Parte Dois
Thorin e Anna foram até os Brandybuck buscar Darin. Mas o danadinho estava tão entretido numa brincadeira que pediu para ficar mais um pouco. Mirabella, mãe de Primula, garantiu que não seria problema nenhum ficar com Darin mais umas horas.
Após dar ao filho as costumeiras recomendações de obedecer aos mais velhos e ser um menino bonzinho, Anna voltou para Clearwater e dedicou-se aos preparativos para o lanche. Um deles, muito prazeroso, foi lavar o cabelo de Thorin e refazer suas tranças, ato que ele reciprocou. Anna usava as tranças de casamento, e Thorin periodicamente as refazia, como que renovando os votos de união, um para o outro.
Portanto, quando Gandalf chegou a Clearwater, casa e habitantes estavam impecáveis, à espera do Istar. Como sempre, Gandalf chegou na melhor hora - ele desaprovava atrasos.
Thorin mostrou a casa inteira, terminando com a varanda coberta, onde Anna montara a mesa.
— É uma casa muito aconchegante — comentou o mago. — Parece com um smial de hobbits, mas tem elementos diferentes.
Anna comentou:
— Thorin acrescentou elementos khazâd à casa.
Gandalf sorria:
— Vejo que construíram não uma casa, mas um lar. Impressionante como vocês foram aceitos. Hobbits não gostam muito de estranhos. Mas eu estive com o velho Thain, meu amigo Gerontius Took, e ele garantiu que a família é muito benquista - para estranhos, claro.
— A comunidade se ressentia de não ter um ferreiro próximo — disse Anna. — Agora Thorin tem até lista de espera de clientes.
— E você também ajuda a proteger a comunidade, pelo que ouvi falar, como parte da força de defesa. — disse o mago a Thorin. — Já Anna cuida dos doentes e das crianças.
Ela sorriu, garantindo:
— Adoro cuidar das crianças. Fico feliz em ser útil.
— Trago muitas lembranças de seus parentes eldar, Anna — disse Gandalf. — Eles andaram descobrindo coisas interessantes a seu respeito.
Thorin repetiu:
— Coisas interessantes.
— Sim — disse o mago. — Lord Elrond havia me alertado para uma circunstância que terminei confirmando.
Anna confessou:
— Não entendo.
— Já explico. Darin está adormecido?
— Não, ele está brincando na casa dos Brandybucks.
— Talvez seja melhor assim — disse Gandalf. — Ele não precisa saber o que vamos conversar.
Anna começou a ficar impaciente. Ela se esquecera de como Gandalf podia ser irritante ao não ir direto ao ponto. Ela indagou:
— Gandalf, o que há com Darin?
Ele quis saber:
— Qual foi a última vez que ele teve febre? Ou ficou doente?
Anna respondeu:
— Darin é muito saudável e forte. Ele teve uma pequena febre quando seus dentes começaram a nascer, mas fora isso não teve mais nada.
Thorin acrescentou:
— Ele favorece meu povo: anões são robustos e raramente adoecem.
— Mas eles podem adoecer, não? — Gandalf quis confirmar.
— Claro que sim. — Thorin tornou-se mais sombrio. — Quando o dragão tomou Erebor, tivemos que vagar pelo Norte. Muitos sucumbiram à doença, ao frio e à fome. Outras raças não teriam sobrevivido.
Gandalf indagou:
— Então, a rigor, pode-se dizer que a saúde de Darin é incomumente forte até para um anão?
Anna argumentou:
— Mas são circunstâncias muito diferentes. Darin tem uma boa casa, come bem e não precisa trabalhar duro para sobreviver. Os sobreviventes de Erebor foram expulsos de sua casa em condições terríveis.
O mago comentou:
— Apesar disso tudo, é minha teoria que Darin puxou mais à sua herança, Anna. Lord Elrond concorda comigo - até certo ponto.
Thorin pediu:
— Explique melhor.
— É bem possível que Darin seja imune a enfermidades e também à ação do tempo.
— Mas por que diz isso?
— É um traço que ele herdou de sua mãe - de você, Anna.
Ela sorriu:
— Desculpe, Gandalf, mas acho que desta vez está errado. Eu já fiquei doente e quase morri. Você mesmo me curou algumas vezes!
— Mas isso foi antes — lembrou o mago. — Antes de Darin nascer. Quando ele nasceu, seus poderes desabrocharam e os dele também. A partir desse momento, sua verdadeira natureza se fez presente. E essa natureza é parecida com a de seu kin.
