Capítulo II
I don't want to cry.
Desde que viera para Tokyo deixara de acreditar que as suas manhãs começavam com um nascer do Sol, calmo, azul e fresco, ou com pequenos pássaros a cantar na árvore do jardim. Na verdade, para ele, deixara de haver manhã – era apenas uma continuação da noite, agitada, escura e sedutora, cujas horas passavam rapidamente ao som das buzinas dos veículos e com sons humanos nas ruas. Era algo estranhamente reconfortante, na verdade. Tokyo parecia sempre tão fria e funcional de dia, tão politicamente correcta. De noite, soltavam-se as rédeas, a noite tomava posse do sangue das pessoas. Era um misto de luzes laser, fluorescentes e berrantes, com um cheiro a noite e a terra. Ele e o seu companheiro de quarto saíam, às vezes, apenas para contemplar a multidão, como dois voyeurs. O colorido que lhes era negado de dia, fechados em salas e bibliotecas, era-lhes oferecido à noite, pelas bebidas nos copos e pela fumaça que saía das bocas. Por vezes, subiam a Torre e ficavam lá horas, mesmo que no dia seguinte estivessem demasiado cansados para ouvirem duas palavras seguidas nas aulas.
Como era o caso daquela "continuação de noite".
Touya bebia o café de olhos fechados, como se uma cola lhe agarrasse as pestanas. Algures à sua frente, Yukito comia ruidosamente a sua quinta torrada. Nem precisava de abrir os olhos para ver a magreza do rosto do seu mais que melhor amigo, cujos olhos cinzentos se encontravam cada vez mais vezes rodeada por sombras. O apetite voraz que era conhecido por todos os que o conhecessem parecia diminuir de dia para dia. Decidiu abrir os olhos.
Yukito Tsukishiro, com uma mão a apoiar a sua cabeça, olhava a toalha, parecendo vagamente interessado num nódoa de ketchup. Os cabelos estavam a ficar grandes demais – inúmeras mechas de cor cinzenta caíam-lhe para a face, escondendo o olhar cor de nuvem. Não cortara a barba, o que o lhe dava um ar de velho, cansado, exausto. Um perfeito cachorro abandonado que sabe que nunca regressará a casa.
"Yuki, devias ficar em casa."
Yukito levantou a cabeça lentamente e olhou para Touya, com um sorriso terno no rosto. Sempre aquele sorriso, o sorriso número 24, como costumava dizer Touya há uns anos, aquele que usava quando queria dizer "estou mal, mas, por favor, não se rale comigo.". Mas Touya ralava-se.
"Sério, não andas a comer nem a descansar convenientemente." O seu tom de voz era o de um pai ou irmão preocupado. Até cruzara as mãos em cima da mesa, afastando a sua caneca. Tudo o que estragava a sua performance era o seu pijama com coelhinhos.
Yukito sorria apenas. Levantou-se da mesa, levando consigo o prato vazio. Batia ligeiramente contra as coisas que encontrava pelo caminho.
"Preocupas-te demais comigo Toya, eu estou bem." Olhou para Touya enquanto passava a loiça por água. O moreno arrepiou-se quando ouviu o amigo a tratá-lo por To-ya, usando aquele ligeiro sotaque… Era delicioso. Há já três anos que viviam naquele apartamento com apenas um quarto, onde dormiam ambos em duas camas estreitas. Era um apartamento pequeno, mas gostavam dele assim.
Touya deslocou-se até ao quarto, dando a conversa por encerrada. Nada o fazia falar de manhã. Enquanto vestia a primeira t-shirt que lhe aparecera no roupeiro, pensava na noite anterior. Aquelas saídas tinham de acabar. Nem Otou-san sabia delas. Não fazia nada de mal, era apenas sair e ver outros vivendo. Era como um bom filme. O problema é que as "idas ao cinema" começavam a prejudicar seriamente Yukito.
