N/A: Um capítulo de ano novo postado além metade do mês de janeiro... Desculpem-me!
Notas importantes:
- A história é ambientada no Japão, então eu tento ser o mais fiel possível as tradições e cotidiano do país, mas sei que posso falhar bastante... Se verem erros do tipo, por favor, me avisem!
- Quando comecei a escrever essa fanfic, não sabia sobre Karoku e sua 'personalidade' – não parece, mas esse capítulo foi escrito há um ano atrás – e na história Karoku ficou um pouco ranzinza, heh.
- Gareki trabalha numa loja de concertos de aparelhos em geral – suponho que elas existam no Japão... Sobre a confeitaria onde trabalham Nai e Karoku, eu apenas queria que eles trabalhassem em um lugar fofo, haha.
- Mais notas vão ser inseridas com o seguir da história.
A pausa nas aulas após o Natal chegaram com o que Gareki poderia chamar de alívio. Muito mais o alívio de poder ter mais tempo com os projetos próprios e menos com o borborinho cotidiano da escola. Olhando para seu pequeno quintal, onde os únicos ruídos eram das próprias solas das botas e de alguns passantes, Gareki não sentiu falta das quase conversas que tinha com os colegas de classe, se suas respostas monossilábicas, ele considerou com um sorriso, poderiam ser consideradas como tal.
A neve estava a cair mais pesadamente, e o moreno elevou a mão desprotegidas aos céus, sem se importar com a gelidez do ar. Aquilo não o incomodava tanto como há dias atrás.
Ao ouvir a voz de algumas crianças animadas em brincar com a neve, Gareki puxou a pá que estava ao seu lado e voltou-se para dentro de casa. No meio do caminho, as vozes aos seus ouvidos foram substituídas por outras, e ao fechar a porta Gareki a cerrou com força.
Os momentos de quase alegria de Gareki diluíram-se no momento em que ele tentou alcançar algo na geladeira e não encontrou nada além de embalagens vazias. Suspirando, o moreno procurou algum dinheiro oriundo de um de seus recentes concertos e foi ao supermercado mais próximo de sua casa.
Depois de terminada sua 'jornada' ao supermercado – com empurrões e meias conversas embaraçosas com pessoas cordiais demais – Gareki já estava pronto para dar o dia como terminado, com várias sacolas que ele nem sabia mais como carregar ocupando os seus braços e os comentários não tão silenciosos, sobre como um garoto como aquele não parecia estar fazendo as compras para sua família e –
Ele vislumbrou uma loja de livros e seus lábios encerraram-se em seu franzir. Ler sobre algo novo sempre enchia sua cabeça.
Era melhor sempre cheia, Gareki ponderou, se dirigindo para lá.
O silêncio quase absurdo da livraria o fez permanecer mais que o necessário folheando os livros de eletrônica.
Momentaneamente, ele ponderou se aquilo fora uma boa ideia, sem entender o porquê.
– Olha, o rapazinho teimoso. Olá.
Gareki notou com uma súbita irritação que o tom arrogante daquela pessoa não mudou uma fração sequer.
– Olá. - Gareki respondeu, tentando não fazer o ranger de seus dentes tão aparente.
– Nem chegamos a nos apresentar, não é? Meu nome é Karoku. - o sorriso plácido fez com que Gareki respondesse num resmungo, o que fez Karoku rir. – Mas não posso também cumprimentá-lo dessa vez. - Karoku olhou para as mãos de Gareki, ocupadas por livros e algumas sacolas penduradas em seus braços. – Uma lástima.
– Talvez nem tanto. - ele respondeu, agarrando ainda mais o que tinha nas mãos.
Enquanto a figura do gerente se afastava cada vez mais após um curto adeus, Gareki se perguntava porque as coisas conspiravam para apenas piorarem seu dia.
Naquela noite, após se estufar do jantar – que ele ainda precisava melhorar em seu preparo, depois de tanto tempo o fazendo sozinho – Gareki resolveu tentar ser um pouco mais prático e limpar sua geladeira enquanto organizava suas compras.
