Capítulo 2 – Aulas de Poções

Contornar a situação há dois anos atrás quando o segredo de Lupin se espalhou não foi nada fácil para Dumbledore. A sua mania de confiar demais nas pessoas a quem julga que deve sempre lhe custou muita desconfiança por parte de terceiros e invariavelmente, também, de pessoas próximas a ele. Mas havia algo que ninguém podia negar: ele era um excelente professor. Foram dois anos de ótimas aulas de DCADT, em que todos, sem exceção (até mesmos Draco, Pansy e outros Sonserinos) admitiam que não havia o que questionar no ensino do antigo Maroto. E a primeira aula do dia era exatamente essa que agora e, havia um ano, era dirigida por Tonks.

- O bom de acordar toda a segunda é saber que a aula que abre é a dela. – Disse Harry sorridente, e Rony concordou de boca cheia. Fred, Jorge e Gina se manifestaram. – Sortudos vocês, isso sim. Quem vai pegar o morcegão logo de cara é a gente. – É. E a coitada da Gina vai dormir na aula de História da Magia. – Brincou Fred, que tomou no braço um tapa da irmã em seguida.

EI HARRY! – Gritou uma voz muito abobalhada da mesa Sonserina, na outra extremidade. – ACHO MELHOR OLHAR DE NOVO PARA A MESA DOS PROFESSORES! PARECE QUE SUA QUERIDA PROFESSORA NÃO VAI LECIONAR POR UM BOM TEMPO! – E risinhos abafados foram ouvidos em volta. Para Goyle caçoar, algo realmente devia estar errado.

- Que di…? – E ele viu a cadeira que deveria pertencer a Tonks completamente vazia. Tão vazia quanto a cabeça de Goyle.

- Mas o que será que aconteceu com ela? – Perguntou Hermione, curiosa. – Tá certo que é época de lua azul mas… - E o que diabos vem a ser lua azul? – Perguntou Rony, parando para engolir. Hermione lhe lançou um olhar muito aborrecido, do tipo "você deveria estudar mais" – É a fase em que se tem duas luas cheias no mês, Rony. Francamente, se você lesse tanto quanto engole… vai ver ela teve de cuidar do Lupin ou sei lá. - Mas quem é o substituto? – Indagou Harry, tentando aparar a discussão, mas não foi preciso muito esforço para notar. Instantes depois eles eram empurrados em direção à sala e esmagados em meio a um amontoado de alunos que se espremiam e cochichavam. O murmurinho durou dois minutos, até a porta ser aberta por…

- Caracas, o Snape! – Sibilou Rony tentando esconder a voz. – Mas ele não ia dar aulas para o Fred e… - Entrem, andem. Ou não ficarei com o minímo de pena em deixar quem sobrar para fora.

O ânimo de Harry despencou. A esperança de uma aula divertida e em que ele se dava bem com Tonks para uma entediante e cansativa preleção com Snape fez seu estômago revirar. O que havia acontecido com ela? E já que Snape substituíria DCADT, quem lhes daria os dois turnos de poções após o almoço?

- Pois bem – Começou ele, a voz bem baixa. – Antes que comemorem o fato de me verem logo pela manhã, vamos às formalidades. A professora Tonks está impossibilitada de dar aulas por um bom tempo. Problemas externos e, a julgar pela iminente gravidade, Dumbledore a dispensará pelo resto do ano letivo. Portanto é melhor se acostumarem, gostando ou não – E ele dirigiu um olhar penetrante em direção à Harry. – com o novo professor, pois já aviso que as aulas serão bem diferentes. É ano de N.O.M's, e vamos revisar tudo e também o que não aprenderam, já que as avaliações não serão nem um pouco fáceis. Como sempre quero manter o nível, e alunos meus costumam tirar boas notas. Mesmo que não tenham aptidão à matéria – E agora o mesmo olhar agourento foi direcionado a Neville. – O mínimo que se exige é esforço. Sim, Granger? – E Hermione perguntou ofegante, a mão erguida no ar. – Mas quem vai nos ensinar poções, então? – Snape a fuzilou. – Devo lembrar que está numa sala de aula, Srta.Granger, e que está se dirigindo ao professor? – Desculpe, senhor. – Ela se apressou a corrigir, desconcertada. – Pois bem. Não diz respeito a mim lhes informar, tampouco a você saber. Mas já que lembrou, eu posso adiantar algo sobre ele: o nível das aulas será o mesmo. – Ótimo! – Fungou Rony, as costas afundadas na cadeira. – Agora teremos duas aulas insuportáveis! – De fato terão Weasley, e como eu disse é melhor se acostumarem. Menos dez pontos para a Grifinória.

