Há muitos quilômetros do bairro do Bronx, em Manhattan, uma conversa com o mesmo tema se desenrolava.

Sentado de modo desleixado e confortável no grande sofá de couro branco do apartamento que ficava no andar acima do seu, Mu narrava a Afrodite a extraordinária experiência de dividir um piano comunitário com um completo desconhecido na estação de metrô da Times Square.

Afrodite era sueco e dono de uma beleza ímpar. Contava com vinte e dois anos de vida dos quais pelo menos vinte deles havia atuado como modelo, já que a mãe, orgulhosa com toda a razão, o inserira no mundo da moda desde antes mesmo de ele conseguir dizer as primeiras palavras. Era alto, porte atlético, olhos de um azul tão cristalino que lembravam duas gemas de aquamarine e traziam impressos em si toda a bondade de uma alma generosa. Tinha os cabelos longos até pouco abaixo dos ombros num tom de loiro muito claro, perolado e os mantinha sempre soltos ao natural, até meio despenteados, para que lhe pudessem conferir um ar mais selvagem já que tinha a aparência bem andrógena. Viera aos Estados Unidos para cursar Moda em Columbia e se tornara melhor amigo de Mu logo no primeiro semestre por causa do time de Rugby, do qual faziam parte.

Naquele dia haviam passado a tarde juntos e agora relaxavam tomando umas cervejas enquanto conversavam na frente da televisão, que transmitia uma partida de futebol americano.

— Eu já te falei do músico lá do metrô, não falei? — disse empolgado o estudante de cinema que olhava para a tela sem assimilar nada do que via.

— Falou. — Afrodite respondeu com um riso nos lábios carnudos — Aliás, só de ontem para hoje, hum... deixa ver... umas cinco vezes. Ah! E contando com agora, seis vezes!

— E se eu te falar que encontrei com ele de novo hoje?

O sueco esticou as pernas pousando os pés sobre a mesa de centro enquanto dava um gole na cerveja.

— No mesmo lugar? No metrô? — perguntou curioso.

— Sim. Eu estava voltando do estágio e batata! Ele estava lá tocando o piano.

— E ai?

— E ai que eu fui até ele e de novo sentei ao seu lado na banqueta... Mas hoje ele parecia menos tímido, até olhou para mim e sorriu. — disse Mu com ar meio abobalhado e um tanto tímido — Ele toca tão bonito... Com a alma, sabe? Ele fecha os olhos e é como se o piano fizesse parte dele.

Afrodite olhou para o lado e analisou o rosto de Mu por um breve momento, então esticou o braço e segurou em seu queixo o fazendo virar a cabeça para seu lado.

— Pela careca de Jimmy Choo! Você está apaixonado por esse pianista misterioso! — foi categórico.

— O QUE? — Mu arregalou os olhos verdes surpreendido — Deixa de besteira, Afrodite. Eu nem sei quem é o cara.

— Ué, e desde quando a gente precisa saber quem é alguém para se apaixonar? Ao contrário, as vezes é justamente quando a gente conhece a pessoa que o encanto acaba. — riu divertido recolhendo a mão.

— Ah... não... Eu o vi apenas duas vezes e nem sequer trocamos uma palavra. — Mu negava dando um gole na cerveja meio incomodado.

— Nunca ouviu falar em amor à primeira vista? — provocou Afrodite aos risos.

— Eu não acredito nesse papo de amor à primeira vista ou paixões arrebatadoras... Isso existe e funciona apenas na arte, cinema, literatura... É coisa para Romeu e Julieta que mal se conheceram e já estavam se matando por amor. Aqui é a vida real. Eu só... sei lá, achei legal e interessante alguém tocar tão bem um piano velho no meio de uma estação de metrô... Mas...

— Mas? — Afrodite mordeu o lábio inferior para conter uma risada.