Entre várias idas suas sacolas e a lixeira, Gareki se encontrou com uma embalagem já vazia que estava na parte mais baixa de sua geladeira e lembrou da livraria e ao mesmo tempo, não necessariamente dela.
'Qual seria o nome daquele garoto?'
A caixa de bombons foi parar prontamente na lixeira (que Gareki realmente não sabia o porquê de que não tinha jogado fora antes), mas o mesmo não aconteceu com sua dúvida sobre o garoto de olhos carmesim.
Os dias se aproximavam para o ano novo e Gareki apreciava cada momento silencioso em sua casa em meio a aparelhos variados que ele deveria entregar no primeiro dia útil do ano seguinte. Não era exatamente a vida que ele queria – e não era o que ele iria ter, Gareki ponderou, já que almejava fazer uma universidade, com todas as dificuldades que sabia que encararia – mas era aquela vida que o sustentava. Concertar aparelhos domésticos não eram seu sonho, mas até o divertia. Ao serem os únicos barulhos do apartamento os sons de chaves de fenda e parafusos também não o perturbava nem um pouco.
"Por que você se separou de nós, Gareki? Você não se sente sozinho sem a nossa presença?"
Suas mãos paralisaram, e ele tentou não pensar em mais nada por aquele instante. Era quase–
– Preciso procurar outras peças. - Gareki murmurou para si mesmo, levantando-se do chão e do emaranhado de peças em volta em passos rápidos da sala de sua casa em direção a rua.
Distraidamente, enquanto tentava procurar algo que precisasse – nem que fosse um regulador qualquer – Gareki momentaneamente olhou a parte de cima da loja de peças e concertos, observando momentaneamente um relógio de parede.
Foi apenas necessário de o instante entre esse olhar e a volta da atenção para a parte de baixo da bancada da loja para ver de longe um rosto sorridente que tinha imperceptivelmente se gravado em sua memória.
O garoto da confeitaria, ele pensou enquanto o via acenar para a multidão, chamando-os a pegar o que parecia cartões de publicidade. Ao menos dessa vez ele não está vestido daquele jeito.
Gareki quase tinha esquecido de ter visto qualquer coisa que merecesse maior atenção, até vir um de seus braços ser agarrados na saída da loja.
(Enquanto ele se virava e via o rosto alegre do garoto que tinha visto minutos atrás, diferentemente, Gareki pensou se tivera sido melhor ter falado diretamente com ele como tinha cogitado, mas já se arrependendo do pensamento.)
– Olá!
– Oi. - Gareki respondeu o garoto hesitantemente, o que o outro não pareceu notar.
– Karoku disse que tinha te visto um dia na livraria. - o garoto comentou, enquanto guardava os cartões da confeitaria num dos bolsos de seu macacão.
– Ah, sim, ele me viu. - Gareki relembrou rapidamente o encontro e franziu. – Mas falamos bem pouco.
– Ele me disse. - o garoto acenou com a a cabeça. – Mas ele nem perguntou o que eu tinha pedido a ele – já que Karoku tem mais sorte que eu de encontrar as pessoas. - Gareki meneou a cabeça a aquilo, notando que não eram só as roupas que deixavam o garoto parecer... diferente.
– E o que era? Se eu queria voltar à confeitaria? - quando o garoto acenou positivamente em resposta, Gareki soltou uma pequena e anasalada risada. Duvido que pelo tom desse Karoku ele deve ter sequer cogitado me chamar para uma visita a sua loja.
– Isso também, mas era para perguntar qual era o seu nome. Karoku naquele dia pegou o seu endereço, mas não o seu nome como o da senhorita Tsukumo.
Mal me pergunto o porquê.
Algo o impulsou – provavelmente aqueles olhos inocentes com toda atenção a ele – a dar uma desculpa. – Ele deve ter esquecido, com tantas coisas na cabeça... - quando o garoto sorriu vivamente, um pequeno e insignificante sorriso brotou de seus lábios. – Mas eu também esqueci de perguntar o seu nome. Meu nome é Gareki.
