Lawless Hearts
De: Kracken
Tradutora: Aryam
Corações Sem Lei
Parte 01 - Quebrando as Regras
Eu não tinha nenhuma ajuda nas terças-feiras. Os três caras trabalhando comigo o faziam praticamente por amendoins e um lugar para ficar, na cabana nos fundos do meu ferro velho. Suas condições eram: "só chame quando precisar de nós" e sempre que eu não precisava, normalmente estavam bêbados e dormindo para curar a ressaca. Por alguma razão, as terças pareciam ser, particularmente, um dia ruim para eles. E quando se trabalha à beira da falência, um trio de pessoas da rua era tudo o que se podia conseguir, então reclamar não era uma opção. Eu estava quase pedindo esmola e pulando refeições aqui e acolá quando ficava sem dinheiro, então acho que estava a apenas um passo de ficar como eles, só não tinha começado a beber ainda.
Acredito que a localização é tudo. Comprar um ferro velho barato em uma seção da estação espacial que estava cheia deles foi, simplesmente, uma má idéia, mas era o que eu tinha de recursos com o 'Fundo de Caridade para Soldados' criado por Relena Peacecraft depois da guerra. Eu lutei, matei e abri mão de minha juventude e em retorno me foi dado apenas o suficiente para comprar um monte miserável de pedaços de metais sujos e enferrujados. Uma droga, eu sei, mas qual é a novidade? Como sempre, eu pegava o que estava ao meu alcance e ciscava pelo resto que precisava. Não é como se algum dia eu já tive algo melhor.
Sobre os outros caras da guerra, aqueles pilotos de quem eu havia sido, bem, não grandes amigos, mas pelo menos camaradas? Nós não freqüentávamos os mesmos círculos e era muito difícil de sairmos juntos ou manter contato. Hilde ficou por perto um tempo, mas um dia ela achou seu verdadeiro amor em um ponto de ônibus na periferia e decidiu que viver com um cara gay em meio de uma pilha de lixo não era o tipo de vida ideal a se levar. Ela está feliz e não a culpo, mas fico solitário agora. Gatos de rua e ocasionalmente um rato não são boas companhias e meu trio de empregados bêbados não via muito sentido em ser colega de um cara que não compartilha a paixão pela garrafa.
Ás vezes sinto vontade de beber. Quando sento no escritório da cabana e o calor sobe por causa dos malditos em controle do clima da colônia que devem achar legal ter um 'bom dia de verão', quando a solidão me abate e não consigo ver nenhum futuro senão uma porção de poeira, aquela porcaria enferrujada e... ninguém na minha vida, eu queria sumir e fazer essa sensação de 'ser um perdedor' ir embora. Bem, até eu ver um dos meus 'funcionários' cambalear para fora da cabana deles e vomitar, parecendo um defunto de três semanas que alguém acabou de desenterrar. Sim, poderia ficar pior. Poderia ficar assim como eles.
Quando um caminhão estacionou no quintal em um dos meus piores dias, um dia em que comida não era uma opção, um dia em que estava a ponto de implorar aos meus empregados por um pouco de qualquer coisa para comer, eu estava mais que ansioso para aceitar o que ele tivesse para me oferecer. Para se vender peças, precisa-se ter o que as pessoas querem. Infelizmente, eu era o último na lista de cotações. Qualquer um pode conseguir melhores preços em outros ferros-velho. O que fazia de entregas assim um motivo para celebrar. Não perdi tempo em correr ao seu encontro.
Ele parecia nervoso. Botas pretas, macacão cor de oliva, boné que continuava tirando para poder alisar seu cabelo raspado. Eu não vivi tanto tempo sendo estúpido. Tem coelho nesse mato... E provavelmente ilegal. Como nunca levei uma vida de mãos dadas com a lei, minha única preocupação era 'quão ilegal?' e 'posso sair livre dessa?'. O homem me olhou e trocamos um olhar cúmplice. Ele relaxou, não completamente, mas percebeu que nos entenderíamos antes de falar uma palavra sequer.
"Papelada?" perguntei neutro. O homem deu de ombros. Mordi os lábios. "Quente?" Ele balançou a cabeça, não, levantando o boné e passando a mão pelo cabelo outra vez. Mentira. "Rastreável?" Ele balançou a cabeça outra vez e eu fiquei na dúvida. "Quanto?"
"80%" respondeu, encarando meu ferro-velho como se fosse algo novo para ele. Um iniciante, imaginei, e sorri sardonicamente para mim mesmo.