— Mas... ok, eu admito. Ele... ele é muito bonito. — levantou o olhar para um ponto qualquer na parede branca e foi desenhando com as lembranças em sua mente o rosto do pianista — E ele tem os olhos azuis mais lindos e incríveis que eu já vi em toda minha vida... Quando ele olhou para mim foi... Não sei explicar, mas foi diferente. Parecia que ele olhava através de mim, que ele via... além... — fez uma breve pausa — O momento que ele olhou para mim foi tão breve, mas arrebatadoramente instigante. Os olhos dele são como as paisagens geladas do Ártico, de um azul extraordinariamente claro e límpido, e assim como as águas dos gélidos mares, imperturbáveis. Em contrapartida, os cabelos dele são como raios da aurora, tão dourados que sentado ali, debaixo daquelas tantas luzes da estação, brilhavam como se tivessem luz própria... como se o próprio Sol tivesse descido do firmamento e sentado naquela banqueta para tocar o piano.

— Nossa senhora da passarela! É mais grave do que eu pensava! Você está fazendo poesia! — disse Afrodite encarando o rosto agora corado do amigo, até que de repente levantou-se do sofá com um pulo e surpreendeu Mu o agarrando pelo braço para faze-lo levantar também, então quando o estudante de cinema se deu conta estavam os dois girando no meio da sala, dançando uma falsa muda embalada pelos risos do sueco — Mu você não está só apaixonado por esse pianista do metrô. Eu sinto lhe dizer, mas você está de quatro por ele! Louco, fissurado! Com os quatro pneus da sua carrocinha arriados. Ah! Eu sabia! Sabia que uma hora isso ia acontecer!

Sem nem ter como rebater, até porque não podia mais negar, Mu riu junto do amigo deixando-se levar, afinal Afrodite o conhecia melhor que ninguém. Tinha sido ele, inclusive, quem o ajudou a entender melhor sua sexualidade e assumir sua orientação sexual. Mu já tinha namorado algumas garotas, mas depois de ficar com o amigo algumas vezes e fazerem sexo muitas, assumira-se gay de vez. Nunca houve envolvimento amoroso entre eles, apenas uma amizade colorida com muito respeito e cumplicidade, já que Afrodite tinha uma paixão louca por outro garoto do time de Rugby e nunca a escondeu de ninguém, tampouco de Mu.

Aquele frio na barriga característico dos apaixonados, a emoção, a ansiedade irrefreável em ver a pessoa desejada, os suspiros e arquejos ao longo do dia, e também da noite, isso tudo Mu só havia sentido uma vez... quando entrou na Grand Central Terminal naquela tarde e desligou os fones de ouvido esperando ouvir o piano.

— É... eu acho que me dei mal. — o estudante de cinema riu nervoso parando de dançar enquanto encarava o rosto animado do sueco — Ele nem fala comigo... ele... ele mal olha para mim. Eu chego lá, toco algumas notas e então ele me sede um pequeno espaço na banqueta. Eu sento e nós tocamos juntos uma ou duas músicas... Depois eu me levanto e aceno para ele, mas ele nunca acena de volta. Quando eu saio ele já está tocando novamente outra canção.

Mu falava enquanto voltava a se sentar no sofá meio desanimado sendo observado por Afrodite que agora tinha uma expressão de pesar no belo rosto.

— Para ele eu sou só um estranho que passa por ali, toca o piano por diversão e vai embora. — concluiu Mu.

— Não senhor! — disse Afrodite indo se sentar ao lado dele — Isso é o que você acha. O que ele pensa só ele pode saber, Mu. Não deve ficar deduzindo por si próprio os sentimentos dos outros. Se quer saber o que ele pensa realmente cabe a você descobrir. Vai perder quantas noites de sono e ganhar quantas linhas de expressão nessa cara linda ai deduzindo o que o pianista acha de você, ou vai resolver logo esse dilema?

— Resolver como?

— Ora como! Indo lá e conversando com ele. Vai, apresente-se para o seu Sol todo iluminado, chame ele para sair... Um cinema, depois um jantar, quem sabe... O máximo que pode acontecer é ele dizer que não é gay e você tomar um toco, e também isso não é o fim do mundo, né. — deu risada, depois voltou a ficar sério — Coisa que acho quase improvável, você tomar um toco, porque é praticamente impossível olhar para essa sua cara linda, para esse corpão todo esbelto, esses olhos, esse sorriso de derreter geleiras e não se apaixonar. E quer saber? Eu tenho certeza que esse seu rostinho lindo não sai da cabeça dele também. Ele deve ser tímido, então você tem que dar o primeiro passo.

