- O AMOR DO PIRATA -

Capítulo 2

Essa mesma noite, Hisana Kuchiki entrou no quarto de Rukia para falar claramente com sua filha. Ainda estava alterada.

- Eu tentei, ma chérie. Tratei de dissuadir teu pai de que não te envie com esse... esse homem - Hisana falava nervosamente, retorcendo as mãos, coisa que sempre fazia quando estava perturbada.

- Não se preocupe, mamãe. Senti-me mal ao princípio, mas só porque devo viajar. Esperava que me entregassem em casamento, de maneira que isto não foi uma surpresa.

- Para mim sim! Faz meses que Byakuya está procurando um marido para ti, mas só ontem à noite me disse; uma vez que já tinha eleito o rapaz, sabia que ninguém mudaria. Não pensou que te enviava a um homem desconhecido, e que ainda te obrigava a adaptar-se a um novo país e a um novo clima ao mesmo tempo. - Hisana geralmente dizia o que pensava, ao menos para Rukia, mas se pôs a andar pelo quarto e parecia não poder encontrar as palavras.

- Queres dizer-me algo, mamãe? - arriscou Rukia.

- Sim, sim, quero dizer-te algo - respondeu Hisana em inglês com forte sotaque.

Seus pais gostavam de falar em inglês, porque muitos dos sócios de Byakuya eram ingleses. E como Rukia também tinha aprendido esse rude idioma no convento, seu pai fazia questão de que se falasse inglês a todo momento.

Hisana ainda vacilava, então Rukia tratou de romper o silêncio.

- Sentirei muitas saudades quando for embora no mês que vem. Alguma vez voltarei a ver-te? - perguntou esperançosamente.

- Oras, claro que sim, Rukia. Se teu novo... - fez uma pausa, porque não lhe agradava dizer a palavra - ...novo marido não te trazer aqui, convencerei Byakuya a irmos a Saint Martin. - Hisana olhou para sua filha com profunda preocupação em seus olhos azulados. - Ah, pequena Rukia, lamento que teu pai tenha feito questão de dar-te em matrimônio ao conde Ichimaru. Eu queria que escolhesse teu próprio marido. Se ao menos Byakuya tivesse permitido que eu te levasse a Paris, poderias ter encontrado um homem a quem amasse, um homem digno que Byakuya também teria aprovado. Há tantos para eleger em Paris...

- O conde Ichimaru é um homem digno, não é? - perguntou Rukia.

- Sim, mas você não o conhece, Rukia. Não sabes se poderás amá-lo ou não. Não sabes se serás feliz ou não. E isso é tudo o que eu desejo; que tu sejas feliz.

- Mas papai elegeu ao conde Ichimaru e ele deseja que eu seja sua esposa. Ele deve ter me visto então, não é?

- Sim, faz um ano. Estavas no jardim quando o conde veio visitar Byakuya. Mas, Rukia, és uma moça bonita, incrivelmente bonita. Poderias ter eleito seu marido, e ter encontrado um homem com quem quisesses passar a vida. Mas teu pai é demasiado amante da tradição. Só admite ele eleger teu marido. Não lhe importa se és feliz ou não.

- Mas assim são as coisas, mamãe. Eu não esperava que fossem diferentes. - replicou Rukia ainda que perguntando-se por que não.

- És uma filha boa e ingênua e me magoa pensar que vais passar a vida com um homem que não amas. Por isso vim, para dizer-te algo, ainda que contra as minhas convicções.

- De que se trata, mamãe?

