CAPÍTULO II

O quinto ano em Hogwarts começou atribulado, tantas mortes acontecendo, mas os alunos estavam salvaguardados dentro do castelo. Ravena e Rita tiveram suas respectivas entrevistas com a diretora da Grifinória, Minerva McGonagall. E como Dumbledore já antecipara para a professora, Ravena confirmou sua opçăo pela carreira de auror. Estava, entăo, tudo acertado, ela precisava apenas manter suas boas notas, o que năo consistia em esforço algum. As duas amigas viviam estudando juntas, na biblioteca ou na sala comunal. A chegada dos exames, ao invés de enervá-las, como aconteceu com os outros alunos, acabou por gerar apenas a expectativa comum de qualquer aluno bem aplicado. Outro ano chegara ao fim, porém, as coisas que aconteciam ao redor da escola se tornaram mais assustadoras e acabavam por contaminar o ambiente dentro dela. O clima de tensăo estava instaurado em todas as esferas do mundo mágico.

Apesar de năo sair de dentro da escola durante o verăo, Ravena recebia todas as correspondęncias de Rita, e lia o jornal todos os dias. Era notório que todos os esforços empreendidos pelo Ministério năo estavam surtindo o efeito esperado, para ela isso se resumia no simples fato de que o próprio Ministério estaria infiltrado com agentes inimigos.

Já estava quase começando o novo ano letivo quando Ravena recebeu suas notas de N.O.M.s. Ela havia conseguido um ótimo resultado e esperava ansiosamente que Rita também obtivesse. A resposta veio no mesmo dia em uma mensagem da amiga dizendo que também fora aprovada. Ravena procurou falar com Dumbledore, mas nas últimas semanas ele se ausentava constantemente da escola.

O sexto ano começou, e com ele, uma onda de assassinatos de aurores. Todas ilustradas nas páginas do "Profeta Diário". O Ministério continuava prendendo Comensais e enviando-os para a prisăo de Azkaban, que ficava numa ilha e era guardada por dementadores. Seres estes que estavam entre as piores criaturas existentes no mundo e viviam das piores lembranças das pessoas. Quando um preso era condenado a levar um beijo de um dementador estava fadado a se tornar um ser inanimado, pois sua alma era sugada, assim sendo, Azkaban era o pesadelo na vida de qualquer bruxo, mesmo sendo ele um Comensal da Morte. Entăo, muitos deles năo resistiam e delatavam seus companheiros, ou ficavam definitivamente malucos.

Rita estava sempre excitada lendo todo o jornal. E particularmente naquele dia resolveu transcrever, na íntegra, toda a matéria que havia lido sobre os comensais, no meio da aula do professor Binns. Como a aula era monótona, Ravena năo se opôs em ouvir a amiga, sabia o quanto isso significava para Rita. O sinal indicando o fim da aula soou, e ambas desceram as escadas em direçăo ao salăo principal onde almoçariam.

Após o final da refeiçăo, Ravena subira para falar com a professora Minerva a respeito de um trabalho quando, entrando no escritório da professora, notou a presença do diretor e de mais um homem que devia estar lá pelos seus quarenta anos, tinha cabelos castanhos claros e um rosto coberto de cicatrizes. Deteve-se por alguns segundos antes de demonstrar sua presença, já que eles năo pareciam tę-la visto. O homem das cicatrizes estava falando, e Ravena pode ouví-lo dizer.

– Precisaremos achar uma nova sede para a Ordem, Alvo - e o diretor assentiu com a cabeça.

– Sim, Alastor, eu concordo, contudo, creio que devemos discutir isso em outra oportunidade, pois nossa conversa năo é mais sigilosa - e virando-se para onde Ravena permanecia de pé, completou -, boa tarde, senhorita Brown.

– Boa tarde, professor. Desculpe-me, năo tive a intençăo de incomodar - e indicando a porta, continuou -, a porta estava aberta e...

– Acalme-se, Ravena - disse ele sorrindo bondosamente. - Tenho certeza que muito breve poderemos contar com a senhorita em nossa pequena organizaçăo. E ouso dizer ainda que nos será de grande valia. Por hora é melhor que nos retiremos, creio que deseja tirar alguma dúvida com a professora Minerva, năo?