Mu riu do amigo e o puxou para si lhe dando um abraço carinhoso.

— Só você mesmo para ser tão sonhador assim. Mas, eu vou pensar no assunto. — disse, então se afastou e apanhou a latinha de cerveja dando um último gole antes de se levantar novamente — Bom, preciso ir para minha casa, amanhã as aulas são puxadas e depois do trabalho quem sabe eu toque mais um pouco com o pianista misterioso?

— Aproveita e chama ele para sair, ou pega logo o telefone dele. — disse Afrodite enquanto acompanhava o amigo até a porta.

— Eu vou... tentar. — Mu sorriu despedindo-se do sueco com um abraço.

Já do lado de fora desceu as escadas até o andar debaixo pensativo. Quando entrou em seu apartamento foi direto ao banheiro, tomou um banho e logo se jogou na cama, estava exausto e a conversa com Afrodite o pusera ansioso. Deu um longo suspiro e virou-se para o lado para tentar pegar no sono, pois só assim, quem sabe, a lembrança do pianista do metrô abandonasse seus pensamentos e então poderia ter algumas horas de paz.

De manhã quando foi desperto pelo som irritante do despertador, espreguiçou-se entre os lençóis e logo a imagem do pianista voltou a preencher seus pensamentos feito uma ideia fixa alucinada. Por isso, saltou da cama decidido a sanar aquele dilema. Iria tentar uma aproximação mais abrangente, ainda que cautelosa, afinal não sabia nada sobre o outro, se tinha algum interesse em si, se já estava em um relacionamento com outra pessoa, nem ao menos sabia se ele era gay. Sua única certeza era que não poderia continuar naquele impasse ou enlouqueceria.

Assim, ao arrumar-se para começar aquele dia tomou um banho mais longo, ajeitou melhor os cabelos, perfumou-se mais do que de costume e escolheu uma roupa que julgava lhe cair bem, calça jeans justa e confortável, camiseta cinza claro de malha gola V com mangas longas puxadas até os cotovelos, um colete preto por cima para deixar o visual mais sério, lenço vinho comprido e bem fino jogado ao redor do pescoço para dar cor e um chapéu panamá escuro que lhe dava um ar descolado. Parecia ridículo, mas sentia como se no final da tarde tivesse um encontro marcado, e nunca desejou que as horas passassem tão rápido quanto naquele dia.

No famigerado bairro do Bronx, um jovem pianista repetia um ritual parecido algumas horas mais tarde.

Shaka tomou um banho demorado, depois já no quarto vestiu-se excepcionalmente com suas roupas mais novas. Algumas inscrições em braile nas gavetas e repartições do guarda-roupa o ajudavam a escolher as peças por cor e modelo, assim corria menos risco de cometer algum equívoco. Assim, escolheu uma camiseta branca de algodão e jeans escuros. Ali mesmo apanhou uma escova de cabelos e escovou as madeixas douradas meticulosamente. Perfumou-se mais do que de costume e com uma disposição nova foi até a cozinha, onde o irmão colocava a mesa para o almoço.

Tomado por uma ansiedade singular, Shaka engolia a comida com tanta pressa que parecia ter hora marcada para estar na Grand Central Station e tocar o piano.

Ao fim da refeição arrastou a cadeira, deu 3 passos até a pia onde depositou o prato vazio junto do copo e caminhou com passos precisos até o cabideiro ao lado da janela da sala.

— Estava deliciosa a comida. Obrigado, irmão. — disse enquanto vestia a jaqueta de brim tom de terra molhada e se sentava na poltrona ao lado para calçar os tênis.

Da cozinha Asmita olhou para ele enquanto recolhia a mesa.

— Já vai? Não é cedo ainda? — perguntou.