- Sabes que Byakuya foi eleito para mim por meu pai quando eu só tinha quatorze anos. Como tu agora, eu estava disposta a amar ao marido que tinham eleito para mim e a ser uma boa esposa. Mas depois de um ano de casamento soube que isso jamais aconteceria. Depois de outro ano, a situação piorou, porque Byakuya desejava um filho homem e eu ainda não tinha ficado grávida. Sentia-me desolada, e a única pessoa em quem podia confiar era Retsu Unohana. Então comecei a fazer longas caminhadas e viagens à cidade, só para achar paz. Num de meus passeios conheci um marinheiro, um irlandês ruivo com vivazes olhos azuis claros, seu barco estava ancorado na costa para ser consertado e ele tinha licença para visitar seus pais, que tinham deixado a Irlanda e viviam então na zona próxima a Montaigne. Conheci-o quando passava por Argentan. Ficou aqui em lugar de ir a Montaigne, vimo-nos muitas vezes e finalmente nos convertemos em... amantes.

- Ai, mamãe, que romântico!

Hisana sorriu, aliviada ao ver que sua filha não ficava consternada com sua confissão.

- Sim, era romântico. Shihouin permaneceu três meses em Argentan, e eu me encontrava regularmente com ele. Foram os meses mais felizes da minha vida, e sempre guardarei sua recordação como um tesouro. Amava-o com todo meu coração, e ele vive em ti, Rukia, porque tu vens do amor que compartilhei com Shihouin. Ele foi teu verdadeiro pai.

- Então papai... é meu padrasto?

- Sim, ma chérie, só teu padrasto. Queria que conhecesses a felicidade que eu pude roubar faz tantos anos, o único amor que jamais tive. Queria que o soubesses para o caso de que não ames ao conde Ichimaru. Espero que o ames, mas se não é assim, desejo que encontres a alguém a quem possas amar, ainda que seja por pouco tempo. Quero que sejas feliz, Rukia, e se te encontras num casamento sem amor, não quero que se sinta culpada caso o amor se apresente em uma outra parte. Não digo que deve ir procurá-lo. Mas se o amor vem a ti como sucedeu comigo, toma-o enquanto possas e seja feliz. Só quero que sejas feliz.

Hisana se pôs a chorar, e Rukia foi até ela e a abraçou ternamente.

- Obrigada, mamãe. Obrigada por dizer-me. Agora já não tenho medo de ir para Saint Martin. Tratarei de que seja um bom casamento, e tratarei de amar ao conde Ichimaru. Quem sabe, talvez não seja tão difícil. Talvez chegue naturalmente.

- Ah, assim o desejo, ma chérie.

Rukia deu um passo atrás e sorriu calidamente para sua mãe.

- De maneira que sou meio irlandesa. Papai... Byakuya sabe? Por isso nunca me quis?

- Deves compreender, Rukia, que Byakuya não é um homem demonstrativo. Crê que és sua filha, mas desejava muito um filho varão. Os médicos disseram que eu não podia ter mais filhos porque tive problemas no seu nascimento. Talvez Byakuya esteja ressentido contigo porque não és o filho homem que desejava, mas a sua maneira te quer. É lamentável que não o demonstre, e sei que te fez muito triste.

- Passei a maior parte de minha vida tentando ganhar a aprovação de Byakuya, e ele não é meu verdadeiro pai - refletiu Rukia. - Procurava o amor de um homem que não podia dar-me.

- Eu lamento, Rukia. Creio que devia ter-lhe dito a verdade quando eras pequena mas não pude. Não é algo fácil de admitir. Mas deves seguir chamando Byakuya de pai. Tive um medo mortal de que nascesses com os cabelos cor de vinho como Shihouin. Mas felizmente tens os cabelos negros e os olhos mutantes, ora violeta, ora azuis, assim como o meu pai. Porém, esses teus olhos podem converter-se num obstáculo. Não podes ocultar teus sentimentos com uns olhos assim, veja como estão neste momento, na cor azul escuro, indicam-me que estás feliz.

- Está caçoando de mim!

- Não, ma chérie. Agora teus olhos estão mudando para uma cor violeta - riu Hisana - Sei que deve ser inquietante inteirar-se de que não pode ocultar seus sentimentos, porque teus olhos sempre dizem a verdade.

- Mas, por que eu não me tinha dado conta? Sempre pensei que meus olhos eram azuis.