"Sou pobre, não burro. 60% e só se tiver um troço muito bom" rosnei "Não vai conseguir isso de mais ninguém"
O homem franziu o cenho e levou longos minutos para pensar. Foi uma guerra de nervos. De certo modo, bem, ele só teria que olhar em volta e saberia que eu estava desesperado. Queria que eu cedesse, prometesse a ele tudo o que quisesse. Permaneci firme, suor escorrendo pelas minhas costas. Ele finalmente olhou para mim. Eu estava magro e desgastado e ainda tinha aqueles olhos grandes me dando uma aparência de imbecil que fazia todo mundo achar ser mais esperto do que eu. Moleque, minha aparência dizia, apenas um garoto com uma grande trança.
O homem começou a ir embora. Eu não entrei em pânico. Deixei-o ir. "Tenha um bom dia" disse para suas costas.
Ele parou. Pude senti-lo ferver. Não precisava ver para saber. Finalmente, virou-se outra vez de cara feia. Deve estar tão desesperado quanto eu, pensei, mas não deixei transparecer qualquer orgulho em minha expressão enquanto ele me entregava um palmtop. Dei uma olhada por cima na tela, venda simples constando como 'peças terceirizadas'. Até parece, pensei ao colocar minha impressão digital após adicionar a quantidade de dinheiro a ser paga na revenda. Se ele estava me entregando porcaria, não receberia um tostão. Pra mim, era o único jeito disso dar certo.
O homem me chamou até o caminhão e colocou o palmtop embaixo do braço. Ele parecia irritado, não estava contente com a venda, mas tentava tirar o maior proveito. É, o negócio devia ser quente mesmo se não estava disposto a procurar melhores ofertas... Ou talvez ele já tivesse sido recusado? Fiquei cauteloso. Não achava que o homem seria estúpido o suficiente de me dar contrabando ou algo que claramente eu não teria contatos para revender, mas ficaria surpreso de ver como as pessoas podem ser idiotas quando pensam que a lei pode lhes cair sobre a cabeça a qualquer momento. Considerando como ela vem bufando em meu pescoço desde minhas primeiras memórias, não compartilho o mesmo medo.
Abri a traseira do caminhão e subi. Estava usando uma regata cinza e jeans largo. Sabia que teria de tirá-los assim que descesse do caminhão novamente. Tudo estava totalmente sujo como se a mercadoria tivesse sido enterrada por um tempo, óleo e combustível emporcalhavam o chão do caminhão. Abrindo uma caixa, fui confrontado com o brilhante metal que parecia novíssimo. Reconheci os giros instantaneamente e os cabelos da minha nuca arrepiaram-se. Giros militares para móbile suits. Merda!
Minhas mãos tremiam enquanto fechava a caixa. Eu quase não conseguia andar ao me virar e olhar para o homem fora do caminhão. "Onde diabos conseguiu isso?"
Ele ficou convencido. "Isso não importa. Eu preciso disso vendido".
Limpei minhas mãos nas calças e umedeci os lábios nervosamente. Se conseguisse vendê-los poderia deitar numa rede por até dez anos no Taiti. "Tudo bem!" foi apenas uma exclamação de excitação até meu cérebro trabalhar os detalhes, fervorosamente pensando em quem eu conhecia que poderia tirar aquelas belezuras de minhas mãos.
Como eu disse, eu não vivi tanto tempo sendo estúpido. Instintos de sobrevivência finalmente chutaram meu ser ganancioso e apontaram quem eu era e o que estava sendo oferecido. Não ia dar certo. Gelei.
"Ah, espera um pouco" gaguejei, começando a descer do caminhão. "Talvez eu deva reconsid-"
De repente uma arma estava na apontada para minha cara e encontrei meu antigo parceiro de guerra, Heero Yuy, ao lado de meu 'cliente'. Sua arma era tão preta quanto seu terno e brilhava com a luz do sol, mortal e inabalável. Seus olhos azuis brilharam furiosos e ele disse, a voz como a de um coveiro "Tarde demais".
Tombei contra o vidro do banco traseiro carro negro lustrado. Heero Yuy sentou-se ao meu lado, arma ainda à vista descansando no joelho de modo que o cano ficasse apontado para meu coração. Não olhei para ele. Mantive meus olhos na janela, observando o cenário, o contorno da estação espacial ao passarmos pelo amontoado de sujeira dos vários lotes de comerciantes de ferro velho, para um distrito de varejo e então para as melhores partes da crescente metrópole. Aqui tinha mais vegetação e não consegui evitar apreciar as sombras refrescantes das árvores em suas faixas de grama verde nos parques e praças entre prédios e lojas.