A aula foi e, não havia outra palavra, um saco. O patrono desconjuntado de Neville acertou Snape em cheio enquanto se virava para explicar, e fora os trinta pontos descontados para a Grifinória, ele ainda passou deveres e mais deveres sobre como manter e controlar um patrono, algo muito diferente da fumacinha que desengatou da varinha de Longbottom. Eles seguiram pelos corredores após uma tediosa aula de História da Magia e, não fossem os gêmeos, permaneceriam dormindo até chegarem mecanicamente ao Salão para o almoço. Pansy descia as escadas com um grupo de alunas Sonserinas, e provocava Harry com gritinhos estéricos. – Boa sorte na aula de Poções, Potter! E cuidado para não desmaiar! – Cara, você não vai acreditar! – É. – Concordou Jorge. – Pior que a cara de buldogue tem razão. – Por que, quem é o professor? – Eu não vou falar. Até porque a gente tá chegando lá no Salão, e você vai ver com seus próprios olhos.

E não deu outra. As cabecinhas curiosas dos alunos foram todas suscitadas para a mesa de professores, que trazia sentado ao lado de Snape e atraindo olhares soslaios de McGonagall nada menos que Lúcio Malfoy, com a longa capa preta jogada para trás da cadeira confortável.

- Não fode! – Exclamou Rony, e essa foi a coisa mais sensata que se ouviu entre a mesa da Grifinória durante todo o almoço, tanto que nem mesmo Hermione o sensurou.

Dois turnos de Poções. Se parecia um pesadelo com Snape, com Lúcio então a situação não era muito diferente. Muitos alunos apelaram para Fred e Jorge para que lhes desse algo que proporcionasse ao menos uma dor de barriga, ou algo que servisse de subterfúgio para escaparem da aula. Mas a única resposta que obteram, inclusive Rony, foi: "Vão ter de aturar a barbie assim como a gente aturou". Sem opções, então, eles se dirigiram às masmorras, pensando se poderia haver um dia pior. Talvez não o dia, mas para piorar e muito, a gangue de alunos Sonserinos começou a instigá-los com provocações.

- Deve ser seu dia favorito mesmo, Potter. Snape e Sr.Malfoy. Acho que vai até pedir para reformularem o horário e deixarem essas duas aulas como prioridade. – Disse Montague, capitão do time de quadribol da casa verde-prata. Harry ficou quieto, e Rony rosnou algo como "vamos ver o que o Dumbledore fala quando souber que ele é um Comensal", mas foi interpelado por uma voz fria às suas costas.

- De fato vamos, Weasley. Suponho que Dumbledore tenha me aprovado para o cargo, posto o momento que é o Diretor da escola. Mais alguma pergunta? – Rony pareceu congelar com a presença de Lúcio. Ainda mais pelo fato de ter ouvido seu comentário. – Ótimo. Agora se todos tiverem a bondade – E Malfoy apontou para a porta, o cajado com cabeça de cobra cintilando os olhos verdes. – A aula poderá começar sem que mais ninguém perca pontos. Menos vinte para a Grifinória, Weasley. Para se lembrar que a língua é boa atrás dos dentes. – E todos entraram, os Sonserinos na frente abafando risinhos de chacota.

