Capítulo 02 – Agressões
O ambiente era escuro, esfumaçado e dúbio. Era o tipo de lugar em que um Malfoy simplesmente se recusava a pisar. E lá estava ele.
Sentiu a aproximação do outro homem às suas costas e um pequeno toque no seu ombro como que para indicar a mesa vazia à direita, mas foi o que bastou para sua pouca paciência se esvair.
- Me toque de novo, Potter, e eu faço com você tudo o que o Lord não conseguiu fazer.
A risada baixa e irritante o acompanhou pelo caminho até a mesa e Potter teve a desfaçatez de pedir dois duplos. Sem nem consultá-lo se era whisky que queria beber.
- Escute, Malfoy. Eu estou tão feliz de estar aqui com você quanto você parece estar. Mas isso é trabalho, e eu quero acreditar que você saiba o que significa. Meu melhor amigo desapareceu desse lugar e você mesmo deixou claro que parece haver algo muito maior por trás disso. Portanto, faça o seu papel e me deixe em paz, que eu tenho uma função a desempenhar aqui.
- Caso não tenha percebido, Potter, eu não vim somente como seu acompanhante. Também estou trabalhando, e meu trabalho envolve concentração e sensibilidade. Então cale a boca e mantenha distância, ok?
A risadinha de novo. Draco bufou e deu as costas para o outro, girando o corpo na cadeira. Aproveitou o movimento para dar uma olhada pelo salão. Era pequeno, devia haver umas dez mesas, somente quatro ocupadas e por casais, e um pequeno palco onde uma mulher exageradamente maquiada cantava algo que não chamou a atenção de Draco, mas parecia com blues.
O garçom se aproximou, pousando os dois copos sobre a mesa, e o loiro entornou um grande gole. Ao menos Potter acertou em pedir algo forte, talvez ele também precisasse disso para passar a noite.
- Não beba mais. – a voz baixa do moreno o alertou – Há uma poção misturada na bebida, se tomar tudo, vai estar dormindo em cerca de uma hora. Somente molhe os lábios e finja que não sabe disso.
Draco o olhou e percebeu os olhos verdes passeando pela sala também, brilhando na semi-escuridão como um gato.
- Isso significa que sabem quem somos?
- Talvez sim. Ou talvez estejam drogando qualquer um. Nosso homem não está aqui. – ele anunciou.
- Isso talvez reforce o fato de que sabem quem somos. – Draco pegou o copo novamente para beber, mas parou a tempo, fingindo que bebeu e o devolvendo para a mesa – E aí, vamos embora?
Um sussurro por baixo da mesa fez com que seu copo aparecesse vazio e, contrariando sua última sugestão, Harry ergueu o braço, fazendo um gesto para o garçom e pedindo mais uma rodada, brincando ao dizer que "seu companheiro" estava empolgado naquela noite.
- Vamos, Malfoy, não me olhe assim. Há quanto tempo você não sai simplesmente para beber? – e, para surpresa de Draco, ele efetivamente entornou o conteúdo do seu copo.
- Considerando que eu não posso beber na situação em que estamos, não acho que isso faça muita diferença. – disse, sério – Afinal, o que você pretende?
- Oh, ok. – Harry riu e agradeceu ao garçom quando ele deixou os outros dois copos – Vou fazer um mapa para você não se perder quando sair daqui. Eu não vou tão cedo.
- Quê? Potter... – mas o toque brusco de Harry em sua mão e algo brilhando no verde o fez parar quando o outro o interrompeu.
- Só dê uma olhada, ok? – o moreno puxou de dentro da capa uma pena e um pedaço rasgado de pergaminho e começou a traçar um mapa, mas no lugar dos nomes das ruas, escrevia outras coisas – Estamos aqui, ok? Você vai sair e pegar a primeira à direita, conhece essa rua?
Draco fez um esforço para ler na pouca luz, mas identificou a frase "estamos sendo vigiados, fique quieto".
- Conheço. – disse, seco, olhando firme para Harry.
- No fim dela tem uma praça, você vai contornar e pegar à esquerda. Essa rua aqui.
Não saia daqui. Beba de verdade, se não sairmos em uma hora, aurores vão invadir o local.
- Sim, sim. E aí? – Draco tentou ser ameno, mas sua voz saiu rasa. Não gostava de nada daquilo.
- Aí você continua reto até chegar à avenida. – Potter não escreveu mais nada, guardando a pena – Um brinde ao meu amigo que não sabe beber!
