Capítulo 01

Oito meses depois...

Gokudera respirou fundo ao tocar o chão do aeroporto.
Aquela cena passou várias vezes por sua mente, imaginando o que sentiria quando desse aquele primeiro passo. Bem, a sensação não foi boa.
Tsuna vinha logo atrás, bocejando e tentando não tropeçar nas pequenas escadas que uniam o avião ao chão. Reborn estava em um de seus ombros, e foi o pequeno Arcobaleno quem trouxe os dois homens de volta a realidade.

- Nós temos recepção.

O Guardião da Tempestade ergueu os olhos, sentindo o estomago afundar.
Kyoko atravessou a porta de vidro do desembarque privado do aeroporto e correu até eles. A jovem se aproximou e no mesmo instante passou os braços ao redor do pescoço do Décimo Vongola. Seus olhos estavam úmidos e sua voz tremia. Tsuna corou, retribuindo o abraço de maneira mais contida. Seu braço direito sorriu, sentindo Reborn pular em seu ombro antes que ele se afastasse. Oito meses. Aquele era tempo suficiente para que Kyoko sentisse falta de seu precioso "Tsu-kun".
Deixando o Jyuudaime com a futura Sra. Sawada, o homem de cabelos prateados seguiu em direção a saída usada pela jovem, não ficando surpreso ao ver que Ryohei os esperava.

- Yo, Gokudera!

O Guardião do Sol levantou-se de seu lugar e cumprimentou os recém-chegados. A atenção de Gokudera estava nas palavras de Ryohei, mas seus olhos vagavam pelo enorme saguão. Não havia mais ninguém.

- Você deve estar cansado - Reborn desceu do ombro do Guardião da Tempestade - E deve estar saudoso de casa. Você foi fundamental nesses meses. O inútil do Tsuna não teria conseguido sem seu apoio e suporte. Agiu como um verdadeiro braço direito e a Família agradece o seu esforço.

O homem de cabelos prateados sorriu, aceitando e agradecendo todos aqueles elogios. Aquelas palavras significavam muito ainda mais vindas de alguém como o Arcobaleno.
O problema era que apesar de saber de tudo aquilo, Gokudera não estava feliz, assim como não estava tão animado para retornar a sua casa.
Meia dúzia de palavras, alguns avisos, e o braço direito do Décimo deixou o aeroporto. Por mais que tentasse evitar a situação, ele sabia que uma hora teria de encarar sua nova realidade de frente.
Tudo era apenas consequência de suas próprias escolhas.

O caminho do aeroporto até Namimori não lhe pareceu tão estrangeiro quanto os passos que precisou dar da entrada do prédio até a porta de seu apartamento. A mão pálida do Guardião da Tempestade tocou a maçaneta da porta, e foi impossível não sentir a outra mão tremer levemente ao girar a chave. Há meses ele não entrava em sua própria residência e quando finalmente abriu a porta e encarou o interior escuro, o homem de cabelos prateados soube que não poderia voltar atrás.
Os caros sapatos italianos ficaram na entrada, e cada passo dado dentro do apartamento fez seu coração bater mais rápido. As coisas estavam exatamente da maneira como ele deixara oito meses atrás. A garrafa de vinho permaneceu em cima da empoeirada mesinha de centro, cercada por empoeiradas taças. O buquê de flores havia morrido, restando apenas galhos secos dentro do vaso e vestígios de pétalas ao redor.

A primeira coisa que Gokudera fez foi abrir as janelas. O ar pareceu invadir o apartamento, diminuindo um pouco a sensação de completo abandono. Encostando-se à janela, o braço direito do Décimo fechou os olhos e permitiu-se respirar o máximo de ar possível enquanto acendia um cigarro. O próximo cômodo seria o mais difícil.

O curto corredor pareceu mais longo. Os passos necessários para chegar ao quarto nunca pareceram tão pesados.
A luz foi acessa, esfregando no rosto do Guardião da Tempestade todas as lembranças daquela noite. As roupas dele e de Yamamoto estavam jogadas no chão, misturadas umas as outras como sempre. Em muitas ocasiões era preciso ver o tamanho, pois as peças pareciam iguais. Eles costumavam estar tão juntos que muitas vezes sentiam-se como se fossem apenas uma única pessoa. Eram uma única pessoa.
Ao encarar todo o cômodo, o braço direito do Décimo engoliu seco. A força do passado era avassaladora.