Ouviu o seu celular a tocar. O toque, parecido com pequenos sinos, denunciava a pessoa que lhe estava a ligar. Decidiu ignorar os sinos.
"Toya, a Mizuki-san está-te a ligar!"
Yukito berrava da cozinha, rouco. Touya atirou o pijama para dentro do roupeiro e pôs o celular debaixo da almofada, abafando o som. Foi lavar os dentes. Quando voltou, o celular já não emitia aquele ruído irritante e tudo o que se ouvia era Yukito a deixar-se cair no sofá da sala, afirmando que, talvez, apenas talvez, estivesse um pouco cansado.
A mochila estava a um canto do quarto, aberta e de tal modo cheia de pastas e folhas que, ela própria, parecia querer vomitar tudo lá para fora. A persiana ainda estava fechada, com um sol pálido a entrar pelas brechas. Num gesto brusco, puxou o estore e a luz bateu-lhe na cara. Semicerrou os olhos.
Nem eram ainda seis da manhã, mas Tokyo era Tokyo e nunca tirava folga. Tinham de ir a pé, inclusive. Mais tarde, iriam para o pequeno laboratório onde tinham conseguido um emprego em part-time. O fumo dos carros iria bater-lhe nas caras e as buzinas iriam encher-lhe os ouvidos, não agora, mas nessa altura. As seis horas era a única altura em que o tempo parecia gelar e respirar bem fundo.
Touya pegou na mochila e na pasta castanha de Yukito e fechou a porta do quarto. O seu amigo estava meio adormecido no sofá, descalço, como um anjo caído que pede clemência a Deus. Sem saber porquê, a ideia fê-lo sorrir.
Baixou-se para ficar ao nível do sofá e abanou suavemente Yukito.
"Anda Yuki, se não chegamos atrasados… Dormir é à noite, em vez de estares a ver as garotas giras a passar…"
Sem abrir os olhos, Yukito sorriu de uma forma verdadeiramente satisfeita.
"Ora, ora, quem és tu para falar de mim… Mas, bem, agora tens a Misuki-san para te acalmar os teus instintos de feroz predador de fêmeas atraentes."
Touya teve de se rir, contrafeito. Abanou a cabeça, agradecendo por Yuki estar de olhos fechados e não ver o seu olhar magoado. Abanou-o novamente.
"Se te portares bem, peço-lhe para ela te apresentar uma das amigas dela."
De novo aquele sorriso maldoso apareceu na face branca de Yukito, ainda com as pálpebras fechadas. Humedeceu os lábios, ligeiramente entontecido do sono. Touya aproximou-se mais da face de Yukito, de tão baixo que ele falava. Ou não.
"Oh-oh, não preciso que ela me apresente ninguém. Sinceramente, se as amigas forem tão sérias como ela, sou capaz de me aborrecer de morte. E, para morrer, bastam-me as aulas…
Riu, enquanto se virava de lado, abrindo os olhos e fixando os castanhos-escuros de Touya. Olhos que pareciam feitos de Coca-Cola. Esticou o seu dedo indicador para tocar no nariz de Touya.
"Não precisas de me arranjar uma garota só porque tu arranjaste uma. Não estou assim tão necessitado…" O olhar de Yukito era sempre tão mais meigo e vulnerável sem os seus óculos redondos. Mesmo quando se divertia a arreliar Touya.
Ele sentiu um aperto no peito ao ouvir as palavras do amigo. Deixou que a sua testa cutocasse suavemente a de Yukito. Fechou os olhos, sentindo a respiração do garoto na sua face e a tortuosa proximidade.
Não sabes o quanto eu me arrependo de ter encontrado uma…
Cinco minutos mais tarde partiam os dois para a Universidade, o braço de Touya por cima dos ombros de um Yukito ainda meio adormecido, de óculos tortos e com ar de quem acaba de ter um sonho maravilhoso.
