Capítulo 1

Hermione Potter costumava fazer visitas inesperadas ao escritório de seu meio-irmão, Harry. Gina Weasley, a assistente executiva, a recebeu com um sorriso.

― Gina, olha só isto! ― Hermione parou em frente à mesa de Gina e estendeu-lhe um exemplar da revista Famosos.

Gina deu uma olhada na capa. Letras em negrito prometiam: NESTA EDIÇÃO: OS DEZ SOLTEIROS MAIS COBIÇADOS DOS EUA.

― Esta edição só estará nas bancas amanhã. Abra na página 15, Gina ― ordenou Hermione ansiosa.

― As escolhas previsíveis, pelo visto ― observou Gina enquanto examinava a lista. Os solteiros incluíam o filho de um ex-presidente, um apresentador de programa de entrevistas, um magnata da indústria fonográfica, um senador divorciado, um ator considerado o "homem mais sexy do mundo", um autor de bestsellers, uma super-estrela do basquete e... ― Harry Potter! ― Gina leu o nome do número oito em voz alta e ofegante.

― Depois que a revista chegar às bancas, vai ter mulher em tudo quanto é canto do país desejando meu irmão mais velho ― Hermione estava exultante.

Gina sentiu uma agitação dentro de si, um mau pressentimento que se tornava cada vez mais forte. Ela trabalhava para Harry Potter, o vice-presidente da Potter Corporation, há quatorze meses, tempo suficiente para saber que ele odiaria aquele título. O foco da vida de Harry eram os negócios da família, não popularidade entre as mulheres ― embora ele fosse bastante requisitado por elas. Depois que a revista chegasse às bancas, pensou Gina, ele se tornaria o objeto de uma perseguição romântica de escala nacional.

― Como você acha que Harry vai reagir? ― perguntou Hermione, sorrindo de orelha a orelha.

Gina decidiu que o mais prudente seria guardar sua opinião para si. Gina era sempre cautelosa ao lidar com os Potter.

― Isto não vai deixá-lo emocionado ― esquivou-se ela. ― Acho que ele teria preferido receber o título de um dos dez homens de negócios mais eficientes dos EUA ― adicionou.

― Negócios! Negócios! Harry só se preocupa com isso!

― Hermione ficou agitada e começou a andar da mesa de Gina para a parede e de volta para a mesa.

"Outra que não consegue ficar parada, igualzinha ao irmão", observou Gina. Todos os membros da família Potter que ela conhecera possuíam uma enorme energia, que parecia requerer movimentação constante.

― Harry parece um Robô Executivo! ― disse Hermione, estrondosamente. ― Ele é um viciado em trabalho, não tem sentimentos, não tem vida! Se abrissem a cabeça dele encontrariam microchips. Nada o emociona, nada o atinge.

Ela virou-se e fixou um olhar fulminante em Gina.

― Você consegue se lembrar da última vez em que o viu reagir com um pingo de genuína emoção?

― Bem, teve aquela vez em que Anne Campell, do laboratório de pesquisa, trouxe as filhas gêmeas para o trabalho e as crianças decidiram fazer uma experiência com as últimas amostras de teste. ― A lembrança ainda fazia Gina rir, embora ela tivesse se controlado depois de Harry ter deixado claro que não via graça nenhuma na situação. ― A mistura que elas fizeram ao pó facial deixava a pele com uma cor azul horrível. Harry ficou furioso com aquilo. Isso não é uma emoção humana genuína?

― Mas tem a ver com negócios, então não conta. ― Hermione pôs o acidente de lado e voltou sua atenção para a revista. ― Esta é uma boa foto do Harry, não é, Gina? Apesar de ele ser meu irmão, tenho que admitir que é realmente um gato!

Gina examinou a fotografia de Harry. Era uma foto dele usando uma calça jeans surrada e uma camisa pólo branca com o logotipo da Potter Corporation. A foto mostrava um homem viril, cujo corpo musculoso atrairia qualquer mulher. Os traços fortes de seu rosto ― o maxilar bem definido e o queixo quadrado, o nariz reto e os olhos de um azul profundo, o formato sensual da boca ― chamavam a atenção até de outros homens.

