Nota super importante (ou não) no final do capítulo + Glossário. Boa leitura! (assim espero) ;D
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O som da confusão
Universo Alternativo
Classificação: M
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Segundo capítulo: Confuso reencontro
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"Por que nos conhecemos? Por que o acaso o quis? Foi porque através da distância, sem dúvida, como dois rios que correm a unir-se, nossas inclinações particulares nos impeliram um para o outro."
Gustave Flaubert
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Ele parou nos portões de entrada da Academia de Ensino Amaterasu, observando a grande construção por detrás de seus óculos de lentes escuras. Era uma figura incomum e logo chamou a atenção do pátio frontal toda para si, os alunos que ali aguardavam pelo toque do sinal que anunciava o início das aulas olhavam o recém-chegado com interesse, e outros poucos com incerteza ou incredulidade.
O rapaz parecia estar procurando por alguém e, por ser mais alto que a estatura média dos outros estudantes ali presentes, não demorou muito para encontrar quem procurava. Ao avistar seu alvo, arqueou as sobrancelhas e rumou em direção a um garoto pouco mais baixo que ele. O outro, ao perceber a presença do amigo, abriu um largo sorriso e terminou de encurtar a distância entre os dois, alcançando-o rápido e cumprimentando-o com um soco leve no braço.
"Já estava achando que tinha resolvido babar no travesseiro por mais umas horas", falou o rapaz de cabelos loiros com um sorriso brincalhão.
"Há, há. Muito engraçado Motoki, quem ouve isso até pensa que sou um relaxado como você. Tive problemas com minha bagagem no hotel, só isso. Você sabe que eu não perderia de ver a cara de espanto do "pouca-perna" por nada", retorquiu o outro, dando um sorrisinho sarcástico com o canto dos lábios.
"Ele não está aqui hoje, viajou para apresentar uns shows e só volta no início do próximo mês. Quando é que vocês dois vão desistir desses xingamentos ridículos? Isso me envergonha, francamente." Disse Motoki com um olhar de tédio.
"Deixe de ser chato Toki, até porque a parte divertida é justamente essa", falou Neph enquanto se aproximava da dupla. "Mamoru, você mal chegou e já chama a atenção da população feminina do colégio. Seja sincero, você passa açúcar no corpo. Ouvi dizer que o corpo masculino exala um odor que atrai as fêmeas, e mulher gosta de doce, logo, se você passar algo doce elas devem gostar. Vou comp- AI!" O moreno exclamou indignado, passando a mão na cabeça recém agredida por um "coquinho" dado por Kunzite. Jad, que tinha chegado junto com o outro guitarrista bem na hora do comentário infeliz de Neph, assistia a tudo com os olhos brilhando com riso mal contido.
"Pare de falar besteira Neph, ou vou ser obrigado a arrolhar você." Disse o rapaz das mechas brancas num tom monótono.
"Cruzes, Kunzite, você parece a minha avó. Quantos anos você tem, cara, 'cê é muito ranzinza, fala sério" respondeu Nephrite, ainda alisando o agora pequeno hematoma em sua cabeça, lançando um olhar enviesado para o amigo responsável pelo machucado dolorido.
"Sabe, ver vocês dois se bicando ganha o meu dia. Cada pena que voa é uma emoção diferente", Jad falou com empolgação. "Mas até que o Neph tem razão. Se bem que eu acho que, no momento, a minha presença está contribuindo para que sejamos o foco da atenção aqui no pátio", completou com um olhar de pura modéstia o loirinho enquanto passava uma mão no cabelo para ajeitar qualquer possível fio rebelde.
Olhando em volta Mamoru viu que seu amigo, apesar de falar em tom de brincadeira, estava certo. Não apenas pela sua aparência, mas também por ser uma figura inesperada ali, ele estava sendo encarado pelas garotas do colégio. Umas olhavam timidamente, outras não pareciam ter a menor vontade de esconder o interesse - muito pelo contrário, queriam ser notadas.
