Recomendações:
- Para aqueles que admiram Thranduil, a talentosa Regie nos brindou semana passada com: O Nascimento de Um Rei. Corram que é imperdível!
- E para os fãs de Thórin Escudo-de-Carvalho, temos Outono, escrita primorosamente pela linda Soi (aquela de Echarpe Dourada!) e A Promessa de JustAnotherGirl.
Em Erebor
Thranduil havia se dirigido com sua comitiva até a Montanha Solitária a fim de concluir o acerto que havia feito com os anões. O povo de Aulë se comprometera a usar sua arte para capturar a luz das estrelas em troca de um suprimento significativo de alimentos. Era sabido por todos que se o Rei dos Elfos tinha um fraco, era por tesouros, especialmente prata e pedras brancas, e, embora seu estoque fosse rico, estava sempre ávido por mais, já que ainda não detinha um tesouro tão grande como os dos grandes Reis Élficos de antigamente.*
O Rei Sob a Montanha, sentando em seu trono, à luz da Pedra Arken, recebeu a comitiva da Floresta das Trevas. O Rei Élfico se aproximou e cumprimentou Thrór e sua corte discretamente. Um anão, parado de pé em frente ao trono, portava uma pequena arca de madeira. Thranduil fixou seus olhos nela e o brilho das pedras brancas engastadas na prata reluziram aos olhos do Rei quando a arca foi aberta. O Povo de Dúrin parecia haver cumprido sua parte no acordo afinal. O elfo estendeu a mão em direção às gemas preciosas, apenas para ver a arca ser fechada novamente, negando-lhe seu tesouro. Ele ergueu os olhos em direção ao Rei de Erebor que o mirava arrogantemente.
Alguns anões, dentre eles Thórin, o neto de Thrór, se viram surpresos e sem compreender o motivo da recusa. O pagamento combinado havia sido entregue e conferido mais de uma vez. O jovem príncipe não gostou do que percebeu no rosto do avô. O Rei Sob a Montanha não parecia ser ele mesmo, agindo daquela maneira.
Thranduil fechou a mão em punho, supondo o que poderia deveria estar por trás do ocorrido. Os anões, sempre ávidos por riquezas, haviam mudado de ideia em relação ao o pagamento. O Rei Élfico deu as costas, jurando para si mesmo nunca mais incorrer no erro de confiar em um anão novamente, e a comitiva da Floresta deixou Erebor.
A Caminho do Reino da Floresta
Alguns dias depois, Thórin cavalgava em direção à Floresta das Trevas. Os negócios com Thranduil em Erebor haviam sido mais tensos do que se poderia esperar. O anão desejava esclarecer o episódio das gemas brancas, antes que o mesmo servisse de base para futuros desentendimentos. Elfos e anões conviviam pacificamente naqueles tempos, embora não pudesse ser dito que se tratavam como duas raças amigas.
O príncipe se recordava do brilho nos olhos do Rei Elfo ao avistar o pequeno tesouro prateado e reconheceu no eldar o mesmo amor que os anões nutrem pela beleza que pode ser extraída da pedra.
Quando o pequeno baú foi fechado, privando o rei do que lhe havia sido prometido, ele viu o olhar do eldar se converter em pura ira. E Thórin não poderia negar, uma justa ira. Após o rei de Mirkwood haver partido, o príncipe de Erebor indagou ao avô a respeito do ocorrido. Thrór não se estendeu em seus argumentos, limitando-se a dizer que Thranduil se recusara a pagar um preço justo pelas joias. Sem conseguir extrair qualquer outra informação de seu avô, Thórin optou por ir em busca de Thranduil no Reino da Floresta. No entanto ninguém ficou sabendo de sua empreitada nas terras élficas além de Balin, que lhe serviu de mensageiro, solicitando uma audiência com o máximo de discrição. Era o khuzd** certo para tal, já que sabia lidar com os elfos melhor do que qualquer outro anão.
Na Sala do Trono
Thranduil se encontrava sozinho, aguardando pela visita do anão de Erebor. Embora vislumbrasse algumas possibilidades, ele não havia conseguido descobrir o motivo da solicitação de Thórin e por isso se perguntava o que poderia tê-lo motivado a deixar sua preciosa montanha e se dirigir a Mirkwood. Balin, o arauto enviado pelo filho de Thráin, havia pedido sigilo absoluto sobre a audiência. Tanto segredo apenas fortalecia a opinião do rei de que nada de bom poderia ser esperado dos filhos de Aulë.