E até das pessoas mais relutantes. Gina estava ciente da beleza masculina de seu chefe, embora nunca tivesse deixado que ele soubesse disso.

Ela lembrava bem de seu primeiro encontro com Harry Potter, no dia em que ele a contratou, quatorze meses antes, após uma breve entrevista. Ao vê-lo, ela ficou perturbada. Nas primeiras semanas de trabalho, sentira freqüentes ondas de adrenalina percorrendo seu corpo quando estava na presença dele. Seu coração batia descontroladamente e sua pele enrubescia.

Felizmente, ela conseguira esconder suas reações de Harry e de todos na empresa. Os amigos que ela fizera no trabalho contavam-lhe tudo sobre as antigas assistentes dele, que se apaixonaram perdidamente e acabaram ou pedindo demissão ou sendo despedidas por não conseguirem lidar com o desinteresse pessoal do chefe e com suas rigorosas exigências profissionais.

Gina não tinha intenção de se juntar àquelas pobres coitadas. Lera inúmeros artigos sobre a futilidade de romances no trabalho e não estava disposta a arriscar seu emprego cedendo a uma paixãozinha boba e sem futuro.

Com o passar das semanas, seu coração deixara de disparar quando ela via Harry. Ela convencera-se de que estava fora de perigo, imune aos encantos do chefe. Era demasiado sensata para aquela bobagem adolescente, garantiu Gina a si mesma.

Uma paixão por Harry teria sido tanto estúpida quanto inútil, pois ela sabia que ele a via como algo semelhante a um equipamento de escritório. Ela era útil e eficiente, como uma máquina de fax, e mais confiável que a impressora, que estava sempre quebrada. A atitude dele para com ela dificilmente estimularia fantasias românticas, e Gina declarava-se agradecida, livre de tais fantasias.

― E então? Como você se sente trabalhando para um dos solteiros mais cobiçados dos EUA, Gina? ― perguntou Hermione em tom brincalhão. ― Você é solteira e o fato de trabalhar com ele a deixa em uma posição privilegiada. Nunca pensou em correr atrás dele?

Gina riu daquela idéia absurda. Não tinha nenhuma ilusão a respeito de seu status. Embora as Gina's Weasley e os Harry's Potter do mundo pudessem ocupar o mesmo espaço durante algumas horas a cada dia, eles existiam em universos paralelos, que nunca convergiam fora do escritório.

― Não se preocupe. Harry está seguro contra quaisquer investidas de minha parte.

― Eu não estava preocupada, eu... ― Hermione começou a dizer, mas foi interrompida pelo aparecimento do próprio Harry Potter.

Ele havia aberto a porta que ligava seu escritório ao de Gina e estava parado no limiar. Seus olhos verdes penetrantes passaram rapidamente por Gina e fixaram-se em sua irmã mais nova.

― Hermione, sabia que tinha ouvido sua voz criando aquele tumulto de sempre. ― Ele arqueou as sobrancelhas escuras e disse numa voz lacônica:― Deixe-me adivinhar: você está aqui para arranjar aliados para mais uma de suas mirabolantes campanhas publicitárias. Ignorando seus executivos que, neste exato momento, estão pegando seus frascos de antiácidos, já prevendo a batalha por vir.

Hermione sorriu.

― Tem mesmo uma idéia extravagante brotando na minha cabeça, mas ainda estou trabalhando nos detalhes. Quando estiver pronta para apresentá-la, você será o primeiro a saber, pois, você tem de concordar comigo, nossos executivos de publicidade são...

― Cautelosos e conservadores? ― interrompeu Harry.

― Eu ia dizer retrógrados e chatos ― revidou Hermione. ― Como poderiam ser diferentes? Estão aqui desde que Nixon era presidente. A idéia deles de algo inovador é festa à fantasia com tema anos 70.

― Você fala no estilo exagerado e ácido dos executivos de publicidade. Você se encaixa perfeitamente naquela cova de leões, Hermione. E digo isso como um elogio. ― Os lábios de Harry contorceram-se levemente. Para ele, aquilo valia como um sorriso.

