- Olá. Você deve ser Catherine, eu sou a Thabita sua prima. Nossa você cresceu em garota! Faz quanto tempo que eu não te vejo?

Eu estava paralisada. Não tinha um homem que não olhava para a minha querida e adorável prima com os olhos claros como o mel, o cabelo loiro como a seda, o corpo, tudo era perfeito. Ela parecia aquelas modelos em que você nunca imagina parecer, porque tem aquela barriguinha que te delata; eu estava bem na frente da perfeição, sem defeitos. Cada cabeça, cada olhar, estava na pessoa a minha frente e com consciência disso comecei a corar involuntariamente, e com um fio de voz eu consegui responder.

- Oi. Faz muito tempo mesmo. Como está você em todos esses anos? Espero que bem.

- Estive bem sim. Deixe-me levar isso para você. – se abaixou, pegou minhas malas com a maior facilidade do mundo; e elas estavam pesadas, porque eu quase caí da escada tentando levá-las para baixo enquanto eu estava em casa, até que meu pai ajudou e agüentamos o peso juntos; logo ela se endireitou novamente sem nenhuma dificuldade e continuou andando fazendo um sinal para acompanhá-la – Onde está o carro?

Apontei para o sedan vermelho e ela continuou a falar.

- Desculpe não estar aqui na hora certa, tive uns assuntos nos cursos aqui em Seattle e não pode deixar de faltar, e então me atrasei. Perdão, de verdade. Queria ter visto seu pai no avião pelo menos...

- Ah, sem problemas. Fredderic sabia que tinha muitos assuntos a resolver e então ele me deixou esperando por você, e... – será que minha cara era de criança ainda? Há, maravilha. - Foi fácil me reconhecer depois de tanto tempo?

Ela fez uma careta. Pegou as chaves do carro comigo e colocou as malas no porta-malas e abriu o carro, nós duas entramos e depois ela se decidiu explicar para mim.

- Não, é que seu pai me passou uma foto sua, assim iria ficar mais fácil para achá-la no aeroporto de ele não estivesse e você sabe, seu pai é bem cuidadoso. – Graças a Deus. Eu cresci! - Pensa em todas as possibilidades. Queria que você soubesse de uma coisa que acho que não vai gostar muito, mas eu preciso falar de todos os jeitos. Você não vai poder vir comigo para Seattle todos os dias talvez nos finais de semana, mas nem sei se vai dar...

Durante a semana eu até pensei 'a ela não vai me levar ela tem mais coisas para fazer nos cursos dela e talz', mas não me levar nos finais de semana já era demais, até que dá para entender. Tipo ela não pode ficar indo e vindo todos os dias só porque eu quero ver minhas amigas e ela tem que descansar no final de semana, é eu ia mesmo senti falta da Jé... mas é melhor Rainier do que Seattle.

Thabita pegou as chaves, colocou na ignição e ligou o carro rápido e saiu em disparada do estacionamento. Enquanto estávamos na estrada colocamos um CD que eu trouxe do Paramore. Ela disse que gostava do CD e eu amei isso, porque assim eu não era proibida de escutar as minhas músicas no meu quarto, ficamos escutando até chegar perto de Rainier que dava uma hora de carro mais ou menos nós não trocamos muitas palavras e parecia que ela estava um pouco preocupada, mas o porquê eu não sei.

Chegamos na cidade pequena. Mas eu fiquei chocada com uma coisa que me impressionou, mesmo.

Todas as casas que pude ver enquanto passávamos de carro por Rainier, era simples. Algumas até eram sem sobrado, só no térreo e algumas mais chiques eram sobrados, mas sem muito esplendor e brancas, cremes, nada mais que essas qualidades – o que eu achei bem normal pra uma cidadezinha como aquela. – Mas quando eu cheguei na casa de Thabita, abri a boca com o espanto e ela percebeu. Nossa casa era um sobrado daqueles que a gente só vê em filmes e era num tom de azul mais lindo que eu já vi, parecia que era o ponto central da cidade, porque era o lugar mais bonito de Rainier, - tirando os jardins no meio da cidade que eram bonitos para descansar e passar um tempo relaxando. – Ema uma casa maravilhosa e com certeza eu fiz uma boa escolha de ficar com a minha prima e acostumar não ia ser nem um pouquinho difícil.

