, seus olhos focaram Jake, fazendo-me espumar de raiva. A expressão em seu rosto era a mesma de sempre.
- Venha comigo. - Ele falou friamente.
Virou-se e saiu da sala, parando para me esperar lá fora. A enfermeira maluca me olhava com um sorriso diabólico, enquanto todos voltavam as suas camas desanimadamente.
Jessie apertou a minha mão e me deu um sorrisinho apoiador.
Eu a agradeci.
E então fui caminhando em direção a porta. Ele estava parado lá fora, sem deixar nenhuma de suas emoções transparecerem por seu muro impenetrável. Estava passivo.
Quando o alcancei ele não disse nada, apenas seguiu andando, fazendo com que eu tivesse que quase correr para acompanhá-lo. Suas passadas eram largas e firmes.
Meu coração saltava em meu peito, enquanto eu arfava, sentindo o suor escorrendo pela minha testa por culpa do nervoso. Jake estava em meus braços, quieto e com as orelhas baixas. Devia ter noção da encrenca que nos esperava.
Chegamos a uma sala afastada. Ele entrou e foi sentar-se em uma cadeira de couro, enquanto eu ficava em pé, o encarando. Esperava algum tipo de reação, que ele começasse a falar. Eu não teria forças.
- Certo, Senhorita... - Ele me olhou intensamente.
- Bella. Me chame de Bella. - Falei informalmente, passando a mão nos cabelinhos macios de Jake.
- O que você estava fazendo naquele quarto, Senhorita Bella? - Ele perguntou com um tom acusador.
Eu senti as minhas pernas bambeando por culpa de sua beleza e o meu interior fervendo de raiva.
- Só Bella. - Ralhei entre dentes.
- Você não respondeu a minha pergunta. - Ele comentou com a voz calma, passiva e irritantemente controlada.
- Eu estava visitando os internados. Apenas isso. - Dei os ombros e soltei um longo suspiro.
- Você sabia que cachorros não são permitidos dentro desse estabelecimento, Senhorita Bella?
Parecia que eu estava sendo interrogada por um xerife. Me sentia uma criminosa repugnante.
- Er.. na verdade, sim. - Falei corando. Eu não iria mentir. Não seria desleal. - Mas achei que não tivesse problema em levar Jake. Ele é dócil e adora as crianças.
- Jake? - O Doutor Maravilha me perguntou confuso.
- É, o meu cachorro.
Ele fez uma careta de compreensão e levou a mão ao queixo.
- Se é absolutamente proibida a entrada de animais, por que você pensou que não tivesse problema?
- Eu já disse.. - Falei irritada e entediada. Aquele cara era absurdamente monótono! - .. Jake é simplesmente perfeito. É quase um humano.
- Senhorita Bella.. eu vou ser bem claro com você: Eu não tolero brincadeirinhas desse tipo dentro do meu hospital. - Ele falou lentamente, como se quisesse me fazer digerir as palavras.
- Deus, por que todo médico ou enfermeira é tão possessivo? - Soltei de repente, sem me controlar.
- Você entendeu ou não, Senhorita Bella? - Ele enfatizou o meu nome, fazendo com que a voz sumisse de minha garganta.
De repente, uma raiva imensa me abateu, fazendo-me querer voar no pescoço daquele idiota.
- Brincadeirinhas? Eu só estava sendo legal e gentil com os seus pacientes! Algo que pelo visto você não é! - Eu explodi.
- Não critique o meu método de tratar os meus pacientes. - Ele estava perdendo a calma. Era tão bom vê-lo tirar a mascara da indiferença e impenetrabilidade.
- Ó, desculpe, Doutor. - Zombei.
- Senhorita Bella.. você por um acaso tem um diploma em medicina? - Ele perguntou com azedume, levantando-se e me lançando um olhar mortífero.
- Não. - Respondi franzindo a testa.
- Então por que está tentando se intrometer no meu hospital?
- Eu não estou tentando me intrometer em nada, Doutor. Eu só queria vê-las sorrindo.. e o senhor devia querer ver o mesmo. Só porque eu não tenho um maldito diploma não significa que eu seja uma pessoa pior que você. - Cuspi as palavras com raiva.
- Senhorita..
- É Bella! - Eu gritei o cortando.