Era uma pergunta por apenas curiosidade.
– Nai, meu nome é Nai! Prazer Gareki. - Nai o respondeu felizmente, e com tamanha animação em suas poucas palavras que o sorriso de Gareki aumentou um tanto.
(Essa pergunta, contanto, não iria fazer daquele encontro mera casualidade.)
Gareki observava a neve pela janela enquanto ouvia ao fundo as notícias sobre a preparação para os últimos detalhes dos festejos do fim de ano nos templos ao redor do país. Alcançando sua xícara de café, o moreno por alguns minutos voltou sua atenção a TV e assistiu a reportagem enquanto pensava distraído se iria ou não ao templo da cidade na virada de ano novo.
A imagem na reportagem de uma família contando de seus planos para o dia fez seu pensamento se perder em meio ao som do TV.
Ao menos por ela eu deveria ir.
Batendo com certa força a xícara sobre a mesa e deixando um pouco do café cair sobre seus dedos, Gareki pediu que aqueles dias passassem logo para que ele voltasse a rotina de sempre, na qual sua vida estava acostumada.
(Uma pequena voz – sempre aquela maldita voz, pensou ele, murmurou aos seus ouvidos: É sempre culpa desses dias, não é? Ou será que não é a memória daquele tempo que não quer te –)
Gareki ouviu seu celular tocar e por um instante agradeceu a isso, mesmo achando estranho. Não sabia que alguém tinha o número de seu telefone. Secando seus dedos com a camisa, alcançou o celular que estava jogado do outro lado do sofá.
Uma mensagem:
"Oi Gareki!"
Correção, Gareki pensou, ao olhar o visor cheio de emoticons, há uma pessoa que sabe.
"Estou mandando essa mensagem porque queria saber se pode vir a loja. Eu quero te mostrar umas coisinhas que eu criei."
Gareki voltou ao seu lugar, com uma expressão pensativa no rosto. Nai era, no mínimo, um garoto muito estranho. Mesmo no curto espaço de tempo, desde do dia que se encontraram de novo e depois de teimosamente pedir pelo seu e-mail e número de telefone (Gareki não sabia que não sabia negar algo até aquele instante), Nai, sem notar a falta de respostas de Gareki, mandou as mais variadas mensagens.
"Oi Gareki, está nevando bastante, não é?"
"Ah, Gareki, você está vendo o canal dezesseis? Está passando um programa sobre confeitarias temáticas."
"Gareki, você não fala muito não é? Mas isso é legal também."
Das mais variadas.
E Gareki realmente não sabia o porquê. Do pouco que conhecia do garoto – absolutamente nada além dos três encontros curtos – podia defini-lo como diligente. Sua ida até sua casa em meio a véspera de Natal, onde qualquer estabelecimento comercial lotava com certa facilidade, pelo simples motivo de que "não o tinha desculpado propriamente" pelo incidente que não era nem culpa dele, era, no mínimo...
Os sons de alerta não pararam, e, depois de um tempo, Gareki tentou responder as mensagens.
"É, neva."
"Não, não vejo TV nesse horário."
"..."
Não eram as melhores respostas porque Gareki não via qualquer propósito naquilo – tinha abolido há muito tempo diálogos fúteis de sua vida. Nunca fora, também, alguém muito sociável, e muito menos ao encarar a tela do seu celular preenchida com carinhas felizes, notas musicais e outras tantas coisas.
Entretanto, Gareki melhorou suas respostas, porque algo naquilo parecia ser um esforço sincero – e ele não sabia para que, por que – e Nai era um desgraçado, na verdade. Como ele fez com que ele respondesse uma mensagem repleta com corações sobre pelúcias?
Ele era exatamente o que parecia, um garoto muito tolo – e Gareki franzia a testa ao pensar que isso era ao mesmo tempo péssimo (como o fato de ele ter notado que Karoku, seu irmão pelo o jeito que agiam, não iria queria ser seu amigo) como... Não tão ruim (ele acreditava em tudo que Gareki dizia, o que fez o moreno deixar de dar tantas respostas sarcásticas e dizer algumas coisas honestas, por pura cortesia). Ele era até... Divertido.