Shaka não respondeu. Sabia que o irmão não concordava com suas saídas, porém não podia impedi-lo. Por isso, terminado de calçar os tênis levantou-se, apanhou a bengala de alumínio já a desdobrando e pegou a mochila que estava em cima do sofá a colocando nas costas.

— Prometo que hoje chegarei antes que o Sol se ponha. Até mais tarde. — disse já girando a maçaneta da porta.

— Eu quero só ver! Até. — respondeu o mais velho com aparente desinteresse, mas assim que ouviu o portão ser batido do lado de fora da casa rapidamente deixou tudo que fazia, desligou o laptop que usava para trabalhar em casa justamente para poder ficar de olho em Shaka, e correu até o cabideiro para pegar seu casaco.

Há algum tempo que via o irmão ir quase todos os dias até a Grand Central Station para tocar piano, mas aquela foi a primeira vez que o vira se arrumar tanto e até se perfumar. Desconfiou de imediato que não era apenas o piano que o atraia àquela estação. Tinha certeza absoluta de que todo aquele capricho especial estava relacionado à conversa da noite anterior, por isso decidiu segui-lo.

Sabia que Shaka tinha excelente audição e olfato, então só quando o viu pela janela dobrar a esquina é que deixou a casa. Não precisava ser discreto, afinal o mais novo não podia vê-lo, mas precisava se manter distante o suficiente para não ser percebido pelo cheiro ou algum ruído familiar.

Assim, Asmita seguiu Shaka pelas ruas do Bronx com o coração aos pulos sempre que o via atravessar uma rua sozinho ou desviar de algum obstáculo nas calçadas, não esbarrando neles por um tris. Por vezes quis abandonar seu intento e correr até ele, toma-lo nos braços e leva-lo de volta para casa onde estaria sempre seguro sob seus olhos atentos, mas não podia fazer isso, infelizmente.

Chegaram à estação e já dentro do trem o mais velho se sentou no corredor oposto, quase de frente para o irmão, e olhando diretamente em seu rosto percebeu que ele sorria de maneira discreta enquanto tamborilava os dedos longos em uma das pernas.

Shaka estava ansioso. Dentro do peito seu coração batia acelerado. "Devo estar ficando louco. É só alguém que gosta de tocar piano.", pensou ele unindo as mãos e cruzando os dedos que estavam gelados, então deixou escapar um suspiro acompanhado de um riso cordato. "Tanta gente gosta de música. Mas, o cheiro é tão bom. O calor... Qual será a cor de seus cabelos? Quantos anos deve ter? Não tem cheiro de velho." riu novamente.

Quase de frente para ele Asmita o observava com o coração pesado. Shaka há muito não lhe parecia tão feliz e animado como agora e isso lhe causava certo pânico. Não queria que ele sofresse...

O aviso sonoro de que o trem havia chegado à 42 Street Station despertou os dois de seus pensamentos e eles levantaram dos assentos quase em sincronia.

Tateando o chão com a bengala Shaka saltou do vagão e logo atrás vinha Asmita, atento, até que pouco depois chegaram ao hall do terminal onde ficava o piano. O mais velho viu quando o irmão parou ao lado do instrumento, dobrou a bengala e a guardou na mochila, a qual colocou aos pés do piano, depois caminhou até a banqueta e se sentou.

Quando Shaka começou a tocar Asmita olhou em volta e procurou algum lugar para se sentar que ficasse mais afastado, mas que lhe desse uma visão perfeita do irmão ao piano.

Como fazia de costume Shaka iniciou o repertório com uma canção mais dinâmica, depois passaria para as composições mais lentas, pois conforme a hora do rush se aproximava achava que as pessoas gostariam de ouvir algo que as ajudasse a desacelerar um pouco depois de um dia corrido, embora para ele lhe parecesse impossível desacelerar naquele dia, já que a cada nota que tocava sentia seu peito arder em ansiedade, calor e euforia.

Como não podia enxergar mantinha os ouvidos ainda mais atentos afim de perceber a aproximação de alguém e, vez ou outra, entre um acorde e outro da canção levantava ligeiramente o queixo e puxava o ar profundamente para dentro dos pulmão à procura de algum vestígio do cheiro único de seu parceiro itinerante.

