A lâmina sibilou no ar, correndo numa trajetória reta e certeira até atingir a base do crânio do Blood Mage.
– Uuuf! Obrigado, Rivaini! – exclamou Varric, que estava justamente sob o efeito de uma magia paralisante deste mago, sendo liberado dela na sequencia.
– Ah, se não sou eu para te salvar! – sorriu a pirata, fazendo pose. – Quem mais ia...?
Ela parou a frase quando uma das flechas da balestra do anão passou rente ao seu rosto. Por um momento a pirata pensou que Varric a estivesse atacando, mas quando olhou para trás viu o sorrateiro assassino de roupas escuras cair de costas com uma flecha entre os olhos.
– E se não sou EU para lhe salvar! – riu o príncipe mercador.
– É isso aí! Eu te salvo, tu me salva, ele me salva... todos se salvam!
Quem disse aquela última frase foi Marian Hawke. Ao redor dela havia um longo arco de cadáveres que foram partidos ao meio. A poderosa guerreira carregava nos ombros uma enorme espada tingida de sangue, responsável pela morte de pelo menos metade daqueles inimigos caídos naquela viela suja de Lowtown. Logo atrás dela veio Anders. O curandeiro ergueu seu cajado e um frescor suave percorreu o corpo do quatro aventureiros. A magia de cura do apostate era poderosa.
– Terminamos por hoje. Só por hoje. – o mago suspirou. – Estão todos bem? Foi suficiente?
– Claro que foi, querido. – sorriu a guerreira, dando um selinho no seu amado curandeiro. – Embora eu prefira outros tipos de arrepio.
Enquanto os dois se beijavam Varric e Isabela olharam um para o outro em sinal de troça conjunta. Adoravam ver aquelas cenas românticas entre sua líder e o mago. A guerreira com seus cabelos curtos, músculos torneados e quase um palmo mais alta que o apostate, parecia que era ela o homem da relação.
– Que tal uma passada no Hanged Man antes de dormir? – sugeriu Hawke. – Tenho certeza que deve ter cerveja boa e que Varric já deve ter terminado outra de suas novelas sujas para ler para nós.
– Ainda estou terminando. – disse o anão, rindo. – Eu poderia escrever mais rápido se tivesse inspiração. Que tal você e Anders darem mais detalhes sobre os seus hábitos noturnos?
– Varric! – exclamou o mago, em protesto.
– Hahaha! Se eu fizer isso você vai ter que me pagar direitos depois do livro publicado! – a gargalhada da mulher retumbou feito trovão. – Oh, mas esqueça! Sei que você vai contar minhas histórias independente de eu permitir ou não.
– As biografias não-autorizadas são as que vendem mais.
– Vamos pular o Hanged Man por hoje. – Anders tentou encerrar a conversa. – Venha, Marian. Nós dois ainda precisamos discutir alguns assuntos em particular. Na minha clínica.
O casal foi-se embora, deixando o bardo e a pirata sozinhos na rua. Sem precisar dizer uma só palavra, ambos começaram a caminhar juntos de volta para a taverna. Nos últimos seis anos aquele foi o lar de ambos. O anão ainda sentia-se incomodado em viver na mansão Tethras desde a morte do seu irmão. Preferia muito mais passar as noites no seu quarto da Hanged Man, que era só seu havia anos.
Isabela nem quarto precisava. Dormia entre as cadeiras e mesas do andar de baixo da taverna ou então na casa de algum homem – ou alguma mulher – da cidade. Mas naquele dia ela queria muito deitar numa cama macia. De preferência na companhia de alguém.
A pirata entrelaçou os dedos em torno dos dedos da mão enluvada de Varric.
O anão teve um pequeno sobressalto e teve que deter um passo, obrigando Isabela à puxa-lo para que voltasse a andar. Ele ia abrir a boca para dizer alguma coisa, mas a pirata o cortou:
– Sua luva está pegajosa de sangue. Bianca não fica horrorizada quando você toca nela com estas mãos?
– Bianca já está acostumada ao meu toque. – o anão sorriu. – Além disso eu a encero todas as noites. Ela não tem do que reclamar.
Isabela ficou pensando em que tipo de coisa Varric devia "encerar" todas as noites. Seis anos já haviam se passado. A pirata já havia se deitado com Hawke, com Fenris num dia de bebedeira, dado um agarro em Anders e um beijo em Merrill. Até na Aveline ela já havia bulinado, embora na sequencia tenha levado um ardido tapa na cara, que só serviu para excitá-la ainda mais. Agora com Varric ela nunca tinha feito coisa alguma. Aquela poderia ser sua oportunidade.
– Você fala muito de Bianca, mas gostaria muito de saber se existe alguma mulher, ou algum homem, de carne e osso com quem você costuma passar as noites.
– Bem... – o anão pareceu incomodado. – Você deve ter reparado que Kirkwall não há muitas opções de damas da minha raça.
– É verdade! Eu não tenho visto muitas anãs em Kirkwall nestes últimos anos. Onde elas estão, Varric? Estão todas escondidas dentro do seu armário?
– E talvez eu tenha perdido todas elas assim como metade dos meus pares de meia. – ele riu.
– Você só gosta de anãs? – a pirata apertou a mão dele com mais força. – Nunca teve uma mulher alta como companhia noturna?