Gina observava a cena entre os dois, impressionada com as diferenças entre os irmãos, algo que ia muito além da diferença de seis anos entre suas idades e de seus respectivos sexos.

O que Hermione tinha de expansiva, Harry tinha de frio e controlado. Embora a família o considerasse distante, no decorrer do ano anterior Gina começara a vê-lo como uma pessoa reservada, que não sentia necessidade de expressar todos os seus pensamentos ou compartilhar seus sentimentos mais profundos. Sendo ela própria uma pessoa introvertida, reconhecia algumas semelhanças entre ela e Harry.

Não que ele fosse introspectivo e tímido como ela. A idéia de Harry Potter como um homem tímido e hesitante era algo impensável. Ele exalava uma confiança e uma convicção que beiravam a arrogância.

Também podia ser incrivelmente teimoso. Gina já o vira recusar-se a ceder em certas questões, não importando quem ou o que o estivesse pressionando. E embora seus familiares reclamassem que ele era reservado demais, nunca conseguiram convertê-lo para a sociabilidade típica da família.

― Gina e eu estávamos babando pelos gostosões desta revista. ― Rindo, Hermione pegou o exemplar de Famosos e colocou-o nas mãos de Harry.

Antes de examinar o exemplar, Harry lançou um olhar zombeteiro na direção de Gina. Ela corou e rapidamente desviou o rosto.

Harry sentiu uma certa pena. Evidentemente, Hermione estava brincando e havia metido a pobre Gina na brincadeira, deixando-a envergonhada.

Instantaneamente, Harry perdoou sua assistente, pois não conseguia imaginar Gina Weasley babando por homens.

Gina era sempre circunspeta e competente, qualidades às quais ele atribuía especial valor. Harry ainda tinha lembranças horríveis do período anterior à chegada de Gina no escritório.

Tivera que agüentar muitos comentários maliciosos e piadinhas a respeito da "alta rotatividade" na sala de sua assistente. Havia boatos de que era impossível trabalhar para ele e de que ele nunca conseguia manter uma assistente por muito tempo. O pessoal do departamento de recursos humanos reclamava da política de mudança de funcionários de Harry.

Seu tio Sirius, o presidente da empresa, chegara a sugerir que Harry participasse de uma oficina de treinamento de sensibilidade para colocá-lo em contato com os sentimentos daqueles funcionários que não conseguiam corresponder aos seus padrões de viciado em trabalho.

Harry ficara ofendidíssimo. Não queria uma assistente que não conseguisse cumprir suas exigências e não queria entrar em contato com os sentimentos de seus funcionários!

― Eu me inscrevo na tal oficina quando você se inscrever, Sirius ― dissera ele ao tio que, como Harry bem sabia, fazia uma excelente e maldosa imitação de um típico orientador de sessão de treinamento de sensibilidade.

Sentira um alívio considerável quando Gina Weasley ― confiável e eficiente ― chegara, colocando um ponto final no interminável desfile de assistentes. O fato de eles trabalharem tão bem juntos ainda o deixava admirado quando pensava no assunto.

Gina era discreta e despretensiosa, não fazia o tipo espalhafatoso, e Harry lhe era grato por isto. Muitas das antigas assistentes imaginaram estar apaixonadas por ele e agiam de maneira provocadora para chamar sua atenção. Elas nunca duravam mais de algumas semanas. Irritado por não obter delas trabalhos produtivos, Harry acabava despedindo-as.

Seus olhos estreitaram-se enquanto continuava examinando Gina Weasley. O terno cinza e o penteado que ela usava eram discretos e profissionais. Ela tinha uma pele macia que fazia um bonito contraste com seu cabelo ruivos. E embora Gina não fosse bonita no sentido clássico, suas maçãs do rosto salientes, seu queixo pequeno e firme e seus grandes olhos castanhos mel e inteligentes conferiam-lhe uma atração peculiar.

Não para ele, é claro, apressou-se Harry em garantir a si mesmo. Ele não estava interessado em iniciar um relacionamento com a melhor assistente que já tivera. Não estava interessado em iniciar um relacionamento que fosse além de sexo seguro de curto prazo sem qualquer compromisso mais sério. O trabalho era a principal força motriz de sua vida e ele não podia imaginar uma pessoa ocupando uma posição mais importante do que aquela.

