Capítulo 01 – Freyr e sua Yamato Nadeshiko

-Ahhh!!!

-Algum problema, Mayura-san?

-Eu desisto, Yamino-kun! Nunca vou entender como esses cálculos funcionam. Desse jeito não vou passar nas provas finais...

Yamino lhe serve mais uma xícara de chá, sorrindo.

-Hahahaha! – ri o deus trovão, satisfeito. – Pois por mim hoje já basta. Essas provas vão ser moleza!

-Chato...

-Eu ainda não entendo o porquê de vocês estudarem sempre aqui... – a voz desinteressada de Loki adentra a sala, cortando os risos de Narugami-kun.

-Ora, por que mais seria? Pelo chá do Megane-kun! (n.a.: megane óculos)

Loki dá de ombros, se sentando ao lado de Mayura, olhando de canto as lições das quais a menina tanto reclamava.

-Mas você não se incomoda não é, Loki-kun? – ela sorri, como se assim impedisse o deus-garoto em lhe dar uma resposta contrária.

-Mayura, você ainda não terminou nem metade das lições! Já são quase quatro horas, desse jeito você não vai conseguir mesmo...

-Não diga uma coisa dessas Loki-kun! Se eu não passar, vou ter um mês de aula de reforço e você vai perder sua linda assistente!

Narugami balança a cabeça, concordando com Loki.

-Mas ele está certo, Daidouji. Já são quase quatro horas e você... Ah, deuses!!! Eu vou perder a hora!

E sem terminar a frase, o esforçado deus trovão sai como um raio da sala de jantar, trombando com alguém na porta. Da sala, Loki ouve o barulho e os gritos de Thor.

-Ei, Freyr! Saia do meu caminho, estou atrasado!

Sem nem mesmo notar a estranheza daquele fato, ele se foi. Porém, Loki notou, e num segundo estava na porta de sua casa, olhando firme às duas figuras paradas em sua porta.

-O que faz aqui, Heimdall?

-Feh, não se anime Loki. Hoje eu só vim acompanhar Freyr.

-Freyr?

Loki volta sua atenção ao jovem deus em sua porta, vestido com as mesmas e estranhas roupas galantes e antiquadas, empunhando um buquê de flores. Seus pensamentos mal tiveram tempo de se colocar em ordem, quando a voz de Mayura lhe acendeu pelas costas, num arrepio.

-Loki-kun, quem são? Ah, Kaitou-kun! E... Higashiyama-san?

Mayura olha envergonhada para Heimdall, aquele estranho que lhe beijara os lábios na primeira vez que se conheceram, como forma de um cumprimento estrangeiro. Fosse o que fosse, ainda a envergonhava.

Mesmo assim, educadamente sorri.

-Me chame de Kazumi, Mayura-chan!

E o deus cinicamente sorri, se voltando pra Loki. Se soubesse antes que ajudar Freyr com sua Yamato Nadeshiko fosse lhe dar tanto prazer...

-Ah! Hai! Konnichiwa, Kazumi-san! Kaitou-kun!

-Ah... Yamato Nadeshiko!

- Já pedi que não me chamasse assim!

Loki nota o rubor consumir as faces do jovem deus, totalmente desconcertado. Então era isso? Ora...

-Hei, Freyr-san, ainda não me disse o que veio fazer aqui. – ele cutuca, fazendo graça do tímido deus apaixonado.

-Her... bem... – ele ri, as mãos na nuca, em total desconcerto.

Heimdall percebe o prazer de Loki em embaraçar o pobre Freyr, na frente da inocente - até demais - Mayura.

Ah! Mas ele não deixaria assim por menos... sabia o que aquela garota fazia no coração do deus trapaceiro...

-Não vai nos convidar pra entrar, Loki-kun?

-Ah, sim, Loki-kun! – diz Mayura, sorrindo.

Pronto, a menina havia dado seu golpe. Loki desfere um olhar febril sobre Heimdall, mas sorri, os convidando até seu escritório. Maldito!

Mas enfim, parecia ser apenas um encontro de paz...

-Yamino-kun.

-Hai, Loki-sama. – diz o deus serpente, arregalando-se a notar os novos presentes na casa.