Anna empalideceu. As notícias eram uma surpresa para ela. Ela tinha feito um projeto para sua vida. Queria envelhecer ao lado de Thorin, ver os anos passando e ambos observarem seu filho crescer. Era seu sonho. Thorin ainda tinha uns bons 60 anos ou mais, Anna deveria viver mais ou menos isso. Estariam juntos até a velhice.
Agora Gandalf dizia que sua vida planejada tinha ido por água abaixo. Ela ainda estava sob o impacto desta perspectiva quando Thorin quis esclarecer:
— O que está dizendo?
— É quase certo que sua mulher e seu filho não possam morrer naturalmente, Thorin. E também não podem ficar doentes. Como elfos.
Houve silêncio mortal entre os três. O coração de Anna estava disparado quando ela indagou, em voz baixa:
— Tem certeza disso?
— Como quase tudo a seu respeito, minha cara, não há certeza de nada — Gandalf respondeu, olhos cheios de afeição. — Mas Lord Elrond concorda comigo.
Anna ressaltou:
— Há um jeito no qual elfos podem morrer sem ser de forma violenta. Você sabe disso, Gandalf. Acha que o mesmo pode acontecer comigo?
O mago suspirou e respondeu, com sinceridade:
— Disso não sei dizer. Como falei antes, não temos muitas certezas.
Thorin indagou:
— Do que estão falando?
Anna esclareceu:
— Ouvi falar numa lenda que afirmava haver uma outra forma de elfos morrerem, sem ser por morte violenta. Se eles sofressem uma grande dor, uma grande perda ou desilusão, poderiam definhar até a morte. É como se escolhessem deixar de viver, tamanha a dor. Imaginei se isso poderia acontecer comigo.
Gandalf deu de ombros.
— É possível, minha cara. Mas não há jeito de confirmar.
Thorin lembrou:
— Você disse que você e Lord Elrond concordavam "até certo ponto". Qual é esse ponto?
Gandalf serviu-se do bolo de nozes antes de responder, agora solene:
— Algo em Darin chamou a atenção de Lord Elrond, na última vez que estiveram em Rivendell. À medida que o menino cresce, seus próprios poderes se firmam, e ele deverá desenvolver características diferenciadas. Ainda não se sabe se, como troca-peles, ele poderá ter a forma de mais de um animal. Mas Lord Elrond desconfiava de uma habilidade única em seu filho, uma que Anna muito provavelmente não tenha.
— Qual?
— Uma memória prodigiosa. Darin impressionou Lord Elrond ao reconhecer, por nome e aparência, a moça que ajudara Anna a cuidar dele ainda bebê. Ele se lembrava de Estel, de Lindir... Ele ficou poucas semanas em Rivendell, e tinha menos de um ano. Três anos mais tarde, ele não deveria ser capaz de se lembrar dessas pessoas. Mas ele se lembra. E também se lembrou do inverno rigoroso em Hobbiton e dos fatos que aconteceram naqueles dias. A memória dele não é a mesma de alguém da sua idade. Faz parte de sua herança.
Anna teve que admitir: já reparara nisso. A memória de Darin também chamara sua atenção, mas ela nunca pensou em algo semelhante. Sua expressão não passou despercebida por Gandalf.
— Vejo que já sabe sobre o que falo.
Thorin a encarou, surpreso, e Anna admitiu relutante:
— Sim, eu notei que Darin reconheceu pessoas que não deveria reconhecer. A primeira delas foi você, Thorin.
— Eu?
— Foi quando nos separamos. Você veio ao Shire atrás de nós. Darin tinha quase um ano — lembrou Anna. — Ele não via você desde que tinha seis meses. Nessa idade, você deveria ser um completo estranho. Mas ele o reconheceu.
O anão refutou:
— Ele chorou quando me viu. Ele estranhou; não me reconheceu.
— Sim, ele chorou de medo, porque achou que eu estava em perigo. Mas ele o reconheceu, Thorin. E também Kíli e Dwalin. Que criança não tem medo de Dwalin assim que o vê?
— Apenas uma criança que o conhece — respondeu Thorin.
Gandalf disse de maneira cuidadosa e calculada:
— Por isso tudo, eu também precisei repensar meu entendimento a seu respeito, Anna.
— Como assim?