Tentei aliviar meu pulso. As algemas tiniam. Minhas mãos haviam sido presas em minhas costas e as juntas dos ombros pareciam que iam sair do corpo. Estava coberto de suor, poeira e vestígios do caminhão no qual havia subido anteriormente. Eu fedia a combustível, graxa e sujeira. Minhas roupas estavam imundas e um dos homens, que veio desenfreado para cima de mim com o chamado de Heero, rasgou minha regata ao me puxar do caminhão. Ela caia esfarrapada em um dos meus ombros, mostrando uma antiga cicatriz, deformada e rósea em contraste ao tom bronzeado de minha pele.
Sentia-me como um vagabundo sentado em um carro ultra limpo e no assento ao lado do perfeitamente engomado e engraxado Heero Yuy. Ele ainda tinha um leve aroma de pós-barba. Por causa desse homem eu era agora um vagabundo criminoso, sendo levado para a prisão dos Preventers ser interrogado e fichado. Suponho que eu deveria estar mais irritado com isso, mas tudo o que conseguia sentir era uma depressão profunda. Talvez seja fome. Não consigo lembrar minha última refeição. Talvez após um sanduíche eu conseguisse me sentir ultrajado por ser preso.
Minha própria consciência ressaltava que eu ia vender aquelas peças ilegais. Eu rosnei para que ficasse quieta. Não queria encarar a verdade ainda, ou culpa. Ficar em negação era bem mais interessante. Em vez disso, eu usei o tempo do ferro velho até o cintilante prédio do centro de operações dos Preventers, para tentar entender porque eles quereriam pescar um peixe pequeno como eu. Eu posso até ter feito alguns negócios por debaixo da mesa, mas foram no máximo metal revestido roubado e equipamentos comuns. Fora isso, eu ficava na minha em meu sujo terreno e cuidava da minha própria vida, um feito extraordinário quando se considera minhas habilidades e meu passado. Eu poderia ter feito muito estrago se quisesse, e ficado rico o suficiente para ser um rei hackeando sistemas e contas bancárias. Quem sabe fosse sobre isso? Talvez eles não conseguissem acreditar que Duo Maxwell, ex-piloto Gundam, conseguia se refrear em mergulhar em um problema tão grande... Mas então, como explicariam essa minha existência com apenas o essencial para viver? Não fazia sentido...
Era tentador perguntar o que estava acontecendo, tentar abrir uma brecha naquela parede de pedra que era o homem sentado ao meu lado, mas a arma esperando pelo movimento do dedo para atirar, não faz ninguém querer perturbar a pessoa que é dona do dedo. Os porquês teriam que esperar.
Quando o carro estacionou em uma área especial, fui arrastado quase pelos cabelos para fora do carro por um agente quase o dobro do meu tamanho, ouvi outro agente informar Heero "Nós conseguimos um mandado de busca. Ele não tinha muito. Eu enviei as coisas para seu parceiro. Ele está te esperando".
"Hn", apenas um grunhido baixo de reconhecimento soou como resposta do japonês enquanto ele vinha checar minhas algemas. Quando as puxou, gemi de dor, mas não fiz nada mais a não ser curvar a cabeça nervoso. O que tinha a dizer? Ele sabia que elas doíam. Sabia o quanto meus braços estavam apertados presos nas costas. Ele me queria incapacitado. Um piloto Gundam treinado era bem perigoso, então não o culpava realmente. Porém, não me impediu de ficar puto de raiva.
Heero finalmente colocou a arma de volta no coldre embaixo do braço e deixou o casaco cair sobre ele para escondê-lo. Ele estava entre amigos agora, todos armados, todos preparados para abater um infeliz Duo Maxwell se ao menos piscasse do modo errado.
"Qual o problema Yuy?" um homem brincou ao passar por nós. "Único jeito de arrumar um encontro?"
Heero não sorriu ou respondeu, mas o homem parecia acostumado com isso. Eu estava vermelho de ódio. Sim, eu tinha uma trança mesmo bem longa, mas não parecia uma garota. Eu tinha feições masculinas. Babaca, pensei, para me fazer sentir melhor ao traçarmos o caminho em um labirinto de portas fechadas e entrar no lado seguro do prédio. Heero me levou a um escritório comum com uma mesa e algumas cadeiras. É, igual aos antigos filmes do tipo "Apenas os fatos, senhora" e tudo isso.