Mamoru tinha olhos de cor azul profunda que pareciam brilhar quase que constantemente com sarcasmo, sendo destacados pelos cabelos de fios negros que, de tão leves, ficavam ligeiramente arrepiados, bagunçados e caídos displicentemente na frente dos seus olhos, dando a eles uma sombra misteriosa. Tinha aproximadamente 1,88 m de altura e, mesmo coberto pelo gakuran¹, dava para perceber quão bem definido era seu corpo. Sim, Mamoru era bonito. Muito. Mas era aquela beleza que passava a sensação de inalcançável, pois seus olhos eram frios. Os poucos momentos em que era possível se notar algum brilho neles era quando ele estava em contato com a música, ou quando estava com seus amigos. Ainda assim, raramente esse calor aquecia sua expressão. Para ele, demonstração de emoções era sinal de fraqueza, e se você não soubesse se controlar, as outras pessoas tirariam proveito disso.
Olhou para seus amigos e os avaliou enquanto eles tentavam incutir alguma modéstia no loiro vaidoso. Eram umas das poucas pessoas nas quais Mamoru se permitia confiar. Um protesto esganiçado de Nephrite interrompeu sua linha de pensamento; o moreno parecia tentar convencer Jad de que nem um "rostinho bonito" superava uma boa cantada. "Por que é mesmo que eu me juntei com o Neph...? Ah, ele veio junto com o pacote." Não é que Mamoru odiasse o amigo, é só que, apesar do rapaz ser até inteligente, a forma dele falar e agir o fazia parecer um... Bom, um completo panaca. Mas, falando em inteligente...
"Cadê o Zoi?" Mamoru observou olhando curioso à sua volta, procurando por uma figura familiar de longos cabelos loiros que deveria estar ali junto com eles, mas pelo visto não estava.
Ao mencionar o baixista ausente Mamoru viu seus amigos trocarem olhares estranhos e franziu o cenho, sentindo que havia algo errado ali. Bom, todos eles estavam devidamente vestidos para assistir às aulas, todos prontos para ir para suas devidas salas assim que o sinal tocasse. Então, onde raios teria se metido seu amigo que sempre era o primeiro a ficar pronto, sempre pontual, sempre responsável, sempre...
"Ele está na biblioteca", respondeu Nephrite. Ah, então estava explicado. Mamoru já ia comentar sobre a compulsão de Zoicite por livros quando se deu conta de uma coisa: Nephrite estava sério. Ele havia dado uma resposta séria e direta, sem fazer nenhum comentário sobre o costume do outro amigo de se enfiar entre pilhas de livros. Algo estava MUITO errado aí...
Vendo os outros continuarem a trocar olhares estranhos Mamoru começou a ficar impaciente. "Mas isso deveria ser normal, não? Afinal de contas é o Zoi. Por que vocês estão se olhando assim?" Ele ficou olhando desconfiado para um e para outro, esperando por uma resposta. Os outros rapazes se entreolharam uma última vez, e então Jad começou a falar.
"Bom, realmente, seria comum até pro Zoi." Mamoru não deixou escapar o seria. "Tipo, estar na biblioteca logo tão cedo. Mas é que ultimamente ele tem ido lá com muito mais freqüência, e fica lá por muito mais tempo." Mamoru olhou pra Jad com cara de quem ainda não estava enxergando o problema.
Vendo que Mamoru não estava compartilhando da estranheza que ele e os outros estavam sentindo, Jad se exasperou. "Cara, ele está até abrindo mão do horário de almoço pra ficar lá, levando em consideração que não é permitido comida lá dentro, e quando ele não pode estar lá, tipo, nos horários de aula, por exemplo, ele fica com um olhar meio perdido, olhando pela janela. Você acredita que ontem nós tivemos aula de Física e ele não fez UMA anotação SEQUER?! Ele ficou o tempo todo olhando pela droga da janela e não escreveu NADA, nem fez UMA ÚNICA pergunta!"
Agora sim Mamoru entendeu a gravidade da situação. Zoi sempre anotava tudo, sempre perguntava tudo e sempre arranjava uma brecha pra questionar o que o professor dizia. O que poderia fazer um garoto fanático por estudos como ele perder um dia de anotações, dava até medo de saber. "Vocês já experimentaram dar uma passada na biblioteca pra ver o que ele tanto faz lá?", perguntou Mamoru, já pensando em rumar em direção ao lugar onde os outros disseram que o amigo tinha se enfurnado.
"Já fomos sim", disse Kunzite com cara de derrota. "Ele só fica sentado com uma pilha de livros em volta dele, um livro aberto na frente, mas nem passa as páginas. Só fica lá, olhando pro livro sem fazer nada. Já tentamos de tudo pra descobrir qual o problema dele. Já o chantageamos com uma coleção de livros de Química, já ameaçamos jogar o baixo dele pela janela, até já imploramos e prometemos fazer o que ele quisesse durante um mês, mas ele não conta qual é o problema de jeito nenhum, e só fica dizendo que nós estamos neuróticos, que não tem nada de errado com ele".
