UM CAMINHO PARA DOIS
CAPÍTULO 2
Ela no caminho dele.
Músicas: Four Seasons (Amuro Namie)
Sesshoumaru chegou cedo como de costume, e encontrou na sala a única pessoa que conseguia se igualar a ele em notas: Rin. Sentada quietinha na cadeira que escolhera desde que pisara na sala, ela tirava a neve do chapéu que usava naquele dia. A capital japonesa estava sofrendo uma nevasca fora de época que já durava mais de três dias, forçando os moradores a tirarem os casacos dos armários e se agasalhassem bem para enfrentá-la. Naquele dia, notou que a colega estava toda de preto, o que ficava bem nela, apesar de estar acostumando a vê-la usar cores mais quentes. Ele tentou uma conversa ao perceber que ela estava quieta demais, achando que, com certeza, ela não o tinha notado entrar.
-Bom dia, Nozomu.
Viu que Rin fez uma expressão aborrecida, fazendo com que sentisse vontade de rir.
-Meu dia ficaria muito bom se você não fosse o primeiro que encontrasse hoje.
-Infelizmente não é possível, né?
-Pois é! – ela rilhou os dentes e virou o rosto para o outro lado.
-Menina...
-NÃO ME CHAME DE MENINA! – ela tinha uma expressão diabólica no rosto.
-... Você vai a algum enterro depois? Veio toda de preto. – viu que o rosto dela tinha se tornado vermelho de raiva e completou depressa – Se bem que preto combina com esse vermelho do seu rosto e...
-Não te interessa nem um pouco! – provavelmente ela ainda quebraria um dente se continuasse rangendo daquela forma.
O dia estava prometendo ser divertido.
-Foi só um comentário. Você fica bem de preto também. – ele falou tranqüilamente, não se movendo um dedo ao vê-la avançar na direção dele segurando a pasta, que foi diretamente bater no peito dele.
-Eu não preciso dos seus comentários. – falou, séria, a pasta de plástico ainda grudada no peito dele e um dedo mirando o rosto como uma arma – Eu entendi o seu joguinho de querer me desconcentrar e me fazer passar vergonha, mas aviso logo que... – o dedo estocou como uma faca no peito ao baixar a pasta – Isso não vai acontecer.
-Esse plano parece muito interessante – ele agarrou a mão dela e segurou-a com firmeza entre os rostos ao aproximar o dele – E o que eu ganharia com isso? Em... "fazê-la passar vergonha"?
Que pele macia ela tinha...
-Alguma coisa além da minha compreensão – ela retirou depressa a mão diante do toque dele e a massageou como se ele tivesse aplicado pressão demais nos dedos – Porque eu não entendo o que alguém ganha me irritando tanto.
Espertinha perceptiva.
Os dias tinham ficado tão divertidos com aquelas expressões e gritos que ela dava ao ser altamente irritada por ele – e também por Miroku, Sango e Inuyasha. Mas apenas ele era a maior inimizade dela, enquanto via de camarote os outros se aproximarem e conversarem com ela como se fosse já uma velha conhecida de curso.
-Desculpe, mas... – ele tinha já outro plano para ver o vermelho de raiva, os olhos dela queimando de irritação – Tenho agido de forma errada com você. Sinto muito.
Aquilo pareceu ter quebrado uma barreira. Subitamente a expressão relaxou e pareceu ter ficado mais... sensibilizada com o pedido de desculpas. Ainda segurando a pasta, ela deixou os braços penderem ao longo do corpo, e forçou um sorriso.
-Está tudo bem, então... - ela deu um suspiro. Parecia realmente muito aliviada.
Agora.
-Mas você ainda não me respondeu se vai a algum enterro para vir... completamente de preto.
Foi rápido, mas Sesshoumaru ainda conseguiu enxergar. A mão com a pasta mirava o rosto dele, e seria realmente o alvo se Rin não fosse impedida por Sango e Miroku, que entraram na sala a tempo de impedi-la de bater no chefe de turma.