-Leve chá e bolo para o escritório.

-Hai, Loki-sama.

Ele sobe as escadas até o escritório, onde um nobre cãozinho dorme no sofá, ao lado de Ecchan, que voa até a mesa. Loki lhe sussurra algo ao ouvido e, lhe abrindo os braços para que Fenrir se aconchegasse entre eles, se senta em sua poltrona.

-Então?

Loki sorri para Heimdall, este parado na janela, como se quisesse ficar à parte dos acontecimentos dentro daquela sala.

-Deve ser mais um mistério!

-Creio que não, Mayura-san.

-Iie? – diz Mayura, chorosa ao comentário de Loki.

Ela dirige o olhar a Freyr, que permanecia em pé. Num impulso, o jovem deus se atira aos pés de Mayura, abaixando a cabeça entre os braços que se esticam para oferecer a ela as rosas que trouxera.

-Nani???? – Mayura se assusta, levantando os pés até o sofá.

-Por favor, Yamato Nadeshiko, aceite minha oferenda em nome do enorme afeto que cultivo em sua honra! Onegay!

-Nanda??? – a menina grita, atônita.

-Onegay, onegay! – ele empurra as flores para suas mãos.

Mayura solta uma leve risada, chamando a atenção de Heimdall, que se volta da janela, de Loki e Fenrir, curiosos sobre a cena, e do próprio Freyr, que lhe sentia o coração falhar.

Ela segura as flores, as aceitando, e sorri:

-Gomen ne, Freyr-san, mas não entendi nada do que quis dizer!

O chão quase falta para todos os queixos que, perplexos, caem.

Loki não contém o riso, o abafando entre as mãos. Mayura era tão boba às vezes, não saberia distinguir uma gentileza de um interesse maior... não, realmente não sabia.

Mas Heimdall não estaria lá à toa...

-Freyr quer dizer que gosta de você, Mayura-chan. Humph.

E se vira de volta à janela, quase sentindo, como um doce entre os lábios, o gosto do espanto em Freyr e Loki.

-Isso eu já sabia! – ela sorri, encerrando o pouco chão que ainda restava para a surpresa dos dois deuses naquele recinto.

Parecia que apenas Heimdall se divertia com a cena. E Fenrir, embora o lobo em forma de cachorro quase não entendesse o que estava acontecendo.

-Freyr sempre foi muito gentil e...

Era isso o que ela sabia? Loki solta um leve riso, como se voltasse a reconhecer a estabanada ningen que lhe era assistente.

Mas antes que ela pudesse terminar, Freyr lhe toma as mãos, e ainda de joelhos, lhe faz um pedido.

-Você aceitaria sair comigo, Mayura-san?

-Uuuummm eeenncontro???

A menina treme, diante da situação. Um encontro? Nunca tivera um encontro... e Freyr era um rapaz muito bonito, parecia gostar e respeitar muita a menina... mas... ali... na frente de...

-Hai, Yamato Nadeshiko!

-Demo...?

-Freyr pode ir buscar Yamato Nadeshiko onde e quando ela quiser... amanhã, Freyr vem à casa de Loki e busca sua mulher!

Um encontro...?

-Seria bom a senhorita se distrair um pouco, depois de tanto estudar, Mayura-san!– sorri Yamino, que há pouco entrara e deixava a bandeja de chá e bolo sobre a mesa, só então notando o olhar sério de seu pai sobre si.

O que dissera de errado?

-Ah... sim. Mas eu tenho que estudar pra prova de Matemática...

-Heimdall-sama é bom em Matemática.

-NANDA???

Mas o grito irritado de Heimdall foi devidamente ignorado pelo sorriso nervoso de Freyr.

-Freyr jura ajudar Yamato Nadeshiko, sempre que preciso for!

E dizendo isso, fez o coração de Mayura se apertar. Não era a primeira vez que ele se oferecia pra salvá-la de algum problema. Ele já havia até se matriculado uma vez na mesma escola que ela só para que seu clube de Mistérios não fechasse...

Ela olha de soslaio para Loki, que se mantém de rosto virado, as mãos apoiando o rosto e o cotovelo sobre a mesa, numa expressão vaga e entediada com tudo aquilo.

