N/Bru: Muito obrigada mesmo por todos os comentários no primeiro capítulo. São tão importantes que vocês nem tem idéia. Obrigada!


Capítulo Dois.

O caso teria sido fácil, não fosse a idade das três vítimas: três crianças indefesas. A cena do crime era como outra qualquer, uma casa em um subúrbio completamente queimada. Os restos mortais estavam em um dos quartos, e pela primeira vez em toda sua carreira, Brennan se sentiu enjoada ao vê-los. Seus olhos percorreram os ossos e ao ter certeza da idade das vítimas, retirou-se do local ordenando que mandassem tudo para o Jeffersonian.

Booth correu atrás da parceira, pegando-a pelo braço antes que ela pudesse alcançar o interior do veículo.

"Bones, você está bem?" – Ela inspirou e expirou, sua mente clareando a cada respiração. Ela queria contar a ele, naquele momento, o motivo da sua reação, mas sabia que apenas pioraria o cenário. Ele se afetaria ainda mais.

"Eu estou bem, Booth."

"Você ficou enjoada?" – Mais do que em qualquer outro momento, ele gostaria de revelar o segredo que mantinha há duas semanas, e que sabia ela estava grávida.

"Sim. Provavelmente algo que eu comi essa manhã. Podemos ir? Temos um caso a resolver."

Ele a soltou, dando um passo para trás e fechando a porta do passageiro para ela. Minutos depois, assim que chegaram ao Instituto, Brennan se despediu dele – um selinho e uma saída da SUV tão rápido que ele nem tivera tempo de falar algo. Booth cogitou suas opções: correr, pela segunda vez naquele dia, atrás dela; ou dar-lhe o espaço necessário para lidar com o novo caso. Com a gravidez. No fim, decidiu-se pela última.

Eles prenderam o culpado quase no fim da noite, e ao voltarem para o apartamento dele, cansados e exaustos – emocional e psicologicamente – ela se jogou no sofá, o rosto nas mãos e as pernas cruzadas embaixo do corpo. Booth a contemplou em silêncio por algum tempo, a postura dela como de uma criança perdida. Sem saber o que fazer ou falar. Ela levantou os olhos, fitando-o e ele viu lágrimas neles.

"Bones..." – No instante seguinte, ele estava ajoelhado na frente dela, seus braços tentando puxá-la para si, mas uma mão dela no seu peito o impedindo. – "Eu sei que casos com crianças sempre são complicados, Bones e,"
"Como um pai pode queimar os próprios filhos, Booth?" – Ele não tinha uma resposta e se fizera a mesma pergunta desde do momento em que prenderam o pai dos três garotos assassinados.

"Eu... Eu não sei, Bones."

"É cruel."

"Eu sei. Eu também não consigo entender."

Brennan assentiu, e o surpreendeu ao inclinar-se e encostar sua testa na dele.

"Você é um pai maravilhoso. Você sabe disso, não sabe?"

Ele sorriu, acariciando um lado da face dela com uma das mãos.

"Parker tem muita sorte de ter você."

"E você, Bones."

"Mas eu não sou a mãe dele, Booth."

Ele sorriu ternamente, beijando-a na bochecha.

"Existe mais de um tipo de família, lembra?"

Ela também sorriu, a primeira vez em todo aquele dia.

"Nós somos uma família?"

"Somos, Temperance? Me diga você."

Ela tentou em vão esconder o pequeno sorriso que se abriu no canto da sua boca, a resposta que ele precisava.

"Sim, Bones. Eu, você e Parker somos uma família."

"Na verdade..." – Ela se afastou, encostando-se no sofá e olhando-o diretamente nos olhos. Depois de todo aquele caso, ela tinha certeza que estava pronta. Que eles estavam prontos. A indignação e tristeza que sentia até há alguns minutos fortificava o lado dela que sempre protegeria os indefesos, o lado dela que se tornava a cada dia mais maternal. – "Eu, você, Parker e... um menininho ou menininha."

Booth abriu o maior sorriso que ela lembrava de ter visto no rosto dele. Seus olhos castanhos brilhavam tanto que por uma fração de segundos, ela teve certeza que eram lágrimas. Talvez fossem. Mesmo sabendo daquilo – e fingindo não saber – ele nunca imaginara que seria tão bom ouvir a notícia na voz dela.

"Bones..."

"Sim, Booth. Eu estou grávida." – Ela sorriu da reação dele, a boca semi-aberta, a alegria inegável. Em um único e sutil movimento, ele a pôs nos seus braços, levantando-a do sofá e apertando-a contra o seu corpo.

