N/A: Mais uma one shot com as crianças. Demorei, mas voltei. E elas também. Saudades? ^^
Tradução do título do capítulo: Não posso ser quem eles são.
Making Memory of Us.
Capítulo Dois: I Can't Be Who They Are.
"Elas perderam." – Não foi o locutor que anunciara o óbvio. Não foi seu marido – com sua forma paralisada e descrente – tampouco. O dono da voz já estava de pé, correndo arquibancada abaixo antes mesmo que ela registrasse qualquer coisa. Matt nunca correu tão rápido antes.
Segunda final de campeonato de beisebol que sua filha participava, primeira derrota. A verdadeira primeira decepção na vida de uma criança de apenas 7 anos. Ela observou do seu lugar enquanto os outros desciam, todos com o único objetivo de consolar a pequena que agora estava sentada no chão, seu bastão apertado contra seu peito como se sua vida dependesse daquilo.
Ao redor dela, as garotas mais velhas – com quem Lizzie jogava por ser uma verdadeira estrela no esporte – também choravam. A campanha havia sido impecável. Digna de um time campeão e ainda assim, uma simples rebatida errada, custou a elas todo o ano de treino. De dedicação. Para sua filha, de superação.
"Você vem, mamãe?" – Faith tocou-a no braço, incerta se sua pergunta fora escutada.
"Sim." – Michelle replicou sem tirar seus olhos da arena, sem deixar de testemunhar a memorável cena que se desenrolou.
Lizzie afastou o irmão com uma mão, girando seu corpo para não ter que encará-lo. Envergonhada, provavelmente, de não ter sido capaz de proporcionar mais uma conquista para a escola como o time de futebol de Matt havia feito uma semana atrás. Somente ao escutar a voz do pai, ela levantou o rosto, olhando-o tão profundamente que qualquer um poderia sentir o que ela estava sentindo.
Ele abriu os braços e sem pensar, ela deixou o bastão de lado em um movimento brusco e se jogou nele, envolvendo seus braços no pescoço do pai e apertando-o com força contra si. Ela encostou sua cabeça no meio do tronco dele e chorou. Forte. Seu pequeno corpo sacudindo com os soluços. Tony continuou fazendo círculos nas costas dela, falando palavras de conforto que talvez a filha nem sequer escutasse.
Michelle se aproximou devagar, notando que as outras crianças estavam tão atentas à cena quanto ela – que por algum motivo não caíra na escada no caminho de descida. Com uma mão nas costas da do meio, conseguiu sua atenção. A pequena desencostou-se do pai, fitando a mãe e esperando que ela fizesse algo. Levasse sua decepção embora. Qualquer coisa.
"Venha aqui." – No instante seguinte, Lizzie estava em seus braços, seus soluços recomeçando. – "Você estava incrível, filha."
"Não foi o suficiente." – Ela rebateu, pronta para esse tipo de consolo.
Sim, ela jogara bem. Sem dúvida o melhor jogo da sua vida até aquele momento. Seu time perdeu em um único erro. E isso havia sido o suficiente. Elas haviam perdido e não era um sentimento fácil de lidar. Esportes podem ser cruéis. Agora ela sabia disso.
"Você está certa. Não foi." – Michelle colocou suas duas mãos nas bochechas da garota, seus olhares se encontrando. Sempre a assustava a semelhança entre os olhos da sua filha e os de Tony. – "Mas não muda o fato que você é uma excelente jogadora. E vai continuar sendo, não importa o que aconteceu hoje. Você entende isso, Lizzie?"
Ela franziu o cenho, e segundo Tony, dessa forma ela era uma cópia da mãe. A expressão tão concentrada como se o mundo ao redor desaparecesse.
"Eu entendo, mamãe." – Ela confirmou com a cabeça, um pouco de brilho voltando as suas feições. Michelle abriu um pequeno sorriso, aliviada por conseguir aquele efeito. – "Podemos sair daqui? Eu não agüento essas idiotas do outro time cantando vitória."
"Lizzie."
"Desculpe, mãe." – Ela finalmente abriu o seu próprio sorriso, ao olhar para mãe e perceber que a repreensão não fora de total séria.
"Tudo bem. Quer saber?" – Michelle a pegou pela mão, virando-se para os outros e sorrindo como quando tinha um plano. – "Vamos todos para a sorveteria perto do parque!"
"Jura?!" – A criança pulou ao seu lado, de repente interessada em nada mais do que a maravilhosa idéia de um sorvete. Ela certamente se sentiria melhor.
"Claro! E depois vamos passar um tempo no parque. Todos nós." – Uma de suas mãos apontou na direção das pessoas ao redor delas.
Tony aprovou com a cabeça, sempre encantado pela forma com sua esposa conseguia mudar o humor dos filhos deles tão efetivamente. Palavras corretas. Idéias geniais. Matt e Harry trocaram um olhar que dizia tudo: sorvete mais parque era igual a correria. Jimmy, Anne e Faith permaneciam encarando Michelle, como se tentando ter certeza de que eles realmente teriam o resto daquele dia para fazer nada além de brincar.
