EYES OF FREEDOM
CAPÍTULO 2
O anfiteatro do palácio do governo estava lotado. A cerimônia de apresentação dos novos membros da PPN e a colocação nos respectivos esquadrões era fechada ao público e à imprensa, e desconhecida da população em geral. O segredo era uma das principais armas da polícia política, criada para controlar rebeliões e prender aqueles cujo modo de pensar divergia daquele adotado pelo supremo comandante, o general Kai Hiwatari.
No palco, uma grande mesa abrigava os dez líderes dos esquadrões, Kai, Rei e Max. O general encontrava-se no centro da mesa, com Rei a sua direita e Max à esquerda. Partindo do Ministro da Fazenda, encontravam-se os líderes dos esquadrões pares, iniciando por Ralf Jurgen, do segundo esquadrão, e terminando em Zeo Zagart, do décimo esquadrão. Ao lado do Ministro da Defesa, os líderes dos esquadrões ímpares, de Yuriy Ivanov até Brooklyn, o líder do nono esquadrão. Na platéia, alguns dos membros mais importantes dos esquadrões ocupavam as últimas filas, em uma zona quase sem iluminação, enquanto os cerca de cem novos membros ocupavam as cadeiras restantes. A seleção para os esquadrões era realizada secretamente, em reunião entre os ocupantes da mesa principal, e era nesta cerimônia que a colocação se tornava de conhecimento dos iniciados.
Ao primeiro esquadrão se destinavam os homens e mulheres com os cérebros mais aguçados, raciocínio rápido e discrição. Yuriy Ivanov comandava o esquadrão responsável pelo serviço de investigação, um grupo que quase nunca saía às ruas, mas reunia a informação coletada por outros esquadrões e determinava quem devia ser preso e quem devia ser apenas observado. Em geral, apenas pessoas de extrema confiança eram dirigidas a este grupo, dada a sua importância no cenário governista.
O segundo esquadrão era formado basicamente de políticos e seus parentes, em geral homens muito ricos e influentes, controladores de uma multidão de serventes e possuidora de imóveis e terras no exterior. Agiam principalmente fora do país, evitando que os segredos dos bastidores do governo fossem revelados para a comunidade internacional. Chefiados por Ralf Jurgen, um dos homens mais ricos do globo, muitos dos novos membros logo eram transferidos para países como o Reino da Baviera, começando a trabalhar imediatamente.
Michael Parker, chefe do terceiro esquadrão, exigia que seus homens fossem especialistas em combates aéreos. Seus homens controlavam os aeroportos, monitoravam o espaço aéreo e utilizavam-se de monomotores para pequenos e discretos vôos de reconhecimento que podiam determinar prisões em massa. Se fosse necessário, também comandariam bombardeios a zonas suspeitas com modernos caças de fabricação própria.
Para o quarto esquadrão, chefiado por Lai Chou, eram encaminhados aqueles cuja principal característica era a força física. A grande maioria dos membros deste esquadrão era do sexo masculino, embora algumas mulheres também integrassem suas fileiras. Uma delas, talvez a mais ilustre, era Mao Kon, casada com o ministro da fazenda. Os membros deste esquadrão normalmente ocupavam as ruas como policiais normais ou membros da tropa de choque, sendo os primeiros enviados na hora de conter manifestações populares.
Ozuma, chefe do quinto esquadrão, era um espião profissional. Seu passado era um mistério para a maioria das pessoas, mesmo dentro da PPN, e apenas Kai sabia seu verdadeiro nome. Assim como seu chefe, os membros deste esquadrão trabalhavam em missões de espionagem e infiltração, muitas vezes em missão conjunta com o primeiro esquadrão. Ambos esquadrões guardavam semelhanças, porém a diferença fundamental entre eles era que, em se tratando de trabalhos fora da cede da PPN, os homens de Ozuma eram enviados, repassando as informações obtidas para o grupo de Yuriy. Não raramente os dois líderes eram vistos conversando pelos corredores aos sussurros, e ambos eram homens de extrema confiança do general.
O sexto esquadrão, de Kane Yamashita, era o único subordinado a Takao Kinomiya, o Ministro da Educação e Cultura, e não a Max Mizuhara, o Ministro da Defesa. Sua função era basicamente a de controlar que notícias, programas ou eventos podiam ser mostrados ao público e se havia necessidade de alterar o conteúdo original de alguma dessas manifestações. Durante shows e eventos ao vivo, homens do sexto esquadrão se misturavam com homens do quarto esquadrão, prendendo aqueles que se mostrassem um pouco subversivos demais. Eram também os únicos que não andavam armados.