Nessa hora o sinal tocou, anunciando que eles tinham 5 minutos para irem para suas salas e se ajeitarem, ficando prontos para a chegada do professor. Enquanto os outros se afastavam Motoki se virou para Mamoru com um sorriso. "Espero que acabe ficando na minha sala, mas se acontecer de você cair em outra não vai ter problema. Só tem quatro turmas de terceiro ano, e como o Jad ficou na mesma sala que o Zoi, não importa pra qual sala você vá, pelo menos um de nós vai estar lá." Enquanto via seu primo se afastar Mamoru tentou lembrar onde ficava a sala do diretor, já que ainda precisava saber para qual sala ir.
"Quatro anos longe deste colégio... quase sinto como se estivesse em um lugar estranho", ele pensou enquanto avaliava as mudanças ocorridas durante sua ausência. Mas não se arrependia de nada. Nem do tempo que passou longe do seu país. A música foi o presente mais precioso que poderia ter ganhado, e sempre seria grato aos tios e ao pai por isso.
A família Tsukino achava saudável o contato com a música, pois diziam que era relaxante e os ocupava com algo. Foi então que aos oito anos ele e Motoki foram incentivados a escolher um instrumento para tocar ou algum estudo sobre música para fazer. Motoki escolheu bateria; desde a primeira vez que viu uma ele havia se apaixonado. Usagi escolheu aprender a tocar violino, pois tinha visto um rapaz tocar uma vez num restaurante onde os pais a haviam levado com o primo e o irmão e se encantara com o som. Mamoru acabou escolhendo canto, já que não sentira nenhuma atração forte por um instrumento como os primos. A lembrança de como seu interesse por música havia começado o fez tentar puxar na memória a expressão de Usagi naquela noite no restaurante ao ouvir o som que ela tanto amava, mas tudo o que conseguiu foi uma imagem breve de dois enormes olhos azuis hipnotizados, e mais nada.
Mamoru raramente ia à casa dos tios pois costumava ficar em sua própria casa jogando videogames com Motoki, ou então, quando estava mais velho, rondando o Crown Arcade com o primo e os amigos. Evitava ao máximo se encontrar com Usagi para não ter que obrigá-la a sair de fininho como ela sempre fazia quando ele estava por perto, e também para não se magoar vendo-a fazer isso, fingindo que ele não estava ali, sem nem olhá-lo nos olhos. Mesmo antes de viajar Mamoru já não a via há mais de um ano, e depois de ir para os EUA, quando Usagi passou a mandar cartas com foto pelo menos uma vez por mês para o irmão, ele continuou sem saber como a prima estava. Os amigos já sabiam que o humor dele mudava para pior sempre que falavam da caçula dos Tsukino, e logo aprenderam que chamá-lo para ver fotos da garota era não só fazê-lo piorar de humor durante um dia inteiro, mas também receber o olhar glacial que só o Pinguim Mor do grupo sabia dar, capaz de desanimar o eternamente elétrico Neph. "Longe dos olhos, longe do coração", Mamoru recitou para si mesmo.
Quando bem se deu conta, seus pés já o haviam levado para a sala do diretor. Empurrou as memórias de volta para seu baú mental, bateu três vezes e esperou permissão para entrar, se dirigindo para a cadeira à frente da mesa do senhor de meia idade logo em seguida.
"Mamoru, estava esperando por sua visita", falou o homem de cabelos preto-acinzentado com um sorriso acolhedor. "Você está crescido, só o reconheci por causa da foto na sua ficha. Espero que não sinta muita dificuldade por conta dessas duas semanas de aula que perdeu" ele completou, agora parecendo um pouco preocupado.
"Não, creio que não devo ter dificuldades em acompanhar os assuntos, costumo aprender com facilidade. Até porque eu sempre posso contar com o Zoicite pra me ajudar"
"Realmente. O rapaz Yamamoto é admirável, tem o melhor desempenho do colégio. Obtém as melhores médias sempre", falou Takeda com um sorriso satisfeito. "Uma honra para a nossa Academia, sempre tivemos ótimos alunos. Os melhores. E você é um deles, meu rapaz.", ele acrescentou para Mamoru, sorrindo orgulhoso. Mamoru ficou meio sem jeito com o comentário, mas então se lembrou do que seus amigos haviam falado mais cedo e ignorou o efeito do elogio que acabara de receber.
