-Hyoga?-A voz dela não passou de um sopro que chegou suave a seus ouvidos. Estava agora sentada e mantinha as mãos uma de cada lado de seu belo corpo feminino.

-Me desculpe, a porta estava aberta e eu pensei que algo poderia estar errado... Que algo poderia ter acontecido - Apressou-se a responder enquanto sentia seu rosto queimar por ter sido flagrado em sua adoração silenciosa -Mas não percebo nada de errado apesar de eu não estar acostumado a entrar aqui em meio a tanta tranqüilidade... -e sorriu tentando disfarçar o seu embaraço. Ela sorriu docemente em resposta e levantou-se fazendo com que o vestido se ajustasse perfeitamente a seu corpo, evitando a todo custo olhá-lo nos olhos:

-Sinto muito ter incomodado, me esqueci completamente que não havia trancado a porta... -Informou fitando o chão - Por que não toma um chá comigo?-Convidou sorrindo novamente enquanto erguia a face em sua direção, o que fez com que ele se sentisse extremamente sem jeito pela beleza daquele sorriso de marfim.

-Anh... Não quero incomodar...Eu...-Tentava buscar uma resposta, enquanto sua mão esquerda se elevava involuntariamente até sua nuca, mesmo sabendo que a coisa que mais desejava era ficar mais tempo com o aroma adocicado e inebriante quando ela se aproximou:

-Acho que não entendeu... -E riu brevemente, deliciada com a presença dele, apontando para uma grande janela - Não tem escolha... A não ser que queira pegar um resfriado! -Advertiu fingindo-se séria como se estivesse avisando a uma das crianças sobre algo perigoso. Não queria que ele fosse embora, sentia-se segura a seu lado e queria estar com ele nem que por mais alguns minutos; a aparição repentina deixava-a perdida em meio a tanta surpresa e alegria.

De fato a chuva era torrencial e eles não haviam notado os trovões ensurdecedores que o temporal trazia até então, era como se em poucos instantes o céu viesse por terra. Olhou atônito o espetáculo que discorria do lado de fora e agradeceu intimamente em júbilo por aquele pequeno obstáculo que adiaria sua ida. Antes que desse por si ela já havia pego-lhe a mão e o puxava afim de guiá-lo até a cozinha, a mão dela era tão delicada e pequena posta em meio a sua, tão quente que ele não resistiu ao pequenino impulso de segurá-la com mais firmeza para prontamente ceder involuntariamente e acompanhá-la.

Chegaram à cozinha e a mão dela deslizou agilmente para afastar-se e retirar a chaleira onde já fervia a água deixando-o novamente só, em meio a pensamentos: como poderia explicar a qualquer um que fosse, e em sumo à ela, tudo o que despertava nele sempre que a via se sequer ele entendia ao certo tudo o que sentia, mesmo quando apenas pensava nela?Sorriu, ainda olhando cada movimento que ela realizava delicadamente enquanto preparava o chá, de fato seria, mesmo que tivessem notado seu modo de agir um tanto acanhado quando estavam na presença dela, realmente surpreendente a reação de seus amigos caso ele confirmasse seus sentimentos.Não os repreendia por esta possível e provável reação, afinal sempre fora muito reservado e extremamente fechado para assuntos que não fossem relacionados a lutas ou a inimigos e, para alguns que não o conheciam bem, era até mesmo considerado arrogante e indiferente, coisa que não o incomodara nunca e menos ainda agora que ela estava ali tão próxima irradiando sua encantadora presença.

Ela por sua vez sentia seu coração sufocando-a de tanto contentamento, sabia que ele estava sempre lutando ou aprimorando suas técnicas no instituto, mas mesmo assim sentia uma saudade desconcertante de estar próxima a ele. Ao virar-se se deparou surpresa com o imponente semblante masculino ainda de pé, trajava uma camiseta azul sem mangas, o que, mesmo com o frio que era anunciado, não era de se surpreender pelo fato dele praticamente não senti-lo, suas polainas alaranjadas de pêlos acrescentavam um tom um tanto selvagem e uma calça preta trazia ao conjunto um ar sério e misterioso.

-Por que não se senta?-os olhos azuis tão claros fitaram-na ainda constrangidos, não sabia o que fazer além de admirá-la e imaginar como seria bom se tivesse coragem o suficiente para envolvê-la nos braços e beijá-la. Assentiu com um breve sorriso e sentou-se na cadeira a sua frente.A chuva caia cada vez mais forte do lado de fora, ela já colocara o chá em ambas as xícaras e tomara seu lugar à mesa sentando-se à diagonal esquerda, não sabiam exatamente o que fazer e buscavam agir da forma mais natural possível, ora levando a xícara à boca, hora sorrindo buscando algum assunto ou algo que não soasse estúpido.