"The statistics on sanity are that one out of every four people is suffering from a mental illness. Look at your 3 best friends. If they're ok, then it's you."
― Rita Mae Brown
Isaac tremia como se estivesse mergulhado numa banheira de gelo, embora Cora o tivesse coberto por uma manta e a temperatura ambiente não fosse tão baixa quanto isso. Os seus grandes olhos azuis fitavam o vazio, assustados e húmidos, como se esperasse que a qualquer momento alguém emergisse da escuridão para o ir buscar. Ainda não formulara frases muito claras, já que a voz saía entrecortada e lhe era difícil compor as palavras.
- O que é que ele tem?
- Não sei, não abriu a boca o caminho todo.
Cora descobrira-o num beco escuro, caído no chão e a murmurar informações sem nexo. Carregara-o até ao armazém, por não saber o que mais fazer. A sua confiança era difícil de conquistar e, por enquanto, a única pessoa em quem confiava totalmente era o seu irmão, por isso, não pensou em procurar ajuda noutro lado.
- Isaac, o que é que viste? - perguntou Derek, parando de frente para ele.
- Eles vieram do escuro... - murmurou com as lágrimas a afluírem-lhe aos olhos.
Formas e criaturas saíam da floresta, do canto dos quartos, das casas da cidade e ninguém sabia exactamente quem eram, o que queriam, ou como podiam ser travadas. Cora fizera as suas investigações e, pela conversa com Scott, Derek também adivinhava que a situação fosse séria. A verdade é que para salvar os próprios pais, a nova geração de lobisomens e afins tinha conseguido atrair toda a espécie de mal para Beacon Hills.
Stiles sonhava com corredores sem término. Corria e as pernas falhavam-lhe, mas não havia nunca uma luz ao fundo do corredor e, embora quisesse parar, ele sabia que o estavam a perseguir bem de perto. Espreitava por cima do ombro e não conseguia ver fosse o que fosse, mas sentia aquela presença pesada e abafada quase em cima de si.
Havia wolfsbane a decorar as paredes e cheirava terrivelmente a hospital. Finalmente, surgiu uma esquina no corredor, uma mudança ao fim de horas de repetição, e Stiles tomou essa cortada. Deparou-se com Melissa, a mãe de Scott, cuja roupa branca de enfermeira estava suja por um líquido negro de cheiro pestilento.
- Stilinski! - clamou a mulher.
- Aconteceu alguma coisa?
- Stilinski!
- Estou mesmo à sua frente...
Finalmente, percebeu que não era a si que ela chamava e voltou a cabeça para deparar-se com o xerife, coberto do mesmo líquido negro que ela tinha na farda.
- Oh, está aí. - Melissa foi buscá-lo com alguma pressa. - Não devia ter saído do quarto...
O seu pai tossiu e Stiles percebeu que o sangue era seu, que ele o expelia pela boca, pelos ouvidos e pelas narinas.
- Pai! - exclamou, antes de tentar alcançá-lo.
Como sempre, tinha acordado de um pesadelo que parecera durar horas, mas que ocupara bastante pouco da noite. O relógio marcava as duas da manhã e Stiles sabia que só adormeceria quando o sol começasse a nascer - isso se conseguisse sequer tornar a dormir.
Era complicado continuar a balançar a sua vida normal com toda a sobrenaturalidade existente à sua volta. E, de repente, nem era a preocupação com o lobo mau, ou o lagarto gigante, ou bichos estranhos do género...era ele mesmo que estava a mudar. Sentia-se preso numa mutação para algo diferente de si e, ao mesmo tempo, não percebia se todas aquelas visões, sensações e desejos não lhe pertenciam.
Scott garantia que ficaria tudo bem, mas a verdade é que o seu amigo não conseguia transformar-se há várias luas, perdera a namorada que, entretanto, começara a ser assombrada pela própria tia. Lydia não estava muito melhor e a última vez que falara com Isaac parecera-lhe que ele estava tão amedrontado como uma criança indefesa.
Como previra, não tornou a pregar o olho. Quando o despertador começou a tocar, Stiles bateu-lhe com força para desligá-lo e arrastou-se a custo da cama para fora. Ultimamente, evitava ver o seu reflexo ao espelho. De qualquer forma, já sabia que estava com o ar lamentável de quem não dormia há semanas.
Chamou pelo pai e, não obtendo resposta, concluiu que ele já tivesse saído para o trabalho. Não evitou passar pelo quarto dele, onde a confusão se instalara. Observou novamente as inúmeras imagens e recortes de jornal pendurados nas paredes e espalhados sobre a secretária. Sabia que o pai andava a procurar correlação entre os casos por resolver e as presenças do outro mundo na cidade. Embora sempre tivesse tido o hábito de intrometer-se nos assuntos do pai e procurar ajudá-lo a resolver casos, não andava a demonstrar muita vontade para auxiliá-lo.
Chegou atrasado à aula e sentou-se numa das mesas do fundo. Fez um sinal com a cabeça a Scott e ignorou o lugar vazio de Lydia. Talvez tivesse outra vez faltado para espairecer a cabeça com Aiden. Allison e Isaac estavam numa das mesas mais à frente, mas nenhum dos dois se voltou para trás por um minuto que fosse.
O professor pediu que abrissem o livro numa página específica. Stiles fitou as figuras históricas do papel sem interesse. Tinha o nível de atenção de uma criança e o sono fazia-o dispersar-se ainda mais. Porém, algo de diferente saltou-lhe à vista e ele esfregou os olhos para ter a certeza de que o cérebro não estava a pregar-lhe partidas. As letras soltavam-se das linhas e choviam na vertical; as frases desmanchavam-se lentamente como se fossem lavadas das páginas.
- Scott... - murmurou para o rapaz da mesa ao lado.
O moreno voltou o olhar rapidamente para o melhor amigo com alguma preocupação visível.
- As tuas frases também estão a desfazer-se? - perguntou, encarando o livro com nervosismo.
- Quê? - inclinou a cadeira para trás e espreitou as páginas de Stiles. - O que é que têm as frases?
Stiles virou ligeiramente o rosto para poder observar toda a sala. Mais ninguém parecia incomodado pela matéria de história, a não ser pelo habitual aborrecimento naquela disciplina. Nem mesmo Allison, Scott ou Isaac. Claro, ele era o único a ficar louco.
- Nada. - respondeu, concentrando-se no quadro em branco para evitar Scott.
Depois disso, nada muito fora do comum tornou a acontecer. Estava exausto e foi directamente para a cama quando o sol ainda nem se tinha posto, mas essa noite reservava-lhe outro pesadelo. Desta vez, sonhou com Derek e Lydia - eles estavam presos numa espécie de jaula suspensa ou numa gaiola gigante e, de repente, cresceram duas asas enormes nas costas de Lydia que partiram as barras da jaula e cobriram toda a floresta, taparam a luz da lua e engoliram Derek na escuridão. Stiles estava sentado numa cadeira a assistir e, por mais que tentasse erguer-se ou gritar, os membros não lhe obedeciam e a garganta dele estava muda.
Teria de arranjar uma maneira de travar a própria mente, nem que para isso tivesse de recorrer a meios pouco seguros.