Para um garoto de quartorze que trabalha em uma confeitaria lotada de coisas 'fofas' e 'bonitinhas' e que se veste de qualquer coisa que seu irmão manda, é.
Tamborilando os dedos, Gareki fitou o visor de seu celular e depois de olhar tantas carinhas e sorrisos e estrelas, olhou para o relógio no visor e, bem.
Ele não ia perder tanto tempo indo ver o que Nai queria, não é?
– Viu, eles agora parecem quase coelhos! - Nai cochichou em meio a cozinha agitada e cheia de gente, apontando para sua criação de doces.
Gareki coçou a nuca, olhando para a junção de glacé de variadas cores (coelhos verdes?) e pausou bastante antes de dar a resposta. – Você até melhorou desde a última foto que me mandou, de certa maneira. - Gareki relembrou da foto enviada para seu celular de bolas em cima das outras que tinham chifres no topo. – Pelo menos lembra algo que deveria ser fofo.
Mesmo a resposta sem emoção (algo nele não queria dizer que aquilo foi uma tentativa totalmente falha, como ele pensava) fez Nai sorrir para ele. – Ah, obrigado. Eu sei que ficou ruim, mas sei que vou melhorando sempre! - Nai ergueu os punhos energicamente e Gareki soltou uma risada baixa.
– Nai, você sabe que não pode mexer na cozinha agora, ela está com muito movimento por causa dos últimos pedidos de Ano Novo. - ao ouvir a voz de seu irmão Nai abaixou seus braços, embaraçado. - Desculpe, Gareki, também são as regras para apenas funcionários.
Os lábios de Gareki se mantiveram numa fina linha, mesmo que ele quisesse responder. Pelo que pode notar das mensagens de Nai, começava a entender o porquê de Karoku agir assim.
– Não se preocupe, Nai e eu já vamos sair. - Gareki forçou um sorriso e quase sorriu um tanto verdadeiramente pela plasticidade da expressão de Karoku a isso. Antes que o outro dissesse algo, Gareki olhou para Nai que logo acenou a ele, o seguindo enquanto ele saia pelas portas dos fundos.
– Karoku gosta muito de você. - Gareki murmurou, enquanto Nai olhava para os lados, distraído com sua tentativa de doces nas mãos.
– Ah, sim. Ele diz que sou muito precioso. - a felicidade no rosto de Nai brilhava enquanto ele comentava aquilo.
Mais para complexado por você. Gareki balançou a cabeça, tentando afastar outras palavras de saírem de sua boca, mudando de assunto. – E esses doces, vai ficar os segurando até o fim do expediente? Não vão chamar muitos clientes para cá. - o moreno comentou, enquanto sentava-se nos degraus da porta.
Nai olhou para ele, inclinando sua cabeça, pelo que parecia, a ponderar sobre o assunto. Como se um estalo soasse, ele deu um pulo, e se sentou ao lado de Gareki, lhe oferecendo um dos doces.
Gareki olhou para mão estendida e pensou se aquilo seria tragável. Ele olhou então para os olhos do Nai, cheios de expectativa. Sacudindo os ombros, ele alcançou a massa em forma de coelho e a saboreou com um Nai sorridente ao seu lado.
Seu último dia do ano terminava com o tópico de assunto mais debatido a ser sobre açúcar e farinha, e o que fazer com eles.
– Mas as receitas dos doces da confeitaria são todas feitos ou supervisionados pelo Karoku, então eu quero criar as minhas próprias! - Nai falou enquanto observava toda a vizinhança com curiosidade.
– Olhar dicas de coisas básicas como manter a textura de algo não deve ser um problema mesmo assim. - Gareki comentou distraidamente enquanto ponderava porque Nai firmemente disse que queria levá-lo para casa. Vendo os dois, era Nai que poderia precisar ser acompanhado.
Nai era mais novo que ele, afinal.