-Ei, ei, ei! Já tão cedo e já estão se matando? – perguntou Miroku.
-Foi ele quem começou – ela apontou um dedo acusatório – Esse chato, arrogante, orgulhoso, egoísta... Chato...
-Rin-chan, controle-se... – Sango tentava conter a mão da amiga que continuava tentando acertar a pasta em Sesshoumaru.
Rin continuou rangendo os dentes. Como era possível ela perder a calma por algo tão simples? Parecia realmente uma criança.
-Vamos, Rin, vamos... – Miroku começou a afastar a garota, entretanto a mão dele tocou em um lugar que não deveria. O rosto do rapaz ficou aquecido depois de receber, no instante seguinte, um tapa da garota que tentava conter.
-Miroku... Como sempre, você se excedeu. - comentou Sango, afastando uma Rin aborrecida e envergonhada a sentar-se longe dos dois rapazes – Fique perto de mim, Rin-chan...
Rin não respondeu, tentando conter o choro por causa do assédio, enquanto que Miroku massageava o rosto e Sesshoumaru permanecia impassível.
As aulas transcorreram normalmente ao longo do dia. Rin e Sesshoumaru eram os únicos que entendiam a matéria e faziam comentários durante as aulas. De vez em quando Sesshoumaru olhava para o lugar onde Rin estava para saber qual a expressão no rosto ela tinha naquele momento. E quando os olhares se cruzavam, ele tentava conter um sorriso ao ver que ela fazia uma careta para ele.
Já estudavam juntos há algum tempo e, no início, ele notara que ela o evitava a todo custo, e um dia ele não se conteve e perguntou-lhe qual era, afinal de contas, o problema que ela tinha com Sesshoumaru.
O rapaz não pôde conter a surpresa ao escutar a garota gritando que o odiava. Nunca tinha escutado alguém gritar, além do irmão, com ele, e principalmente saber que uma garota não gostava dele.
Rin certamente o tinha impressionado com caráter que possuía.
E era, definitivamente, uma garota muito diferente das outras que conhecera.
-Calma, Rin-chan... –Sango a conteve e colocou o chapeuzinho na cabeça da colega no final do dia, quando Sesshoumaru novamente a tinha provocado - Calma... Que tal irmos ao karaoke pra te animar?
A garota desfez a expressão de raiva e o rosto se iluminou com um sorriso.
-E eu vou poder cantar? Posso, né?
-Não.- Sesshoumaru respondeu, fazendo com que a garota se aborrecesse e tentasse avançar nele de novo - Sua voz de criancinha é horrível, é melhor não tentar.
-Grrr...
-Não dê confiança, Rin-chan! Ele só está brincando!- Sango tentava segurá-la auxiliada por Miroku.
-Sesshoumaru-sama, é melhor não irritá-la. Ela não é como Inuyasha-sama.- Miroku fazia um enorme esforço para não rir daquela situação enquanto segurava a garota.
-E eu com isso? – respondeu muito calmo.
Em algum bar perto do Toudai...
-POR QUE ELE TINHA QUE VIR? - gritou Rin num choro sentido ao ouvido de Sango.
-Por quê? Ele não pode?
-É, Nozomu. Eu não posso? –perguntou Sesshoumaru com o rosto sério – Meu irmão está aqui também.
-VOCÊS SABEM QUE EU NÃO GOSTO DELE!
-Eu não ligo se não gosta de mim, Nozomu...
-QUIETO! EU TE ODEIO!
Entraram no bar e procuraram uma mesa vaga perto do palco. Sango apenas colocou a bolsa e o material em uma das cadeiras e avisou que iria inscrever Rin para cantar.
O silêncio reinou durante algum tempo, até que Sesshoumaru resolveu falar:
-Eu já disse pra não tentar... Sua voz vai espantar os clientes e você pode ser processada por fazer o bar declarar falência.
A expressão diabólica logo voltou aos olhos e ela ia responder. E seria uma bela resposta se por acaso Sango não tivesse aparecido.