– Sim, já tive. – sua respiração parou por um instante. – Mas não gostei muito. Vocês, humanas e elfas, têm muita perna. Um exagero. Dá trabalho demais.
– Oh, você não teria trabalho nenhum comigo. – a mão da pirata soltou-se da dele e agora envolvia o seu pescoço. – Eu tomaria toda a iniciativa. Você só teria que ficar parado e minhas mãos é que iam...
– Rivaini. – o anão gentilmente tirou a mão dela de seu ombro. – Seus assuntos são sempre os mesmos. Você só pensa em sexo?
– Eu prefiro fazer do que pensar. – a pirata sentiu-se um pouco magoada com a recusa. Não era comum para ela alguém evitar o seu toque. – E com você eu tenho mais pensado do que feito. Alias, nunca fizemos.
Os dois pararam de andar um instante, há poucos metros da Hanged Man. Varric a observava com olhos tristes e Isabela não conseguia entender o porquê daquela súbita mágoa. Ela já tinha visto centenas de homens e mulheres consternadas porque ela não lhes deu atenção, mas era a primeira vez que ela via alguém que parecia infeliz porque ela ESTAVA dando atenção.
– Não. – ele disse, por fim. – É melhor assim. Temos uma amizade tão boa. Eu e você bebendo juntos, trapaceando nas cartas juntos, dividindo histórias juntos, inventando apelidos engraçados para nossos companheiros juntos. – o anão suspirou. – Não gostaria que isso acabasse.
– Acabasse? Mas, Varric... o fato de dividirmos a cama uma ou duas vezes mudaria tanto as coisas assim? – ela passou sua mão suave no rosto de barba por fazer do anão. – Nós continuaríamos amigos! Continuaríamos a fazer as mesmas coisas, nos divertiríamos do mesmo jeito. Lutaríamos lado a lado da mesma forma. – sua mão passou para o colar de ouro que o príncipe mercador tinha no pescoço. – Não mudaria nada. Bem, talvez as piadinhas sujas entre nós ficariam mais frequentes, mas qual o problema nisso? Indiferente do que poderia acontecer nestas noites, indiferente da sua performance ser boa ou ruim... – agora os dedos delas deslizavam pelo cabelo do peito do anão, alcançando um de seus mamilos dentro da túnica. – Ainda continuaríamos amigos. Continuaria a ser tudo igual.
– Não. – resoluto, Varric tirou a mão da pirata de dentro de sua roupa. – Não continuaria.
– Mas, Varric...
– Não, Isabela! – ele ordenou, por fim. E a pirata ficou chocada ao ouvir seu nome ao invés do seu apelido. – Por favor, não continue forçando isto. – e girou nos calcanhares para ir até a taverna o mais rápido possível.
– Espere! – ela o alcançou, puxando-o pela gola do seu casaco. – Pelo menos um beijo? Nem isso você não poderia me dar?
Varric olhou para ela e era possível ver a dúvida pairando em seus olhos. Antes que ele dissesse outro "não" a pirata o agarrou pelo colarinho, baixou a cabeça e o beijou.
Por um momento o mundo desapareceu em volta deles. Os dedos da pirata agarraram com força os ombros largos e os cabelos dourados do pequeno homem. Os braços fortes do anão envolveram a cintura dela como se jamais fossem soltar novamente, enquanto sua boca esfomeada roçava na dela quase com violência. Rosnados de excitação brotavam do fundo da garganta de ambos.
"Ele me deseja!" ela pensou, agora tendo certeza. "Ele me quer! Eu posso sentir a necessidade profunda dele em sua língua, em suas mãos..." os dois interromperam o beijo em busca de ar.
– Ah, Varric. – ela sorria, respirando pesado. – Então você...
– Pronto. – o anão fechou os olhos e a empurrou. – Você ganhou... o seu beijo. – ele deu um longo suspirou e curvou-se um pouco para frente, levando uma das mãos até a cintura, como se quisesse esconder alguma coisa. – Espero que esteja satisfeita.
– Satisfeita? – ela arregalou os olhos. – Pelo clitóris de Andraste, Varric! Eu quero mais!
– Não... – ele baixou a cabeça. – Eu tenho... muito trabalho esta noite. E acho melhor você passar a noite fora. Procure outro lugar para dormir.
– Mas...
– Até amanhã, Rivaini.
Andando o mais depressa que suas curtas pernas permitiam, o anão alcançou a porta da Hanged Man e desapareceu lá dentro. Isabela ficou parada no meio da rua, confusa. Podia entender uma reação dessas se Varric fosse um homem comprometido e tivesse que lutar contra os seus instintos para preservar um relacionamento "Que Bianca o quê!" ela pensou, irritada.
A pirata bufou e resolveu passar aquela noite perambulando pelas ruas. A recusa do príncipe mercador apenas havia lhe atiçado mais. Aquele beijo... ela passava os dedos nos lábios ainda úmidos, pensando que fazia muito tempo que ninguém lhe beijava assim. Fazia muito tempo que ela não tinha um companheiro de cama decente. E imaginou que o anão deveria ser esplêndido fazendo amor.
– Eu não sei que amarras são estas que estão te prendendo, Varric. Mas eu juro que vou desfazer estes nós. – ela lançou um olhar para a taverna. – Nem que tenha que cortar todos eles com uma faca!