Há já mais de uma meia hora que Yukito não registava nada no seu caderno. Nos seus olhos bailavam fórmulas, átomos e muões e tudo parecia normal para ele. A voz do professor ecoava do outro lado da sala, que parecia estar a anos-luz de distância. Ao seu lado, Touya escrevinhava rapidamente. A sua mão tremia e olhava sub-repticiamente para o relógio. Pobre Touya. Yukito lembrava-se de quando tudo parecia tão luminoso e perfeito, mesmo com aulas enfadonhas e com o trânsito a ecoar-lhes aos ouvidos a noite toda. Iam a Tomoeda uma vez por mês e ficavam por lá nas férias, a trabalhar. Depois, passavam uns dias numa casa perto da do Avô de Touya e de Sakura-chan. Sentiam-se velhos a olhar para ela a crescer. Eles sabiam o que era trabalhar para sobreviver e estudar para conseguir sair de um buraco sem fundo. No entanto, mesmo com o cansaço, era um paraíso estar na cama de rede, enquanto a tarde caía. Era um paraíso sentir o vento quente a bater-lhe nas faces, enquanto ouvia a voz de Touya. Não importava o que ele dizia, era bom ouvi-lo.
Desde que a Misuki-san aparecera naquele dia junto ao Templo, ele já não falava assim tanto.
Yukito sentiu aquela sensação de algo dentro dele começar a gelar e a quebrar. Talvez fosse do frio da sala.
Um pequeno toque de sino assinalou o fim da aula. Com um só gesto, Yukito empurrou tudo para dentro da mala e esperou por Touya. Seguiram os dois para o exterior, onde as árvores estavam tingidas de cor de laranja e vermelho. E, misturada com a ramagem, uma elegante mulher de longos cabelos ruivos olhava-os ao longe. Os olhos de Yukito desviaram-se automaticamente para Touya. Este caminhou mais depressa, à sua frente, como que um íman atraído pelo olhar sereno da mulher. Quando se aproximou dela, os lábios de ambos uniram-se ao de leve, sem uma única palavra.
Yukito acenou-lhe, como sempre.
"Ohayo Misuki-san."
Ela retribuiu o aceno, agarrando-se ao braço de Touya com um pequeno sorriso. Atirou os seus cabelos para trás. Era quase tão alta como eles e estava vestida como um executiva, mesmos sendo estudante como eles. A sua face estava cuidadosamente pintada e ela parecia uma actriz de Hollywood, alguém demasiado longínquo para ser alcançado, sem ser em sonhos. Era por isso que Yukito franzira o nariz quando Touya lhe revelara, com um sorriso tonto, que estava apaixonado por ela. Demasiado bela e efémera, demasiado surreal.
Caminharam até a um pequeno jardim. Yukito sentia que algo dentro de si continuava a quebrar a cada passo.
"Gostaste da aula Yuki?" Yukito olhou para Touya, que o observava com um ar aparentemente animado. Ele sorriu.
"Nah, aborrecida como sempre. Química Orgânica não é bem a minha área."
Touya riu e Yukito sorriu, envergonhado. Odiava quando Touya se ria assim, daquela maneira fria desprovida de qualquer alegria. Kaho começava a recitar tudo o que tinha aprendido na aula de História do Japão. Os Ainu, considerados o povo indígena do Japão, ainda possuem um modo de vida nómada, recorrendo à recolecção para sobreviver. Vivem maioritariamente em Hokkaido e em 1997 foi dada protecção à sua língua e cultura. Não têm por hábito registar a sua cultura em qualquer suporte escrito, embora possuam uma generosa literatura oral, a qual passam de geração em geração.A sua religião possui particularidades: os seus deuses assumem formas animais e os cânticos são feitos do ponto de vista do Deus e não dos Humanos. As mulheres praticam ainda o xamanismo, no qual se acredita que o Deus entre na boca do xamã, quando ele entra em transe. Têm especial afecto por Ursos, senhores da montanha, e por Lobos. Enquanto que os primeiros são considerados seres incrivelmente divinos cujas crias servem de sacrifício, os lobos são animais protectores, que os protegem de doenças, pragas e de tudo um pouco.
