Os dias que se seguiram depois da partida dos três foram, se possível, ainda mais tensos. Molly olhava para o relógio, para os ponteiros todos em "Perigo Mortal" e chorava um choro sentido, que quebrava o coração da Gina. A Toca havia se transformado em um novo quartel-general para a Ordem, e muitas pessoas vinham ali no meio das suas missões para comer, dormir ou simplesmente descansar num lugar mais calmos.

Gina, em seu silêncio, observava aqueles que passavam por ali, como se procurasse alguma pista, alguma informação. Mas a resposta era sempre a mesma: lá fora, as coisas pioravam cada vez mais. Os olhos de todos, sem exceção, eram cansados. Todos chegavam desanimados. Saíam um pouco melhores, prontos para enfrentar o mundo outra vez.

E Gina, ao observar todos aqueles que lutavam pela paz no mundo bruxo, sentia-se uma inútil. Porém, era claro que ninguém deixaria que ela lutasse. Ela só pedia a Merlin que Hogwarts voltasse a funcionar. Se tivesse que ficar ali, com certeza enlouqueceria esperando notícias daqueles que amava e que estavam em missões, trabalhando disfarçados para obter informações ou até mesmo enfrentando os Comensais da Morte cara-a-cara.

Finalmente, cinco dias depois do seu aniversário, chegou a notícia: as autoridades haviam decidido que, se houvesse um número mínimo de alunos dispostos a voltar a Hogwarts, haveria um novo ano letivo. Gina suspirou de felicidade e tratou de mandar corujas para todos que conhecia perguntando se voltariam ou não. Muitas respostas foram negativas, o que a deixou um pouco preocupada. Mas, naquela mesma noite, ela ficou sabendo que não era com os outros que ela devia ficar preocupada.

- Mas, mãe! Eu tenho que voltar para Hogwarts, tenho que estudar.

- Gina, eu não sei se é seguro. Muitas da barreiras de proteção de Hogwarts foram danificadas na última batalha. E agora, sem Dumbledore... - Molly olhou para o teto, contendo as lágrimas. - Talvez seja melhor você ficar aqui, me ajudando. É bem provável que nós teremos que nos mudar novamente para Grimmauld Place, logo que as barreiras de lá tenham sido renovadas, para que eu possa cuidar dos membros durante as missões. Você sabe que a Toca não é grande o suficiente...

- EU NÃO POSSO FAZER ISSO! - Gina finalmente explodiu - Eu sinto muito, mãe, mas se eu ficar aqui, nesse lugar, eu vou enlouquecer. Eu tenho que ter algo para ocupar minha cabeça - Gina falou agora mais calma. - Mãe, por favor, entenda. Eu simplesmente não posso ficar somente vendo as pessoas passarem. É muito importante para mim voltar para Hogwarts.

- Eu concordo com ela, Molly. - Disse Arthur, que acabara de chegar com Remus e ouvira a última parte da conversa. - Ela ficará melhor em Hogwarts, onde poderá aprender como se defender e como fazer poções e feitiços que talvez um dia possam salvar sua vida do que se ficar aqui, conosco.

- Arthur...

- Molly, eu sei que é difícil para você, especialmente depois que eles foram embora. Mas tente entender, sim? Se Gina ficasse aqui, nós sempre estaríamos ocupados demais para lhe ensinar alguma coisa. E é importante que Gina aprenda a se defender. Nunca se sabe quando será necessário, ou se nós estaremos por perto.

- Bom, vendo por esse lado...

- Se você me permite dizer algo, Molly, seu marido tem razão. É melhor que Gina saiba se defender sozinha.

Molly então olhou para Gina, que sorria para a mãe, e finalmente concordou.

- Por Merlin, onde eu estava enquanto minhas crianças cresceram tanto?

Assim, ficou decidido que Gina voltaria para Hogwarts. Porém, a confirmação de que Hogwarts realmente abriria naquele ano só veio uma semana antes do começo do ano letivo. Excepcionalmente, não haveria naquele ano lista de material. Todos os livros que os alunos usariam seriam providenciados pela própria biblioteca.

- São tão poucos alunos que McGonnagal decidiu que não valia a pena arriscar os pais indo até o Beco Diagonal. - Disse Fred, uma tarde em que ele e Jorge vieram comer alguma coisa. Os gêmeos andavam muito ocupados com as encomendas do Ministério e com suas lojas que, apesar de todos os acontecimentos, ainda eram movimentadas. As pessoas pareciam usar suas invenções como uma válvula de escape para todo o sofrimento que viam ao seu redor.

As informações chegavam aos poucos até a Toca, quase como se em partes: algumas vezes, algum membro da Ordem que trabalhava no Ministério trazia a notícia de um ataque ou outro (Tonks era uma das que mais trazia notícias e se lembrava de comentar uma coisa ou outra com Gina), outras vezes eram pedaços não muito confiáveis que podiam ser lidos no Profeta Diário: Harry Potter visto em Liverpool; dois corpos encontrados mortos dentro de uma loja abandonada no Beco Diagonal...