Julia Fernandes, a única mulher entre os líderes, comandava o sétimo esquadrão. As pessoas encaminhadas para este esquadrão seguiam imediatamente para viver no campo, em pequenas cidades e comunidades rurais, assumindo o controle de prefeituras, igrejas e escolas. Em geral, os subordinados de Julia eram escolhidos por seu carisma e capacidade de convencer as pessoas a seguir seus pontos de vista. Apesar de realizarem basicamente uma espécie de "lavagem cerebral", agiam como a polícia regular caso fosse necessário.
O oitavo esquadrão era a marinha nacional, responsável por vigiar os rios, portos e a estreita faixa de mar que banhava o oeste do país. Mihaeru era o líder, vivia em uma mansão perto da costa de onde controlava as ações de seus subordinados e raramente era visto entre os outros líderes. Em geral, exigia dos novos membros um profundo conhecimento sobre os oceanos, a vida marinha e todo o tipo de barco, lancha ou submarino já criado.
O nono esquadrão estava intimamente ligado ao o segundo esquadrão. Chefiado por Brooklyn, uma pessoa tão misteriosa quanto Ozuma ou o general Hiwatari, era o responsável por policiar as fronteiras impedindo a entrada ou saída de pessoas sem a devida autorização, além de lançar o alerta caso um dos países vizinhos fizesse algum movimento suspeito. Tinha também fortes ligações com o décimo esquadrão.
O esquadrão de Zeo Zagart, apesar de estar teoricamente sob o comando de Max Mizuhara, aceitava ordens também dos homens ligados a Kyoujuu, o ministro do Desenvolvimento Tecnológico. Eram seus homens que desenvolviam as poderosas máquinas de guerra e de espionagem utilizada pelos demais esquadrões e eram também eles os responsáveis pela realização de experimentos científicos nos prisioneiros e em povos considerados minorias étnicas, operações que exigiam absoluto sigilo.
- Sem mais delongas, vamos iniciar a cerimônia de apresentação dos novos membros da PPN. – A voz de Takao Kinomiya, o escolhido para ser o orador da noite, soou no microfone, chamando a atenção do público até então distraído. O ministro encontrava-se em uma bancada quase escondida no canto do palco e, apesar da ocasião formal, mantinha seu terno aberto, a gravata desarrumada e a camisa branca para fora da calça, realçando seu ar despojado. Se não fosse uma figura tão importante no governo, Kai provavelmente já o teria prendido por desacato a autoridade. – Sei que vocês todos estão ansiosos, passaram por terríveis testes até serem finalmente aceitos aqui. A partir de agora, a vida de todos vocês vai mudar radicalmente, e, quero que fique bem claro, depois que a cerimônia de hoje se encerrar, não há mais como voltar atrás nem desistir. A ligação de vocês com o nosso grande general e seu governo é vitalícia, não poderão nunca lhe dar as costas ou desobedecê-lo. Traições serão punidas com a morte. Com a palavra, o Ministro da Defesa, Max Mizuhara.
Max levantou-se de sua cadeira e saudou os presentes antes de começar seu discurso propriamente dito. Ao contrário de Takao, estava vestindo conforme a ocasião exigia, conseguindo até mesmo controlar os cabelos rebeldes:
- A partir de agora, vou chamar novos membros de acordo com o esquadrão de que farão parte. As pessoas cujos nomes foram chamados deverão levantar-se e fazer o juramento de fidelidade ao país e ao comandante, e em seguida o líder do respectivo esquadrão fará um breve discurso. Encerrada a solenidade, vocês serão oficialmente declarados parte da PPN, e terão uma reunião à portas fechadas com seu líder. Vamos começar.
Koichi Yuy ouviu seu nome entre os primeiros a serem chamados. Assim como cerca de uma dúzia de pessoas, entre homens e mulheres, levantou-se para fazer o tal juramento. Não prestou muita atenção nas palavras que dizia, apenas repetia as palavras do homem ruivo que as pronunciava. Sabia que ele se chamava Yuriy Ivanov, mas não era ele que o interessava naquela multidão. Durante todo o juramento, manteve os olhos fixos no general, memorizando cada detalhe de sua aparência, desde os olhos escuros e frios até as marcas azuis pintadas em suas bochechas, como um antigo chefe tribal. Kai Hiwatari podia despertar medo na maioria das pessoas, porém tudo que ele podia sentir era ódio e repulsa pelo homem que o seqüestrara quando pequeno e o levava para um laboratório sombrio onde, por causa das propriedades especiais de seus olhos, uma herança genética de seu povo, os primeiros habitantes daquela terra, tivera que passar por inúmeros experimentos, muitos deles dolorosos.