Draco o olhou atônito e brindou, bebendo um pouco enquanto Potter tomou a maior parte do conteúdo do copo, derrubando um pouco e deixando o resto de lado, já pedindo mais um para o garçom com um gesto. E o que parecia imprudente para o loiro logo se esclareceu: Potter queria parecer bêbado muito rápido.
- Sabe... – ele escolheu as palavras – Eu não poderia te deixar sozinho. Afinal, quando foi a última vez que bebemos juntos, não, Potter? Um brinde às velhas amizades!
Os copos se chocaram no ar, derramando parte de seu conteúdo, e depois beberam.
- Sua esposa nunca te deixa sair, cara. Assim fica difícil. – Harry comentou, divertido – Aliás, você já casou?
O tom bêbado e a incoerência do outro o fez rir involuntariamente.
- Ainda não. Você sabe, família, muita gente querendo dar ideias na sua vida. É um jogo delicado. – ele falou a última frase com ênfase. Que falassem bobagem de bêbados, mas era bom Potter saber que não suportaria nada que se referisse à sua família.
- Meu melhor amigo se casa nesse fim de semana. Ah, você sabe... – Harry fez um gesto vago no ar – Um brinde a ele.
- Ao seu melhor amigo. – Draco brindou e bebeu novamente, vendo agora os olhos verdes se estreitarem em um aviso de que aquele também não era o melhor caminho para seguirem em termos de conversa – E seu time de quadribol, já ganhou alguma coisa? – puxou novo assunto, forçando sem muita dificuldade o tom molengo dos bêbados.
Mas o loiro viu que já não era o foco dos olhos verdes. Eles estavam seguindo fixamente algo às suas costas e uma rajada de vento o informou que a porta havia acabado de se fechar.
- Hum. Está bem. Eu... eles ganharam. – Potter respondeu vagamente e Draco conseguiu ver pelo canto dos olhos um grupo de homens passar ao seu lado e descer uma escada que ele não havia reparado que existia.
Potter pediu mais uma rodada de bebidas, a qual esperaram em silêncio tenso, e quando o garçom se aproximou, perguntou aonde era o banheiro.
- Quer vir também? – perguntou para Draco, ao que o loiro se levantou rápido, confirmando. Era melhor do que ficar ali sem saber o que o louco ia fazer.
Os dois seguiram inicialmente para a direção que o garçom apontou, mas assim que ele virou as costas, desceram a mesma escadinha que o grupo, dando em um corredor estreito, tão iluminado quanto o salão acima. Ouviram passos vindo na direção deles e Draco fez menção de voltar por onde vieram, mas Harry o empurrou contra a parede com certa violência, calando seu protesto com um beijo. Dois homens passaram sem incomodá-los.
- Potter, o que diabos você...
- Cale a boca! – Harry lhe deu as costas, continuando a andar pelo corredor, que ainda descia levemente.
Encontraram uma porta e Harry o empurrou contra a parede ao lado, tampando sua boca com uma mão.
- Fique quieto, faz o que eu disser, estou tentando tirar a gente daqui, ok? – o loiro concordou e, para sua surpresa, Harry se debruçou sobre ele, chupando seu pescoço. Em seguida o puxou pela cintura, abrindo a porta abruptamente.
Dentro da sala em que entraram cambaleando, abraçados, parecia estar acontecendo algum tipo de reunião mais formal que a deles. Draco percebeu em um relance que todos os presentes mantinham as varinhas ao alcance da mão e um deles trazia também uma arma trouxa.
- Oh, desculpem. – Harry soluçou e riu – Não queríamos interromper nada. É só que eu e meu amigo aqui estávamos... vocês sabem... procurando algum lugar vazio.
- Tem um motel do outro lado da rua. – um homem resmungou sem olhar para eles, fazendo um gesto de dispensa. Harry abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas Draco se agarrou com força às costas de suas vestes, como uma súplica para não insistir.
- Obrigado. – o moreno disse, por fim, saindo cambaleante da sala.
- Potter, se você pensar de novo, eu mesmo vou cuidar para que não saia daqui vivo. Que tal a porta da rua?
- Está vigiada, não vamos chegar até lá. – Harry disse, conduzindo-o mais para baixo no corredor – E, Malfoy, nós já estamos aqui. Eu não sei se você prefere ter que voltar outro dia, mas eu prefiro terminar com tudo de uma vez.