Por sorte, logo chegou o dia 1º de Setembro. Naquele ano, o modo de chegar até Hogwarts seria diferente, já que o Expresso de Hogwarts seria um alvo muito fácil. Assim, os aurores formariam grupos e os acompanhariam, cada um de um meio de transporte diferente, até o castelo. O grupo de Gina, que se constítuia em Gina, Luna e três meninos muito parecidos da Corvinal, que Gina desconfiava que fossem irmãos, mas não tinha certeza, acompanhado de quatro aurores, entre eles Tonks, chegou à Hogsmeade usando uma Chave de Portal (uma velha caneta esferográfica - pelo que os meninos disseram. Gina pensou que seu pai adoraria aquele item para sua coleção). De Hogsmeade, foram caminhando até os portões de Hogwarts. Os aurores estavam ainda mais apreensivos naquele momento do que estiveram durante a viagem, olhando para os lados ao perceber qualquer tipo de movimento, com as varinhas em punho.

Felizmente, nada aconteceu. Quando Gina finalmente entrou no castelo, percebeu que as coisas haviam mudado logo no Salão Principal. Não havia mais as quatro mesas, cada uma para uma casa, apenas uma. Havia mudanças também nos dormitórios: As garotas de cada casa dormiriam juntas, não sendo mais divididas pelos anos que cursavam. Gina contou as camas e percebeu que haviam onze apenas. Ainda não havia ninguém no dormitório, de modo que Gina sentou-se na cama que tinha seu baú e esperou. Cinco minutos mais tarde, rangeu os dentes ao perceber que naquele ano, seria afortunada o bastante para dividir o mesmo dormitório com Lilá Brown e Parvati Patil. Suspirou fundo quando se lembrou de todas as histórias que Hermione contava das duas, mesmo antes do começo do namoro de Lilá com Rony. Depois, as histórias ficaram ainda piores. Apesar de Gina ter certeza que a mudança nas histórias nada tinham a ver com alguma mudança no comportamento de Lilá e tudo a ver com quem a menina estava namorando, aquelas histórias não aumentavam em nada sua vontade em dividir um quarto com ela.

O ponto positivo é que Lilá fingiu nem notar sua presença, ao contrário de quando ainda namorava com Rony, quando fazia questão de a chamar de "cunhada". O negativo é que isso não a impediu de ouvir os risinhos e comentários que a outra fazia com Parvati.

Demelza também havia voltado e pelo que contou para Gina também havia sido difícil convencer seus pais que devia voltar para Hogwarts. Haviam ainda três meninas do quarto ano e três do terceiro.Infelizmente, Romilda Vane e suas companheiras haviam voltado. Não havia ninguém do segundo e do primeiro ano. Gina deduziu que quanto mais novos fossem os filhos, mais difícil convencer os pais que Hogwarts era um lugar seguro.

Ao chegar no Salão Principal na hora da janta, Gina percebeu que a Grifinória era a casa que mais tinha gente. Os sonserinos eram quase inexistentes, os corvinais eram poucos, os lufa-lufa menos ainda. Ao todo, Gina contou mais ou menos 50 alunos. Em um ano letivo normal, havia cerca de trezentos...

Ao ir para cama, naquela noite, passou pela cabeça de Gina que, com a diminuição radical do número de alunos, o número de mesas do Salão Principal era apenas uma das várias mudanças que iriam ocorrer naquele ano. Ao acordar para o primeiro dia de aula e receber o seu horário, ela percebeu que estava certa.

Havia aulas para as quatro casas juntas, aulas para o sexto e sétimo anos combinadas... não era algo fácil de entender. Ela decidiu que o melhor seria tentar memorizar em que lugar deveria estar a que hora do dia e não com quem teria as aulas.

As semanas foram passando. Todo dia, no café da manhã, algumas corajosas corujas ainda faziam a entrega da correspondência para os alunos. Gina sempre levantava a cabeça esperançosa, mas as notícias que ela estava esperando nunca vinham. As más notícias, entretanto, nunca faltavam.

Até que, uma bela noite, os estudantes tiveram uma surpresa. Na mesa dos professores, estava Remus Lupin. Ele comia pouco e falava baixo, logo ninguém entendeu porque o antigo professor (que agora, todos sabiam que era um lobisomem) estava ali. Gina deixou para fazer as perguntas que estavam entaladas na garganta quando a maioria dos alunos já tinha ido para seus respectivos quartos.

- Remus!

- Olá, Gina. Como vão as aulas?

- Vão indo. Um pouco diferente do que eu estava acostumada, mas já era de se esperar. E a Tonks, como está?

- Bem, trabalhando bastante, mas quem não está, não é mesmo?

- É... e você, como está? - Gina ainda estranhava tratar o professor por você, já que uma parte dela sempre queria chamá-lo de Prof. Lupin, mas ele havia sido categórico em pedir que ela o tratasse por Remus.

- Bem, também. Na medida do possível.