De algumas cadeiras na lateral do pátio Asmita ouvia encantado a canção que o irmão tocava. Já conhecia o dom de Shaka para o piano e muitas vezes o subestimava, porém em todas as vezes que tinha a oportunidade de ouvi-lo não podia evitar de emocionar-se.

Foi perto das quatro e meia da tarde que Asmita viu alguém se aproximar do piano mais do que os outros que paravam ali para ouvir Shaka tocar. Um rapaz jovem, bem vestido, de aparecia um tanto exótica para seu padrão de julgamento, e que parou logo atrás da banqueta onde o irmão estava sentado.

Atento Asmita desencostou as costas da cadeira pondo-se em alerta, uma vez que ao menor sinal de que Shaka corresse algum perigo estaria pronto para ir em seu auxílio, porém tudo que o estranho fez foi ficar ali por algum tempo antes de dar alguns passos para o lado, esticar um dos braços e tocar nas teclas do piano, iniciando um dueto com o pianista.

Mu estava visivelmente nervoso. Suas mãos suavam frio e também tremiam sutilmente. Na cabeça a conversa da noite passada com Afrodite lhe povoava o pensamento. Não podia mais negar que estava apaixonado de fato por alguém que nem sabia o nome, mas que estranhamente lhe parecia ainda mais bonito que nos dias anteriores.

Discretamente enquanto tocava, lançava uns olhares para o pianista ansioso para que ele lhe olhasse de volta, afinal já era a terceira vez seguida que tocava ao lado dele e nem ao menos trocaram uma palavra ou olhar mais profundo, mas como nos dias anteriores ele se mantinha firme, com o rosto voltado para frente, ligeiramente abaixado e os olhos fechados.

Mu não tinha como saber, mas antes mesmo de ele executar a primeira nota no piano Shaka já tinha se dado conta de sua presença e seu corpo todo tremeu em resposta. Desde que sentira o perfume do estudante de cinema a lhe agraciar o olfato apurado, seu peito encheu-se de alegria e seu coração bateu mais forte. Desta vez estava decidido a conversar com ele, lhe perguntar o nome, ouvir sua voz, ter certeza, enfim, se era homem ou mulher, ainda que tivesse um palpite forte, já que o perfume que tanto agradava a seus sentidos era bem masculino, um misto de lavanda com tons amadeirados, mas toda sua coragem caiu por terra quando, tal qual uma maldição nefasta, as palavras de Asmita ribombaram em sua mente.

Incapaz, deficiente, ingênuo...

O rosto de Shaka de repente ficou sério, até um tanto melancólico, e a coragem de antes transfigurou-se em insegurança novamente.

E se Asmita estivesse certo?

Quando a pessoa que vinha tocar o piano consigo soubesse que era cego certamente iria se afastar, como já acontecera tantas vezes, ou então iria tentar tirar algum proveito, machuca-lo, rir...

A angústia provocada por aqueles pensamentos irrefreáveis fizeram suas mãos tremerem a ponto de errar algumas notas, mas com ainda mais medo do outro perceber sua insegurança corrigiu-se rapidamente, baixou a cabeça e tentou se concentrar apenas na canção.

Não queria que ele fosse embora, nem que se afastasse, mas tinha pânico de sua deficiência ser descoberta, então usou a música como ponte mais uma vez lhe cedendo um espaço na banqueta e iniciando uma canção de Ludovico Enaudi, a qual o convidou para acompanha-lo tocando apenas os primeiros acordes.

Tinha vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo, e quando sentiu o calor do corpo do outro próximo ao seu quando este se sentou era como se tivesse tudo e nada.

Tinha a pessoa que mais queria ter perto de si naquele momento e não podia olhar para ela. Não podia lhe dizer que a esperou o dia todo.

Mu por sua vez, desconhecendo o conflito que se dava no interior de Shaka, sorriu abertamente e seguiu com a canção dando início à dança das quatro mãos sobre as teclas.

