Carinho

"(...) Mas vós, ó abençoada,

sorrides em vossa face imortal

e perguntais o que (agora novamente) eu sofri e por que

(agora novamente) estou gritando

e o que quero que aconteça mais do que tudo

em meu louco coração (...)"

Uma garça mirava fixamente o leito raso do pequeno lago, tentando distinguir em meio à água turva a presa que brincava distraída e inocente.

A seu exemplo, uma jovem de cabelos castanhos e encaracolados, sentada na grama da orla, também cobiçava a caça de pele muito alva que brincava na beira do espelho d'água, correndo com seus pezinhos descalços de um lado a outro e chutando de quando em vez as pequenas marolas que se formavam à margem, só que, ao contrário da analogia com a fauna, aquela presa já havia sido capturada, e não demonstrava vontade em escapar daquelas garras vorazes.

Ginny era só felicidade, havia descoberto um novo sentimento em seu peito. Sua amiga, companheira, confidente e, muitas vezes sua mestra se tornara também sua amante, e a transposição de sua vida de inocência para a de pecado ocorreu da maneira mais natural: suas almas se uniram, seus corpos se completaram e o coração de ambas passou a bater em sincronia.

A ruiva lançava de tempos em tempos olhares risonhos à sua consorte, sabia que lhe pertencia e se sentia satisfeita com isso.

Da mesma forma, Hermione apreciava aquela ninfa brincar sensualmente à sua volta, ela se espantara com o sentimento recíproco que eclodira insanamente: mas agora, ela iria lhe proporcionar a satisfação e os prazeres que bem merecia.

Com a respiração em descompasso, a criança sentou-se igualmente no gramado, de costas à outra e entre suas pernas, prendendo seus joelhos com os braços e depositando o rosto suado sobre eles.

Hermione reuniu-lhe os cabelos vermelho fogo num rabo-de-cavalo e lhe mordiscou levemente a parte traseira do pescoço, deixando a marca de sua saliva ali depositada.

— Tua boca é gostosa, Mione... – ela provocou.

— Tens o gosto bom!

— Não vejo a hora de sentir o teu... novamente. – lhe prometeu.


N/A: Safo já tomava parte da vida pública (na política e na poesia) aos 19 anos. O ditador Pitaco, temendo-lhe a escrita, condenou-a a um exílio mais distante, fora da ilha de Lesbos. Por volta de 591 a.C. parte para a Sicília, onde se casa com Andros e concebe uma filha, Cleis.