Nai afastou a vozinha irritante de sua mente ao correr em direção a sua porta, no que ele alcançou rapidamente. – A frente de sua casa sempre está com a neve retirada. - Nai comentou, passando os pés sobre a neve fofa. – É você que as tira, né Gareki? - Nai perguntou, enquanto continuava com a mesma ação.
– É. - Gareki se aproximou, abrindo a porta de sua casa e empurrando lentamente Nai para dentro. – O jeito de como eu tiro é tão reconhecível?
– Pelas suas botas. - Nai apontou para suas pegadas, e Gareki riu.
– Pensei que fosse uma de suas 'sensações'. - Gareki comentou colocando a cesta de compras – e inúmeros doces que Nai o deu – sobre a mesa e vendo como Nai ainda estava parado na entrada de sua porta. – Entre logo, vou pegar algumas pantufas para você. - Nai sorriu em resposta, alcançando os seus sapatos.
Enquanto Gareki revirava seu armário por um par de pantufas para Nai, um pensamento despercebido veio, e não o incomodou muito. O moreno logo achou um par branco, que combinava, ele logo pensou, empurrando alguns outros ao fundo.
Fazia um bom tempo que ele não precisava de mais do que seu par em sua casa.
Já havia anoitecido, e a contagem para a virada do ano já começara em um programa da TV. Gareki permanecia deitado, olhando para alguns bolos feitos em formato de ovelhas em suas mãos, e, num gesto que vinha a se repetir bastante esses dias, fitou o visor de celular.
"Oi Gareki!
Karoku deixou que eu servisse alguma das minhas criações hoje! Vou tentar fazer algo que fizemos essa tarde."
Gareki apoiou sua cabeça no braço do celular, olhando de lado a ovelha de farinha e ovos. Poucos dias se passaram desde aquele dia que o chamava de garoto rena, não é?
O celular soou outra vez e o moreno calmamente clicou, lendo a nova mensagem.
"Gareki, você não poderia vir mais tarde? Eu sei que é um incomodo, ainda mais nesse dia, mais eu queria preparar algo especial por ter me deixado usar sua cozinha."
Era um convite como tantos outros que ele tinha recebido antes nas épocas de férias, e que algumas pessoas tentaram o fazer há anos. Mas aqui estava ele, olhando para esse celular, pensando realmente no convite.
Por que você já não recusou, Gareki? Era simples e era algo que ele já estava acostumado a fazer porque era o que ele fazia.
O som baixo da TV transferiu sua atenção por um momento, com o relógio de contagem regressiva a anunciar que faltava poucas horas para o esperado momento. Gareki voltou a atenção ao visor, o iluminando de novo com o apertar das teclas. A mensagem datava seu envio pelas primeiras horas da manhã.
Ele deve ter escrito isso ontem a noite, Gareki ponderou distraidamente observando a ortografia da mensagem, sem abreviações e erros comuns que ele já tinha notado na escrita do mais novo. Deve até ter pedido ajuda a Karoku, Gareki suspirou, virando-se para o lado e jogando o celular em cima da mesinha ao seu lado.
Seria muito fácil ficar naquela mesma posição que se tornava quase letárgica e deixar o tempo passar como ele sempre passava. Nai não se importaria se ele não fosse – era quase Ano Novo – e, de fato, ele deveria ter enviado a mensagem por pura educação. Quem iria querer mais gente para lhe dar menos tempo de aproveitar o já minúsculo que teria na virada para o Ano Novo?
Gareki mirou seu olhar a janela ao ouvir a conversa de algumas pessoas passando, provavelmente se dirigindo ao templo mais próximo. Fechou os olhos, lembrando-se de risadas e uma voz reconfortante o dizendo que fariam aquilo todos os anos por diante.
"Gareki, nós seremos uma família feliz no próximo ano também."
Gareki abriu seus olhos e alcançou o celular, rapidamente digitando uma mensagem. Nai deve respondê-la amanhã, Gareki pensou ao apertar o botão de envio, ignorando como se sentia um pouco mais leve ao ver a mensagem 'Enviado' transcrita a sua frente.
