DO JEITO CERTO
Capítulo 2. Longa Espera
Meia hora depois: hospital.
Na sala de espera, Aoi estava sentado, mexendo os pés freneticamente. Olhava para o chão e para o relógio da parede. Olhava para o balcão de informações e para o corredor, esperando que alguém viesse e dissesse algo.
Fez menção de levantar e ir até lá, mas Kai segurou seu braço, impedindo-o.
– Fica calmo. Você acabou de sair de lá, não tem nem cinco minutos.
– Calmo? Como você quer que eu fique calmo, Kai? Ele está lá dentro há um tempão!
– Se tivessem uma notícia ruim já teriam vindo nos contar. Ficar desse jeito só vai piorar a situação.
– Não dá pra piorar o que eu fiz. - disse, num tom de voz tenso, as mãos enfaixadas estavam tremendo. - Fiz a única coisa que não podia fazer! Isso aconteceu por minha causa!
– Yuu, você não vai ajudar o Kouyou ficando desse jeito. Eu sei que está nervoso, mas não adianta. Nós temos que esperar!
Os olhos de Yuu ficaram marejados. Suas mãos ainda tremiam, sem controle. Recusara-se a tomar um calmante, como alguns médicos tinham sugerido. Não queria sair dali. Quase teve de ser arrastado para tratar das mãos, machucadas quando esmurrou a porta do apartamento do namorado. Alguns cortes, hematomas, mas não sentia dor. A tensão daquela espera era maior.
Tentava se concentrar em alguma oração qualquer que não se lembrava muito bem. Seus pensamentos estavam muito velozes, e pedir concentração era o mesmo que pedir o impossível. Ainda não conseguira entender como tudo aquilo começara... mas todas as imagens continuavam em sua cabeça.
Era pra ser um dia de diversão, de festa... mas brigara com Uruha, por ciúmes! Por causa de uma fã e um beijo que ela lhe roubara! Gritou para ele as piores palavras que poderia, aquelas que sabia que iriam ferí-lo. Viu-o quando elas o atingiram como se fosse um golpe físico e as lágrimas rolaram pelo seu rosto. Viu-o ir embora, derrotado e sem palavras, mas o arrependimento não veio rápido o suficiente para que ele quisesse alcançá-lo. Quando o arrependimento veio, assim como a compreensão da injustiça que fizera, já tinham se passado horas.
Correu para o prédio de Kouyou. O tempo que o elevador demorou para chegar ao andar do apartamento pareceu uma eternidade. Mal chegou ao andar e já pulou para fora, andando a passos largos no corredor até chegar ao apartamento do namorado.
Respirou fundo para criar coragem e ter as palavras certas. Sabia que não ia ser fácil porque o magoara demais. "Idiota! Idiota!", gritava para si mesmo, recriminando-se pelas palavras ditas. Feriu seu namorado da pior forma possível, e lembrar agora de seu rosto triste e saber que fora o causador de sua tristeza dava-lhe náusea.
Apertou a campainha. Uma, duas vezes. Usou mais força, fazendo que o som agudo fosse contínuo.
Nada.
Sabia que algo estava errado. Kouyou odiava o barulho daquela campainha. Costumava atender rápido a porta para se livrar daquele som. Será que ele não estava em casa?
Não, impossível. Sabia que seu namorado não iria a um bar para beber e se expor daquela forma. Não quando certamente estaria chorando... Uruha sempre demonstrava as emoções com intensidade, mas preferia guardar a tristeza para si mesmo.
Será que ele sabe que sou eu e não quer me atender?
Apertou a campainha de novo. Nada.
Começou a bater na porta, mas não houve sinais de que alguém estava em casa. Nenhum som, absolutamente nada. Bateu mais forte... mas nenhum resultado.
Foi quando veio em sua mente os piores pensamentos possíveis. Kouyou certamente abriria a porta, irritado e o xingaria de todos os nomes vulgares que se lembrasse, pois a raiva seria forte demais para conter... pelo menos costumava ser assim numa briga normal...