-Rin-chan! Eu já te inscrevi! Tem duas músicas só pra você!
-Já tô indo, já tô indo, Sango-chan! – ela já tinha esquecido do rapaz que a irritara antes, saindo da mesa e deixando Sesshoumaru, Inuyasha, ao lado de Kagome, e Miroku sozinhos.
-Sesshoumaru-sama... – Miroku foi cuidadoso ao falar porque era muito diferente conversar com Inuyasha e conversar com Sesshoumaru – Por que faz isso com Rin-sama? Vai acabar machucado de verdade algum dia. Ela tem a mão pesada: me deu um tapa uma vez que ficou doendo uns três dias.
Sesshoumaru lançou um olhar extremamente gelado ao rapaz. O que diabos ele teria feito para que ela batesse nele? Provavelmente teria passado a mão nas pernas dela. Logo deixou aquilo passar e forçou um meio sorriso, o que deixou tanto o irmão quanto o colega surpresos.
-Eu acho divertido o jeito com que ela se irrita fácil. Parece você, Inuyasha.
-Acha divertido? –Miroku parecia impressionado.
-Ei, pode me deixar fora dessa. – o irmão mais novo passou um braço pelos ombros de Kagome, e o gesto foi captado pelos olhos atentos do mais velho. Aquilo era uma forma de aproximação muito direta, que ele já vira Miroku fazer em Rin, mas de forma mais agradável.
Deixou o lado o pensamento quando imaginou passar o braço dele pelos ombros de Rin.
-Algum problema? –perguntou o senpai, lançando-lhe um olhar gelado.
-N-Não. – Miroku engasgou – Nadinha de errado.
-É que o ego do Sesshoumaru inflama quando vê alguém com coragem de discutir com ele. – o irmão mais novo comentou – Quero só ver quando isso passar dos limites.
-Quais limites, Inuyasha? – Sesshoumaru perguntou num desafio.
-Ei, ela já vai subir. – Kagome interrompeu para evitar uma briga à mesa – Vamos ver, vamos ver!
Sango voltou neste momento para perto dos dois, sentando-se ao lado de Miroku e dos outros para observar a garota subir ao palco e tirar um chapeuzinho e deixá-lo cair no chão.
Ao vê-la com a cabeça desprotegida, Sesshoumaru percebeu o que o irritava quando ela aparecia com um chapéu e o usava, mesmo em sala de aula: o cabelo dela não ficava destacado. E ela o amarrava, ainda por cima, num rabo de cavalo horrível, o que impedia aos outros verem o brilho das mechas negras.
Rin pegou microfone. Fez uma rápida apresentação de si mesma e depois começou a cantar.
Four scene of love and laughter
I'll be alright being alone
Four scene of love and laughter
I'll be alright being alone
Four scene of love and laughter
I'll be alright being alone
Four scene of love and laughter
I will be OK…
-Ela canta bem, Sesshoumaru-sama... A voz dela não é tão ruim assim. – Miroku comentou, brincando com os palitinhos da comida que haviam pedido e ainda não havia chegado.
Se ela cantava bem...? Sim, ela cantava. A música também tinha uma bonita melodia. Mas ele não precisava ter falado a respeito.
-Disso eu já sei, Houshi.
-Mas... – Miroku realmente parecia surpreso, mais do que nas outras vezes.
-Eu já disse que eu gosto de ver a reação dela. – Ele se calou quando viu Rin se preparar para terminar a canção.
Four scene, four four seasons
Four scene, I'll be alright
Four scene, four four seasons
Four scene, stay with me...
-E essa foi Nozomu Rin! Palmas para ela!
Algumas pessoas aplaudiram, e entre elas estavam os colegas de turma, a quem ela mandou um aceno e curvou-se numa reverência.
Antes de Rin voltar para a mesa, Sesshoumaru ficou internamente contente por ninguém escutar uma frase, que escapou como sussurro dos lábios:
-Eu só não entendo o porquê dela não gostar de mim...