Enquanto tocava Mu formulava em sua cabeça o que falaria a ele, como o abordaria, mas nada lhe parecia bom o suficiente. Seu estômago revirava com mil borboletas em festa e ele sentia-se um tolo completo, pois diante do pianista parecia até ter desaprendido a falar.

Sem conseguir verbalizar nada, ainda que inseguro Mu engoliu em seco e munido de um fiapo de coragem inclinou-se ligeiramente para o lado fazendo com que seu corpo tocasse sutilmente o do outro. Um toque singelo, apenas ombros e uma parte da coxa, mas que fora o suficiente para que quase se perdesse nos acordes.

Shaka no entanto não tivera a mesma sorte e novamente errou uma ou duas notas. O contato com o corpo do outro lhe causara efeitos arrebatadores.

Lutando para manter-se concentrado na canção sentia um calor fora do normal lhe subir pelas pernas, e mesmo o clima estando frio naquele dia sua testa suava. Suas mãos tremiam de forma quase impossível de controlar, e se fosse capaz seguraria com força nas mãos dele, olharia em seus olhos e lhe diria que seus últimos dias se resumiram a pensar no quanto adorava o cheiro do shampoo e do perfume que usava. Também faria um convite para um café e no fim lhe confessaria estar apaixonado.

Como não podia fazer nenhuma dessas coisas, Shaka respirou fundo e usou o pouco do autocontrole que lhe restava para manter-se firme até o fim da canção, a qual lamentava não ser mais longa, já que sentia que poderia passar a tarde toda ali, dedilhando o piano ao lado de seu sonho, sentindo seu calor e o balsamo divino que era seu perfume.

Quando tocaram o último acorde o pianista sentiu vontade de gritar, mas apenas retirou os dedos das teclas e virou o rosto ligeiramente para o lado, então sentindo que o coração fosse pular para fora de sua boca a qualquer momento abriu os olhos, pedindo a Deus que sua deficiência não fosse notada pelo outro, e sorriu.

Quando seus olhares se cruzaram Mu entreabriu os lábios, arrebatado.

Os olhos de Shaka exerciam um magnetismo anormal sobre si que lhe fazia prender o ar involuntariamente e sentir-se cativo deles, como um naufrago à deriva nos gélidos mares do Ártico. Sorriu de volta timidamente e não suportando aquele olhar tão expressivo sobre si baixou a cabeça um pouco incomodado. Tinha a impressão que ele olhava diretamente para sua alma.

De repente sentiu vontade em dizer isso ao pianista, mas quando voltou a olhar para ele e tomou coragem eis que as pessoas começaram a bater palmas os parabenizando pela belíssima apresentação.

Um pouco mais afastado, nas cadeiras laterais, Asmita que assistia a tudo de maneira atenta, não havia percebido o flerte entre eles e encarara o ato apenas como trivial.

Ficou nítido para Asmita que o jovem que tocara com seu irmão não sabia de sua deficiência, já que logo após serem aplaudidos ele levantou-se da banqueta, sorriu para Shaka e lhe acenou se despedindo, então lhe deu as costas e caminhou entre os transeuntes para a plataforma de embarque.

Um pouco convencido de que aquele rapaz talvez não significasse um perigo iminente a seu irmão, porém não menos desconfiado, Asmita deixou o hall decidido a voltar para casa. Enquanto caminhava até a plataforma de embarque não pode evitar ser tomado por uma tristeza momentânea ao lhe passar pela cabeça que talvez o rapaz só tocasse com seu irmão por não saber de sua deficiência.

Enquanto isso, no hall, de cabeça baixa, olhos abertos e rosto tristonho Shaka sentia um vazio corroer sua alma.

Lamentava em segredo e em silêncio a falta de coragem de ao menos perguntar o nome da pessoa que vinha tocar consigo. Talvez fosse melhor assim. Se com apenas uma presença muda e um perfume marcante ele já estava arrebatado por aquela criatura feita de música e boas sensações, um nome só iria lhe trazer mais sofrimento.

Deu um logo suspiro, fechou os olhos e voltou a tocar o piano.