- Porque quando estás irritada ou alterada, raras vezes te olhas no espelho. Fazes o mesmo que teu verdadeiro pai. Passeias, pois não podes ficar quieta. Herdaste muitas coisas de Shihouin, inclusive sua teimosia irlandesa. Mas não te preocupes por teus olhos, ma chérie. Não são muitos que percebem estas mudanças e sempre podes dizer que mudam por causa da luz.

- Por que não te foste com Shihouin, mamãe? Por que ficaste aqui e renunciaste a tua felicidade?

- Shihouin tinha que voltar para seu barco, e eu não podia ir com ele, especialmente porque já sabia que estava grávida de ti. Ele era um marinheiro comum, ainda que isto não me importava muito, mas queria fazer fortuna antes de levar-me com ele. Prometeu voltar a procurar-me, e eu o esperei muitos anos antes de perder as esperanças. Não me agrada pensar por que não voltou. Prefiro pensar que encontrou um novo amor em outra terra e não que morreu...

Rukia se entristeceu ao pensar que sua mãe nunca saberia a verdadeira razão.

-Sabia que eu estava à caminho?

-Sim. Gostaria que ele tivesse conhecido sua bela filha.

Mais tarde, quando Hisana já tinha ido dormir, Rukia se sentou em frente a penteadeira para olhar-se no espelho. Perguntou-se por que o conde Ichimaru a teria eleito como esposa. Pensava que era bonita, mas não que era tão formosa como sua mãe dizia. Tinha um nariz ligeiramente curvado na ponta, um rosto ovalado, mas lhe parecia que seus olhos eram grandes demais. Sua pele pálida era suave, perfeita, mas seus cabelos negros eram lisos e não encaracolados, como pedia a moda, e ela os odiava.

Não se parecia com as moças da escola, que caçoavam de seu aspecto diferente. Ela era muito baixinha, bem mais do que as já pequenas francesas. E em lugar de ter peitos cheios e curvas arredondadas, era bem magra. Seus seios não eram fartos, mas tinham formosa forma, de maneira que lhe pareciam satisfatórios. Mas odiava seus quadris. Eram estreitos, demasiado estreitos, na realidade... Gostava que sua mãe lhe dissesse que era bela, embora soubesse que isso não era verdadeiro. Só aos seus olhos o era, porque ela a amava. Sentiria muitas saudades de sua mãe.

Sua revelação realmente não a perturbou. De certo modo, pareceu-lhe que a liberavam de um grande peso. Ela era... tinha ouvido os criados usarem a palavra e conhecia seu significado... Ela era uma bastarda. Mas que importava? Ninguém sabia, exceto sua mãe. Rukia desejava que Shihouin tivesse voltado e agora também se perguntava o que teria lhe acontecido. Talvez tivesse morrido num naufrágio, ou o teriam matado? Ou ainda cruzava os mares procurando uma fortuna para trazer à sua mãe? A explicação que mais lhe agradava era esta última. Seu pai ainda podia voltar depois de todos estes anos, e todos iriam viver em Saint Martin.

- Ai, Rukia, sonhas demasiado - sussurrou em voz alta. - Devo enfrentar a realidade. Irei encontrar-me com um desconhecido e viverei com ele como sua obediente esposa. Bem, talvez não seja tão obediente. - Riu. - Mas serei sua esposa e... nem sequer sei como é! Talvez seja baixo e gordo, ou velho. Devo perguntar a mamãe como é. Também pode ser jovem e bonito. Sim, me elegeu. Devo recordar isso.

Bocejou, depois olhou uma vez mais seus olhos azuis no espelho, escuros como safiras.

- Seguramente mamãe me caçoava. Como é possível que os olhos mudem de cor?

Rukia se pôs em pé e foi para a grande cama com dossel, com suas cortinas de cor rosa e branco. Meteu-se sob os cobertores e jogou seus longos cabelos soltos a um lado do travesseiro.

Pensava tantas coisas que demorou muito tempo para dormir.

============ Fim do Capítulo 2============