"Quanto tempo?" – Ele delicadamente levantou a blusa dela, colocando a palma de uma de suas mãos contra a barriga de Brennan.

"Três meses e três semanas." – Ele não respondeu, sua atenção voltada para baixo, para o filho ou filha deles. Deles. – "Me desculpe não ter contado antes. Eu não,"

Ele a beijou, calando-a e deitando-se no sofá com ela por cima.

"Eu sei que você precisou de tempo e espaço, Bones. Sei como você lida com grandes mudanças, ok? Não precisa se desculpar."

"Obrigada, Booth." – Brennan se mexeu até achar uma posição mais confortável, sua cabeça indo parar no tórax dele. – "E eu andei pensando em mais uma coisa desde que soube da gravidez."

"Chegou a alguma conclusão?" – Booth passou um braço pelas costas dela, mantendo-a segura em cima dele, a outra mão acariciando os cabelos dela.

"Sim. Eu acho que seria uma boa idéia morarmos juntos."

Se ele tivesse em pé, tinha certeza que cairia.

"Você está falando sério?"

"Claro." – Ela levantou o rosto para encará-lo e o encontrou com uma expressão surpresa e esperançosa. – "É o próximo passo mais lógico, certo? Quer dizer, seu apartamento é pequeno. O meu apartamento só tem um quarto. E precisamos de dois agora. Eu tenho dinheiro, então poderemos comprar um lugar satisfatório para nós dois, Parker e nosso filho."

Ele chacoalhou a cabeça, achando difícil acreditar no que escutava. Morar juntos. Filho. Nosso filho.

"E você tem certeza disso?"

"Absoluta, Booth. Você não quer?"

"Claro que eu quero!" – Ele suavizou sua expressão para tranqüilizá-la enquanto seu cérebro processava as informações. – "Isso é maravilhoso, Bones. É... tudo que eu sempre quis."

"Agora você terá." – Ela sorriu.

"Não. Eu quis dizer tudo isso. Eu e você como um casal. Você e Parker se relacionando bem. Um filho. Deus, Temperance, nosso filho. Nosso. Você sabe o que isso significa?"

"Que fizemos sex... amor e um espermatozóide seu fecundou um óvulo meu?"

Ele gargalhou, feliz por mais uma demonstração da Brennan que ela sempre seria. Mãe ou não.

"Não, Bones. Ele ou ela será uma parte sua... Uma parte minha e,"

"Eu sei, Booth. Você me disse uma vez. Um milagre."

BB

Ela não acreditava em milagres, mas entendia o que ele queria dizer. Sentia toda às vezes em que faziam amor. Para Booth, Sophie seria sempre aquilo, um dos maiores milagres de sua vida. Para ela, mais uma completa transformação. Nunca quisera ser mãe, fora sempre convicta da sua decisão até se apaixonar por ele. Conhecê-lo.

"Um centavo pelos seus pensamentos." – A mão quente de Booth na sua barriga quebrou sua linha de raciocínio, e ela o cumprimento com um beijo rápido nos lábios.

"Você não pode realmente pagar pelos meus pensamentos. Eles não são objetos para,"

"Jeez, Bones, quantas vezes eu vou ter que repetir? Sem conversa squint na cama."

Ela concordou, ficando em cima dele e beijando mais profundamente dessa vez.

"Bones... Não... Podemos."

Com um sorriso malicioso, ela saiu de cima dele direto para fora da cama, a camisa grande e amassada de Booth deixando-a impossivelmente sexy.

"Eu vou fazer o café. Prometi ao Parker fazer a panqueca preferida dele quando estivesse aqui. Você o acorda e a Sophie."

"Não precisa ser tão mandona, Bones."

Ela sorriu uma última vez antes de bater a porta.

Trinta minutos depois os quatro estavam à mesa, Parker devorando seu prato, Sophie entretida em suas perguntas sobre Edward Parker e Booth ocupado em respondê-las da melhor forma possível. Brennan dividia sua atenção entre o jornal e seu café da manhã.

"Isso é o que você quer, Bones." – Parker a entregou a parte de entretenimento e ela o olhou curiosa.

"Como você sabia?"

"Eu ouvi você comentando com o papai que sairá uma reportagem sobre seu filme na edição de hoje do Washington Post."

"Oh. Obrigada, Parker."

O adolescente sorriu, dando de ombros e continuando a comer suas panquecas. Ele estudou-a enquanto ela lia a matéria, uma página inteira – a primeira da seção – sobre o filme baseado em Red Tape, White Bones.