"Quem chegar por último não ganha sorvete!" – Michelle disparou em direção ao carro, as crianças soltando um grito e a seguindo.
Tony foi o último. Ganhando não só o sorvete como também uma nova percepção: os fardos que seus filhos carregam – por serem os melhores no que escolheram jogar – não devem ser maiores do que uma tarde em que o mais importante é não deixar que o peguem. Pega-pega, naquele dia, fora a cura.
***
"Papai." – Ele quase deixou o copo de leite cair, assustando-se com a voz da sua caçula vindo da porta da cozinha.
"O que você está fazendo acordada, mocinha?" – Ele acabara de botá-la na cama e havia descido por conta da sua sede. Michelle apagara na sala antes das crianças e já estava seguramente na cama deles.
"Você me ama?" – A gravidade pareceu gentilmente recusar-se a fazer seu trabalho, já que pela segunda vez o copo não caiu, Tony pegando-o com um reflexo perfeito.
"É claro que eu amo você, Faith. Que tipo de pergunta é essa?" – Antes de receber a resposta, apressou-se em colocar o copo em cima do balcão, pegando a pequena mão da sua filha de 5 anos e levando-a até a sala. O tom da sua voz – grave e temeroso – e a pergunta em si, preocupava-o.
Ele sentou-se no sofá, botando a garota no seu colo.
"Mamãe me ama?" – Ela voltou a falar, olhando-o direto nos olhos.
"Sua mãe ama você. Seus irmãos amam você. Seus tios. Todos amam você, Faith."
"E você tem certeza disso."
"Absoluta." – Ele tentou sorrir, mas sabia que seu nervosismo não o permitira. – "E eu sei que você tem certeza disso." – A garota desviou os olhos, suas bochechas rosando. Ela era tão perfeita. Tão Michelle. – "Qual o problema, minha princesa?"
"Eu..." – Ela respirou fundo, olhou para os lados, para a escada. Procurando pessoas. Palavras. – "Eu não quero desapontar você."
"Você nunca vai me desapontar."
"Eu vou agora."
Ela podia ser tão teimosa quanto a mãe. Em outra situação, ele riria.
"Fale comigo, Faith."
"Eu não posso jogar futebol. Eu não posso jogar beisebol. Eu não sei. Pior, papai, eu não quero. Odeio esportes. A única coisa boa neles são os jogos dos meus irmãos. Fora isso, odeio. Não quero fazer parte de um time. Não quero campeonatos. Não quero ser capitã como o Matt. Nem a melhor do time sendo a mais nova como a Lizzie. Eu não... quero, papai. Me desculpe, eu..." – Ela parou de falar, consciente de que, de uma forma rápida e atrapalhada, dissera o que queria.
Tony então entendeu tudo, especialmente a forma como ela se comportara e suas perguntas sem sentido. E sorriu, assegurando-a que ele não estava zangado. Muito menos desapontado.
"Você não está com raiva?" – Ela não entendia. Desde que percebeu que não entraria no mundo do esporte, soube que sua decisão seria uma grande tristeza para seus pais. Possivelmente também para seus irmãos. Eles amavam esportes. Matt e Lizzie eram os melhores da escola. Ela concluiu que não sendo, seria péssimo para todo mundo. Mas ainda assim, a melhor decisão para ela. Ela não podia ser quem eles eram. Não nos esportes pelo menos.
"Claro que não, Faith."
"Mas vocês amam esportes. E eu não."
"Você tem o direito de gostar do que quiser, filha. E nem eu, nem sua mãe, nem ninguém pode obrigá-la a fazer qualquer coisa que você não queira. Nunca obrigaríamos você a jogar, seja lá o que fosse." – Ela sorriu, remexendo-se alegremente no colo dele. – "Nem estamos decepcionados com você, Faith. Seu irmão escolheu futebol porque ele gosta. Sua irmã joga beisebol porque ela gosta. Você vai encontrar algo que gosta de fazer. E eu tenho certeza absoluta que você será a melhor nisso. E que vamos nos orgulhar ainda mais do que já nos orgulhamos de você, meu amor."
"Eu amo escrever, papai."
"Então você já sabe do que gosta de fazer, huh?" – Tony fez cócegas nela, fazendo-a se contorcer toda e dar risadas gostosas.
"Sim!" – Ela gritou o mais alto que pôde, tentando não acordar o resto da sua família. – "Você ainda me ama então?"
"Eu sempre vou amar você, Faith. Nunca duvide disso." – Ele falou sério, esperando que ela entendesse. Ela assentiu, plantando um beijo no rosto do pai e deitando sua cabeça no peito dele.
"Eu te amo, papai."
Ela dormiu ali mesmo, nos braços de quem nunca desapontaria. Ela seria o que poderia ser. Quem queria ser. E uma coisa ela já era: filha. Amada. Sempre.