Depois de anos, já não era mais o mesmo. Seus olhos não eram mais aqueles da criança curiosa e inocente do passado, nem ele mesmo tinha coragem de encará-los em seu novo estado. O poder guardado neles sumira, dando lugar a um sem-número de problemas: não raramente sentia os olhos arderem, sua visão estremecia e escurecia completamente por um longo tempo. Por vezes também via tudo em preto e branco, sem vida, ou simplesmente não conseguia abrir os olhos. Quando essas coisas aconteciam – com uma freqüência cada vez maior, diga-se de passagem – era preciso ignorá-las, ou sua vida corria perigo. Agarrou com força a chance de fazer parte da PPN, assim poderia um dia se vingar do homem que arruinara a sua vida e tentar salvar o resto de seu povo que ainda vivia escondido. O ditador Kai Hiwatari era intolerante com diferenças, despreza as minorias e não raramente as utilizava como objetos de estudo.
No passado, a terra onde hoje estava construído o reinado do general fora ocupado por diversos povos, cada um especial a sua maneira. Com o tempo, um desses povos passou a dominar os outros, recheando a história daquele país com guerras pelo poder, confrontos sangrentos e mortes de inocentes. Sendo, obviamente, uma história contada pelos vencedores dos confrontos, grande parte dos horrores dessas guerras eram escondidos da população em geral, que vivia feliz se tinha o que comer e com o que se distrair.
Yuy teve que se concentrar para prestar atenção no que o líder dissera em sua reunião particular com os novos membros do esquadrão. Já havia uma missão para eles, para ele em particular. Não deu voz a sua estranheza quanto ao fato de que sua tarefa tinha mais relação com as missões do quarto esquadrão do que com o do primeiro, ainda não era hora de bancar o subversivo. Se precisava impedir uma manifestação de estudantes rebeldes, era isso que faria, sem questionar. Pelo menos por agora.
A professora entrou na sala, silenciando os sussurros das conversas que minutos antes enchiam o local. Não era uma mulher muito alta, tinha cabelos loiros cortados rente ao ombro com mechas vermelhas reluzentes. Seus olhos eram verdes e brilhantes, gentis, porém sérios. Ao se apresentar, disse que seu nome era Satsuki Kinomoto, e que durante o semestre seria a professora de Introdução à Sociologia, curso ministrado não só para estudantes de sociologia, como também para os de história, filosofia e outras ciências humanas. Por este motivo, a sala de aula estava lotada com mais de oitenta alunos dividindo um espaço não muito maior do que trinta metros quadrados.
Felipe não era exatamente o aluno que gostava de aulas onde o professor fala sem parar, ainda mais em um dia quente como aquele. Kinomoto parecia ser uma pessoa legal, seu falatório podia até ser interessante, mas no momento ele não podia deixar de se sentir sonolento e com vontade de estar do lado de fora, aproveitando a paz e a tranqüilidade do campus localizado na zona o mais afastado possível da cidade, literalmente no meio do mato, onde pessoas, cachorros pulguentos e animais selvagens conviviam em harmonia, ao menos na maioria das vezes.
Virando o rosto para o lado, o bebê do campus viu seu novo amigo em uma situação parecida. Como não podia perturbar a aula de sua nova professora, tentou virar para a frente e ao menos fingir prestar atenção, mas o garoto sentado a sua frente inconscientemente o impediu. Ele era alto, tinha cabelos castanhos escuros, no mesmo tom de seus olhos. Magro, dava a impressão de ser desajeitado, e os poucos minutos de conversa antes do início da aula revelavam que ele também era um tanto ingênuo e alienado. Chamava-se Cristiano, pelo que ele podia se lembrar, e assim como Luiz tinha dezessete anos.
Finalmente desistindo de prestar atenção na aula de Kinomoto, Felipe passou a vagar seus olhos pelos outros estudantes, registrando em sua mente aqueles que achava mais interessante. Os primeiros a chamar sua atenção foram três alunos sentados no fundo da sala, um tanto distantes dos demais. Tinham um ar misterioso ao redor deles, porém, se estavam tentando ser discretos, com certeza falhariam miseravelmente. Um dos garotos tinha o cabelo pintado de azul, a mesma cor de seus olhos, e seu colega escolhera o verde para colorir os seus, também combinando com seus olhos. A única menina do grupo não pintara o cabelo como um todo, era loira e prendia o cabelo em um rabo de cavalo baixo. Tinha, porém, duas mechas rosas, uma de cada lado do rosto, pendendo até os ombros. Como não podiam conversar, trocavam bilhetes freneticamente.
Nas primeiras fileiras, havia um garoto que parecia partilhar dos mesmos males de Felipe, estava praticamente babando em seu caderno. Era moreno e suas trancinhas rastafari saíam para fora da boina colorida. Sua mochila tinha as inscrições "Sociologia – Segundo ano", o que por si só era esclarecedor. Ele provavelmente estava cursando esta cadeira pela segunda vez – com grandes chances de isso ser devido ao seu excesso de sono em aulas – e era ainda mais velho do que a maioria das pessoas que estavam ali naquela sala.