Mas agora não era o caso. Não fora uma briga normal. Era apenas uma discussão por ciúmes, idiotas diga-se de passagem... mas o ofendera de forma gratuita. Tinha dito aquelas palavras para se defender, como se fosse um instinto. Se tivesse pensado antes, certamente não as teria usado... mas agora o estrago estava feito.
Não, não deveria esperar que ele abrisse e descontasse a sua raiva.
Acontecera alguma coisa. Algo muito ruim. Algo muito grave.
Um pressentimento horrível passou por sua cabeça. Tão horrível que em vez de tentar deixar de pensar nisso, sentiu-se completamente tomado pelo medo e começou a esmurrar a porta. Não pensava mais em chamar a atenção de Kouyou para que ele a abrisse: queria pô-la abaixo. Queria entrar de qualquer jeito.
Deu murros e chutes com toda a sua força, ignorando qualquer tipo de dor que aquilo pudesse lhe causar. Não houve resultados, então começou a jogar seu corpo, lançando-se contra a madeira, sentindo o baque e o estremecimento. Não soube quanto tempo se passou até realmente conseguir arrombá-la, abrindo-a com um barulho alto e se deparando com a cena que não queria ver: Uruha, caído no chão, meio sentado, encostado à parede.
Correu até ele, ajoelhou-se a sua frente, descobrindo-o pálido, com o nariz vermelho de quem havia chorado, e desacordado. Fechou as mãos em seus braços e sacudiu-o, tentando fazer com que despertasse, mas foi com pavor que percebeu a respiração alterada de seu namorado. Pesada, como se o seu corpo se esforçasse em cumprir um ato que deveria ser natural.
Chamou-o. Sacudiu-o, desesperado, mas seu corpo estava mole como se fosse o de um boneco de pano. Gritou, chamando-o, exigindo que acordasse... parecia irracional mas funcionou: viu-o abrir os olhos, também vermelhos. Não soube se ele o tinha reconhecido, porque parecia distante, entorpecido... ele estava completamente dopado. Quis fazê-lo falar, precisava mantê-lo acordado mas não conseguiu. Sentiu o corpo dele pesar, e sua cabeça pendeu para o lado. Desmaiara.
– Kou... não, Kou... não faz isso comigo, onegai!
Desesperado, ainda sacudiu-o mais uma vez, mas Uruha não reagia. A respiração tornou-se mais pesada, e a única reação que pôde ter foi colocá-lo nos braços para poder levá-lo ao hospital. Antes disso correu para o quarto e para o banheiro em busca de algo que nem sabia definir o que era... e encontrou jogado na pia, o vidrinho de comprimidos vazios. Sem acreditar, pegou-o, e lendo o rótulo reconheceu os remédios: aqueles que o médico receitara para ajudá-lo a dormir.
Uruha tomara todos.
O carro praticamente voou com a alta velocidade com que atravessara a cidade, mas o tempo mais uma vez pareceu não passar. Deitado no banco do passageiro, Kouyou continuava inerte, e continuou desse jeito até a última vez em que o viu, deitado na maca, enquanto pessoas de branco o levavam para um lugar onde não permitiram que entrasse.
Quase quarenta minutos. Nenhuma notícia. Aoi estava completamente transtornado, e só conseguia chorar.
– Foi tudo minha culpa... – era tudo o que conseguia dizer, como se aquilo fosse um mantra, ou uma ladainha repetida de forma exaustiva. – Ele fez isso porque eu o magoei.
– Yuu... fica calmo. – disse Kai, colocando a mão no ombro do amigo.
– Eu não consigo... – respondeu, com a voz falhando pelo choro. – Se ele morrer...
– Ele não vai morrer, Yuu. Kouyou é forte. Vai ser só um susto.
Aoi queria mesmo acreditar nisso, mas a imagem de seu namorado caído no chão do apartamento e sem respirar direito, fazia-o lembrar que tudo era sua culpa. A falta de notícias angustiava-o. Queria saber o que estava acontecendo, queria vê-lo.
Kami, onegai... protege o Kou, onegai...onegai...
Não soube quantas vezes repetiu o "por favor" nas orações por Kouyou, mas nunca parecia o suficiente. Não era suficiente. Nunca era demais pedir mais. Precisava insistir, ser fervoroso. Era sua culpa que as coisas estivessem acontecendo daquela forma, e se a única coisa que poderia fazer era rezar, era isso que faria com toda a fé que poderia reunir mesmo que, na realidade não a tivesse. Mas, se era por ele, passaria a tê-la.