Ele caminhou em direção ao trono e tomou assento, a fim de preparar sua mente para receber o neto de Thrór. Sempre que se via diante de um anão as lembranças sombrias retornavam avassaladoras, já que haviam sido os anões os culpados pela ferida infligida a ele e a seu pai. Os séculos que se interpunham entre o tempo presente e o mal ocorrido em um passado distante simplesmente não faziam a menor diferença para Thranduil. A dor em seu peito não diminuía e sua mágoa apenas aumentava.
Nos dias antigos, elfos haviam travado guerras com anões, a quem acusavam de roubarem seus tesouros . Já os anões contavam uma história diferente , e diziam que apenas pegaram o que lhes era devido, pois os elfos negociaram com eles para que trabalhassem seu ouro e prata brutos, e depois recusarma-se a pagar-lhes o que deviam. Tudo isso os anões de Erebor sabiam muito bem, embora a família de Thórin não tivesse nada a ver com a velha disputa.*
Porém era certo que em Erebor não se tinha conhecimento de como a família de Thranduil havia sido gravemente marcada pela rusga ancestral. Contudo, o rei de Mirkwood acreditava que anões eram anões, não importava a qual das sete casas pertencessem. Ele havia tentado uma aproximação recentemente. Ninguém poderia acusá-lo do contrário. E o que recebera em troca? Apenas zombaria da parte de Thrór, que lhe apresentou a luz das estrelas magicamente capturadas em gemas brancas e puras, somente para negá-las a ele.
Por essas e outras, o eldar adquirira o costume de esperar sempre pelo pior daquela raça tão corrupta como intratável. Por vezes uma coexistência pacífica poderia ser ensaiada, todavia, a duração daquela paz vigilante era instável e, justamente por isso, o rei se encontrava pessimista em relação ao encontro que estava prestes a acontecer. Sim. Em se tratando de anões, Thranduil Oropherion sempre esperava pelo pior.
No limiar de Mirkwood
Thórin chegou ao limiar da Floresta das Trevas quando o sol já ia a pino. O filho de Dúrin não precisou se preocupar em avisar sobre sua chegada, pois uma escolta élfica já o aguardava em companhia de Balin. Era a confirmação de que sua solicitação de conversar com Thranduil havia sido aceita. O anão mais jovem se aproximou do conselheiro, assentindo em agradecimento.
- Deseja que eu o acompanhe, Thórin?
- Não, Balin, eu devo seguir sozinho daqui em diante. Retorne a Esgaroth, eu o encontrarei lá.
- Como desejar, meu príncipe.
Balin seguiu seu caminho de volta à Cidade Lago, enquanto Thórin foi escoltado pelos elfos até o palácio do Reino da Floresta.
Na Sala do Trono
O príncipe anão foi recebido nos salões pelo próprio Thranduil. Ele e o rei élfico eram os únicos presentes no recinto. Balin havia sido bastante eficiente.
O elfo, sentado em seu trono, inclinou levemente a cabeça em um cumprimento contido. Os olhos azuis do eldar encontraram os de Thórin, que se colocou diante dele. Um silêncio se estabeleceu entre os dois, antes que qualquer palavra fosse dita. Ambos estudando cautelosamente o próximo passo.
Thórin não saberia dizer, naquele momento, se estava ou não arrependido de ter pedido pelo encontro. Não estava lá para pedir desculpas, porém sentia ser de sua responsabilidade sanar a ferida que se encontrava aberta. Thórin se viu na difícil condição de representante de seu povo. E isso sem a permissão ou conhecimento dos soberanos de Erebor. Se algo desse errado, ele estaria em maus lençóis.
O silêncio perdurou por um tempo considerável e foi Thranduil quem o rompeu.
- Eu lhe dou as boas vindas, Thórin, filho de Thráin, príncipe e herdeiro da Montanha Solitária.
Foi a vez de Thórin oferecer ao rei um cumprimento discreto com a cabeça.
- Eu estou aqui, Thranduil, filho de Oropher, para saber o que houve por trás do incidente das pedras brancas que lhe foram negadas.
Os olhos do rei brilharam. Thórin, como era característica dos khazâd***, não se perdia em rodeios.
- Não há nada por trás de coisa alguma, filho de Aulë. O senhor já disse tudo. Elas me foram negadas por seu avô. – disse o rei élfico, sentindo presente e passado se misturarem em sua mente e mal conseguindo conter a magoa que teimava em queimar-lhe o peito.
A respiração de Thórin se alterou. Aquela não seria uma conversa fácil.
- A questão que se impõe é: por quê? – indagou o anão.
Thranduil se levantou, sem, contudo, dar passo algum.
- O que seu avô lhe disse?
- O que meu avô me disse cabe somente a mim. Eu estou aqui para saber o que o Senhor tem a me dizer.
Thranduil estreitou os olhos.
- Fala de forma demasiadamente insolente, Thórin, filho de Thráin. Parece haver esquecido de que está em meus domínios. – o rei sibilou.
Thórin fez o possível para se controlar.
- Estou certo de que Thranduil deseja que o incidente seja esclarecido tanto quanto eu. E para que isso seja possível, basta que responda a simples pergunta que lhe fiz.
Mais um momento de silêncio.
O rei élfico permaneceu imóvel por um bom tempo, até que assentiu.
- Minha resposta é simples, anão. Tão simples quanto sua pergunta. Um acordo foi feito, o pagamento foi levado e, no momento da entrega, a disposição do Rei Sob a Montanha cambiou-se em um ato de zombaria.
Thórin baixou os olhos, parecendo hesitar. Ainda que sua opinião a respeito dos elfos não fosse das melhores, não via em Thranduil qualquer vestígio de engodo.
O rei percebeu o estado de ânimo de seu interlocutor. Sua natureza élfica e seus séculos de existência o permitiam ler o significado dos gestos e expressões da maioria dos seres de Arda e ele vislumbrou as razões por trás da visita do anão.
- O que seu avô lhe disse? – indagou, se dirigindo ao Thórin, como se já soubesse a resposta.
O khuzd ergueu os olhos, encarando o rei. Não foi necessário que o anão respondesse à pergunta do eldar para que este percebesse que Thrór deveria ter dito uma tolice qualquer ao neto.
- Devo supor – prosseguiu o rei – diante de sua expressão, que as chances de que aquelas gemas venham para o Reino da Floresta são pequenas.
- Menores do que eu presumia, sem dúvida – Thórin concordou.
Thranduil observou o anão por alguns segundos, antes de externar o que lhe vinha em mente.
- Mais por vontade de seu avô do que pela sua, eu suponho.
Thórin estreitou os olhos.
- Não tem o direito de julgar meu avô.
- Eu não o estou julgando. Apenas emito juízo sobre uma de suas atitudes. E o senhor há de concordar comigo.
- Não, não hei de concordar. – retorquiu em desafio.
Thranduil estudou o rosto do khuzd, sentindo nele uma inquietação. Não, Thórin não viera por causa daquelas joias. Nem tampouco porque prezava a relação entre seu povo e os eldar. Algo se escondia nas sombras que pairavam no ar.
- Não se trata apenas das gemas, não é? – o rei havia decifrado o enigma – Está em busca de algo mais? Talvez de alguma evidência de que...
Thórin deu as costas ao rei.
Thranduil silenciou por um tempo antes de prosseguir.
- Você já percebeu, Thórin, que seu avô não é mais como costumava ser. – E havia um prazer involuntário nas palavras ditas pelo rei. – Se a decisão sobre as pedras tivesse sido por culpa minha, seria um sinal de que ele não está sucumbindo...
- Cale-se! – gritou Thórin, se virando com o dedo em riste.
Os olhos de Thranduil pousaram sobre o anão demoradamente. O eldar não precisou buscar por vingança, ela havia sido dada a ele gratuitamente. Thrór atrairia a si a própria ruína.
- Não se engane, Thórin, filho de Thráin. A verdade está diante de seus olhos. Cabe a você aceitá-la ou não.
Thórin fitou o elfo, baixando a mão em seguida.
- Creio que não há mais nada a ser dito – disse o anão – eu não deveria ter vindo aqui. Apenas desperdicei o seu tempo e o meu.
O khuzd deu as costas e começou a se retirar. O maldito rei élfico estava certo. E Thórin odiava-se por ter que admitir isso, ainda que apenas para si mesmo. Precisava encontrar uma maneira de ajudar seu avô ou sua família e seu povo poderiam sofrer gravemente.
Nos portões do Palácio
O portão se abriu diante do anão e sua montaria lhe foi devolvida. Ao retomar seu lugar no dorso do animal, Thórin vislumbrou um rosto que o observava de longe. Sabia quem era: o Filho de Thranduil. O elfo mais novo guardava uma postura rígida, fitando-o com olhos atentos. Por certo havia sido incumbido pelo pai de se assegurar que ele não faria nenhum mal ao seu precioso reino.
Legolas o encarava. Thórin o encarou de volta, tomando os arreios do pônei.
- Não precisa se preocupar comigo, elfo. – ele falou alto o suficiente para que Legolas pudesse ouvir – Não pretendo me desviar de meu caminho!
O Filho de Dúrin iniciou sua cavalgada, enquanto o príncipe do Reino da Floresta o seguia de longe. Thórin realizou o percurso pressurosamente, ansioso por se ver fora dos domínios de Thranduil.
E livre da vigilância dos olhos atentos de Legolas.
*O Hobbit, Moscas e Aranhas
**khuzd – anão em Khuzdûl (língua secreta dos anões).
***khazâd – anões em khuzdûl.