Era enjoativo quando ela falava, por muito doce que fosse a sua voz. Sinceramente, Yukito não sabia o que raios interessava a história dos Ainu a Touya. Estavam ambos a acabar a sua Licenciatura em Química Nuclear, portanto História era algo que não ajudava muito. Eram ambos considerados extremamente bons na sua área, os melhores talvez. Os seus professores já os tinham recomendado várias vezes a vários laboratórios e centros de investigação, mas eram eles próprios que insistiam em aprender apenas um pouco mais.
Chegaram a um pequeno banco, encaixado entre duas árvores, no parque. Touya e Misuki-san sentaram-se, perfeitamente aninhados um no outro, mas Yukito manteve-se hirto, de pé, sentindo o seu familiar aperto. Touya beijou a namorada de uma maneira afectuosa. Sem conseguir tirar os olhos do casal, Yukito conseguia distinguir os lábios dele a abrirem e a fecharem-se em torno dos dela, roçando-os e brincando com eles, como numa dança. A mão dele estava pousada na cara dela. Como num filme.
Tentando manter a decência, Yukito tossiu e olhou para o chão.
"Vou um pouco para a biblioteca, estou atrasado no estudo…" Sorriu para a árvore em frente, abrindo muito os olhos. Por alguma razão, a mão de Touya fechada na de Kaho estava a causar-lhe um ardor intenso nos olhos.
O casal sorriu e Touya voltou a falar naquele tom de voz falso.
"Ora Yuki, sempre a querer estudar mais e mais… Vais queimar as pestanas com tanta letra." Riu, enquanto depositava um beijo na cabeça de Kaho.
Sem jeito, Yukito riu, agarrando firmemente a sua pasta.
"Ja ne Toya. Ja ne Misuki-san."
"Oh, pode-me chamar Kaho, Yuki."
A voz dela era suave, melíflua. Atravessava o ar como uma pena. Olhava para ele como quem olha para uma criança bonita e bem comportada. Os olhos dela brilhavam e olhava para o namorado, em busca de aprovação.
Yukito engoliu em seco. Raios… Porquê tudo isto? Porquê esta proximidade toda? No apartamento eles os dois eram irmãos, amigos e… Aqui, era ela e só ela e ela era querida e doce e amava-o e ele era um porco egoísta que não suportava ser posto de lado… Engoliu de novo em seco e abriu muito os olhos. Quando falou, fê-lo num tom cortês.
"Arigatou Kaho-san." Acenou de novo e partiu em passo apressado em direcção à biblioteca da universidade. Podia fingir o que quisesse, mas tanto a Mitologia Japonesa como a Chinesa lhe interessavam. Cada vez mais. De qualquer forma, sabia que já tinha ouvido falar de um lobo qualquer numa lenda chinesa. Mesmo que a sua área tivesse a ver com moléculas e ligações.
Suspirou. Ainda bem que naquele dia estava vento. Era da maneira que as lágrimas secavam mais depressa.
O seu apartamento era confortável. Não muito grande, mas tinha espaço suficiente para arrumar as suas tralhas de culinária. O seu quarto estava repleto de livros de culinária, a sua cozinha tinha instrumentos de cozinha por toda a parte e, na sala, dentro de caixas pequeninas, estavam livros velhos, cheios de caracteres que, provavelmente, já ninguém conseguia decifrar. Devia tê-los queimado, mas, fosse como fosse, um dia poderiam vir a dar jeito, mesmo que ele os odiasse.
Pela primeira vez em muito tempo, Syaoran estava em casa a uma quarta-feira. A última vez que tal proeza acontecera, ele desesperadamente à procura de emprego, porque a comida que surripiara de uma velha casa numa aldeia piscatória se estava a esgotar. Mas, ao contrário de há um ano atrás, ele tinha roupa nova e lavada, o apartamento era seu segundo um documento legal, tinha comida suficiente na despensa e uma cama boa onde dormir. E, sobretudo, estava longe de tudo. Longe de Hong Kong.