Foi preciso algumas horas para que Gokudera conseguisse arrumar o apartamento. Os copos foram para a pia e as roupas para a máquina de lavar. Mesmo estando cansado da longa viagem, o homem de cabelos prateados não conseguiria descansar sem antes transformar aquele lugar em algo que se assemelhasse a ele. O local inteiro foi limpo, lustrado e espanado. O vaso com as flores mortas foi inteiro para o lixo, mas foi nesse momento que o atarefado Guardião da Tempestade vacilou. Ao lado de alguns restos de pétalas estava à chave que o moreno havia deixado no dia que fora embora. Ao removê-la, o braço direito do Décimo engoliu seco ao ver a marca que ela deixara na peça empoeirada.

Yamamoto não retornara ao apartamento como dissera. E a parte mais difícil daquela limpeza seria o guarda-roupa. Metade dele pertencia ao Guardião da Chuva, e em algum momento Gokudera precisaria se livrar daquelas peças.
Mas quando? Qual o melhor momento para tirar alguém de sua vida? Eram apenas roupas, mas ele sabia que do momento em que não existissem mais lembranças do moreno naquela casa, então significaria que realmente tudo estava acabado.
Sentando-se no sofá com a chave em mãos, o Guardião da Tempestade acendeu um cigarro, deixando a cabeça recostar-se. A limpeza não seria nada em comparação ao dia em que eles finalmente se reencontrassem.

x

A viagem de Tsuna à Itália foi literalmente um sucesso.

Os Chefes que encontrou, as reuniões que participou e os acordos que fechou deixaram o Décimo Vongola extremamente satisfeito. Ao decidir
assumir o cargo de Chefe, Tsuna decidiu que tudo seria diferente. Ele transformaria os Vongola na Família que Giotto originalmente criara, limpando dez gerações de vergonha e terror.
Seus planos não teriam acontecido sem a presença de seu braço direito. Gokudera foi de extrema importância durante o tempo que permaneceu no exterior, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Em muitos momentos Tsuna vacilou, retornando a sua personalidade temerosa, mas o Guardião da Tempestade esteve ali, lembrando-o de suas responsabilidades, suas decisões e que havia alguém o esperando no Japão.
O homem de cabelos prateados sabia que seu papel fora de extrema importância. Ao lado de Reborn, ambos foram vitais para o desenvolvimento da Família.

Entretanto, não foi preciso muito tempo para que o braço direito do Décimo percebesse que havia exagerado em sua responsabilidade. Na realidade, foi preciso apenas três dias para que Gokudera se arrependesse de todas as coisas que dissera naquela noite para Yamamoto. Aconteceu por mero acaso. Ele estava caminhando por um dos corredores do escritório dos Vongola na Itália, quando escutou Tsuna falando ao telefone com Kyoko. Não havia nada de novo naquela cena, com exceção da maneira alegre com que o Décimo contava a jovem sobre sua estadia e seu trabalho, e eventualmente a frase que abriu os olhos do Guardião da Tempestade.

Ela foi dita com um sorriso. Palavras tão distantes e imprevisíveis, ditas com olhos sinceros e um doce sorriso: "Eu vou trabalhar duro, assim poderemos nos ver o quanto antes. Obrigado por me esperar". Naquele instante Gokudera deu meia volta e retornou pelo caminho que havia feito. Ele não tinha ninguém para ligar, ninguém que o estivesse esperando, ninguém que se importasse com a sua ausência.
O Guardião da Tempestade estava sozinho novamente.