"Sim, realmente o Zoi é incrível, mas ele está me preocupando. Ouvi dizer que ultimamente ele não tem saído da biblioteca. O senhor por um acaso sabe qual pode ser o motivo dessa fixação súbita dele?"
Takeda sempre procurava acompanhar os alunos que estavam sob seus cuidados, e sabia muito principalmente sobre aqueles que se destacavam. Dizia que eles eram seus "diamantes". Mas o homem apenas franziu o cenho.
"Claro que notei o comportamento do meu jovem estudante, mas não creio que seja necessário se preocupar. Tenho certeza de que seu amigo sabe o que está fazendo; como nós mesmos concordamos, é um rapaz extremamente inteligente" falou o diretor, descansando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos de forma a oferecer apoio para seu queixo. Ele tinha um sorriso meio maroto, como se soubesse de algo e não quisesse contar. "Mas sim, sem mais delongas, preciso te encaminhar para a sua sala. Acredito que vai ficar satisfeito em saber que terá a companhia do rapaz Shimizu, não?"
Após apresentá-lo ao professor encarregado da turma 3-C e se despedir Takeda voltou para a própria sala, deixando Mamoru para ser escoltado pelo homem até a classe. Era só impressão sua, ou o diretor sabia mais do que estava falando? Bom, pelo menos ele teria a companhia de Kunzite para poder discutir sobre isso, certo? Já era um começo. Foi quando percebeu que o professor estava falando algo.
"... culos, por favor." Mamoru piscou algumas vezes, voltando a prestar atenção no homem baixinho, barrigudinho de bigodinho que era o professor, e percebeu que haviam parado. Tentou entender o que o homem havia falado, mas logo desistiu; ele realmente não escutara. O professor baixinho pareceu se exasperar, revirou os olhos e repetiu "Senhor Tsukino, receio que terá que se desfazer do acessório. Não é permitido ficar de óculos escuros na sala de aula"
Ah droga. Tinha se esquecido disso. Os óculos tinham ajudado a esconder parte do seu rosto com suas lentes grandes e evitado gente louca o seguindo do hotel até o colégio. Sem contar que, apesar de ele perceber que algumas pessoas no pátio o acharam no mínimo familiar, ninguém parecia estar tão certo de quem ele era ao ponto de atacá-lo. Mas agora não haveria escapatória, não poderia ficar usando óculos escuros pelo resto do seu período letivo no colégio. Deu um suspiro resignado, tirou os óculos e os guardou na mochila.
O professor entrou na sala e, quando todos fizeram silêncio, ele anunciou a chegada do novo aluno e o convidou a entrar. Quando Mamoru entrou no lugar sentiu que todos tinham prendido a respiração. Procurou pela figura familiar e encontrou um par de olhos acinzentados o encarando perversamente. Fez o que pôde para se segurar e não 'acenar' para o amigo com seu dedo médio, mas o outro pareceu perceber, pois alargou o sorriso para um mais desafiador, os olhos faiscando maliciosamente. 'Ah, cretino... ' Mamoru desviou o olhar do de Kunzite sabendo que ele poderia avançar no pescoço do amigo caso continuasse com essa batalha muda e encarou um ponto bem no fundo da sala, evitando olhar o rosto dos alunos que o estavam encarando. Deu um sorrisinho glacial e sentiu a palma de sua mão começar a suar. Nunca fora bom se apresentando para os colegas de sala. Estar num palco com holofotes te destacando e sendo encarado por milhares de pessoas era bem mais confortável do que isso. Após se apresentar de forma breve e sem dar espaço para os colegas fazerem perguntas, ele se encaminhou para o lugar que o professor o tinha indicado - uma carteira vaga logo atrás de Kunzite - e se sentou, ajeitando seu material.
Kunzite olhou para trás fazendo cara de inocente enquanto Mamoru o olhava, xingando até os ancestrais do amigo em pensamento. O rapaz de cabelos brancos arqueou uma sobrancelha interrogativamente e falou com a cara mais cínica do mundo:
"O que foi? Você se saiu tão bem lá na frente, Mamoru, não sei por que está com essa cara". Mamoru fumegou com a provocação do outro. Quem não conhecia o guitarrista bem o suficiente poderia apostar a própria dignidade que o homem era a inocência personificada.