- Porque o espanto? É uma casa normal. – porque Thabita era tão sarcástica?

- Uma casa normal, mas não para as pessoas de Rainier. Com certeza não.

Ela riu alto e quando desceu do carro todos os homens da rua olharam para ela e deram um sorriso bem amistoso e ela retribuiu a todos, mas ela não quis se aparecer, até parecia que ela estava cansada de toda essa atenção. Tirou minhas coisas do carro meia com pressa e eu e ela entramos na casa azul que por dentro era da mesma beleza que de fora. Thabita mostrou meu quarto no meio de uns 15 quartos para mais, e ia ser difícil lembrar-se da porta mais eu ia dar um jeito. Por dentro tinha uma cama enorme de casal, uma janela com uma tranca fácil fazendo com que o vento poderia entrar sem dificuldade, os móveis todos de cor clara ou branca e tinha detalhes em um azul claro. Lindo. Eu amo a cor azul.

- Você pode ficar aqui em cima e se ajeitar, colocando suas roupas no guarda-roupa, no banheiro; enfim se arrume. Vou sair por um instante agora, mas eu já volto com alguma coisa para a gente comer e se quiser tomar banho já, pode ir. Antes de ir queria comentar sobre algumas regras que teremos aqui, você se incomoda de seguir?

Tinha que ter imaginado alguma coisa do tipo, claro a casa é dela e terei que aceitar o que ela quer que eu cumpra aqui.

- Não. Pode falar.

- A primeira coisa é que eu não queria que você chegasse muito tarde em casa, só na sexta e no sábado se você for sair com alguns colegas. A hora que tem que estar aqui é as 7 da noite durante a semana e no máximo que irei tolerar é as 8 na sexta e no sábado. Outra coisa é que vou trazer pessoas para ficarem aqui em casa e gostaria muito que você não aparecesse ou incomodasse elas de qualquer maneira, você vai se apresentar e tentar ficar o mais longe delas. Mais uma coisa: enquanto eu estiver fora, não traga ninguém para cá e quando for sair durante o dia para fazer um trabalho, alguma coisa na escola, visitar alguém, me avise. Vou dar o número do meu celular e espero que você também tenha um.

Achei que estava sendo meio controlada demais. A coisa de horário tudo bem não tem problema, eu não tenho muita habilidade para fazer amigos, então sair não está muito no meu esquema. Agora não se aproximar das pessoas que ela tem contato já começou a ficar demais, talvez ela tenha vergonha de mim, o povo dela era de faculdade e então saber que ela está com a priminha em casa talvez intimide as pessoas ou até zoem dela. E não sair de casa era o fim da picada, só para fazer trabalhos e essas coisas? Ah não vai rola.

- Mas eu não vou poder sair para me divertir? Como ir à praça que passamos no meio da cidade?

Ela pensou por algum tempo. Eu realmente estava sendo controlada demais.

- Pode ser, mas tente evitar. Quero que fique na minha vista.

Assenti. E ela se afastou para ir pegar nossa comida não sei onde, e se ela quisesse, eu não sabia cozinhar muito, mas podia fazer alguma coisa para não ficar muito repetitivo todos os dias a mesma comida. Abri meu guarda-roupa e comecei a colocar minhas roupas no cabide e nas gavetas, todos os cabides eram brancos e o guarda-roupa era feito com uma madeira clara muito bonita. Coloquei algumas roupas no cabide, outras na gaveta e parei para tomar banho, coloquei as coisas básicas no banheiro e fui tomar banho naquela água quente prazerosa depois de um longo dia de viagem com a prima controladora.

Ela chegou com lanches do McDonald´s e dei a sugestão para ela de eu cozinhar as vezes.

- Claro, pode cozinhar quando quiser. Só me fala antes assim eu posso comprar as coisas que você precisa pra cozinhar no supermercado.

Terminamos a comida ela perguntou se eu queria assistir um filme, amanhã era domingo e eu teria um tempo para descançar.

- Qual é o filme?

- ' Quarteto fantástico', gosta?

- Sim, gosto bastante. Faz tempo que eu não vejo esse filme.

