Obrigada Black-Foxy, pela review! Fico feliz por teres gostado! :D
A partir de agora, haverá pequenas expressões em japonês. Como são bastante simples, não vejo necessidade de um glossário. Se estiver enganada, é só dizer, que coloco um. (:
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Capítulo II –Suzu–
Batia ligeiramente o dedo no seu joelho, à medida que observava o movimentado pátio. Fitou as simples brincadeiras de todos os órfãos, que aproveitavam aqueles minutos fora para relaxar. Um grupo à esquerda jogava à apanhada, algumas raparigas ao fundo brincavam com bonecas, imaginando-se num local e vida algo diferentes dos que tinham agora, enquanto que outras haviam-se juntado numa imperfeita roda e cantarolavam alegremente, enchendo a tarde com as suas melodiosas canções.
Todo o pátio parecia ganhar uma nova cor quando se encontrava tão animado.
Ryuuzaki, no entanto, tomava a posição de um mero espectador, admirando a infantilidade que aquelas crianças traziam em si, infantilidade essa que ele já há algum tempo havia perdido.
Aquele orfanato tinha um objectivo claro, todos eles estavam cientes disso. Sabiam que iriam ser formados de acordo com as suas excelentes capacidades mentais para, mais tarde, usá-las para ajudar o mundo da melhor forma. No entanto, havia uma outra verdade de que todos já se tinham apercebido.
O maior cargo seria ocupado, indubitavelmente, por aquele magro rapaz que se encontrava estranhamente sentado no seu habitual banco.
Por causa disso, havia-se formado um espécie de escudo que separava Ryuuzaki do resto do orfanato. Os mais velhos invejavam-no; os mais novos respeitavam-no a ponto de o temer. Claro que ele já se apercebera dos olhares lançados contra si cada vez que passava por alguém nos corredores, mas simplesmente ignorava-os. Tinha uma teoria: o facto de sentirmos falta de algo que nunca tivemos é meramente ilusório, pois não podemos sentir falta de algo com o qual nunca vivemos.
Era por essa razão que não sentia a falta de ter uma amizade.
Suspirou levemente, acomodando-se. O seu olhar fixou-se no horizonte, à medida que tentava tirar aqueles pensamentos da sua mente. A brisa algo fria brincava com os seus pés descalços, provocando-lhe uma sensação de algum relaxamento. Mirou-os por segundos, mexendo-os ligeiramente.
Foi nesse momento que sentiu uma pequena mão no seu ombro.
Virou-se energicamente, as suas orbes negras dilatadas de surpresa. Aquela mão pertencia à menina do dia anterior, desta vez perfeitamente acordada. Os seus cabelos ruivos cortinavam o seu suave rosto sem o esconder, deixando à vista uma face rosada. Tinha bochechas grandes, próprias da idade, e uma bonita fita branca afastava a franja da sua testa. Um outro vestido, desta vez azul, ornava o seu baixo corpo, que ainda segurava na almofada em forma de flor. No entanto, a sua outra mão também estava ocupada, mas por um vermelho chupa-chupa.
Era, em poucas palavras, uma beleza emoldurada no puro.
O rapaz fitou-a estranhamente, não habituado a que outra criança interagisse com ele. Passando a fina mão pela borda do banco, a rapariga contornou-o, sentando-se mesmo ao lado dele, pousando a cerúlea almofada no seu colo, apertando-a contra si. Ficou lá por alguns minutos, fazendo com que, à medida que o tempo passava, o rapaz fosse ficando menos tenso e começasse até a ignorar aquela estranha presença ao seu lado. Mas ele sabia, melhor do que ninguém, que nunca conseguiria ignorá-la na totalidade.
Afinal de contas, ela tinha um chupa-chupa na mão.
Mirava-o pelo canto do olho, imaginando a bela relação que poderia estar a partilhar com ele naquele momento. Sabia que a gula era o seu maior pecado, mas simplesmente não o consegui eliminar; na verdade, nem se esforçava muito para tal.
A menina, no entanto, fitava o vazio, sem ter ainda olhado para Ryuuzaki desde que tinha chegado. Abraçava a almofada em sua posse, balançando desordenadamente os pés que, enquanto estava sentada, não conseguiam tocar no chão. O rapaz observava-a, desta vez não intimidado, mas sim curioso. De repente, ela pareceu ganhar coragem, à medida que os seus lábios finalmente se moveram.
- Ano... – hesitou, antes de respirar fundo e continuar. – És o Ryuu-chan, não és? Uma ama disse-me que me viste chegar ontem e para tentar falar contigo. Ela deu-me isto para te entregar.
E ergueu o chupa-chupa tal qual a doce armadilha que era.
Não respondeu, mas pegou nele e abriu-o sofregamente, enfiando-o na boca pouco depois. Fechou os olhos em deleite: o seu preferido. Encostou-o ao canto da boca para libertar a língua e conseguir falar.
- Hai, sou eu – confirmou, voltando a mover o doce para uma posição mais favorável.
Foi a vez de ela não responder, o seu olhar ainda preso ao profundo horizonte. Uma suave brisa brincou com os seus ruivos cabelos, despenteando-a ligeiramente. Ryuuzaki apenas se importava com a sua doçura, pouco ligando ao mundo alheio à sua volta; naquele momento, tinha tudo o que precisava.
- Eto...
Virou-se para a fonte daquela voz doce, puxando o seu rúbido prazer para o exterior no processo. Prosseguiu:
- Não me vais perguntar o meu nome?
Semicerrou os seus olhos, fitando-a interrogativamente. Era suposto fazê-lo? Bem, afinal de contas, ela tinha-lhe proporcionado um singelo momento de alegria; era o mínimo que podia fazer. Realmente, ele não sabia interagir com os outros. Muitos anos à sombra tinham-lhe afectado o seu senso social.
- Hum... Anata wa...?
- Suzu desu – concluiu, sorrindo por fim.
Fitou o seu alegre rosto, não conseguindo evitar sorrir também face à sua jubilosa expressão. Tal como qualquer criança, para ela a simplicidade, muitas vezes, igualava a satisfação. Desviou o seu olhar, voltando a mirar o pátio em frente a si.
Suzu. Pensava no dia anterior, em que os sinos tinham tão acertadamente acompanhado a chegada dela, e agora sabia que o seu nome também estava relacionado com eles. Afinal de contas, Suzu era uma das maneiras de se referir aos ditos sinos. Olhou para a capela que se encontrava perto do orfanato, perguntando-se como era possível tal coincidência acontecer. Suspirou, voltando a fitar os seus pés descalços.
Por sua vez, o olhar de Suzu continuava em linha recta, sem nunca se desviar. Apertava a almofada com as duas mãos, segurando-a como se ela a conseguisse proteger de algo que temia. Sobressaltou-se quando ouviu a campainha do orfanato, obviamente ainda não habituada a ela. Aquele toque era o sinal de que era hora de voltar a entrar.
Ryuuzaki levantou-se, espreguiçando-se momentaneamente. Suzu, por sua vez, permaneceu sentada, ainda balançando os seus pés, parecendo um pouco perdida, poder-se-ia dizer. O rapaz suspirou, dirigindo-se a ela e pegando-lhe pela pequena mão, o que fez com que ela se levantasse e começassem os dois a caminhar de volta ao orfanato.
Afinal de contas, ele sabia que era educado ajudar as pessoas cegas quando elas precisavam.
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