Ela suspira e sorri de volta para Freyr.

Humm... afinal, que mal teria? Precisava mesmo de ajuda, e Loki não parecia interessado a ajudá-la a estudar. Além disso, não sabia como era um encontro... Seria mais que um mistério um encontro com o verdadeiro ladrão-fantasma!

-Arigatô, e aceito, Freyr-kun!

-Ah! Yamato Nadeshiko!

Freyr era só sorriso, junto a Heimdall, que pela janela refletia o pensamento sobre a reação de Loki, que permanecia paralisado e alheio em sua mesa.

Talvez até ajudasse aquela menina com seus estudos, se isso continuasse a corroer Loki daquela forma.

Yamino também sorria. Percebia as boas intenções de Freyr quanto à moça, não haveria mal nenhum um simples encontro...

Porém, não era isso o que os olhos de Loki diziam.

-Humphs, então vamos Freyr.

-Hai! Amanhã Freyr vem aqui buscar Yamato Nadeshiko...

Os dois deixam o escritório, acompanhados de Mayura e Yamino.

Loki parece enfim despertar com o barulho da porta.

-Aqui?!

Em seu colo, Fenrir ronrona ao pai.

-Daddy, o senhor está preocupado com a "garota mistery"?

-É só um encontro, Fenrir. Não acho que Freyr tenha más intenções com ela.

-Mas e Heimdall?

-Quando ele decidiu também ficar no mundo dos homens, contrariou a vontade de Odin. Duvido que esteja planejando algum tipo de vingança sobre mim...

Loki continua a acariciar o filho em seu colo, pensativo. Mayura aceitara o encontro. Sim, era natural que ela fosse cortejada, e aceitasse aqueles que a agradasse.

De súbito se viu recordando daquela cena em seu escritório, em que a pegara bisbilhotando por lá. Isso não saía de sua cabeça... a frase que ela manteve presa na garganta... o que diabos o fazia lembrar daquilo naquele momento?

-Daddy! Daddy!

-O que foi, Fenrir?

-Por que Daddy não convidou antes a garota mistery pra sair?

-Não diga tolices, Fenrir...

-Mas Daddy...

Loki tinha uma resposta pronta, mas a calou. "Porque eu sou apenas um menino aos olhos dela..."??????

Porque a convidaria pra sair, se a tinha lhe aborrecendo todas as tardes em sua própria casa?? E por que teria que receber de si mesmo uma resposta como aquela??

Olha-se de reflexo na janela.

Suspira, calado e pensativo, enquanto volta a acariciar os pêlos do cãozinho em seu colo.

-Sayonara!!!

Yamino e Mayura se despedem dos dois deuses, se voltando para dentro. Mayura pára junto à porta, os olhos perdidos no chão.

-Está tudo bem, senhorita Mayura?

-Hai, Yamino-san... demo...

-Hai, Mayura-san.

A menina enche os pulmões de coragem e ar, satisfeita com o sorriso do amigo.

-Yamino-san, o que se faz num encontro?

O deus serpente se pega desprevenido. Mayura não sabia como era um encontro, mas como ele poderia saber? Não era humano, embora conhecesse seus modos, não sabia muito sobre seus momentos particulares ou íntimos...

-Bem... – ele arrisca – Acho que quando duas pessoas se gostam, elas saem pra se conhecer melhor e se divertirem juntas... se isso as faz felizes, elas começam a namorar... eu acho!

-Namorar???

-Você nunca namorou, Mayura-san?

-Ah! Iie, nunca!

-Nunca se interessou por ninguém? – Yamino nota o olhar trêmulo que a menina lhe lança, logo virando o rosto. – Ah, gomen ne, Mayura-san! Não quis ser atrevido... eu...

-Como eu poderia, Yamino-kun?

Ela lhe devolve um sorriso pálido, os olhos apertados no sorriso, guardando um fiapo de aflição entre eles.

Antes que o deus lhe respondesse, ela se volta pra dentro, com sua habitual alegria e total falta de jeito. Yamino deixou seus olhos seguirem a jovem ningen pelas escadas, pensando no que aquele murmúrio poderia ter realmente dito...