― Dê uma olhada na revista, Harry ― ordenou Hermione, arrancando-o de seu devaneio.

Harry franziu as sobrancelhas.

― Por que eu teria algum interesse em olhar os Neandertais pelos quais você estava babando?

― Neandertais, hum? ― disse Hermione, rindo por dentro. ― Não sei não, Harry, acho que você vai se interessar bastante por esses caras. Um em especial.

Gina ficou tensa. Era como ver alguém prestes a passar na frente de um ônibus em alta velocidade. Ela queria avisá-lo, mas sua voz parecia estar congelada na garganta. Ficou parada, observando enquanto Harry lançava um olhar de desdém para o artigo.

Ela percebeu o susto que ele tomou ao ler a lista, da qual ele próprio fazia parte.

A revista escorregou dos dedos de Harry e Gina sabia que aquilo era um sinal do quão irritado ele estava. Nunca o vira deixar cair um lápis. Mas a revista caiu no chão, com as páginas abertas.

― Quem é o responsável por isto?

A voz de Harry era grave. E embora sua expressão permanecesse impassível, Gina reconheceu instantaneamente os sinais de ira. Seu chefe era a pessoa mais controlada que já conhecera, sem nenhuma inclinação para manifestações dramáticas de temperamento, mas ela sabia que ele era capaz de enfurecer-se.

Gina já presenciara a fúria de Harry quando havia algo errado com a Potter Corporation, já vira seus olhos verdes-esmeralda ficarem gelados de raiva e ouvira seu tom de voz agressivo.

Hermione, no entanto, preferiu ignorar os sintomas de raiva do irmão.

― É tão legal, não é, Harry? Você vai ficar famoso que nem...

― Eu estou ofendido e furioso com esta invasão da minha privacidade! ― A voz de Harry era grave e profunda. ― Foi você quem fez isto, Hermione? Esta é mais uma de suas idéias que confundem publicidade com exibicionismo? Você por acaso entrou em contato com esta revista e...

― Eu não! ― Hermione estava ofendida.

― Então como foi que eles conseguiram meu nome? E minha foto? ― perguntou Harry. ― Por que eles me colocariam nesta lista estúpida se não houvesse alguém por trás disto?

― Os editores da revista escolheram você. Não tive nada a ver com isso ― defendeu-se Hermione. ― É culpa sua ter sido um dos escolhidos, irmãozinho.

― Eu sei que hoje em dia está na moda botar a culpa na vítima, mas será que você se importaria de me explicar por que eu sou responsável por esta... esta... ― Fugiram-lhe as palavras.

Gina estava preocupada. Desde que conhecera Harry, nunca o vira perder a fala daquele jeito.

― Pense bem, Harry ― retrucou Hermione, sem se intimidar com a fúria do irmão. ― Você tem 29 anos e é solteiro, bonito e rico. Você é membro de uma família ilustre e já ocupa um cargo importante na empresa. Além do mais, você é bom no que faz, o que significa que provavelmente vai substituir o tio Sirius como presidente. Tudo isto o torna extremamente cobiçável e foi assim que você entrou na lista.

Harry não estava engolindo aquela conversa.

― E aquela foto minha? ― perguntou friamente. ― Só falta você me acusar de eu mesmo tê-la enviado.

― Não sei como conseguiram a sua foto ― disse Hermione, irritada. ― Talvez sua mãe tenha mandado, torcendo para que alguma herdeira pegasse um avião para Minneapolis e casasse com você, dando à sua Mamãezinha Querida mais uma oportunidade de ficar ainda mais rica. Eu não duvido que ela fosse capaz. Sua mãe faria qualquer coisa por dinheiro!

Harry parecia petrificado, cada músculo de seu corpo estava tenso. Com 1,85m de altura, erguia-se acima de ambas as mulheres, e Gina encolheu-se, sentindo-se intimidada pelo tamanho e pela presença daquele homem. Hermione, que olhava furiosamente para o irmão, não estava nem um pouco intimidada.