Estava ofegante e provavelmente vermelha de raiva.
- Olha, Bella, eu não gosto que fiquem fazendo folia no meu hospital, então por favor pegue o seu cachorro e saia daqui. - Ele falou lenta e rudemente.
- Sabe, Doutor, você não está entendendo. Quero que me explique qual é o problema de trazer algumas revistas pras crianças? Qual o problema de tirá-las do tédio?
- Senhorita, elas estão doentes.. elas estão aqui para serem curadas. Precisam de um médico e não de um palhaço.
Fechei os olhos e puxei o ar com força.
Aquele sujeito estava me tirando do sério.
- Eu não vou parar de vir aqui só porque um médico qualquer decidiu me impedir. Não mesmo! - Falei grosseiramente, virando-me para sair.
- Eu não sou um médico qualquer, querida. - Ele falou ironicamente. - Sou o principal médico desse Hospital. Se eu quiser, você nunca mais pisa aqui.
Eu soltei uma gargalhada forçada. Voltei-me e apoiei os meus braços na mesa, aproximando nossas faces.
- É o que veremos, Doutor. - Falei raivosa.
Encaramos-nos com intensidade por vários minutos, até que eu virei bufando e saí rapidamente da sala, batendo a porta com força.
Havia várias pessoas ali fora e elas me encaravam chocadas e com os queixos caídos. Pelo visto haviam escutado a minha discussão.
- O show acabou. - Falei com um sorriso, respirando profundamente, voltando a conseguir controlar as minhas emoções e reações.
Com Jake nos braços e a bolsa no ombro, eu me apressei para saída, evitando todos os olhares e tentando esquecer o que havia acabado de acontecer.
Por que todos os médicos tinham de ser assim? Por que a vida deles tinha que ser perfeitamente planejada e equilibrada? Por que eles eram tão previsíveis e mesquinhos?
Ao sair do Hospital consegui respirar com facilidade novamente. O meu coração ainda pulava no meio peito, enquanto minhas mãos suavam no pelo de Jake. Eu o soltei no chão e passei a caminhar de cabeça baixa com as mãos nos bolsos.
Lembrei do sorriso dos internados e de Jessie, e isso bastou para que a alegria voltasse a preencher o meu coração.
Não deixaria que o Doutor Maravilha acabasse com aquelas pessoas. Não deixaria que aqueles médicos medíocres apagassem a chama da esperança do coração daquelas pessoas.
Isso ia contra todos os meus princípios. Era contra esse exato tipo de coisa que eu sempre estava lutando.
Olhei para os lados e percebi que não tinha a mínima noção de onde me encontrava. Soltei um longo suspiro, forçando a minha mente a se lembrar qual havia sido o caminho.
Depois de perguntar a vários estranhos eu finalmente consegui voltar a pousada que estava hospedada.
Estava cansada e com muito frio quando passei pela porta.
- Olá. - Disse para Jean, a provável dona do local.
- Oi, Bella. - Ela falou com um sorriso.
Fui para o meu quarto sem querer conversar muito. Estava indignada e isso me deixava um pouco monossilábica ou então critica e filosófica demais. Eu sei que eu adorava desafios e situações imprevisíveis, mas aquilo era demais.
Por que sempre tinha que ter alguém para atrapalhar a felicidade do próximo?
Abri a porta do meu quartinho e encontrei Rosalie se arrumando. Tinha um sorriso vitorioso nos lábios.
- Bella! - Ela falou toda animada.
- Rose. - Falei, sentando-me na minha cama.
- Achei um karaokê divino! - Ela falou toda empolgada. - Vou cantar hoje lá. Que tal?
- Isso é exatamente o que eu preciso. - Falei me sentindo melhor. Não podia deixar os meus maus momentos interferirem na vida da minha melhor amiga. Eu tinha que tirar aquilo da cabeça.
- O que foi? - Ela perguntou bondosamente, enquanto terminava de pentear os cabelos loiros e sedosos.
- Um médico idiota. - Comentei fazendo uma careta de tédio.
Rose riu.
- Você não vai deixar um velho babão e ridículo estragar a sua noite, vai? - Ela usou um tom autoritário e contagiante. Adorava quando ela vinha com aquelas frases animadoras.