Talvez pelo fato de Snape ser um tanto turrão, a aula não foi uma completa simulação de Azkaban. O jeito não menos autoritário de Lúcio deixou Harry e Rony com vontade de lhe lançar uma maldição imperdoável, mas nada que eles não pudessem controlar. Hermione no entanto preparava sua poção calmamente, apenas dirigindo esporádicos olhares de través para Malfoy. Repensou tudo o que havia acontecido entre eles no jardim, e dada a atitude ordinária dele, confirmou consigo mesma o que já vinha murmurando há certo tempo; ele não mudou!

- Pode ler a terceira página da poção nos ingredientes, Potter? – Sim, Professor. – Ele ofegou. - Ásfodélo em infusão de absinto… - E de que cor isto deveria ficar? – Interrompeu Lúcio, a voz prazerosa de dar ordens a Harry. – Cinza-chumbo, professor. – Naturalmente. Então poderia me explicar – E ele fez flutuar com a varinha uma porcentagem pequena de líquido do caldeirão, mostrando-a para todos. – Como a cor dourada têm tudo que ver com a cor cinza. – O ódio íntimo de Harry e seus pensamentos de rogar maldições em Malfoy era do tamanho de Hagrid, mas foi encoberto pelos muitos risos de alunos da Sonserina. – Refaça isso, Potter. E refaça decentemente. – Mas professor! – Bradou Hermione de um ímpeto, um sentimento estranho queimando no peito. – Essa é a poção do morto-vivo! É para alunos do sexto ano, nós ainda não -- - Srta.Granger… - Disse Lúcio, caminhando em direção ao caldeirão da garota, os orbes cinza-azulados muito fixos nela. – É óbvio que nem todos têm a sua aptidão para a matéria, nem são igualmente inteligentes. Posso afirmar que apenas duas poções ficaram como deveriam aqui, e foram a sua e de Draco. – O filho deu um sorriso forçado, mas que não escondia um mal humor interno com respeito a como seu pai vinha tratando Hermione. Ela permaneceu irredutível, o olhar determinado e independente de sempre. – Isto vai render à Grifinória os vinte pontos perdidos pelo Weasley. E claro, mais vinte para a Sonserina. – Ela corou levemente. Mais um elogio. Uma confusão enorme e o sentimento estranho que outrora habitou em seu peito agora havia sido transferido para a cabeça, fazendo seus pensamentos andarem muito depressa. – É ano de N.O.M's – Disse Lúcio. – Portanto não esperem lições mais fáceis do que as de hoje.

A aula então terminou, e Harry e Rony se apressaram a sair da sala. Não aguentavam mais olhar para a cara pálida e pontuda de Malfoy, e a vontade de estuporá-lo agora havia chegado no ápice. Arrastavam pesadamente as capas ao sair, quando uma voz lhes penetrou os tímpanos. – Você, Granger. Se puder ficar mais um pouco, gostaria de falar com você. – Mas os deveres. – Disse ela, estranhamente irritada, mas surpresa. – Os deveres, professor. Tenho muitos, inclusive os seus e-- - Considere-se livre deles então, Granger. Agora se puder…

Em parte Hermione queria ficar. Curiosidade pelo que ele ia falar, talvez, mas o fato era que uma estranha vontade de ver Malfoy, nem que fosse para xingá-lo, a havia acometido desde o último encontro deles nos jardins de Hogwarts. Harry e Rony saíram, os olhares extremamente intrigados. – A gente se vê daqui a pouco então, Mione… - É. Se precisar estamos lá fora. - Tá. – Ele conjurou uma cadeira muito mais confortável do que as demais para ela e fechou a porta a feitiço, ficando de pé e conjurando uma outra ao seu lado. – Eu, sabe… gostaria que a porta ficasse aberta, professor – Disse Hermione sem jeito. – E eu gostaria que ninguém nos interrompe-se, Granger. Também gostaria de cortar as formalidades – Disse ele, bem informalmente. – Professor, Sr.Malfoy… o nome é Lúcio, e você sabe. – Ela fez menção de se levantar, ajeitou os cabelos e se aprumou duas vezes na cadeira, sem saber onde enfiar a cabeça. Estava tão abobada e inquieta que nem conseguiu dizer "não" ou "sim". Ele se apressou a quebrar o silêncio - Hermione, apesar dos inúmeros fatos que deveriam fazer com que você me odiasse e eu sentisse o mesmo por você...- Fêz uma pausa, buscando medir as palavras para não assustá-la. - E confesso que fiquei surpreso e feliz, por saber que não me odeia. - Pr... Lucio, eu...- Malfoy fez um sinal com a mão para que ela não falasse. - Fiquei feliz e... até tive esperança. Hermione... eu, gosto de você. É tão inteligente e doce...