- O que você veio fazer por aqui? - ela tentou fazer a pergunta soar o mais casual possível, mas um brilho no olhar de Remus denunciou que ele já estava esperando por essa pergunta desde o começo da conversa.

- Você quer dizer, além de comer um pouco? - E sorriu - Bom, vim conversar com a Profa. McGonnagall e pedir um favor.

- Sobre o quê?

- Gina, você sabe que eu não poderia estar contando tudo isso, não é?

- Mas agora você já começou e me deixou curiosa. E então, Remus, sobre o quê?

Ele olhou ao redor, e, somente depois de se certificar que não havia ninguém nas proximidades, começou a explicar em voz baixa:

- Bom, na Ordem, nós nos deparamos com um problema que não havia sido previsto... com todas as lutas e todos os ataques, muitas crianças estão ficando órfãs. Não só isso, mas vários membros da Ordem e dos Aurores não tem um lugar seguro para suas próprias crianças. Todas elas precisam de um lugar, e eu pensei que talvez, com a redução do número de alunos, houvesse espaço o bastante para elas aqui.

- Esse espaço existe, Remus. Mais da metade dos quartos estão fechados... mas você fala como se a Profa. McGonnagall tivesse dito não.

- Isso porque ela disse.

- Mas por quê? Hogwarts seria o lugar perfeito para essas crianças.

- Pois é, mas como a Minerva mesmo me explicou, o espaço existe, mas não há ninguém que possa tomar conta das crianças. Os professores estão ocupados, e deixar tantas crianças pequenas sob os cuidados de elfos-domésticos não é uma boa idéia... parece que voltamos à estaca zero.

- Nossa, é verdade, não tinha pensado nisso... - de repente uma idéia começou a se formar na cabeça de Gina - Remus, por que nós mesmos, os alunos, não ajudamos a cuidar delas. Não somos mais crianças, e a gente podia ajudar...

- O problema é que não é só questão de cuidar delas, Gina. Mesmo que vocês conseguissem se organizar para cuidar dessas crianças sem que isso interferisse em suas aulas, elas também necessitam ser protegidas. Nunca se sabe quando haverá um ataque, e Hogwarts não é mais a mesma desde que Dumbledore morreu...

- Quanto à isso, talvez eu tenha a solução. Eu venho pensado nisso há algum tempo, mas ainda não havia colocado em prática: Remus, e se a gente reavivasse o AD?

- O AD? Mas eu achei que vocês já estivessem tendo aulas de defesa até demais.

- Não posso dizer que nós não estamos, mas o fato é que uma coisa que ficou muito clara pra mim no quarto ano, é que é muito mais fácil aprender certos feitiços com alguém que esteja passando mais ou menos pelas mesmas coisas que você. Não só isso, mas o AD também era bem mais prático e nós mesmo podíamos dar sugestões sobre o que queríamos aprender e pedir ajuda quando tínhamos dificuldades...

- Ok, ok, você me convenceu. Mas você realmente acha que a Minerva vai dar permissão para um bando de alunos, grande parte deles menores de idade, cuidar e proteger tantas crianças?

- Isso a gente só vai saber se apresentar a idéia. Sinceramente, Remus, você consegue pensar em algo melhor?

- Não, e não vou negar que se as crianças estivessem num lugar seguro, sendo bem tratadas, muitas das nossas preocupações acabariam... - Remus passou as mãos pelo rosto, num sinal de cansaço. - Tudo bem, acho que vale a pena tentar. Mas, antes que nós apresentemos qualquer coisa para a Profa. McGonnagall, eu vou tentar ver se consigo alguém lá de fora para ajudar você na liderança do AD. Talvez a Tonks...

- Calma aí, calma aí... Liderança do AD? Eu?

- Claro... você me parece a melhor opção. Mas vocês podem fazer uma votação... eu só acho que vai acontecer a mesma coisa que aconteceu com o Harry.

- Não sei se eu concordo, mas... Por falar nele, Remus, alguma notícia? - ela tentou não parecer muito ansiosa. Não adiantou.

- A última informação que nós tivemos foi que eles estavam na Espanha. Mas isso já faz uma semana.

- Ah... eles estão bem?

- Até onde a gente sabe, sim.

Um sorriso de alívio tomou conta do rosto dela.

- Gina, acho que é melhor eu ir. Mas quanto à AD, não comente nada com ninguém por enquanto. Talvez só com os antigos membros mais próximos, mas não deixe a notícia se espalhar... muito. Eu volto daqui a uma semana com a resposta.

- Tudo bem, pode deixar. Tchau, Remus.

- Ah, e Gina...

- Sim? - Ela disse, parando e voltando-se para ele.

- Se chegar alguma outra notícia deles, não se preocupe, que eu trago para você.

Ela só sorriu em resposta.

N/A: Decidi continuar, finalmente, esta fic. Pretendo dar um fim nela até o bendito 21 de Julho. Qualquer dúvida/sugestão ou comentário, é só deixar um review, que será muito apreciado!