Quando Harry falou, sua voz estava assustadoramente calma, e seu rosto era uma máscara tranqüila e sem expressão.

― Não posso mais perder tempo com esta bobagem. Tenho trabalho a fazer. Gina, você poderia, por favor, acompanhar minha irmã até a porta?

Ele virou-se e entrou em seu escritório, fechando a porta atrás de si com uma determinação calma e cuidadosa.

O silêncio abateu-se como uma mortalha por um longo momento. Finalmente, Hermione soltou um suspiro irritado.

― Tudo bem, talvez eu não devesse ter acusado a mãe dele. Mas ela é uma bruxa gananciosa e vingativa! Você conheceu a Lilian, Gina?

Gina balançou relutantemente a cabeça em sinal afirmativo. Ah, sim! Ela conhecera Lilian, a inescrupulosa e narcisista primeira esposa de James Potter, mãe de Harry, de seu irmão Neville e sua irmã Jane.

James, o irmão mais novo do presidente, Sirius, era o advogado encarregado das questões jurídicas da Potter Corporation. Hermione era o produto do segundo casamento de James com a afetuosa Bárbara, extremo oposto de Lilian.

Gina não gostava de Lilian Potter, que, toda vez que aparecia no escritório, tinha um ar de sarcasmo e superioridade. Mas, sendo funcionária de Harryl, Gina não podia se juntar a Hermione para falar mal da mãe dele.

Hermione não esperava que ela o fizesse. Contentava-se em falar mal da primeira esposa de seu pai sozinha.

― Juro, não sei como meus irmãos conseguiram crescer convivendo com Lilian, mesmo que apenas por parte do tempo. Meu pai disse que Lilian engravidou de propósito de Harry, Neville e Lilian para garantir uma gorda pensão vitalícia que...

Para alívio de Gina, o telefone tocou, interrompendo Hermione. Enquanto Gina atendia a chamada, Hermione pegou a revista e saiu do escritório com um rápido aceno.

O resto da manhã foi excepcionalmente atarefado, e Gina estava no meio de uma compilação de diversas pesquisas de marketing quando chegaram Lynn, Margaret e Diana, assistentes de outros executivos da Potter.

― Hora do almoço ― anunciou Lynn. ― Estamos em dúvida entre o Loon Café, onde podemos observar os mauricinhos comendo enquanto falam no telefone celular, e shopping. O que você prefere?

Gina ficou espantada.

― Não fazia idéia de que já era tão tarde!

― Não é de admirar. Você está enterrada embaixo de uma pilha de papéis ― observou Diana. ― Mas mesmo os escravos têm que comer, então saia daí debaixo e venha com a gente.

Elas faziam questão de almoçar juntas pelo menos uma ou duas vezes por semana, e Gina sempre as acompanhava. Ela não podia deixar de ir, mas aquelas pesquisas estavam lhe tomando tanto tempo...

Harry escolheu aquele exato momento para entrar no escritório. Sua expressão poderia ser interpretada tanto como interrogativa quanto como acusadora.

Gina interpretou-a como interrogativa.

― Estava pensando em ir almoçar ― explicou.

― Almoçar? ― repetiu Harry.

Gina viu as amigas se entreolharem.

― Vou terminar estas pesquisas quando voltar ― disse. Não era uma escrava e pretendia prová-lo.

― Então imagino que vou ter que esperar você voltar para baixar estes arquivos. ― Harry colocou uma pilha de disquetes na mesa dela. Sem mais nenhuma palavra, virou-se e voltou para seu escritório.

― Brr! A temperatura sempre cai pelo menos 15 graus quando ele entra na sala ― disse Margaret, fingindo tremer. ― O homem é uma pedra de gelo.

― Imagine a carreira que ele faria no setor de comida congelada! ― completou Diana com uma risadinha.

― Ele está mal-humorado hoje ― disse Gina defendendo Harry. Depois do que ocorrera pela manhã, concluiu que ele tinha direito a uma defesa. ― Está com a cabeça cheia.

As quatro mulheres deixaram o escritório e caminharam em direção aos elevadores.