Por um momento sua sensação foi a de olhar em volta para ver se só estavam mesmo os dois na sala. Quatro anos acostumada com o mal humor do filho, a odiar o pai por ter ensinado ele a ser tão arrogante. Até mesmo tinha metido um soco nas fuças do Malfoy. Por que então ela se sentia assim com Lúcio agora, a vontade introvertida de ficar ao lado dele, de ouvir a sua voz?

- E desde quando isso é algo que te chame a atenção, Malfoy? – Pigarreou ela, esperando que ele justificasse. O falso olhar de repreensão não enganava nem a ela mesma. – Eu só achei que deveria saber. – Retorquiu ele, um estranho tom de sinceridade na voz. Poderia parecer estranho, mas não soava como fingimento. – Bom, era isso Granger. Já está dispensada. – Ele então aproximou os lábios de seu rosto e, com os olhos ainda fixos nela (e isto durou alguns instantes), beijou suavemente sua mão. Em seguida abriu a porta com um feitiço e ela se alongou, deixando espaço para uma suave brisa adentrar a sala. – Então… tá, eu… até mais, Lúcio. – E saiu da sala, deixando, desta feita, um Lúcio muito pensativo para trás. Que sentimento foi aquele? Foi a sua vez de sacudir a cabeça e repensar o que havia feito. Não podia ter sido sincero nas palavras. Ele era um Comensal de linhagem pura. Ela, uma mera aluna sangue ruim. Ademais, o que o Lord diria se sentisse o mínimo de verdade nos seus falsos sentimentos externados na missão que lhe foi designada? – Não… - Murmurou fechando o livro que tentava ler sem sucesso. – Não seja tolo, Malfoy. Não haja como um tolo.

Naquele dia Hermione demorou muito para aparecer. Nem sinal dela no jantar, e Harry e Rony já estavam ficando preocupados. Afinal, onde ela havia se metido? E se o Malfoy a tivesse torturado ou levado para o Voldemort? Eles já haviam pensado em tantas possibilidades que essas pareciam de fato bem plausíveis. – Hermione! – Gritou Rony, e Harry se levantou ao ver a garota entrar no salão Comunal. – Ah, oi. Boa noite. – Disse ela, tão aluada quanto Lovegood. – O que aconteceu? O que o Malfoy queria? – Ah, isso. – Retorquiu muito distraída. – Olha, eu estou realmente cansada. Dois turnos do Malfoy e um do Snape não são para qualquer um. Amanhã a gente fala sobre isso, eu acho que vou deitar. – Mas Hermi-- - E ela saiu antes que Harry terminasse a frase. – Aonde você vai? Perguntou Rony, perplexo ao ver Harry se dirigir à lareira com uma pena e um papel na mão. – Escrever para o Sirius. – E Rony lhe deu um solavanco que quase lhe arrancou o braço. – Ficou doido, é? O nome é Snuffles, esqueceu? – E Harry olhou em volta, abaixando muito a voz. Ao que parece, ninguém por ali parecia ligar muito para a conversa dos dois. – Enfim… isto tudo está muito estranho, entende? O Snape assumindo DCADT, o Lúcio Poções e o Dumbledore deixando tudo isso acontecer de baixo do próprio nariz? – Parou por um instante, parecendo intrigado. – E também têm essas conversas secretas com a Hermione, para piorar tudo. Eu preciso saber o que ele acha de tudo isso. – Só precisa tomar cuidado com como vai escrever, caso interceptem a carta, sabe? – Disse Rony, estranhamente sensato. – Isso é o de menos. - E rumou decidido para a lareira, se afundando na poltrona para escrever ao padrinho.