Na plataforma de embarque Mu esperava o trem enquanto fitava com o olhar perdido a faixa amarela no chão.

Estava inquieto.

O olhar hipnótico e magnifico de Shaka não lhe saia da mente, nem o fato de ele nunca falar consigo e nem lhe acenar de volta quando se despedia.

Música e um olhar que dizia tudo e nada ao mesmo tempo era tudo o que tinha daquele ser tão fascinante.

Envolvido por esses pensamentos puxou o ar com toda força de seus pulmões e soltou um suspiro longo, misto de pesar e ansiedade, e eis que deu meia volta e subiu as escadas correndo de volta ao hall onde ficava o piano.

Parou a poucos metros do instrumento e ficou um tempo apenas observando Shaka tocar.

A canção que ele executava agora tinha um tom triste, melancólico, e esse se refletia em seu belíssimo rosto.

Mesmo receoso Mu avançou. Não podia esperar mais, afinal, o que tinha a perder? O máximo que poderia acontecer seria levar um não.

Sendo assim caminhou até o piano e se sentou novamente no espaço que ainda estava vazio ao lado do pianista, que surpreendido parou de tocar abruptamente pondo-se imóvel.

— Amanhã eu tentarei vir mais cedo e... se não for atrapalha-lo, ou... ofende-lo, será que gostaria de tomar um café depois de tocarmos o piano? — disse Mu entre gaguejos e pausas para encontrar as palavras corretas.

Os dedos de Shaka ainda estavam congelados no ar pouco acima das teclas reproduzindo as notas interrompidas.

Seu coração estava tão acelerado que imediatamente seu rosto ficou corado, e ao sentir as bochechas queimando baixou a cabeça envergonhado. Suas pernas sofreram um tremor incontrolável e tão intenso que mal dava conta de segurar os pedais do instrumento.

Era ele!

O reconheceu pelo perfume suave de lavanda e notas amadeiradas, mas agora o ser feito de aroma e música tinha uma voz, e ela era masculina e jovial, doce e melodiosa como canção ninar.

Seu parceiro itinerante então era um homem de idade tenra. Julgou estar delirando quando comparou momentaneamente sua voz à uma bela e única composição musical. Acreditou estar ainda mais tresloucando quando pensou em responder que sim, que aceitava o convite.

Por um breve momento viveu calado esse conflito íntimo, até que...

— Sim. — disse finalmente o pianista, e sua voz soou trêmula e angustiada. Shaka estava vivendo um misto de euforia e terror, já que julgava que certamente ele lhe fizera o convite por não saber que era cego, e diante dessa constatação tentou se corrigir imediatamente — Não.

Mu ficou confuso.

— Não? — perguntou pesaroso.

— É... Quero dizer... Amanhã é Sexta-Feira e... e talvez eu não venha, mas... — disse Shaka que de olhos abertos mantinha a mirada fixa para frente, congelada, enquanto piscava algumas vezes os longos cílios loiros tentando disfarçar, com medo de virar o rosto para o lado e se denunciar — Mas se eu vier... e se... se você conseguir sair mais cedo... — Shaka gaguejava tanto que agora temia que além de descobrir que era cego o outro também pensasse que fosse gago, e nunca mais iria querer vê-lo na frente. Travava uma árdua batalha interna para dizer não e acabar logo com aquele sofrimento, mas não conseguia. Por isso sorriu nervoso e virou o rosto para Mu, porém olhando para baixo. Com sorte ele pensaria que era apenas timidez — Podemos sim, tomar um café... Eu adoraria!

Mais que depressa Shaka voltou novamente o rosto para a frente e pousou os dedos nas teclas do piano prosseguindo com as notas que estavam congeladas no ar, reiniciando a canção.

Não podia acreditar no que acabara de fazer.

A seu lado Mu sorriu animado.