A única coisa que não mudara fora o nome. Afinal, era a única coisa que o seu pai lhe tinha dado.
Estava deitado no sofá, a aplicar ligaduras em si mesmo. As feridas ardiam, mas ele não se preocupava muito com elas. Continuava a pôr água oxigenada e ligaduras, sem sequer fazer um esgar de dor. Só Deus sabe que ele tinha conhecido a verdadeira dor e isto era uma suave massagem.
Em cima da mesa estavam moldes de pássaros. Pequenos pássaros de longas caudas que ele em breve iria tornar em bolinhos e em chocolatinhos. Sorriu, enquanto cortava a ligadura com os dentes, ainda afiados.
Relembrou a madrugada de há uma semana atrás, em que tinha sido encontrado a esvair-se em sangue, no meio da pastelaria. Era uma sorte não terem ainda instalado câmaras de vigilância, por isso, Syaoran pôde mentir à vontade e alegou ter sido atacado por um delinquente bêbedo. A porta, que ele a muito custo tinha aberto no fim de tudo, era a prova de como o delinquente tinha fugido, deixando-o espancado em cima de uma mesa. Tinham-no levado para o hospital, o que lhe suscitara um ataque de pânico, ao ser preso a uma maca.
Não, por favor, não, não me prendam! Eu não… Eu tento controlar-me, eu juro que consigo… NÃO ME LEVEM PARA AQUELE SÍTIO OUTRA VEZ!
No fim, tudo acabara bem. Não tinha nada partido ("Dê graças aos Céus por isso jovem" dissera o médico barbudo) e poderia regressar ao trabalho quando quisesse. Hiroito-sama pusera-lhe uma mão no ombro e dissera num tom apaziguador que ele podia contar com ele sempre que quisesse (nada tinha sido roubado e Hiroito considerara o facto como uma grande devoção do garoto para com a pastelaria), enquanto que a sua mulher chorava e acariciava o garotinho que tinha sido tão corajoso a defender a sua pastelaria… Syaoran, embora com uma ponta de remorso, sorriu e aceitou simplesmente o dia livre, garantindo que voltaria para a pastelaria já com material cozinhado.
Não era por mera vontade que decidira fazê-lo. A vitrina dos bolos tinha ficado rachada e cheia de rachas. Notavam-se claramente uma espécie de arranhões, mas a família que possuía a pastelaria, para evitar o falatório, arranjara maneira de remover de imediato os estragos. Naquele dia, por exemplo, só os bolos secos estariam de fora, cobertos por um pano delicado. Portanto, Syaoran iria levar muitos doces para lá, para compensar os estragos que, afinal, fora ele que fizera.
Após uma manhã e metade da tarde a cozinhar, Syaoran decidiu ir dar uma volta pela cidade. Tomoeda. Era um sítio agradável. Bem escondido, no meio do nada. Ia à pastelaria todos os dias e levava sempre algo novo. Os clientes achavam sempre muita piada a um jovem alto, bem parecido, que aparecia sempre com caixas e que tinha uma extraordinária tendência para cair. Quando saía da pastelaria, dava sempre de caras com a garota. Aquela que o tinha ajudado e que quase tinha beijado. Sorriu.
Era uma garota bonita e amável. Devia ser apenas dois ou três anos mais nova que ele. Não sabia sequer o seu nome, mas reconhecia o seu andar, demasiado infantil para a idade que tinha e a maneira como sorria, de forma a esconder qualquer coisa que a preocupasse. Durante uma semana, tinha falado com ela, cordialmente.
Olhou para uma pequena moldura na única cómoda vazia da sala. Um rosto redondo, adornado por duas cortinas de cabelos negros e olhos vermelhos, duros e sérios, aparecia numa fotografia antiga. Meilin. Acariciou a fotografia. Tão pequena, tão bonita e tinha conhecido a morte demasiado cedo. A tentar salvá-lo. Havia algo na inocência da garota de olhos verdes que tinha conhecido que a lembrava da prima. Deixou um pequeno beijo na foto e encaminhou-se para o quarto.