Ele encostou-se a uma próxima porta e ouviu por algum tempo, antes de se virar para o loiro.
- E aí, ainda estamos trabalhando juntos? – Draco respirou fundo, mas confirmou com um gesto de cabeça.
Harry girou a maçaneta, mas antes que pudesse entrar na sala, sentiu um feitiço percorrer seu corpo e perdeu a consciência.
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Piscou, confuso, sentindo a cabeça girar antes mesmo de se perceber acordado.
- Bom dia, princesinha. – a voz irritante ao seu lado. E tudo voltou como um furacão. Ron, o bar, a bebida, a sala e o feitiço.
- Já sabe onde estamos? – perguntou, ouvindo a própria voz fraca enquanto sentava-se no chão, para enfim abrir os olhos.
- Hum. – Draco respondeu – Não é o meu trabalho.
Mas a resposta era bem óbvia. Estavam em uma sala idêntica à primeira em que entraram, onde o grupo de homens estava reunido, mas esta estava vazia.
- Sabe, eu acordei faz uns cinco minutos e tenho encarado esta porta desde então. – o loiro começou a explicar para Harry, que havia se levantado e sentado sobre uma mesa, único móvel do recinto – Já que tiraram nossas varinhas, eu acho que estão só esperando o bar fechar para virem nos interrogar. E vamos fazer um acordo, Potter: dessa vez, deixa o Slytherin falar, ok?
- Uh, isso soou ameaçador. – Harry disse em tom de gozação, mas sua voz era mal humorada – Vocês se reconhecem, é isso? Acha que vai convencer seus amiguinhos a nos deixar ir?
- E os seus amiguinhos, hein, Potter? "Se não sairmos em uma hora, aurores invadem o lugar". Sabe, considerando o tanto que eu bebi e que havia droga naqueles copos, eu arrisco dizer que ficamos inconscientes mais de uma hora.
Harry ficou em silêncio, encarando a porta.
- O que aconteceu, Potter? Se sentindo abandonado?
- Você já considerou a hipótese de terem sido mortos? – Harry perguntou, sério, ganhando um olhar surpreso do loiro – Você sentiu algo relacionado à pedra?
- Eu estava inconsciente, eles podem ter ativado nesse meio tempo. – ele ponderou, preocupado – Mas francamente, se eles são capazes de matar uma milícia inteira de aurores, o que estamos fazendo vivos, então?
Os olhos verdes o olharam de forma dúbia e Draco teve vontade de socar o idiota.
- Eu estou cansado disso, Potter. Tudo o que eu não queria na minha vida era terminar em missões estúpidas como esta, dando meu sangue e meu suor para livrar a bunda dos outros. Não faz meu tipo, entende? – ele ganhou um olhar curioso em verde – E eu não vou ficar parado aqui. Então cale a boca e me deixe tentar do meu jeito.
Mal Draco terminou de falar, o som de palavras sussurradas lhes informou que a porta estava sendo magicamente destrancada. O loiro se adiantou, tomando uma postura arrogante e superior que quase fez Harry sorrir, mas ambos perceberam que os homens que entraram na sala não eram do tipo que argumenta.
Quatro, altos, a roupa trouxa sem conseguir esconder os músculos trabalhados, não havia sinal de varinhas, mas algo nos olhos lhes dizia que eles estavam ali somente para cumprir ordens.
- Draco... – Harry se levantou, tentando alertar o loiro, mas ele deu um passo para frente, se aproximando do primeiro homem determinado.
- Eu gostaria... – a frase foi interrompida por um soco diretamente no rosto do loiro, que o atirou no chão, cuspindo sangue.
- NÃO! – Harry gritou, se atirando em direção a ele, mas algo segurou seus braços para trás com força, e ele foi jogado sobre a mesa.
Debateu-se, tentando se libertar, mas quem o segurava era muito maior e muito mais forte do que ele. E ele tinha a impressão que era mais de um, quando sentiu suas roupas começarem a ser removidas sem que o aperto em suas mãos se modificasse.
- Mas que porr... AH! – o gesto brusco atirou sua cabeça contra a tábua da mesa e o mundo pareceu girar por um momento.
Quando sua visão entrou em foco novamente e seus ouvidos pararam de zunir, tudo o que via à sua frente era o loiro jogado no chão, as vestes rasgadas, os braços puxados para trás e a cabeça pressionada contra o piso, também imobilizado por um homem enquanto outro investia contra seu quadril continuamente, fazendo Draco gritar em desespero, os olhos cinzas o encarando em horror e súplica.