– Sim... - retribuiu-lhe o sorriso sem fazer qualquer pergunta. Os dois homens se retiraram e Ravena se dirigiu até a mesa onde explicou sua dúvida a professora.

Durante o restante do ano letivo, ela năo teve outro contato com o diretor. Porém, os jornais năo paravam de publicar notícias sobre as mortes de aurores do Ministério. Torturas de bruxos e trouxas também se revelaram o prato principal de imensas matérias, que ilustravam as páginas do Profeta. Mesmo assim, apesar das inúmeras denúncias que pesavam sobre alguns bruxos, o Ministério encontrava dificuldades em comprová-las. E muitos Comensais deixaram de ser punidos como deviam.

"Apesar das várias denúncias contra o Comensal Severo Snape, o Ministro da Magia afirma que há provas suficientes e incontestáveis de que muito antes dessas denúncias virem a tona, o mesmo já năo se encontrava mais a serviço de Vocę-Sabe-Quem - disse Millicent Bagnold, Ministro da Magia. - O caso foi arquivado pelo Ministério desde que provas de sua inocęncia perante aos recentes acontecimentos foram-me entregues, e anexadas ao caso - continuou Bagnold. - Acho que ainda cabe aqui ressaltar que consideramos Severo Snape inocente das acusaçőes de homicídios aos quais outros Comensais estăo inteiramente envolvidos."

Fonte : "O PROFETA DIÁRIO"

Era uma manhă fria, e sol palidamente entrava pala janela do dormitório. Ravena já estava acordada há algum tempo e esperava apenas que Rita fizesse o mesmo. Quando a amiga acordou, desceram rapidamente para o Salăo afim de que pudessem se juntar aos amigos da Grifinória e tomar o café da manhă. O correio matinal chegou, logo depois, fazendo cair no colo de Rita a ediçăo do "Profeta Diário". A menina começou a ler as manchetes e depois as notas internas. Ravena cutucou a amiga e mostrou as horas, já estavam atrasadas para a primeira aula. As duas correram pelos corredores até se depararem com a fila de alunos que se formava para entrar na aula de Feitiços. Ravena perguntou á amiga:

– Hoje teremos nossa primeira aula com o novo professor de Poçőes. Foi estranho ele năo estar na mesa de professores no banquete de Seleçăo ontem, năo acha Rita?

– Bom, sim.- e sorrindo para a amiga -, mas vocę terá sua curiosidade satisfeita daqui a algumas horas, e sinceramente, năo creio que isso vá interferir nos seus exames de N.I.E.M.s, năo é, Ravie?

– Năo, sei que năo! - e pensativa, completou: - Năo acho que sejam muito diferentes dos N.O.M.s, só teremos um pouco mais de matéria para estudar.

– Um pouco? - e sendo sarcástica, Rita disse: - Sabe, quando eu crescer quero ser igual a vocę, sua definiçăo de um pouco é muito abrangente para mim.

– Eu a ajudo, Rita, - disse retribuindo o sarcasmo da amiga -, năo deixaria uma criança desamparada. Agora, vamos! - e entraram na classe de feitiços, onde o professor Flitwick estava, como sempre, em cima de uma pilha de livros. Ele era mais baixo que qualquer aluno de onze anos que entrava na escola.

Ambas já haviam prestado exame de N.O.M.s, há dois anos atrás, época em que tiveram uma entrevista com a professora Minerva a respeito se seus interesses e aptidőes. Todos os alunos do quinto ano entrevistavam-se com o diretor de suas casas para discutirem a carreira que pretendiam seguir, e assim saber em quais N.O.M.S. precisaria obter boas notas. Ravena naquela época já decidira ser uma auror e tirara nada mais nada menos que sete E. E.s (Excede as Expectativas) e um O (ótimo) em Herbologia. Com essas notas era certo que poderia almejar a tăo sonhada carreira.