Vestiu o casaco castanho e deu um jeito aos cabelos desgrenhados. A sua cara tinha ainda cicatrizes, mas estava a chover, por isso, ninguém o olharia. Pegou no chapéu-de-chuva, deu uma última olhadela ao forno e saiu.
Estava fresco, como sempre. A chuva caía suavemente no seu chapéu, que mantinha cuidadosamente à sua frente. Ao contrário das restantes pessoas que passavam por ele, ele não evitava as poças. As suas calças estavam já encharcadas, mas ele não queria saber. Assim que se viu longe das pessoas, junto a um miradouro, fechou o chapéu e deixou que a água lhe escorresse pelas faces, quentes do tratamento a que as sujeitava.
Mantinha os lábios cerrados e os olhos fechados, enquanto se apoiava nas grades, vendo a estrada por baixo de si.
Uma correria ao longe fê-lo abrir de novo o chapéu e afastar-se das grades, seguindo por outra rua. Os passos aproximavam-se cada vez mais e ouvia-se um arfar cansado.
Um sonoro splash fê-lo virar-se para dar de caras com uma garota de cabelos acastanhados, completamente encharcada, caída em cima de uma enorme poça de água. Massajava o pé.
Contrariando o seu instinto, Syaoran correu para a garota e ajudou-a a pôr-se de pé. Assim que a colocou ao mesmo nível que ele, reparou que a garota era a mesma que o ajudara há uma semana atrás com os caixotes. Dos seus olhos brotavam lágrimas de alguma dor, enquanto lhe agradecia.
"Magoou-se?" Perguntou Syaoran, olhando para o pé que tremia. A garota também o parecia avaliar, e, pela expressão, não estava muito bem.
"Dói um pouco, mas consigo andar." Respondeu, com um torcer de nariz.
Syaoran apanhou-lhe a mochila e entregou-a. A garota abraçou-a e olhou-o com uma expressão de pura derrota. O seu casaco estava a pingar água e os pequenos elásticos que usava escorregavam-lhe do cabelo. Tinha tido um mau dia.
"Como é que não levava guarda-chuva num dia em que chove tanto?" Syaoran pusera o chapéu para que este tapasse ambos. Apanhou um dos elásticos com pequenas bolas que ameaçava cair-lhe dos cabelos, escorridos.
A garota encolheu os ombros, esfregando os olhos, tentando sorrir.
"Simplesmente esqueci-me. Ando tão ocupada que…" Fez um gesto de quem era derrotado e riu. Corou um pouco, fazendo uma pequena vénia. "Arigatou de novo…"
Syaoran não sorriu. Entregou-lhe o guarda-chuva. As mãos tremiam enquanto tirava o casaco e o punha por cima dos ombros encolhidos da garota.
"Oh, não, por favor… Vai apanhar uma constipação."
Syaoran agarrou no chapéu com força. Ok, a garota estava encharcada, com o pé magoado e prestes a rebentar em lágrimas.
"Eu nunca me constipo."
A garota sorriu. Os olhos dela possuíam um espantoso tom de verde, quase tão verde como o mar ou como uma esmeralda. Um verde lindo.
"Acho que nunca tinha dito o meu nome… Chamo-me Sakura Kinomoto…"
Ele corou um pouco e fez-lhe sinal para caminharem.
"Li."
Ela olhou para baixo. Estava visivelmente envergonhada. Syaoran resolveu quebrar o silêncio. Prioridades: a garota estava encharcada e era conveniente que trocasse de roupa o quanto antes.
"A sua casa ainda fica longe daqui?"
Ela anuiu.