Wufei Chang, seu parceiro, esperava junto a uma grande caixa virada na mesa com meus pertences esparramados dela. Minha raiva tornou-se vergonha em um instante. Enquanto Heero chutava a cadeira para fora da mesa e me fazia sentar nela com a mão pressionando meu ombro, Wufei fazia caretas e indicou para minhas coisas ao dizer "Nada de interessante".
O chinês se vestia em cinza e preto. Um terno normal, mas que conseguia fazer parecer muito oriental. Ele ainda usava o cabelo puxado para trás em um apertado rabo-de-cavalo. Será que fazia seu cérebro doer? Aqueles olhos escuros, com aquelas sobrancelhas negras eram desdenhosas como sempre e ele tinha essa expressão exatamente como me lembrava da época da guerra, o olhar penetrante com o nariz empinado que conseguia dar a impressão que ele considerava todos ao seu alcance, meros insetos.
A propósito, eu tinha uma memória fenomenal, uma das coisas que fez Dr. G me dar uma chance; isso e minha habilidade de invadir qualquer lugar sem ser pego. Eu mantinha muitas coisas na cabeça, inclusive meus contatos nada excepcionais. Era muito mais seguro assim. Eles não encontrariam nada para me incriminar a não ser que meus contatos não fossem prudentes. Se um deles me dedurou ou armou algo me incriminando... Mas isso ainda não acontecera. O 'x' da questão era: míseros roubos e lavagem de itens insignificantes não eram assim tão importantes. Com certeza não justificava todos aqueles agentes, uma operação armadilha e o modo intenso com que Heero e os agentes que me prenderam agiram. Fiquei com medo de ser suspeito por algo muito maior.
Wufei empurrou algumas revistas pornôs para o lado com desagrado. Caras gostosos nas capas. Senti meu rosto pegar fogo, mas apenas sentei e o olhei atravessado. Acho que o gato pulou do saco agora, apesar de que nunca escondi minhas preferências de ninguém ativamente. Porque um agente sentiu a necessidade de incluí-las na caixa de evidências era além de minha compreensão.
O agente chinês deu uma olhada vagarosa em alguns cadernos de notas preenchidos com o tipo de coisa que você rabisca quando fala ao telefone. Ele tinha meu calendário de mesa também, cheio dos mesmos garranchos indecifráveis, números de telefone e expletivos aleatórios que não conseguia dizer para quem quer que estivesse do outro lado da linha naquele momento. Ele também estava com algumas fotografias e recortes de jornal que eu tinha separado. Coisas da guerra, Hilde e eu, um par de fotos minhas e os caras recebendo o prêmio 'vocês fizeram um bom trabalho agora sumam', e uma foto de Heero meio virado da câmera. Eu havia escondido essa e não tinha certeza se estava corado mais com isso ou com as revistas. Essas, pelo menos, poderiam ser explicadas... Já a foto. Tá, então o cara é mais quente que um ônibus espacial em re-entrada na atmosfera e eu não poderia ter deixado a maldita festa 'pós-guerra' sem sua fotografia para... Hum... Olhar de vez em quando.
Heero finalmente falou enquanto eu olhava para a mesa, localizando os arranhões e talhos. "Você esta sendo acusado com a intenção de comprar e vender giroscópios de móbile suits. A sentença mínima é de dez anos".
"Se pega menos por matar alguém" murmurei amargamente.
A voz fria de Wufei respondeu "E isso seria para ajudar sua defesa?"
"Acho que devo chamar um advogado agora, certo?" retruquei.
"Você não foi acusado oficialmente ainda" Heero me disse e o olhei surpreso "Se você cooperar-"
Bufei e afundei na cadeira, tentando aliviar meus ombros "Eu não sei de nada".
Wufei estava interpretando o policial malvado, eu acho. Ele franziu sombriamente e disse "Há uma sentença de dez anos e um colchão em uma cela na cadeia com seu nome nele Maxwell. Se não quiser um bando de machões excitados apreciando seu cabelo comprido, é melhor nos dizer o que queremos saber".
Eu ri. "Você precisa de mais prática" Eu o disse "Tente 'a não ser que queira ficar de quatro para um cara chamado Bubba'".