As orações o mantiveram distraído por um tempo que não soube contar. Não tinha mais forças para olhar para os ponteiros do relógio e saber que os minutos não passavam. Tentava não olhar mais para eles. Talvez fosse melhor...
– Yuu?
– Hã? O quê? Alguma notícia? – perguntou, ansioso.
– Nada ainda. Eu só vim te trazer isso. – ofereceu o copinho ao amigo.
– Que é isso?
– Chá. Não posso te dar café porque está muito nervoso, mas você precisa beber alguma coisa.
– Não colocaram nada aí dentro?
– Não. Ninguém colocou nada. Fui eu mesmo quem peguei.
– Obrigado, Kai. Mas eu prefiro não tomar nada.
– Certo. – ele respondeu, tomando o chá que deveria ser do amigo e sentando novamente ao seu lado – Tem certeza que não quer nada? Essa ansiedade vai te fazer mal.
– Não vou me importo. O pior mal eu já fiz. – encostou-se na poltrona, deixando o corpo largado de qualquer jeito. – Eu o magoei, disse um monte de coisas que não deveria ter dito. Eu disse aquelas coisas sem pensar e o feri... – olhou para cima, fitando um ponto qualquer, indefinido. – Se eu pudesse voltar no tempo...
– Isso não dá pra fazer, mas você pode pedir perdão.
– Não tem perdão pro que eu fiz... – deixou um sorriso sem graça escapar de seus lábios – E agora Kouyou deve estar me odiando, com toda a razão.
– Ele não consegue ter raiva de ninguém por muito tempo. Você sabe.
– Eu sei, mas pra tudo tem uma primeira vez. E eu mereço que me odeie. O que eu fiz foi imperdoável. Eu sabia que aquilo ia machucar mas ainda assim eu falei.
– Todo mundo comete erros.
– Esse erro eu não podia cometer. – balançou a cabeça. – Acho que poderia cometer qualquer outro, mas não esse. Eu feri o Kou da pior forma possível...
– E acabou ferindo você mesmo.
– É... eu me feri também. Nunca vou me esquecer do que vi quando entrei no apartamento, pensei que ele estivesse morto. Quando vi aquilo... – hesitou por um momento – achei que eu fosse morrer... nunca me senti tão mal na minha vida.
– Quando a gente fere quem ama, é como se ferisse a si mesmo. – disse Kai, parecendo compreender a situação. E antes que Aoi o olhasse sem compreender, tratou de explicar. – Uma vez o Miyavi me disse isso depois de brigar comigo. Ele me pediu desculpas desse jeito.
– E você aceitou?
– Não tinha sido uma briga séria. – deu de ombros – E ele estava realmente arrependido. Não tinha motivos pra ficar prolongando a discussão.
– O que o Kou e eu tivemos não foi uma discussão boba, Kai... eu...
– Eu sei, mas o que ele disse é verdade. Se você ama mesmo alguém e magoa essa pessoa, você também se fere. Faz mal a si mesmo.
Sim, Kai tinha razão. Agora sabia qual o preço de sua desconfiança. Sabia que perdê-lo era mais do que poderia agüentar.
Entendera que ferir a ele era como ferir a si mesmo. Agora tinha de esperar pra saber o que ia acontecer... e arcar com as conseqüências.
O tempo ainda demorou a passar. Aoi continuava esperando, fazendo as mesmas orações, fazendo promessas pela vida de seu namorado. Não pedia por seu perdão, nem pensava nisso. Sabia que não merecia e esperava por palavras más da parte dele... mas ouviria quieto. Sem reagir. Nada ia expiar a culpa, e qualquer reação ruim de Uruha seria justa.
Atos que duraram até que um médico viesse lhes falar. Ao ver o senhor de branco, Aoi quase pulou da poltrona onde estava sentado. Estava ansioso demais.
– Os senhores são acompanhantes de Takashima Kouyou? – perguntou ele, com uma expressão impávida.
– Sim somos. Como é que ele está?
... continua...
