Dois dias após a Titanomaquia:
A sombra masculina de um herói movia-se sorrateira entre a floresta do Acampamento Meio-Sangue, desviando de Dríades sonâmbulas e espertas.
Percy marchou até a encosta do Punho de Zeus. As estrelas e a noite sendo as únicas testemunhas da aventura noturna do jovem. Ele escalou a grande parede rochosa e antes que pudesse chegar ao topo um zumbido prateado raspou-lhe certeiro o ombro esquerdo.
Percy desviou com a agilidade de um primata os seguintes zumbidos até alcançar o topo da rocha.
— Mas, que porra! — Arfou, segurando as saliências rochosas da superfície.
— Ah, deixe de ser molenga, foi divertido. — A caçadora zombou.
A aljava e o arco dela haviam sumido, ou melhor, compactaram-se em uma brilhante auréola de prata ao redor da cabeça de Thalia.
— Você... É... Uma praga, garota!
— Blá e blás! Onde está Annie Bells? — Thalia esticou uma manta felpuda sobre o alto da rocha, colocando ali alguns pertences de sua mochila de caça.
— Annabeth está agora no Olimpo, ela ficou tão empolgada com o poder de reorganizá-lo que não sossegou até começar. — Percy falou e Thalia percebeu uma pontada de mágoa em sua voz.
— Oh, sim.
"Então o que a trouxe aqui?"
Percy queria interrogá-la, saber os reais motivos que trouxeram a pequena árvore até ali, no SEU local.
— Café? — Thalia ofereceu uma caneca de café quente para ele. Percy não gostava muito de café, mas o jeito que ela o olhou não lhe dava a opção de recusar o líquido.
— Obrigada. — Por educação. Senão Sally arrancaria suas orelhas.
Eles beberam o líquido em silêncio, nenhum deles sabia o porquê do outro estar ali. Ela notara o filete de sangue seco na altura do ombro da camisa dele. Ela se desculpou e alegou ter pensando que era uma Harpia.
Ele rira das bochechas pintadas de vermelho-embaraço que adornavam o rosto macio dela. Ela ofereceu-se para cuidar do ferimento dele. Ele recusara, havia trazido Ambrosia de Emergência para casos como aquele.
Observaram as estrelas deitados em lados opostos da manta. Evitando certa nova constelação ao Céu.
— Eu vim contar a ela. — Percy rasgou o silêncio.
— Eu também. — Ela esforçou-se para não chorar. — Conto tudo a ela.
A filha de Zeus cruzou as mãos sobre a testa, Percy remexeu-se inquieto do seu lado da manta.
— Zöe...
Fitaram o ponto exato da constelação no Céu.
—Zöe, eu consegui. Como você disse. Eu realizei a profecia. — Percy podia sentir as lágrimas nos olhos. — Você deve estar orgulhosa.
E então eles narraram toda a guerra para as estrelas.
...
— Como vai a caçada? — Percy quebrou o silêncio.
Thalia suspirou alto.
— Legal.
Percy arqueou as sobrancelhas.
— Sério? Vamos lá, cara de pinheiro, somos primos. Pode contar tudo para o priminho favorito aqui. — Percy dissera, estendendo o braço, como os marinheiros fazem. Thalia o imaginou como o marinheiro Popeye, mas associou que Percy não gostasse de espinafre também. E dispensou a imagem dele com um cachimbo na boca. Hilariante.
— Idiota. — Ela riu.
O rosto de Percy podia iluminar toda a Colina Meio-Sangue agora. Acabara de ter uma ideia excelente.
— Posso resumir? Se quiser, é claro. — Ele propusera, deitando por sobre a manta e cruzando os calcanhares no ar. Thalia imitou-o. — Deve estar sendo um inferno.
Ela arqueou as sobrancelhas, cabeça de algas estava certíssimo.
— Como chegou a essa conclusão, Sherlock? — Thalia queria gritar que ele estava certo, mas ficou com medo de decepcionar sua senhora.
— Imagino o seguinte: Um bando de garotas. Garotas más. Juntas. No meio do nada. Caçando animais perigosos. Todas odiando furiosamente os homens. Imortais. Chegaria o mês em que alguma delas ficaria put... — Ele fez uma pausa longa, tão longa que Thalia se apoiou nos cotovelos para verificar se ele não havia dormido e babara em sua manta toda.
— Percy? Está babando no meu tapete?
O filho de Poseidon observava algo longe. Até que por fim, falou.
— Thalia, promete que não vai me matar? Ou ficar terrivelmente ofendida?
—Por que eu ficaria ofendida com o que quer que seja?
— Eu estava prestes a falar mal aqui, e pensei que agora que está toda feminina se ofenderia com palavras chulas e...
— PERSEU JACKSON.
— Ai! Nãome chame de Perseu —ele sentia um arrepio quando alguém o chamava pelo verdadeiro nome—, eu não xingo mais, prometo. — Percy assustou-se. Thalia estava em pé diante dele com um olhar mortal. Achou que agora que ela era caçadora, adquirira bons modos e aprendera a repreender palavrões.
— SEU FILHO DA PUTA!
Percy pensou que iria apanhar muito, principalmente quando ela o imobilizou, imprensando o corpo dele contra a manta. Ele jurou que podia sentir o punho de Zeus socando suas costelas.
Talvez Thalia não repreendesse palavrões.
Talvez ela os detestasse a ponto de imobilizar alguém com o próprio corpo e fazer pressão com o antebraço sobre a garganta desse alguém.
— Socorro! Eu sou muito novo pra morrer.
Thalia mal conseguia respirar. Só sentiu a raiva subir pela sua cabeça a ponto de querer enforcar o garoto por tamanho insulto cometido.
Ele deu a entender que antes de ela se juntar as caçadoras ela era 'masculina'? Ou ele quis dizer que depois de ela ter se juntado à Caçada ela se tornara fresca como uma filha de Afrodite?
Que diabos ele quis dizer com 'agora que está toda feminina'?
Ela fitou os olhos assustados do herói, observando os diversos tons de verde transbordando inquietação. Em uma situação diferente, ela até o acharia bonito. Podia sentir o físico musculoso do garoto competindo com o bombardeio de mudanças que a puberdade trazia.
"Uau, Poseidon também é quente."
— Tá me achando com cara de patricinha, porra?!