— Sempre pensei que você fosse um personagem importante na história da Terra Média. Nunca me ocorreu que seu papel pudesse ser dar à luz a algum personagem importante para a Terra Média.
Anna empalideceu totalmente. Num átimo, ela recordou os acontecimentos que só tomariam forma dali a mais ou menos 60 anos: o aniversário de Bilbo, a rebeldia de um certo anel e a guerra que se sucederia.
Seu coração de mãe se estilhaçou em mil fragmentos. Poderia seu pequeno Darin ser destinado a participar destes eventos terríveis? A ser parte da Guerra do Anel?
Thorin notou a angústia da esposa e franziu o cenho:
— Ghivashel?
A voz de Anna estava abalada ao responder, de cabeça baixa:
— Se o que Gandalf diz for verdade, Darin pode passar por grandes perigos.
O anão a abraçou e prometeu:
— Nada vai acontecer a nosso pequeno. Eu o protegerei. Eu protegerei vocês dois.
Anna tentou sorrir, mesmo com os olhos cheios d'água:
— Eu sei que vai, meu amor. É apenas meu coração de mãe, que se angustia ao pensar na chance de seu filhinho se machucar.
Gandalf indagou sombriamente:
— Haverá guerra?
Anna advertiu, aflita:
— Eu prometi não revelar o futuro desta terra! É muito perigoso!
Gandalf assentiu, tentando tranquilizá-la:
— Está bem, está bem. Não precisa se aborrecer. Mas você prometeu falar um pouco do seu mundo, lembra-se? Pode fazer isso?
Anna assentiu, tentando acalmar a inquietação em sua alma. Thorin indagou:
— Quem sabe Gandalf queira um pouco mais de chá? Pode apanhar, querida, por favor?
O mago acrescentou:
— E um pouco mais desses biscoitinhos de gengibre também viriam a calhar. Excelente receita!
Foi a brecha para Anna tentar se livrar dos pensamentos nefastos de sua mente. Ela se dedicou a atender seu convidado, ativamente evitando ruminar as implicações do que o mago dissera. O próprio Gandalf tratou de mudar de assunto:
— Aposto que uma refeição assim não se encontra em seu mundo.
— Bem, a refeição em si pode ser idêntica, mas a forma de fazer é totalmente diferente.
— Você mencionou o uso de máquinas.
— Sim, isso mesmo. Acho que tudo começou a mudar quando procuramos novas formas de energia. Com o tempo, conquistamos o vapor. Depois de muito tempo, conquistamos a energia dos raios e chamamos de eletricidade. Ela mudou o mundo. Ao toque de um botão, as máquinas ligavam, luzes se acendiam, tão brilhantes quanto o sol. Descobrimos uma substância líquida capaz de energizar motores. Os cavalos foram aposentados. Viagens tornaram-se questão de dias ao invés de meses, e depois de poucas horas. Por terra, há carruagens sem cavalos, mais rápidas do que dezenas deles juntos. Pelo ar, máquinas voadoras são mais velozes que as grandes águias de Manwë.
Gandalf estava maravilhados:
— Viajar rapidamente assim é útil.
— E é mesmo. A viagem a Erebor não teria demorado mais do que um dia.
— Inacreditável...!
— Barcos viraram itens de mera diversão.
— Não é à toa que você tem tanta dificuldade com alguns aspectos da vida aqui.
— É verdade. Vivo aqui há anos, mas ainda estranho muitas coisas. Thorin sabe o quanto cada vez que vou lavar roupa. Essa é uma máquina da qual sinto falta.
— Uma máquina que lava roupa? Isto é extraordinário.
Thorin sorriu:
— É o que ela diz. Mas segundo ela, não é a única.
— Que outras máquinas maravilhosas pode nos descrever?
— Na cozinha, há máquinas que torram pão, que misturam ingredientes, que lavam louça, que guardam e conservam comida no frio mesmo no verão... Como eu disse, são máquinas para quase todas as atividades. Suponho que vocês achariam tudo muito estranho se pudessem conhecer meu mundo.
— E a vida é muito diferente?
— Bem, só há uma raça: os homens. Os elfos deixaram a terra. Mas não sei o que houve com os hobbits e anões. Só posso presumir que seu tempo tenha terminado, de algum modo.
— Você me disse que trabalhava — lembrou Thorin. — Pode dizer em quê?
— Até posso lhe dizer, mas não vai entender. Aqui não vejo grande utilidade em saber web design.
— O que...?
Anna deu de ombros e respondeu:
— Vamos dizer apenas que eu operava uma máquina complexa e eu a usava para criar cartazes e outros materiais.
— Como uma forja?
— Bem menos perigosa e bem mais complicada. Mas era o meu ganha-pão.
— Então todos lá trabalham?
— É preciso. Lá tudo custa dinheiro. Morar, comer, viver... Por isso mães e pais têm que trabalhar.
— E o que tem de bom? Do que sente falta?
— Como disse o Capitão América, a comida é mais higiênica. A medicina é avançada. A internet é muito útil, porque as pessoas podem carregar aparelhos portáteis e acessar informações. Mas só sinto falta de minha mãe.
Gandalf disse:
— Sua mãe deve ser encantadora.
Thorin estava intrigado:
— E que capitão é esse?
Anna riu-se:
— O capitão que falei é alguém que também se sentiu perdido no meu mundo. Aquele lugar pode ser atordoante.
Foi quando uma vozinha infantil soou da porta:
— Amad! Amad!
Surpresa, Anna virou-se para ver Darin chegar com a pequena Prímula e sua irmã Asfodélia. Anna saudou-os:
— Olá, crianças, olá, Asfodélia! Quanta gentileza trazer Darin de volta. Quem quer um biscoitinho?
— Eu!
— Então primeiro vamos lavar as mãos. Darin, diga olá para Gandalf.
— Olá, Sr. Gandalf! Oi, adad!
— Olá, filho. Vá lavar as mãos.
— Venha, Asfodélia — convidou Anna. — Sirva-se de pão. Quer geleia? Prim, tome um biscoitinho de gengibre.
Com as crianças, o lanche tornou-se animado e festivo. Era um clima de confraternização e celebração de velhos amigos.
Ao final, Gandalf voltou para Bag End com metade do bolo de nozes, e Asfodélia levou um prato inteiro de biscoitinhos. Anna ficou com os pães por serem os favoritos de Thorin e Darin.
Aquela noite, o jantar foi mais leve, depois do lanche reforçado. Anna tomou a precaução de dar banho em Darin antes do jantar, e foi a coisa certa a se fazer: após brincar o dia todo, o menino tomou a sopa e apagou, exausto. Anna colocou o filho na cama com carinho e foi terminar suas tarefas domésticas. Thorin acendeu seu cachimbo e foi fumar na sua cadeira de jardim.
Em vez de sentar-se na sua cadeira, Anna optou por sentar-se no colo do marido. Ele sorriu, indagando:
— Então achou um lugar confortável para se sentar?
Anna repousou a cabeça no ombro dele e respondeu:
— É o único lugar confortável para mim.
Thorin beijou o topo da cabeça dela e ambos ficaram em silêncio por alguns minutos. De repente, ele anunciou:
— Acho melhor começar a treinar Darin para combate o quanto antes. A menos que você se oponha.
— Não gosto da ideia de meu filho aprendendo a guerrear — confessou Anna. — Mas com essa nova informação, é lógico pensar que ele venha a se envolver em alguma guerra. Ah, eu tinha sonhado com uma vida tranquila para ele...!
— A minha mãe costumava dizer que a vida normalmente se resolve, mesmo que nem sempre seja do jeito que imaginamos.
— Thorin, como se sente?
— Difícil definir. Eu me preparei para ver você envelhecer rapidamente. Agora...
— Meus planos incluíam ver nós dois envelhecermos ao mesmo tempo. Calculei que em uns 50 anos Darin será um homem, talvez com família. Eu serei uma mulher velha e você será um anão velho, com 250 anos.
— Eu sou um anão velho — corrigiu Thorin. — Tenho mais de 200 anos.
— Não é, não. Ainda não.
— Você terá tempo para se acostumar antes que o tempo e a idade nos forcem a dar adeus.
Séria, Anna declarou:
— Thorin, eu jamais estarei pronta para dar adeus. Há uma grande chance de que eu me vá também quando você for. Sei que é cedo para falar assim, mas eu estou sentindo algo dentro de mim. É uma sensação nova.
Thorin ficou alarmado.
— É algo ruim?
— Não, pelo contrário. É como se ainda não soubesse se comunicar. Não sei explicar. Ainda estou confusa com tudo que Gandalf disse.
— Não é à toa que o povo daqui tem reservas quanto a ele — Thorin disse, de repente azedo. — Parece que ele só traz más notícias. Você está bem?
Anna suspirou. Depois disse:
— Estou pensando em Anakin e Amigdala.
— Quem?
— É de uma história popular no meu mundo. Havia uma guerra e os guerreiros de luz tinham uma profecia sobre um salvador poderoso. Amigdala era a rainha de um mundo ameaçado pela guerra. O salvador foi descoberto como sendo um escravo de 4 anos chamado Anakin: sua mágica era grande mas destreinada. Ele foi levado pela rainha para ser treinado pelos guerreiros de luz. Amigdala viu Anakin crescer e tornar-se forte em magia e sabedoria. Ambos envelheceram, mas em ritmos diferentes. A guerra continuou, eles se casaram mas ela morreu no parto. Caso contrário, acho que ela teria vivido mais do que ele.
— E o que aconteceu?
— Oh, foi muito triste. Anakin se esqueceu de Amigdala e foi seduzido pelo mal. Tornou-se um Senhor das Trevas. Ele sabia que os filhos eram poderosos e perseguiu-os. No fim, os filhos carregavam a bondade da mãe e conseguiram redimir o pai.
— Que triste.
— É uma história muito popular no meu mundo. Pensei nela por causa da diferença de envelhecimento. É o que vai acontecer conosco.
Thorin quis saber:
— E como se sente?
Anna confessou:
— Acho cedo para saber. É claro que não me agrada saber que vou assistir ao seu declínio. Muito menos saber que vou perder você. Mas ainda temos uns bons anos. — Ela sorriu, ajeitando-se em seus braços. — Vamos aproveitá-los bem, meu amor.
Por um bom tempo, permaneceram em silêncio. A sensação nova e desconhecida dentro de Anna a acalmava. De algum modo, ela sabia que tudo ficaria bem.
Mas até tudo ficar bem, eles ainda viveriam grandes emoções. E algumas delas viriam bem mais cedo do que imaginavam.
No dia seguinte, Anna acordou com dificuldade, pois se sentia um tanto sonolenta. Diante do exposto por Gandalf no dia anterior, ela sabia que não estava doente. Intrigada, achou melhor perguntar ao mago mais tarde.
Durante o desjejum, Darin ficou de olhos fixos na mãe, quieto e introspectivo, totalmente fora de sua disposição matutina, que normalmente era borbulhante. A atitude, claro, não passou despercebida por Thorin.
— Filho, tudo bem?
— Aham.
— Você está quieto. Está doente?
Darin olhou para a mãe e respondeu:
— Não sei.
Anna sentou-se ao lado do menino e pôs a mão na testa, garantindo:
— Não parece ter febre, filhinho. Está sentindo alguma coisa?
— Amad... — disse o menino. — Amad, tem um bebê.
Anna ficou intrigada e indagou:
— Um bebê? Onde está ele?
Darin colocou a mãozinha na barriga da mãe, dizendo:
— Aqui.
Thorin arregalou os olhos e trocou um olhar com Anna. Ela procurou não demonstrar a emoção e quis saber:
— Tem um bebê na barriga da mamãe? Tem certeza, filho?
— Eu tenho — Darin ficou animado e passou a falar apressadamente. — Ela está feliz de chegar, e diz que quer logo me conhecer!
Houve silêncio por um minuto. Emocionada, Anna repetiu:
— E-ela...?
Darin explicou casualmente:
— O bebê é uma menina, amad. Como a Pri! Podemos dar a ela o nome de Thorin, igual ao adad? Podemos?
Thorin sequer ousava falar uma palavra. Anna tinha os olhos cheios d'água, mas conseguiu dizer:
— Ora, seu pai é um menino. E se o bebê é uma menina, não pode ter o nome de um menino, não acha?
Darin pensou e depois disse:
— Então pode ser Thorina? Aí é nome de menina, não é? É um bom nome?
Anna não conseguiu evitar as lágrimas ao responder:
— Thorina é um lindo nome, meu filho. Fez uma boa escolha.
O garoto garantiu:
— Ela pediu que eu desse um nome a ela. Amad, você ficou triste? Por que está chorando?
Anna o abraçou, dizendo:
— Não estou triste, meu amor. Pelo contrário. Estou feliz com o que me disse. É uma felicidade tão grande que não posso me conter. Nem todas as lágrimas são de tristeza.