"Um pouco, mas eu posso ir sozinha. Basta correr e…"
"Não, isso seria perigoso, principalmente a esta hora." Respondeu Syaoran, franzindo as sobrancelhas. Um relâmpago atravessou os céus, fazendo com que Sakura se encolhesse e abrisse os olhos, aterrorizada. "Além disso, vai começar a trovejar."
Respirou fundo. O seu apartamento era o sítio mais próximo. Talvez ela não levasse a mal a proposta…
"Ouça… Eu moro aqui perto. Se telefonar a alguém para a vir buscar, só para não estar a chuva…"
Viu claramente a garota a arrepiar-se e a retrair-se. Ele corou e olhou para o outro lado.
"Eu compreendo que não queira…"
"O problema é que eu não trouxe o meu celular…"
Ela apertava as mãos, ansiosa. Syaoran quase que podia jurar que ela iria começar a chorar a qualquer momento. Teve pena da garota.
"Podia ligar do meu." Esticou a mão para o bolso e entregou o celular à garota que tremia debaixo do seu casaco. Ela olhou-o, espantada, murmurando um tímido arigatou.
Até chegarem a casa, Sakura tentou ligar para alguém que dizia chamar-se Tomoyo, uma amiga de infância. No entanto, o celular da amiga estava desligado.
"Continue a tentar. Quando chegarmos ao meu apartamento, pode tentar para casa dela."
Chegaram ao prédio bem cuidado. Subiram as escadas, molhando tudo em seu redor. Syaoran afastava-se da garota, com medo de a assustar. Ouviam-se trovões lá fora e chuva caía com mais intensidade.
Abriu a porta do apartamento e fez-lhe sinal para que entrasse. Sakura entrou, encolhida e a morder a ponta do lábio.
Olhando em redor para ver se a sua casa estava apresentável, Syaoran indicou-lhe a casa de banho. Dirigiu-se ao seu quarto e tirou de lá uma toalha grossa e fofa, voltando depois para junto da garota que tentava desesperadamente ligar para a amiga.
"Pode ficar lá dentro o tempo que quiser. Há um aquecedor… Pode ser que o seu casaco não esteja muito molhado…" Sakura estendeu-lhe o telefone, encaminhando-se para dentro da casa de banho, mas Syaoran recusou-o.
"Vá tentando…"
Ela esboçou um sorriso e fechou a porta.
Syaoran encaminhou-se para a cozinha, com o coração a bater depressa. Sentia o medo da garota a pulsar-lhe no sangue. Não era bom sinal. Instintivamente, lambeu o lábio inferior.
Minutos mais tarde, que lhe pareceram horas, Sakura saiu da casa de banho, de uniforme, completamente seca, anunciando-lhe com um pequeno sorriso que um velho amigo a viria buscar, daí a uma hora.
"Oh, está a cozinhar!"
Syaoran tinha vestido o avental e batia algumas claras numa tigela. A seu lado, o chocolate derretia em banho-maria. Aproximou-se, encantada. Era óbvio que tinha perdido o medo. Syaoran suspirou, aliviado. Pelo menos a garota já não pensava que ele tinha más intenções em relação a ela…
"Eu não tenho muito jeito para cozinhar, sou uma nódoa."
Syaoran batia as claras mais rápido, sem saber o que dizer. Os olhos verdes dela sorriram ao ver figuras no forno.
"Tentou novamente fazer flores?" Sakura baixara-se em frente ao forno. As pontas das suas mangas estavam ainda húmidas, mas ela parecia não reparar.
"É… Têm saída na pastelaria." Respondeu Syaoran, com um encolher de ombros. As claras começavam a estar demasiado batidas mas a mente dele estava ocupada: como é que iria manter uma garota em sua casa durante uma hora sem a assustar?
"Não admira… São lindas."
Você também.
Ok, em primeiro lugar, tinha de parar de pensar coisas como aquela.
N.A.: Espero que tenham gostado do segundo capítulo. Muito obrigado a Jéssica, Isabella-chan e PeppermintCooties pelas reviews.