- Não, eu não vou. - Prometi. - Mas é que.. dessa vez é diferente.
- E por que seria diferente? - Ela sentou-se ao meu lado.
- Ele não era velho e nem babão. - Senti que estava corando e portanto desviei o olhar.
- O quê? Um médico novo? E por que ele implicou? - Ela parecia empolgada.
Lembro de ter comentado um dia que achava homens de branco extremamente sexys.
- Ele não gostou muito de Jake. - Falei raivosa. - Veio com um papo mesquinho e absurdamente cafona. Naquele momento ele não parecia mais o cara de vinte e poucos absurdamente sexy. Parecia um velho acabado!
- Vinte e poucos?! - Rosalie berrou.
Eu dei uma gargalhada.
- Você não presta. - Disse, atirando o meu casaco na cara dela.
- Eu sei. - Ela revirou os olhos e se levantou, indo em direção ao espelho. - Alguma chance de ele aparecer no karaokê?
- Nenhuma. - Falei retirando o resto das minhas roupas. O frio cortava em minha pele deixando-me arrepiada. - Ele é o tipo do cara que passa o dia no trabalho ou então estudando.
- Droga.
- É, eu sei. Se ele fosse uma pessoa mais tranqüila e agradável, seria irresistível. - Comentei, enquanto saltitava para o banheiro minúsculo.
- Uh! - Ouvi a voz de Rosalie um pouco distante.
Abri o chuveiro e entrei de cabeça. A água estava bem quente e fez com que eu soltasse um gemido de dor. Senti meus músculos relaxando aos poucos.
- Sabe, conheci uma menininha muito simpática hoje.. - Eu passava já o shampoo na minha cabeça. O cheiro de morangos silvestres me dopando.
Eu tinha um tremendo defeito. Adorava conversar enquanto me banhava.
- No hospital? - Rose perguntou.
- Sim, sim. Está internada. - Fiquei calada por uns instantes. - Sabe o que eu acabei de decidir?
- O quê? - Rosalie perguntou entrando no banheiro.
- Você não vai cantar sozinha hoje. - Disse com um sorriso confiante.
- Essa é a minha Bella! - Minha amiga gritou em resposta.
Lancei um sorriso para a minha amiga.
Eu não perderia o meu tempo criticando os médicos. Aproveitaria a minha vida e depois decidiria o que fazer para irritar o Doutor Maravilha.
Não via a hora de ir brincar novamente com Jessie e encarar a expressão fria do médico maléfico e mesquinho.
Fim do Capítulo I
N/A: Primeiro capítulo postado! Espero que tenham gostado. Eu adoro ele! Podemos ter as primeiras impressões de cada personagem.
Sim. Todos são humanos! Sem vampiros dessa vez!
Adorei cada review que vocês me mandaram e me senti na obrigação de responder. É tão bom começar algo novo e totalmente diferente.
Em breve teremos o próximo capitulo.
Lali Motoko: Já deu pra ter uma idéia de como vai ser, não deu? Que bom que você gostou da idéia, gatona! Adoro ver que voce está nas minhas fics! E eu juro que quando tiver tempo irei acompanhar as suas. *-* Obrigada pelos elogios. Beijinhos!
Carol Venancio: Eu acho que promete mesmo! Quero saber o que achou desse comecinho! Espero que tenha gostado! Posto sim! Beijos beijos!
Miriam Masen: Minha mente e meus dedos estão a toda velocidade! AIAHAUHA. Não se preocupe com isso! Espero que tenha gostado desse capitulo! Beijos!
Nixx Blanchard: Ah! Que bom que voce acha a Bella hippie brilhante! Espero que tenha gostado! Ah, adorei a review! Obrigada pelos elogios, Beijos!
Gabby B. Lupin: Ah! espero que tenha gostado do capitulo! Beiijos!
Nicolly Valim: História fantastica? Viciar? Ah! Assim voce me deixa sem jeito *-* AJUIAHUAHA. Obrigada pela review, viu? Espero que tenha gostado! Beiiiijos!
Começamos bem, não acham? Enfim: Podem mandar as reviews agora! Eu realmente quero saber o que acharam!
É bom estar de volta!
Amo voces!
Beijos!
Até em breve. (:
