A atmosfera da sala de jantar era estranhamente familiar, e ao mesmo tempo, bizarra. O cheiro cativante da torta de abóbora de Molly Weasley circulava pela casa, ao mesmo tempo em que agulhas mágicas costuravam cachecóis para o inverno e Píchi descansava na janela de madeira.

O comportamento dos habitantes da Toca transmitia um misto de alívio e de luto.

Enquanto Molly cortava legumes rapidamente, o senhor Weasley fitava de maneira mecânica um dispositivo trouxa ("patinho de borracha"). Já Gina e Harry estavam apoiados preguiçosamente no sofá vermelho da Toca. Harry encostava a ponta dos dedos nos pelinhos ruivos do braço da ruiva, observando de forma divertida como eles se arrepiavam com o seu toque. Não diziam muito. De fato, estavam quase em silêncio absoluto, e, de vez em quando, se abraçavam forte. Rony os havia apelidado de "casal de chicletes", pois nunca estiveram tão próximos quanto agora: passavam horas do dia juntos, passeando pelos jardins e treinando quadribol. De vez em quando, Gina acordava durante a noite procurando pelo irmão morto, e Harry acordava para abraçá-la e secar suas lágrimas.

Jorge não aparecia em casa há alguns dias. Provavelmente estava em alguma travessa, bêbado, fazendo piadas e gargalhando com desconhecidos que comemoravam o fim da guerra. Já haviam deixado Hogwarts há duas semanas, e durante todo esse tempo, o rapaz havia tomado uma quantidade considerável de cerveja amanteigada e whisky. Tendo em vista a situação caótica do irmão, Percy propôs uma intervenção, ou algo que o valha. Segundo ele, tinha lido sobre intervenções "em uma revista trouxa, e parecia um método muito eficiente para colocar a vida de alguém nos eixos". Hermione riu do esforço contínuo do antigo monitor da Grifinória para reconquistar a família. Realmente, a situação de Jorge era preocupante, pois andava ausente e bêbado com uma notável frequência. Rony, por sua vez, ainda ressentido com Percy, mandou o irmão catar bolas de cocô no Beco Diagonal.

E por fim, Hermione: a garota estava sentada em almofadas costuradas por Molly no chão, as olheiras mais fundas do que nunca, acariciando Bichento e planejando o seu retorno para Hogwarts. Olhou para os jardins da Toca com aperto no coração: lá estava Rony, o seu namorado, ou talvez amigo, ainda não sabia, chutando pedaços de madeira com agressividade e destruindo toda a lenha para o fogão.

O cheiro de torta de abóbora, agora cada vez mais marcante, a transportou para as memórias da noite do jantar do funeral de Jorge. Ron já a havia beijado durante a batalha contra Voldemort. No entanto, o segundo beijo havia sido completamente diferente do primeiro: foi um encontro de expectativas de dois jovens perdidos quanto à ideia de futuro, quebrados pela guerra e fragilizados pelas perdas. Era um beijo de mútua força, era um beijo que os colocava juntos contra o mundo. Durante aqueles segundos, Mione sentiu que não estava sozinha, sentiu o peito se encher de calor e, por um instante, sentiu-se capaz de enfrentar os anos que viriam pela frente.

A voz de Molly, que anunciava o jantar, trouxe Hermione de volta à realidade da Toca. A presença de Ron, agora fria e distante, em contraste ao beijo daquela noite, causaram arrepios de dúvida em Mione.

Novamente, haveria Torta de Abóbora para o jantar.