A solidão o corroeu durante todos os dias. Em alguns momentos o homem de cabelos prateados não aguentava e acabava se rendendo a sua fraqueza. Foi nessa época que Gokudera passou a frequentar os bares italianos, retornando para casa somente no dia seguinte. Durante o dia ele era perfeito, o responsável e prestativo braço direito dos Vongola. Porém, durante a noite ele era apenas mais um homem com o coração partido, sentado em um balcão de bar, permitindo que seus pensamentos e mágoas desaparecessem dentro do copo de alguma bebida forte. O problema é que nada desaparecia. A mesma tristeza, a mesma solidão e o mesmo ressentimento estavam ali no dia seguinte, e no dia depois e durante todos os oito meses.

O auge do colapso do Guardião da Tempestade aconteceu quatro meses depois de sua chegada á Itália. As ruas e os bares já eram tão conhecidos que suas pernas o levavam diretamente para lá após seu trabalho estar feito. Naquela noite em especial, Gokudera havia bebido muito mais do que o normal. Ele geralmente não via as pessoas, com exceção do homem que sempre o servia. Então foi difícil dizer se o rapaz que o abordou era alguém novo ou se foi a primeira vez que o braço direito do Décimo o notou. Tudo o que o Guardião da Tempestade sabia era que foi preciso apenas dois copos a mais do que ele estava acostumado a beber, um largo sorriso por parte do homem, e ele só voltou a si quando abriu os olhos e gemeu alto, sem entender onde estava e porque havia chegado ao orgasmo.

Uma olhada mais atenta e Gokudera pulou da cama que estava, fechando o zíper da calça com pressa, encarando com pavor o homem que estava ajoelhado anteriormente entre suas pernas.
Quem era, o que fazia da vida e como chegaram até ali eram perguntas que nunca foram respondidas. A partir daquela noite o braço direito do Décimo não voltou a sua rotina noturna. Sua cozinha era estocada com bebidas, mas ele achou mais seguro beber sozinho. Foi preciso mais do que um longo banho para fazê-lo limpar-se da vergonha de ter permitido que outra pessoa pudesse tocá-lo.

Dando um longo gole no copo de Scotch, Gokudera encarava o céu através de sua janela, recordando-se de todos esses momentos. Ele podia lembrar claramente da maneira como se sentou no box de seu banheiro e chorou por horas depois de retornar daquele Hotel. O cheiro do estranho homem parecia impregnado, mas não era nada se comparado a desonra pessoal que sentiu.
O Guardião da Tempestade não tocou mais ninguém nos meses que se seguiram. As oportunidades surgiram. Algumas indiretamente, outras extremamente diretas. Homens e mulheres. Chefes, subordinados, dançarinas, esposas, amantes, prostitutas... Ninguém. Nenhum deles conseguiu fazer com que o homem de cabelos prateados deixasse sua abstinência. Não era apenas seu corpo que estava indisponível. Seu coração fechou-se de tal forma que a única maneira que ele encontrava para aliviar-se era tocando-se ao lembrar de como Yamamoto o tocava.

Gokudera deu uma última tragada no cigarro, apagando-o dentro do copo vazio. Suas pernas vacilaram ao ficar de pé, efeito direto dos três copos que bebera.
Com passos incertos, o homem de cabelos prateados caminhou até seu quarto, abrindo com um puxão o guarda-roupa. Suas mãos pegaram uma camisa branca, jogando-a em cima da cama. Seus joelhos tocaram o colchão, e seus braços abraçaram automaticamente a peça de roupa. O rosto vermelho do homem de cabelos prateados afundou-se na camisa, respirando fundo. Estava ali o que ele procurava.
Seu ritual de todas as noites estava começando.

O braço direito do Décimo retirou a própria roupa como de costume. No começo ele a mantinha, mas naquela altura do campeonato seu bom senso e autocontrole não existiam. Não era como se alguém pudesse vê-lo de qualquer forma.
Deitado em sua cama, Gokudera começou a tocar-se enquanto abraçava a camisa branca. O cheiro de Yamamoto era embriagante, e conforme o prazer aumentava, a imaginação do Guardião da Tempestade se expandia. Ele já não estava sozinho no quarto. O moreno arrastou-se até suas pernas e começou a masturbá-lo com vigor. As mãos fortes envolviam seu membro, arrancando suspiros altos, que só aumentaram quando Gokudera umedeceu seus dedos e os levou até sua entrada. Os gemidos ecoavam por todo o apartamento, altos e sonoros. Os olhos verdes se entreabriram, delirando e enxergando o moreno penetrá-lo. O peito brilhando pelo suor, os lábios entreabertos, a charmosa cicatriz em seu queixo, mas principalmente os olhos... Olhos castanhos que demonstravam desejo por uma única pessoa.

