1-RESQUÍCIOS
Olhando para aquelas crianças na plataforma nove e meia, eu não conseguia deixar de pensar em como seria se as coisas tivessem se desenrolado de maneira diferente. Se eu tivesse sido mais persistente e não me intimidado quando você me mandou calar a boca e não me meter nos seus assuntos com a Sra. Malfoy, talvez houvesse alguma chance de um garotinho ou garotinha de cabelos negros e lisos nos acenar de dentro do Expresso, com os olhos cheios de ansiedade por não saber se ficaria na Sonserina. E depois nós iríamos abraçados para casa e você enxugaria as minhas lágrimas, dizendo: "Ele cresceu e precisa frequentar a escola, amor". Mas não, nada disso jamais acontecerá, porque o tempo e as circunstâncias tornaram tudo irreversível.
Um fantasma. Sentia como se pudesse deslizar por todas aquelas pessoas, gaiolas e malões sem derrubá-los — ou antes — causar algum ruído. Um fantasma que fora esquecido ao longo dos anos, cujo nome se encontra sepultado entre os túmulos de bruxos influentes — ou nem tanto assim. De qualquer forma, Parkinson tornou-se um nome extinto, toda uma linhagem de puros-sangues perdida. E quem se lembraria que ainda restava um único membro dessa antiga família, quando tal não era mais que uma moça pálida e doentia, que vivia escondida num subúrbio? Algum de meus amigos da época de Hogwarts recordaria aquela garota rica e bonita, cheia de vida, planos e sonhos? Não, provavelmente não, pois que nenhum desses atributos poderia caracterizar-me, depois que os bens de minha família foram saqueados por bruxos vis, quando todos morreram na Guerra. Eu me tornara pálida e desgrenhada, a imagem perfeita de uma assombração miserável. Também perdi todos os meus sonhos e planos, como se o futuro passasse a ser uma sequência de atos incalculados do presente. Quanto à vida, ora! A minha se tornou uma sala de espera da morte, não mais que isso. Contudo, eu poderia ter perdido todas essas e mais tantas outras coisas, se a justiça divina não me tivesse levado a parte essencial, como uma árvore que, se lhe podam as folhas e galhos, sobrevive e se regenera, mas arrancando-a pela raiz, definha e morre.
E eu continuava a olhar, meio escondida, a cena que se desenrolava na plataforma nove e meia, o destino brilhante de pessoas que estudaram comigo. Harry Potter, Ronald e Ginevra Weasley, Hermione Granger, Draco Malfoy, Emily Bustrode… Meus amigos e inimigos conduzindo os filhos ao futuro, como um dia foram conduzidos por seus pais. Era o ciclo da vida em movimento. O meu, entretanto, fora abruptamente paralisado.
Mas eu não cessava de pensar em como seria bom se as coisas tomassem outro rumo… Como seria a felicidade?
INTERLÚDIO
Voar realmente nunca fora uma de minhas maiores aptidões. Meu equilíbrio era péssimo e meus reflexos, ainda piores. Em minha primeira aula de voo, não me mantive mais que vinte segundos no ar e caí de uma altura considerável, que resultou em minha primeira semana em Hogwarts, uma estadia na Ala Hospitalar. Era horrível passar noites e dias inteiros sentindo cheiro de éter e solidão, já que não tivera tempo de fazer nenhum amigo.
À véspera de receber alta, porém, você me visitou, e eu me lembrei de tê-lo visto de relance à mesa dos professores, no banquete de início do ano letivo. Mas eu não me recordava de que você fosse tão sério e misterioso, o que me causou um ligeiro desconforto quando o vi se aproximar de mim.
— Srta. Parkinson — você disse, e sua voz pareceu entrar em harmonia com os trovões que prenunciavam uma noite chuvosa — sinto muito por não ter podido vir antes. De qualquer forma, sou o diretor de sua casa, e procure-me sempre que necessitar alguma coisa…
Assenti, tendo a incômoda sensação de que corava violentamente.
— … Até mesmo uma dispensa para as aulas de voo.
Seu rosto esboçou um sorriso que seus lábios não executaram. Já eu, sorri abertamente, incapaz de controlar as minhas emoções aos onze anos de idade. Se eu te amei naquele primeiro momento? Eu era uma criança, não conhecia o amor. Creio piamente que o sentimento foi, sim, plantado naquela hora, mas só veio crescer e desabrochar anos depois. Naquela época eu ainda tinha muito tempo…
Nota: Essa maneira alinear de escrever, fazendo uso de interlúdios para voltar ao passado, eu aprendi lendo uma fic chamada Verona, da Dana Norram. Eu creio que ela não se importará que eu use essa ideia como inspiração, até porque as suas fics sempre me inspiram, de um jeito ou de outro :3