Heero foi mais direto. Sim, o bom policial, se bem que não parecia muito diferente do malvado. "Coopere ou nós vamos fichá-lo agora mesmo".
Meu nariz estava coçando. Eu me debati para coçar-lo no ombro e disse "Por que não pergunta algo e eu tento responder? Como eu disse, não sei de nada... Bem, a não ser que estejam interessados em um terreno cercado e sucateiros falidos".
Heero trocou olhares com Wufei, este piscou e pareceu comunicar algo para o paerceiro. O japonês, então, perguntou direto. "Você conhece um homem chamado Ryffio?"
"Não, deveria?" Eu estava genuinamente assombrado. Franzi o cenho, confuso "Olha, eu não contrabandeio giros. Tá, eu tive um momento de fraqueza, mas sinceramente eu não lido com esse tipo de porcaria ou com quem o faz. Eu teria de entrar em contato com contatos de contatos para encontrar alguém que tirasse aquilo das minhas mãos... Ahhhhh..." exclamei de repente. Entendi finalmente. "Estão procurando por um informante disfarçado, um dedo-duro no negócio".
Wufei pareceu irritado ao colocar a caixa abaixo do nível da mesa e arrastar minhas coisas para dentro com uma varredura do braço.
"Bingo" eu disse divertido, mas então balancei a cabeça "Não posso fazer nada. Duo Maxwell é várias coisas, mas não é um-"
Repentinamente Heeo torceu uma mão no que sobrou de minha regata. Seus olhos pareciam lava derretida azul ao dizer com o tom de voz mortífero que sempre me deu frio na espinha toda vez que escutava "Tudo o que tenho a fazer é uma ligação e você passará o resto da vida na prisão, não apenas dez anos. Fui claro? Precisamos de seus contatos e perícia. Você vai cooperar. 'Não' não é uma opção".
"Eu posso estar errado" desafiei calmamente "Mas acho que você acabou de quebrar uma meia dúzia de leis. Eu quero um advogado... Agora".
Se eu estava assustado? Inferno, e como! Eles me pegaram em flagrante e com ou sem advogado, eu estava encarando ficar um longo tempo na prisão. É algo que se aprende mesmo quando se viveu como eu; a ser como um bom jogador de poker e nunca deixar-los o verem suar de nervosismo. Eu tinha que me virar, eu sabia, mas precisava de uma mãozinha aqui e agora.
Heero me deu um olhar longo e firme e então se endireitou. Aquele silêncio, seja lá o que significava, passou por ele e Wufei novamente e foi o chinhês quem grunhiu, cruzando os braços sobre o peito, dizendo "Haveria alguma... Compensação pela sua cooperação". Eu podia dizer que a simples idéia de me pagar estava entalada em sua garganta.
Eu sorri "Está bem, mas eu quero saber uma coisa, essa não é uma operação de 'fisgar os peixes pequenos', é? Vocês vão atrás de um figurão importante e perigoso, né? Por que eu não vou entregar ninguém que está catando lixo para alimentar a família, ta?
"O homem que estamos atrás é muito importante e muito perigoso" Heero respondeu.
"Tá legal..." respirei fundo, rapidamente revisei tudo na cabeça, checando e re-checando que eu tinha zero de opção e disse "Trato feito".
Wufei inclinou a cabeça. Heero apenas grunhiu.
Agitei minhas algemas. "Pode tirá-las agora antes que eu tenha de amputar os braços?"
Heero se moveu para obedecer. Quando meus braços estavam soltos eu os inclinei tentando trazer de volta a circulação. Enquanto eu fazia isso Heero foi até a caixa na mesa e começou a levantá-la, acredito que para me devolver. Ele pausou e retirou a foto dele mesmo. Estudou-a e levantou as sombrancelhas.
"Eu estava tentando tirar fotos de todos vocês" falei nervosamente. Tá, foi a desculpa mais sem originalidade... Não havia fotos de mais ninguém sozinho e estava bem óbvio que eu havia recortado alguém da foto para tê-lo sozinho. Certamente eu não o queria ao lado de Relena Peacecraft! De qualquer jeito, Heero não engoliu, dava pra perceber, mas eu não tinha certeza NO QUE ele estava pensando. Sua expressão era neutra... Como uma parede de pedra... Muito difícil de se ler, pode apostar.
Heero finalmente colocou a foto de volta e me trouxe a caixa. Eu levantei com intenção de pegá-la, mas então o fato de que não comi há nem sei quanto tempo me atingiu. Desmaiei.
Continua...
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