— Então estamos combinados! — disse olhando para o rosto parcialmente encoberto pelas longas madeixas douradas do pianista — Digo... se você vier amanhã, é claro. — perdeu-se por um tempo observando encantado um salpicado de pequeninas sardas que enfeitavam graciosamente a pontinha do nariz de Shaka, que o tempo todo manteve a cabeça voltada para frente, então depois que o viu esboçar um leve sorriso percebeu que talvez estivesse se alongando demais ali e se levantou da banqueta — Bem... eu... eu já vou... Até amanhã... talvez.

— Até. — foi tudo que Shaka conseguiu responder sem gaguejar novamente ou deixar visível em demasia seu nervosismo.

Mu afastou-se se despedindo novamente com um aceno, que de novo não foi respondido, mas estava tão radiante que havia conseguido convidar o pianista para sair que nem se deu conta e seguiu animado para a plataforma de embarque.

Fora o encontro mais atrapalhado que marcara em sua vida.

Estava tão eufórico que não percebeu que corria enquanto descia as escadas já metendo a mão no bolso da calça para apanhar o celular. Dentro do vagão digitou uma mensagem para o amigo sueco quando encontrou um assento para se sentar.

Dite, segui seu conselho. Acho que tenho um encontro amanhã. Rs

Após enviar a mensagem guardou o aparelho, relaxou as costas e os ombros que ainda trazia tensos, fechou os olhos e suspirou longamente.

Não ouvia as vozes das pessoas, nem o som ambiente que inundava o vagão.

Ouvia o piano.

A cidade parecia toda feita de nuvens.

Shaka deixou a estação poucos minutos depois de Mu sair. Ainda não estava dentro de seu horário costumeiro de voltar para casa, mas simplesmente não conseguia mais se concentrar em tocar o piano. Estava eufórico, tinha um encontro com o rapaz que povoava seus pensamentos desde então e tudo que conseguia sentir era medo.

Um medo puro, íntimo e genuíno.

Temia ser rejeitado por sua deficiência, como já fora outras vezes, e nem podia julga-lo caso também o fizesse, pois como Asmita sempre dizia não era uma pessoa normal, era um deficiente, incapaz, e não podia desejar ter uma vida normal, tampouco se relacionar com pessoas normais, porque isso só o magoaria e lhe traria sofrimento.

Com a cabeça e o coração tumultuados por um turbilhão de sentimentos contraditórios, alegria e tristeza, medo e euforia, Shaka fazia o trajeto de volta para casa tão distraído que cometia erros bobos dos quais há anos já não era mais vítima, como não prestar atenção aos sinais sonoros dos semáforos e atravessar a rua antes do tempo certo levando algumas buzinadas dos condutores, trombando em postes e lixeiras, esbarrando em pessoas que logo se voltavam raivosas contra si, mas que quando viam que era cego o deixavam seguir seu caminho em paz.

Quando finalmente chegou em casa, com um sorriso no rosto e um galo na testa, foi direto para o quarto. No percurso ouviu o chuveiro ligado e deduziu que Asmita estivesse no banho, então aproveitou o pouco momento que tinha de privacidade e fechou a porta. Tirou a mochila das costas e a jogou no chão, depois tateou a escrivaninha até encontrar o controle remoto do aparelho de som e o ligou.

As primeira notas de Devenire, uma de suas canções preferidas de Ludovico Enaudi, conduziram seus passos precisos em meio a escuridão do quarto até a cama onde se jogou de costas de olhos abertos voltados para o teto.

A canção o levou para um mundo fantástico, onde um ser de voz doce e cheiro de lavanda, cujo rosto e as formas ainda lhe eram um segredo, vinha convidá-lo a voar consigo.

Seus olhos azuis de rara beleza passeavam pelo quarto escuro como se estivessem enxergando mil maravilhas.

E quem ousaria dizer que não estavam?

Shaka nunca havia sentido tanta emoção e também tanto medo como naquele momento. Tinha um encontro no dia seguinte e estava tão ansioso e eufórico quanto aterrorizado.

Súbito virou-se para o lado, encolheu as pernas e agarrado ao travesseiro chorou.

Convivia com a cegueira desde os 5 anos de idade e já estava completamente adaptado à sua realidade, mas nunca, até aquele dia, sentiu-se tão miserável e amaldiçoado por ela.