E então a dor cruzou seu corpo e Harry já não conseguia respirar enquanto algo pesado o impulsionava continuamente contra a mesa. Parecia que seu corpo iria se partir em dois a cada movimento. Gritou em meio à dor e sua própria impotência de lutar contra aquilo, e sentiu uma respiração quase animal batendo contra a sua nuca antes de ter os cabelos puxados e a cabeça pressionada contra a mesa novamente, sendo forçado a olhar diretamente para o loiro que se arrastava pelo chão, gemendo e se encolhendo, enquanto outro homem o puxava pelas pernas até tê-lo sob seu corpo novamente e seus gritos voltarem a se espalhar junto com os de Harry em um furacão de dor e desespero que lhe roubou a consciência antes mesmo que pudesse entender o que estava de fato acontecendo.
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A primeira sensação foi o frio. Um frio cortante que entrava até os ossos e fazia a respiração sair difícil. Ele se encolheu, percebendo que estava nu e seus braços não o obedeciam totalmente. Abriu os olhos, vendo que estava em um lugar de metal que balançava. Parecia um caminhão, e ele estava sendo transportado.
- Bom dia, princesinha. – uma voz fraca, rouca e baixa demais soou à sua frente e Draco se sentou da melhor forma que conseguiu, se voltando para encarar Harry.
Ele estava péssimo. Escorado contra uma das laterais da caçamba do caminhão, seus lábios estavam roxos de frio e ele parecia mortalmente pálido em contraste com os hematomas em seu rosto e corpo, e nas coxas finas saltavam aos olhos as marcas de sangue. No pescoço, um tipo de coleira, e Draco percebeu só então o contato metálico contra seu próprio pescoço.
Draco tentou dizer alguma coisa, mas tremia tanto que não conseguia nem pensar. Escorou-se na parede também, encolhendo as pernas o máximo contra o corpo e percebendo que tinha as mãos algemadas às costas. A dor só não era maior do que o frio.
Havia outras pessoas ali. Estavam em uns quinze, sendo duas meninas, que não pareciam ter nem vinte anos. Nem todos usavam coleiras, mas todos estavam nus e algemados. Elas haviam se encolhido juntas e Draco pensou que aquilo era a ideia mais genial no momento, ter o calor de um outro corpo para compartilhar, mas ele não arriscava se mover mais do que aquilo, muito menos se aproximar de qualquer pessoa.
O caminhão pareceu diminuir a velocidade e o som de rugido que Draco não havia percebido até então, mas que ele associara a vento, desapareceu. Ele tentou manter os olhos abertos e se endireitar quando pararam de vez. Potter se ajoelhou em um grande esforço e engatinhou até estar ao seu lado, e Draco quase quis agradecê-lo por isso.
As portas se abriram e eles estavam em um galpão. O mundo se resumia a uma parede maciça à frente e um pequeno vão entre ela e o caminhão. Havia dois homens parados de cada lado falando alto em uma língua forte e ríspida que Draco não fazia ideia de qual parte do mundo vinha, mas pelos gestos pareciam querer que saíssem do caminhão, o que não era algo muito convidativo. E se tornou menos quando um homem agarrou um dos garotos pelo braço e o atirou no chão do lado de fora.
- Vem. – a voz trêmula de Harry soou próxima ao seu ouvido e os dois se colocaram de pé com dificuldade, saltando para fora do caminhão sem conseguir evitar a queda, fosse pela dor, o frio ou mesmo o contato dos pés nus com o chão áspero.
Os olhos cinzas se focaram no vão de entrada deixado pelo caminhão, um pedaço de mundo real, e tudo o que existia era uma terrível tempestade de neve. Um branco maior e mais violento do que Draco jamais vira em toda sua vida.
Não estavam na Inglaterra.
Os gritos na língua rústica aumentaram e ele sentiu a proximidade de Harry novamente quando foram colocados em fila e incitados a andar, passando por uma porta.
Draco fechou os olhos e quis ter forças para chorar quando tudo aquilo acabasse.
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NA: Olá, meus queridos.
Sou eu colocando os meninos em pulo gelo e a Dark colocando o Harry em florestas africanas em Glass Cage. Falaê, é divertido XD
Enfim, Trapped é uma fic séria a partir desse capítulo, e as coisas começam a pesar. Espero que vocês estejam gostando e quero comentários!
Beijos e até semana que vem!