Este seria entăo o último ano de Ravena em Hogwarts. Somente os exames de N.I.E.M.s a separavam agora do Ministério e de sua carreira. Aliás, era tudo do que mais estavam precisando no Ministério com a grande caça aos Comensais, e as baixas grandes dos dois lados.

A menina de cabelos cacheados curtos loiros e imensos olhos azuis que estava, ao lado dela, contrastava com Ravena imensamente. Ravena tinha olhos verdes e longos cabelos negros cacheados. As duas amigas juntas formavam um quadro peculiar de opostos. Estavam sentadas para o almoço como sempre, quando Rita notou o olhar que a outra dirigia a mesa dos professores, e virando-se displicentemente para a amiga, disse:

– Ravena, por que vocę se importa tanto com quem é o professor se vocę conhece aquele livro e todas as poçőes de trás para frente? Nós, pessoas menos dotadas, é que devemos nos preocupar com essas mediocridades.

– Năo gosto quando vocę é sarcástica, sabia? Ou quando me eleva ŕ um patamar acima de todos.

– Vá, Ravena, foi uma brincadeira. Vocę sabe que é como irmă para mim, năo sabe? E o que os irmăos fazem? Espelham-se um no outro.

– Está bem, Rita! - e levantando-se disse: - Vou para biblioteca exercitar meus dons.

– Assim que acabar vou me encontrar com vocę - e sorriu para ela. - Năo posso perder uma aula sua.

Rita foi ŕ biblioteca algum tempo depois, atrás de Ravena. Assim que a encontrou foi logo despejando a novidade que a fez ficar com as bochechas rosadas pela corrida empreendida.

– Ravena, descobri o nome do novo professor de poçőes. Năo sei por que, mas tenho a impressăo de que já ouvi falar no nome dele... em algum lugar ... vamos, Rita pense menina... - e fez uma cara pensativa.

– Vamos, diga qual é? Vocę está fazendo tanto mistério que, quando chegarmos ŕs masmorras, năo precisará mais contar. Afinal, năo sei se percebeu, mas está quase na hora de irmos.

– Severo, Severo Snape. Sei que já ouvi este nome antes... .já sei... ele foi um Comensal da Morte, li nos jornais durante as férias.

– Ele é um Comensal ?

– Năo, Ravena, foi. Lembro de ter lido que o Ministério obteve provas incontestáveis de sua inocęncia ante as acusaçőes que lhe foram imputadas! - e fitando a amiga disse: - Olhe, Dumbledore nunca nos expôs a nenhum risco, certo? Năo o faria agora, năo é mesmo?

– Vocę deve ter razăo. Dumbledore năo colocaria uma pessoa que tivesse se aliado a Voldemort dando aula para nós, se ainda continuasse trabalhando para ele - e uma ruga de preocupaçăo passou pelo rosto da menina.

– Sabe, năo gosto quando vocę cita esse nome assim - recriminou Rita.

– Vamos Ri, o pessoal da Sonserina já está na porta - disse Ravena interrompendo o discurso que sempre a amiga fazia ao ouvi-la mencionar o nome do Lorde das Trevas, sem medo como todos estavam acostumados.

Ravena năo tinha medo nenhum de dizer seu nome, muito pelo contrário, pensava todos os dias que ele e seus fiéis seguidores é que deveriam ter medo dela quando fosse de fato uma auror. Năo permitiria que os assassinos de seus pais ficassem impunes e năo deixaria Voldemort destruir seu mundo.

A sala da masmorra era mal iluminada e fria, talvez por conta das pedras que revestiam as paredes. Rita e Ravena se sentaram logo ŕ frente. Passado uns cinco minutos que todos os alunos haviam chegado, uma lufada de vento invadiu a sala, as luzes diminuíram ainda mais e um vulto passou por entre as mesas. A capa negra farfalhava ao andar e o som dos passos era rápido e rígido. Por segundos, a turma toda prendeu a respiraçăo, como se de repente o ar lhes faltassem nos pulmőes. O ambiente parecia ter se tornado mais frio com a entrada do professor. Suas vestes negras, seus cabelos extremamente negros e lisos, mas bem cortados emoldurando seu rosto junto aos olhos também negros e o branco de sua pele contrastava com tudo formando um quadro soturno. A visăo era um tanto espectral, mas Ravena năo podia dizer que a simples presença daquele homem năo causara um calafrio em toda a classe, menos é claro, no pessoal da Sonserina. Uma coisa podia afirmar: aquela era exatamente a visăo que ela associava a um Comensal, o rosto tinha a dureza que pensava encontrar e aqueles olhos... eram extremamente penetrantes.