Na primeira fila, um casal parecia estar brigando com os olhares. A garota tinha longos cabelos castanhos e era dona de um olhar severo. Usava a bolsa característica do pessoal da arquitetura, bem como o chapéu verde estilo Robin Wood com uma pena vermelha presa a ele, a marca do curso. O garoto ao seu lado parecia ser mais tímido, ao menos um pouco apavorado com a atitude da outra. Seu cabelo era preto com estranhas manchas amarelas e ele usava uma faixa na testa com a inscrição "Eu faço História!".
Os chapéus pontudos da arquitetura eram um tanto chamativos, e logo o olhar de Felipe foi atraído para a outra menina que o usava na sala de aula. Ela tinha cabelos castanhos meio crespos presos em um rabo de cavalo, e seu olhar revelava que ela bebia cada palavra que Kinomoto dizia, muito interessada. Seus olhos brilhavam tanto que pareciam até os olhos de uma louca alucinada.
Ao seu lado, um garoto que podia ser definido com apenas uma palavra: estranho. Começando por suas roupas: uma calça boca de sino verde-limão com correntes roxas penduradas, camisa laranja gola pólo e, por cima da camisa, um colete xadrez vermelho e verde. Seus tênis estavam tão remendados que era impossível ver o tecido original por baixo das costuras e remendos. Seu cabelo parecia desafiar qualquer lei da física, com uma franja que era mais um emaranhado de cabelos desordenados do que uma franja propriamente dita, apontado para todas as direções, inclusive para cima, e seu dono não parecia disposto a domesticá-la.
Se Felipe cochilou ou não, ele nunca descobriu. Antes que se desse conta, a aula estava encerrada, e os alunos saíam em bandos da sala. Apenas Luiz e Cristiano ficaram para trás, esperando o garoto.
- Felipe! Felipe! A aula acabou! – Chamou o príncipe, ajeitando a mochila nas costas.
- Ah, já? – Exclamou o topetudo, surpreso. – Nem percebi...
- Aposto como você nem sequer percebeu que a professora estava falando alguma coisa, não é? – Perguntou Cristiano. O garoto, uma vez em pé, era ainda mais alto que seus dois companheiros, embora muito mais magro. Assemelhava-se a uma vareta humana, com a cara lisa e a voz ainda um pouco fina. De uma certa maneira, conseguia ser o oposto tanto de Felipe quanto de Luiz.
- Ah, mas claro que não! – Defendeu-se Felipe. – É claro que eu prestei atenção! – Mentiu.
- Então tá... o que foi que ela disse sobre o estudo da sociologia como forma de criticar o governo militar e provocar o caos e o tumulto até sermos presos e torturados? – Perguntou Luiz, com um estranho sorriso em seu rosto. Tanto Felipe quanto Cristiano o encararam, surpresos.
- Ela disse isso? – Perguntou Felipe, com os olhos saltados.
- Luiz, ela não disse nada disso, não que eu lembre, e olha que eu prestei atenção em tudo, até fiz anotações! – Exclamou Cristiano, levemente em pânico.
- Tudo bem, eu confesso, ela não disse nada disso. Eu disse aquilo só pra ver a reação de vocês. – Admitiu o príncipe, curvando-se para os amigos. – Mas que seria legal se ela dissesse, isso seria...
- Com certeza!
Cristiano não se pronunciou, limitando-se a observar os dois amigos que, abraçados, se retiravam da sala. O modo de pensar dos dois era de fato parecido, e o garoto se perguntava se acabaria se metendo em alguma encrenca por causa deles.
E então? O que acharam do segundo capítulo?
É, eu sei que não teve muita ação, mas a apresentação destes personagens era necessária. Confuso com o monte de descrissões dos colegas do Felipe? No próximo capítulo eles vão ganhar nomes, não se preocupem. No próximo capítulo também Yuy e Felipe se encontrarão pela primeira vez, e uma coisa dá pra dizer: vai ser um encontro memorável (principalmente pra quem leu o Torneio Sul-americano de Beyblade 2 e sabe da relação entre esses dois personagens naquela história... XD)
Ah, sim, uma observação: NO capítulo 1, Felipe comentou com Luiz que fazia cerca de vinte anos que Kai assumira o poder. Vamos ter isso como um delírio exagerado de uma criança impressionada e revoltada, porque na verdade fazem QUINZE anos que o Kai assumiu. A diferença pode parecer pequena, mas vai ser importante na segunda fase da fic.
No mais, obrigado a todos que estão lendo isso aqui, conhecendo Beyblade 2 ou não. Quanto mais reviews vocês mandarem, mais animado eu vou ficar pra continuar escrendo essa história!
Ja ne,
James Hiwatari