"Isso está bom." – Ela declarou ao terminar de ler e deixar o jornal na mesa. – "Melhor que a entrevista que eu dei a Entertainment Weekly no mês passado."

"Eu lembro que você ficou chateada após a entrevista e quando eu perguntei o que tinha acontecido você se recusou a me contar." – Booth entrou na conversa assim que terminou de responder a última pergunta da filha.

"Eles mal perguntaram sobre o livro. Ou o filme. Quando o produtor me ligou, ele me explicou que seria uma reportagem para a capa desse mês, e que como seria o lançamento do filme, gostaria de entrevistar a autora do livro no qual é baseado. A verdade é que as cinco primeiras perguntas foram sobre o livro, apenas uma sobre a adaptação para o cinema e o resto sobre minha vida pessoal. Mais especificamente, vocês três."

Booth, Parker e Sophie se entreolharam e então voltaram para Brennan.

"E você ficou chateada." – O agente concluiu por ela.

"Claro que eu fiquei chateada, Booth. Você sabe que eu odeio quando tentam promover meus livros ou os filmes falando da nossa família. Não tem sentido. E coloca vocês sob holofotes desnecessários. Quero que nos deixem em paz, apenas isso."

"Eu sei, Bones. Eu concordo com você." – Ela sorriu grata e deu mais um gole no suco de laranja.

"Mamãe, eu posso assistir esse filme do seu livro?"

"Eu temo que não, Sophie. Você ainda é pequena para os assuntos que eu escrevo."

Brennan quase se arrependeu da sua resposta – ainda que verdadeira e imutável – ao ver a expressão triste no rosto da filha.

"Mas eu prometo que assim que você tiver idade o suficiente, lhe darei todos os meus livros. E veremos todos os filmes lançados. Combinado?"

"Combinado!" – Ela imediatamente se alegrou, dando um pulo na cadeira que a lembrava de Parker naquela mesma idade.

"Eu posso ver, certo?" – Parker cochichou no ouvido de Brennan ao se levantar para levar seu prato até a cozinha. Ela sorriu, acenando positivamente com a cabeça.

O casal deixou o apartamento deles – um enorme, com três quartos e ainda com espaço para o escritório só da antropóloga – no mesmo carro. E só se separaram na frente do Jeffersonian, após um beijo caloroso e passional.

BB

As duas se assustaram com a entrada súbita dele pelo escritório, seus passos pesados e apressados. Era comum dos Booths chegarem daquela forma, mas ao olhá-lo, Brennan sabia que algo estava errado. O adolescente não as cumprimentou, sentando no sofá logo atrás da irmã, que fazia o dever de casa no chão.

"Oi para você também, Parks."

"Não enche, Sophie."

"Parker." – Brennan o repreendeu, conseguindo atrair a atenção dele para si a fim de encará-lo.

"Desculpe, mãe!" – Ele falou sarcástico e cruzou os braços, um suspiro escapando pelos seus lábios.

"Sophie, você pode passar um tempo com a Angie? Eu preciso falar com seu irmão." – A garota juntou seus papéis e saiu, olhando antes uma última vez para o irmão emburrado. Ela não lembrava de tê-lo visto assim antes, especialmente dirigindo-se a sua mãe daquela forma. – "O que aconteceu, Parker?" – Brennan mudou sua abordagem, decidindo resolver o problema dele primeiro e depois alertá-lo sobre seu comportamento.

"Nada aconteceu." – Ele virou o rosto na direção contrária do dela, os crânios dispostos na mesa da antropóloga subitamente interessantes.

"Você sabe que não é um bom mentiroso também. Igual a mim." – Brennan pôs uma mão no braço dele, e após tentar se afastar, ele desistiu, finalmente fixando seus olhos nos dela.

"Minha mãe... Ela me pegou no colégio hoje para me levar até o parque. Tomamos sorvete e ela..."

"O que, Parker?"
"Ela quer passar um mês em Nebraska, onde meus avôs estão. E quer que eu vá junto. Eu não quero ir, Bones!"

"Quando?"

"Quinta-feira."

"Você não pode ir. Não pode perder a escola." – Parker sorriu tristemente, botando uma de suas mãos por cima da que ela ainda posicionava em seu braço.

"Eu usei esse argumento. Acredite. Ela falou que já tinha falado com meus professores e que eu não perderia muita coisa, já que estamos no mês dos jogos inter colegiais. E que se eu precisasse de ajuda, você poderia me ensinar."