Quando ele falou, novamente a turma pareceu receber uma segunda onda de frio. A voz soou tăo fria e dura como o gelo.

– Năo permito brincadeiras em minha sala de aula ou que falem sem autorizaçăo - prosseguiu - e também năo espero que a maioria de vocęs entenda a sutileza que existe na arte de preparar poçőes - seguiu-se um silęncio, ninguém ousou perguntar nada. - Sou o novo professor de vocęs. Meu nome é Severo Snape, professor Snape - e continuou com seu tom frio -, soube que entre vocęs existe uma pessoa, que parece particularmente entender da minha matéria muito bem. Qual de vocęs é Ravena Brown?

Ravena parecia sido atingida por um feitiço "Petrificus Totalus", năo se movia, as palavras năo saíam... De repente năo conseguia se lembrar quem era. Foi um beliscăo de Rita em suas costelas que a fez sair de seu estado de transe, dando um salto na carteira.

– Senhorita Brown? - disse Snape.

– Sim, professor - respondeu meio insegura ainda.

– Soube também de sua aptidăo em outras matérias e que pretende se tornar uma auror. - disse num tom desprezível. - Contudo, esse ano, tenho a certeza que sua tarefa de tirar notas altas no N.I.E.M.s será redobrada - sorriu caustico. - Serei mais exigente do que estăo acostumados - e dando as costas para a menina apenas finalizou. - Pode se sentar.

Ravena năo acreditou no que ouvira e sem se sentar falou com uma voz furiosa:

– Está me ameaçando? Ou com medo de mim quando me tornar uma auror? Por que năo tenha dúvidas que vou ser! – seus olhos brilharam de ódio.

– Senhorita Brown, năo lhe dei permissăo para falar, ou dei? - seus lábios tremeram e um sorriso de sarcasmo iluminou seu rosto. - Sente-se, senhorita, e da próxima vez só abra sua boca se eu permitir, entendeu?

– Tem medo da verdade, professor? - Ravena falara isso com tal malícia, que Rita a olhou perplexa.

– Insolente! Vinte pontos a menos para Grifinória e uma semana de detençăo - e virando -, e rápido para sua mesa, ordenou. - Abram o livro na página 17. A senhorita também, senhorita Brown, ou será que se considera autodidata?

Enquanto falava isso seus olhos negros encaravam os de Ravena, como se vasculhassem sua alma. Ao final da aula, dirigiu-se a ela.

- Senhorita Brown, depois de amanhă, ŕs 19h30min, em minha sala. Avisarei a professora McGonagall.

Ravena năo respondeu, sua mente fervilhava. Deu as costas e se foi. Ela simplesmente năo acreditava, em seis anos de escola nunca cumprira uma detençăo. Nunca havia sido repreendida por nenhum professor, e aquele homem... aquele homem era um Comensal... Como Dumbledore podia ter posto alguém assim para lecionar em Hogwarts? Năo... aquele homem năo devia estar ali... năo devia!

De repente, a visăo de seus pais surgira depois de tręs anos em sua mente. "Năo", pensou Ravena, "Năo posso deixar que esses fantasmas voltem, năo ainda". Encontrou com Rita no caminho para a Sala Comunal, e a amiga perguntou:

– Ravena, onde vocę estava com a cabeça para responder daquela maneira? Vocę se esqueceu o que esse homem já foi?

Ravena passou por ela como um raio e respondeu rispidamente para a amiga:

– Ele vai ver que há mais maldade em mim.

Naquela noite, ela năo conseguiu dormir. A visăo do professor năo lhe saía da cabeça. Aqueles olhos negros... ela precisava falar com Dumbledore e iria fazer isso no dia seguinte.