― Como você consegue distinguir quando ele está de mau humor e quando está de bom humor? ― perguntou Lynn. ― Você já viu o homem sorrindo?

― Ele é muito reservado ― explicou Gina. ― Mas quando você o conhece bem, vê que ele é um cara legal. ― Tinha certeza de que aquilo era verdade, embora ainda não o conhecesse bem.

― Se você diz... ― retrucou Margaret. ― Bem, eu voto no shopping. Tem uma liquidação com cinqüenta por cento de desconto na Lindstrom...

Somente mais tarde, quando estava indo para casa, Gina teve tempo para pensar sobre os comentários ácidos de Hermione a respeito de Lilian Potter, a mulher que casara com o pai de Harry e que dele se divorciara litigiosamente.

Gina tomava o ônibus para ir ao trabalho e voltar para casa, pois o custo do estacionamento durante o dia inteiro era proibitivo. Mas ela não se importava de andar de ônibus. Se não tivesse um livro para ler, ficava olhando pela janela, absorta em pensamentos. Neste dia ela estava com um livro, mas o deixou aberto sobre o colo e permitiu que sua mente se ocupasse de Harry Potter.

Os fatos básicos sobre o relacionamento rancoroso entre Lilian e James Potter explicavam a visão de Harry a respeito do casamento, refletiu Gina.

Gina nunca ouvira ninguém expressar opiniões anti-matrimoniais tão fortes. E ele não mudara de opinião naquele ano em que estiveram trabalhando juntos, durante o qual três membros da família Potter decidiram casar-se.

Harry se distanciara tanto quanto possível dos eventos. Em cada uma das vezes ― quando sua prima Caroline casou-se com Nick Valkov, quando seu irmão Neville casou-se com Hannah Abbott e quando a irmã de Caroline, Allison, casou-se com Rafe Stone ― ele mandou Gina escolher o presente de casamento.

― Compre qualquer coisa. Não tenho interesse em nada que se relacione a casamento ― disse ele, dando a Gina carta branca com os cartões de crédito.

Gina acertara em suas escolhas. Os simpáticos bilhetes de agradecimento escritos a Harry pelas noivas deixaram-na animada. Ela esperava sinceramente que todos os três casais vivessem "felizes para sempre".

Harry não compartilhava do otimismo de Gina. Antes de assinar os cartões que ela comprara com os presentes, ele fizera um som que era algo entre uma risada sarcástica e um resmungo.

― Bom, se é isso o que eles realmente querem fazer... ― dissera ele, todas as três vezes, num tom de reprovação. - Eu preferia estar morto do que casado ― acrescentara Harry, enquanto devolvia os cartões à assistente.

― Você acha mesmo que é melhor estar morto do que casado? ― parafraseara Gina, na terceira vez em que ele expressara o sentimento.

― Melhor morto do que casado ― repetiu Harry sem titubear. ― Hum, nada mau. Acho que tem potencial como slogan. Talvez eu sugira para minha prima Caroline, do departamento de marketing.

― Caroline prefere estar casada ― murmurou Gina. ― Você comprou um lindo par de candelabros de prata antigos e assinou um cartão de casamento para ela há alguns meses, lembra?

― Lembro de assinar o cartão. Não tenho conhecimento dos candelabros nem quero ter.

― Caroline disse que os adorou.

― Já que você conhece o gosto dela, vou encarregá-la de comprar o presente para o bebê Valkov quando chegar a hora.

― Eu ouvi dizer que Caroline estava esperando um bebê ― murmurou Gina.

Todo mundo na empresa sabia que Caroline Potter Valkov estava grávida. Pelo que Gina sabia, a vice-presidente de marketing da Potter Corporation e seu marido pesquisador químico eram tão felizes quanto o cartão que Harry assinara desejava que fossem.

― Parece que esse é o curso natural das coisas. ― Harry estava com um aspecto cruel. ― Casar-se e ter um filho, por todas as razões erradas. E claro, em alguns casos as pessoas fazem ao contrário ― engravidam e depois se casam ― mas a parte a respeito da criança ser concebida pelas razões erradas ainda se aplica. Duas vezes mais em casos de casamentos forçados.