Ficamos sentadas assistindo até que bateu a fome – outra vez – e eu fui pegar um chocolate que estava enterrado no fundo do armário – talvez para ela não ter a tentação de pegá-lo - e nisso ela pausou o filme e perguntou:

- Você tem apelido além de Catty? Fiquei curiosa. Suas amigas em Seattle chamavam você de alguma coisa? Talvez pegue aqui em Rainier no colégio se você falar para mim eu posso espalhar assim você já fica conhecida.

Ah, eu tinha aquele. Não gostava muito, mas pegou, se a Jéssica não tivesse falado nada sobre ele talvez eu estaria sem nenhum apelido agora.

Eu ia falar: "não é necessário porque todo mundo já sabe que eu sou prima da gostosona", mas como eu sou muito educada não falei nada disso e foi aí que eu lembrei: eu tinha aquele. Não gostava muito, mas pegou, se a Jéssica não tivesse falado nada sobre ele talvez eu estivesse sem nenhum apelido agora.

- Tenho sim. É batuta, mas não espalha nem nada. Eu não quero ser popular e essas coisas, então não precisa fazer isso, já estou muito feliz aqui com você. – ela deu um sorriso de safada, e eu agora sabia que devia ter mantido a minha maldita boca fechada. Suspirei – Você vai me lavar para Seattle esse final de semana?

- Não sei. – Suportar o sábado e o domingo com ela não ia ser muito fácil, acho que vou tentar pedir a chave do carro para ver se eu posso dirigir na estrada para Seattle, apesar de ser péssima na direção, eu podia dar um jeito. Queria ver a Jé, estava com saudades.

Ela virou para a televisão meio e deu play a hora que eu sentei no sofá e ficou com os olhos parados na tevê como se fosse uma estátua concentrada, pele branca e aqueles olhos mel, sem tirar da tela. Fiquei meio paralisada de vê-la tão quieta, eu me distanciei e ela percebeu e então relaxou sua postura aos poucos. Estranho.

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No outro dia eu arrumei minhas coisas no quarto e Thabita foi visitar uma colega – ou um colega, vai sabe. – e eu fiquei sozinha aqui em casa, pelo menos é o que eu acho. É que eu ouvi um barulho no telhado e achei que era algum gato, nada preocupante. E depois disso, tudo ficou em silêncio até a hora do almoço quando ouvi alguns passos na grama e decidi ver o que era.

Não vi nada, só umas flores meio amassadas junto com a grama. Acho que já estava assim, não reparei muito na entrada da casa com o jardim porque a casa azul já tinha toda a minha atenção. Acho que a mudança para a cidade pequena alterou um pouco a minha cabeça, porque é mais quieto e então eu percebo tudo o que ocorre ou redor. O resto do dia – que eu não estava prestando atenção no barulho – eu fiquei vendo o material novo da escola de Rainier que a Thabita já tinha pegado para mim e precisei estudar um pouco a matéria de história e física, porque a coisa estava feia, eu coloquei um papel cor de rosa na porta do meu quarto para eu não entrar em outro quarto, resolvi mais esse problema e fiquei no computador um pouco para ver se a Jé aparecia. Como não vi nenhum sinal de vida dela desliguei o computador e fui assistir TV.

Por volta das 9 da noite, Thabita – finalmente - chegou com a comida. Eu tinha caçado mais coisa na cozinha para comer porque a tarde eu estava morrendo de fome e a maioria era chocolate – de monte – e umas frutas e só. A comida estava deliciosa, mas Thabita não comeu pela segunda vez, só pegou uma fruta e fomos para o sofá.

- Não quer comer o macarrão? – eu tinha que perguntar, ela ia viver de fruta agora?

- Não estou com muita fome. Só isso.

Amanhã eu ia cozinhar para ver se ela comia da minha comida, ela não ia poder recusar, ela tinha que comer bem e eu tinha que cuidar dela, afinal ela me deu abrigo e vai continuar dando por algum tempo. Mas agora eu tinha coisas relativamente importantes para pensar, como por exemplo, arrumar minha bolsa para amanhã, acordar mais cedo e sentir um pouco a falta da Jé. Amanhã ia ser um dia cheio.