Thorin finalmente encontrou palavras para dizer:
— Estamos todos muito felizes, meu filho.
Anna indagou:
— Darin, como você consegue falar com o bebê? Na sua cabeça?
— É! Na cabeça! Você não consegue, amad?
Anna explicou ao pequeno:
— Acho que Thorina decidiu falar primeiro com você, querido. Ela disse mais alguma coisa?
O pequeno respondeu:
— Ela disse que não vai poder falar muito tempo, pois tem que crescer muito até poder chegar. Ela disse que vai chegar no mesmo lugar de onde eu vim.
Thorin quis saber:
— Que lugar é esse?
— Ela está me mostrando... — Darin abriu um sorriso e disse: — É a casa do tio Elrond, amad! Ela vai chegar na casa do tio Elrond!
Anna quis saber:
— Então é lá que ela deve nascer? Rivendell?
— É lá — confirmou Darin. — Arwen ajuda!
— Sua irmã sabe mesmo das coisas — comentou Thorin. — Ela vai ser muito amada.
Anna reforçou:
— Fico muito feliz que vocês dois se entendam tão bem, Darin. Irmãos devem ser os melhores amigos.
O garoto repetiu:
— Irmãos?
Thorin confirmou:
— Você será o irmão do bebê. Ela será sua irmã caçula.
— O que é caçula?
— Caçula é o mais novo. Prímula é a irmã caçula de Asfodélia. Asfodélia sempre será a irmã mais velha de Pri. E você sempre será o irmão mais velho de Thorina. Vai protegê-la, não vai?
— Aham.
Thorin disse:
— Cabe aos homens proteger as mulheres, filho. Então você e eu vamos proteger sua irmã e sua mãe.
— Você me ensina, adad?
— É claro que ensino. Eu ensinei seus primos Fíli e Kíli e também o tio Bilbo.
—Bilbo também?
— Ele também. Que tal a gente ir agora mesmo fazer uma espada só para você?
— Oba! Vamos!
O garoto já começou a se mexer para sair da mesa, e Anna garantiu, em voz séria:
— Ninguém vai sair até terminar de comer tudo. Você também, Thorin.
Darin reclamou:
— Ah, amad...!
Thorin advertiu:
— É melhor obedecer à sua mãe. Tem que ficar forte para proteger a família, e para isso tem que comer direitinho.
Se Darin ficou contrariado com as palavras do pai, não disse, mas imprimiu velocidade à refeição. Anna sorriu e disse:
— Obrigada por falar comigo sobre sua irmã, filhinho. E se ela quiser mais alguma coisa, pode dizer para mim ou para seu pai.
— Tá. Agora posso ir com adad ver minha espada?
— Já terminou de comer?
Ele mostrou o prato vazio. Anna indagou:
— E seu adad já terminou?
Thorin imitou o filho, mostrando o prato vazio para a esposa. Ela sorriu.
— Muito bem! Agora podem ir, mas antes eu quero meu beijo.
O menino beijou a bochecha dela e saiu correndo. Thorin ergueu-se da mesa, e Anna pediu:
— Ei, adad: eu não abro mão do meu beijo.
O anão inclinou-se e colou seus lábios nos dela, aprofundando o beijo. Anna sussurrou:
— Parabéns, pai de Thorina...
Ele indagou:
— Mas como isso é possível?
Anna deu de ombros e sugeriu:
— Só posso presumir que tenha sido a água de Gil-Estel.
— Estou muito feliz, ghivashel.
— Ter uma menina era meu sonho, ukurduh.
Thorin ia responder, mas uma vozinha impaciente soou da porta da cozinha:
— Vamos logo, adadith!
Thorin foi obrigado a ceder à impaciência do menino de cinco anos e saiu de casa depois de dar mais um beijo na esposa. Na sua cabeça, Anna sabia que teria que esperar algumas semanas até confirmar a gravidez, mas ela já tinha a certeza em seu coração.
Sua filha parecia ser um milagre ainda maior do que Darin. Gandalf talvez pudesse confirmar isso.
Certamente seriam tempos interessantes à frente.
The End
Palavras em Khuzdul
adad = pai, papai
adadith = papaizinho
amad = mãe, mamãe
ämralimë = meu amor
âzyungâl = amado(a)
ghivasha = tesouro
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
khazâd = anões, povo anão
ukurduh = meu coração
uzbaduh = meu rei