Gina estava completamente perdida. Nunca haviam tido uma discussão como aquela.

― Você não acredita que sua prima e o marido possam ter um filho porque se amam e querem criar uma família juntos?

Ele a olhara quase com pena, como se ela tivesse acabado de confessar que, aos 26 anos de idade, ainda acreditasse na existência de Papai Noel.

― O amor não tem nada a ver com isso, Gina. O bebê pode ser um acidente, o resultado de uma noite de muito vinho e uma sobrecarga de hormônios. Ou, se a gravidez foi realmente planejada, talvez Caroline acredite que um filho dará a Nick mais incentivo para ficar com ela ― e com a Potter Corporation, é claro. Ele é um ativo valioso para a empresa, e Caroline é uma mulher de negócios boa demais para não perceber isto. Quanto ao Nick, talvez ele veja o filho como uma maneira de reivindicar sua parte no dinheiro da família Potter.

― Acho que você está errado ― disse Gina bravamente. Ela vira o casal junto e o amor que tinham um pelo outro era óbvio.

Harry encolheu os ombros.

― Os casais vêm usando os filhos para alcançar seus próprios objetivos desde tempos imemoriais, Gina.

― Não é sempre assim. Você acha que ninguémtem filhos pelos motivos certos? ― perguntara Gina, não conseguindo conter-se.

Harry soltara aquele som cínico, meio risada, meio grunhido, e voltara sua atenção novamente para os papéis em sua mesa, sem se dar ao trabalho de responder a uma pergunta tão ingênua.

Tendo ouvido falar de Lilian Potter, que, de acordo com Hermione, produzira trêsfilhos para obter vantagens monetárias, Gina compreendia o pessimismo zombeteiro de Harry.

Compreendia, mas não aceitava. Gina acreditava no amor, no casamento e nos frutos que resultavam da união. Ela própria fora um desses frutos, e pretendia ter uma união amorosa como a de seus pais. Ter filhos que fossem amados e desejados por dois pais que tivessem afeição um pelo outro.

Lembrou-se dos dias maravilhosos em que sua família estivera reunida ― sua mãe, seu pai e sua irmã mais nova, Luna. Sentiu um nó na garganta e apertou os olhos para espantar as lágrimas.

O tempo que a família Weasley passara junto fora curto, tornando as lembranças dolorosas e agridoces. A morte inesperada de seu pai, de complicações relacionadas a apendicite, ocorrera quando ela tinha 17 anos. Três anos depois, uma nova tragédia. Um acidente de carro tirara a vida de sua mãe e ferira gravemente a pobre Luna.

Pensar em sua irmã mais nova reanimava Gina, e ela espantou a aura de melancolia que ameaçava envolvê-la. Luna tinha 20 anos e estava em um excelente centro de reabilitação, esforçando-se para superar os efeitos das lesões decorrentes do acidente.

Gina enchia-se de orgulho quando visualizava sua irmã lutando para superar a difícil condição em que se encontrava. Com a ajuda de um programa desenvolvido especialmente para a sua recuperação, incluindo exaustivas sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, terapia de fala, terapia musical e terapia recreacional, Luna nunca perdia tempo sentindo pena de si mesma.

E até que Luna estivesse boa novamente e fosse capaz de levar uma vida independente, Gina teria que adiar seus próprios sonhos e esperanças. O emprego na Potter Corporation era muito importante, pois o salário lhe possibilitava pagar as despesas de Luna no centro de reabilitação. Gina não reclamava das longas horas de trabalho exigidas por Harry Potter, pois não havia ninguém mais importante em sua vida do que Luna, seus telefonemas diários e as visitas de fim de semana.

O casamento feliz com um homem que a amasse tanto quanto ela o amasse e o filho desejado e querido tinham de esperar. Mas quando chegasse a hora certa, Gina tinha certeza de que encontraria esse homem. Ou que talvez ele a encontraria.

N/A: Então... O que acharam deste primeiro capitulo? Espero que tenha atiçado a curiosidade de vocês, bom a fics é pequena, então aproveitem...

Para o próximo capitulo só é necessário 5 comentários, que tal? Estou pedindo muito?