Virando-se na direção oposta a TV, Gareki fechou seus olhos outra vez, esperando que o novo ano chegasse logo.
O barulho o acordou, com os gritos de comemoração de feliz ano novo vindos da televisão. Gareki levantou-se lentamente de sua cama, e mesmo ainda sonolento foi em direção a janela, procurando por qualquer coisa no céu. Ele pressionou suas mãos, e em uma tímida prece, pediu a sua única e verdadeira família que esse fosse um ano melhor.
Outro barulho soou pelo comodo de seu quarto minutos depois e Gareki largou o parapeito da janela e foi em sua direção, o reconhecendo. Alcançando em passos rápidos, ele pegou o celular que ainda piscava, seus lábios a já formarem um sorriso.
Duas mensagens:
"11: 35 PM
De: Nai.
Oi Gareki! Desculpa a demora a responder, temos muitos clientes hoje e só pude olhar meu celular agora. Mas sobre sua pergunta, não, sou só eu e Karoku que visitamos o templo no Ano Novo. Karoku não fala muito com parte de sua família – eles moram bem longe, em outro continente! - e eu só tenho o Karoku.
Você quer vir conosco ao templo? Ia ser tão legal! Você veste um kimono quando vai visitar? Porque se for assim, eu também vou!
Mas – você não pode vir mesmo? Na verdade eu consegui fazer hoje os chocolates em formato de coelhos! Eu realmente queria mostrá-los a você."
"12:05 AM
De: Nai.
Feliz Ano Novo, Gareki! Vamos dividir o próximo ano também!"
Seus lábios até doíam, mas Gareki continuou sorrindo e culpou o clima de festejos a isso.
Uma terceira mensagem foi recebida, após Gareki responder as duas primeiras. Sentindo o vibrar em seu casaco, Gareki alcançou um de seus bolsos enquanto verificava as chaves de sua casa. Olhando o visor – cheio de emoticons, o que o fez dar um leve sorriso – ele respondeu rapidamente a mensagem, enquanto fechava a porta de sua casa.
"12: 22 AM
Para: Nai.
Nai,
Estou indo."
Nos primeiros dias do ano, Nai visitou a casa de Gareki mais algumas vezes – ora o ajudando com novas receitas no jantar e de como ele não poderia comer congelados todos os dias e ora o observando admirado enquanto ele o ensinava (um tanto orgulhoso de si) como facilmente consertar qualquer motor – e em todos esses momentos, o garoto de olhos carmesim não o perguntou uma coisa sequer.
Sobre coisas óbvias como sua casa era vazia ou como a mobília era típica de uma morada de somente um habitante. Sobre coisas mais sutis também, como que, naquele período de tempo não houve nenhuma ligação ou batida qualquer que demonstrasse que ele não vivia naquela casa sozinho.
Nem sobre coisas que ele deixou escapulir – como trabalhar de ajudante para um senhor de uma loja de concertos para pagar as contas, ou como Nai era a segunda pessoa a mexer em seus talheres depois de tê-los comprados – coisas que, no primeiro momento ele se irritou por ter dito.
Nai não perguntou nada, nem com seu olhar, nem com suas palavras.
Quando por vezes Nai dizia seu 'até logo', com sua personalidade luminosa e inocente, sorriso ainda mantido nos lábios, Gareki permanecia olhando sua silhueta até que ela desaparecesse no horizonte enquanto mil coisas percorriam sua mente. Numa dessas vezes, um certo sorriso veio a sua mente.
"Gareki, o ano novo traz a possibilidade de novas coisas para nós", dizia Tsubaki, com seu tom terno e carinhoso enquanto o abraçava nas noites mais frias do final de Dezembro. "De viver, acima de tudo. Sempre que estivermos vivos poderemos ter essa possibilidade, e é essa esperança que o novo ano traz."
Naquele dia, Gareki olhou para o céu, sentindo o ar gélido tocar sua pele gentilmente.