"Bem... Isso é verdade."

"Eu não quero ir." – Ele repetiu, encostando sua cabeça em um ombro dela. – "Eu vou perder a festa de lançamento do seu filme, o primeiro jogo da temporada de Sophs e claro, vou abandonar meu próprio time! Mas minha mãe não entende isso. Agora o mais importante é reencontramos meus avôs." – Brennan passou um braço pelo ombro dele, trazendo-o para mais perto.

"Seu pai podia tentar falar com ela."

"Não! Ela vai fazer drama, e vai culpar o papai por eu não ver o resto da minha família, e eles vão brigar."

"Ok. Então eu podia tentar falar com ela. Você acha que teria algum problema?"

"Você faria isso?" – Ele desencostou-se, seus olhos brilhando.

"Claro. Ou você acha que eu quero você longe de mim na sexta-feira? É a prévia do meu filme, mocinho. Eu quero todos lá."

Ele sorriu, abraçando-a e beijando-a na bochecha.

"Desculpe, mãe." – Ele repetiu, nenhum sarcasmo na sua voz. – "Eu não deveria ter falado com você ou com Sophs daquela forma. Sinto muito."

"Está tudo bem. Vou pegar sua irmã e então você pode pedir desculpas a ela também, ok?"

"Ok." - Ele sorriu, encostando sua cabeça na parte de trás do sofá e tendo a certeza que Brennan conseguiria deixá-lo em D.C. Na cabeça dele, não havia nada que ela não pudesse fazer.

BB

"Eu não entendo isso, mamãe." – Brennan colocou a filha em uma perna a fim de poder ver melhor seu rosto. – "Seu último livro não foi esse que vai ter um filme."

"Como você sabe?"

"Eu li o jornal."

"O que?" – Brennan olhou-a totalmente confusa.

"O que você leu hoje de manhã. Eu levei comigo para a escola e li." – Ela permaneceu séria, seu cenho franzido numa perfeita imitação do da mãe.

"Então você leu a matéria sobre o filme que você não pode ver."

"Ah, mamãe, vamos. Eu só li a matéria. Não tinham fotos que eu não posso ver."

"Mesmo assim. Se seu pai souber..."

"Ele não vai saber." – Ela a assegurou, suas pequenas mãozinhas cobrindo as bochechas de Brennan. – "Me explique."

"Nem sempre quando um livro é lançado, um filme sobre ele é imediatamente feito. Em geral, demora alguns anos até o livro fazer sucesso o suficiente."

"Mas faz muitos anos que você lançou o livro do filme."

Brennan balançou a cabeça, sem acreditar que a filha pudesse ter realmente decorado os dados da reportagem.

"Ok. Eu vou lhe contar, mas seu pai não pode saber." – A pequena concordou avidamente. – "Três homens maus e que se diziam fãs dos meus livros, usaram o Red Tape, White Bones para cometer assassinatos. Eles imitaram as mortes que eu escrevi em pessoas reais. Isso aconteceu muitos anos atrás. Eu e seu pai nem estávamos juntos ainda. Durante anos eu insisti para não fazermos um filme sobre isso. Já havia sido real demais. Dois anos atrás me convenceram e começaram a produzir o longa metragem."

A pequena assentiu, imersa em suas reflexões.

"Eles não eram fãs dos seus livros, mamãe." – Ela usou o mesmo tom que Brennan usava quando declarava um fato. Sem discussões.

"Concordo com você, querida."

Elas trocaram um sorriso na mesma hora que Booth entrou pela sala carregando três taças de sorvete.

"Para as minhas garotas." – Ele sorriu charmosamente e elas de volta para ele, a pequena ainda no colo da mãe.

"Papai, a tabela dos jogos saiu. Está na minha bolsa. Depois do sorvete, podemos ver e marcar no calendário?" – Ela apontou para o calendário enfeitado com ossos que ele havia comprado para pendurar na cozinha, Parker e Sophie rapidamente se apossando do objeto para benefício próprio. Todos os amistosos do ano estavam marcados, os de Parker em azul e os de Sophie em vermelho.

"Pode apostar que sim, Sophs!"

Eles dormiram tarde aquela noite, conseguindo fazer Brennan se deitar antes deles, e assim, pai e filha tiveram todo tempo que precisaram para preencher o calendário. Booth contemplou o trabalho que fizeram após botar a filha na cama, um sorriso surgindo nos seus lábios ao ter certeza que cada jogo daquele, por mais irracional que parecesse para Brennan, seriam mais memoráveis momentos na vida de todos eles.