O clímax chegou, fazendo o Guardião da Tempestade perder momentaneamente a consciência. E assim como todas as outras vezes, quando seus olhos se abriam, não havia ninguém no quarto além dele mesmo. O gosto do álcool em sua boca o lembrava que tudo o que sua mente lhe mostrou nos últimos minutos não passava de ilusões.
E ali, deitado nu em sua larga cama, Gokudera fechava os olhos e dormia abraçado a camisa. Mais um dia chegara ao fim.

x

Uma semana havia se passado desde que Tsuna retornara da Itália.
O braço direito do Décimo recebeu aquela semana livre, e a aceitou de prontidão. Por sete dias ele não deixou o apartamento a não ser para ir à loja de conveniência cinco minutos dali. Seu telefone foi desligado, assim como sua campainha.
Quando a segunda-feira chegou, o Guardião da Tempestade religou o celular, ouvindo suas ligações perdidas e lendo suas mensagens. Um banho rápido, uma troca de roupas e o homem de cabelos prateados deixava seu apartamento. A vida tinha de continuar e ele tinha trabalho a fazer.

Seguindo em direção ao escritório de Tsuna em Namimori, Gokudera não sentia nada. Nem o calor de agosto, nem a gravata apertada em seu pescoço e nem a ansiedade que deveria sentir por saber que em poucos minutos estaria reencontrando Yamamoto. A última mensagem que ouvira era do Jyuudaime que confirmava a reunião para aquela manhã. Aparentemente todos os Guardiões estariam presentes, com exceção óbvia de Hibari.
Seu carro foi estacionado no mesmo lugar de sempre. A vaga ao lado do carro de Tsuna nunca estava ocupada. Alguns cumprimentos nos corredores, rostos que ele não se recordava mais, como se tivesse ficado ausente por anos. O edifício era o mesmo, mas o homem que caminhava por seus corredores não.
O silêncio e uma breve olhada no relógio o lembraram que ainda era cedo. A reunião só começaria em cerca de uma hora, e se o homem de cabelos prateados não estivesse tão distraído com seus próprios pensamentos teria percebido que a vaga de Tsuna no estacionamento estava vazia.

O braço direito do Décimo caminhou em direção a cozinha, decidido a preparar o café que serviria ao Jyuudaime durante a reunião. A luz estava acessa, e o lugar tinha um leve aroma de café. Seus olhos pousaram na cafeteira próxima a pia, e suas mãos automaticamente pegaram uma xícara. Provavelmente um dos empregados do local já se adiantara.
Servindo-se distraidamente de um pouco de café, o Guardião da Tempestade permaneceu por alguns minutos no mesmo lugar, parado próximo a pia e degustando a bebida. O sabor era familiar, ele tinha certeza disso. Era forte, mas doce. A pessoa sempre usava muito pó e muito açúcar, uma estranha, mas deliciosa combinação.

Após beber, Gokudera lavou sua xícara e a deixou no escorredor, virando-se. Seu corpo andou automaticamente para frente, mas parou. Seus olhos se arregalaram, suas pernas vacilaram e seu peito apertou-se.
Parado a alguns passos à frente, Yamamoto o encarava com uma xícara na mão e um meio sorriso.
O Guardião da Tempestade lembrava onde havia degustado aquele café. Ele sabia.
Oito meses que pareceram durar oito anos. Noites que ele achou que não suportaria. Arrependimentos misturando-se com saudades.
Nada parecia importar naquele momento.
Os lábios do moreno se entreabriram e a voz que Gokudera tanto esperou para ouvir entrou por seus ouvidos e o fez tremer.

- Olá, Hayato.

Continua...