"Ah eu imagino que sim, pelo menos você parece ter se divertido bastante com isso tudo." Mamoru despejou sarcasmo na cara do amigo que apenas olhou divertido pra ele.
"Pode apostar que sim", ele falou satisfeito voltando a se sentar de frente na sua mesa, e então completou "Pelo menos agora eu vou ter um pouco mais de paz com você por perto pra dividir as atenções."
"Essa atenção eu modestamente passo toda para você, não precisa se incomodar comigo, estou bem assim" E com isso também passou a prestar atenção na aula do professor barrigudinho. Logo que as aulas acabaram anunciando o intervalo um grupo de garotos se aproximou de sua mesa, sendo seguido de perto por um grupo de garotas curiosas. O menino que parecia estar liderando o grupinho masculino se aproximou mais dele e perguntou "Você não é o vocalista da Soulless? Cara, eu sou seu fã, me dá seu autógrafo?!"
Enquanto os garotos olhavam esperançosos esperando pela assinatura Mamoru olhou de relance pro amigo ao seu lado e o viu se levantar calmamente, com um olhar mais do que escroto, e falar só pra ele ouvir: "Boa sorte." E com um sorrisinho malicioso se foi, deixando o vocalista para trás com os abutres. O rapaz olhou para os colegas, pegou o primeiro caderno e mumurou "Este vai ser um looongo dia..."
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Não muito longe dali, apenas dois andares abaixo...
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"Usagi! Ei, Usagi! Meu Deus, ela toma Lexotan, só pode ser isso. USAGI!!!!"
Todos do primeiro ano que ainda não haviam saído da sala para checar a última novidade observaram chocados a garota de longos cabelos negros gritar no ouvido da amiga. A pobre coitada que já estava dormindo de boca aberta levantou atordoada, como se os sinos do apocalipse tivessem acabado de soar todos de uma só vez em seus tímpanos. "Santa paciência, Usagi. Você tem um sono pesado, hein? Poxa, te chamei várias vezes, tá me atrasando! Já bateu o intervalo e eu to aqui perdendo tempo, morrendo de vontade de dar uma boa olhada no morenão que disseram que chegou hoje!" E, como se para evidenciar (mais) a sua irritação, a garota bateu o pé no chão e se virou, indo em direção à porta "Agora vê se vem logo, ou vão acabar com o garoto antes mesmo de eu pôr meus olhos nele. Um pedaço é meu, já vou avisando!" E com isso saiu correndo da sala.
Ainda atordoada, Usagi levantou procurando pelas outras amigas. Ami a uma altura dessas já devia estar na biblioteca com uma pilha de livros. Mina com certeza deve ter disparado para ver o garoto novo sem nem esperar por Rei; quando o assunto era homem a outra loirinha conseguia ser pior do que a morena. 'E que grito, meus ouvidos sofreram. Se duvidar, abalou as estruturas do colégio'. Usagi saiu da sala com seu bentō² e andou calmamente em direção ao pátio do colégio nem se dando ao trabalho de tentar seguir a amiga de gênio esquentado, até porque a única pista que havia de que Rei passara por aquele corredor eram as pessoas espremidas contra a parede com olhos esbugalhados de susto, algumas já se recobrando e lançando olhares indignados na direção que a garota deveria ter ido, e prontamente se lançando na mesma direção.
"Mas o que é que está acontecendo aqui?" como sempre, era a última a saber das coisas. Após sentir sua barriga protestar pela demora de consumir o lanche Usagi resolveu que procurar Makoto era o melhor que poderia fazer no momento, a amiga provavelmente já estava degustando o lanche que ela mesma preparava todas as manhãs "É, procurar Mako-chan é a coisa mais sensata a se fazer já que não tenho interesse algum em ver o garoto novo, a comida é mais importante", Usagi pensou enquanto dava tapinhas de consolo na barriga que roncava.
Ela estava andando distraidamente em direção ao pátio do colégio, de onde pretendia ir para a parte gramada, apostando que Makoto deveria estar na mesinha de madeira próxima à sua árvore favorita (onde geralmente ficava mais vazio) quando se deu conta de que os corredores estavam meio... desertos, por assim dizer, e parecia ter um rebuliço no andar de cima. 'Estranho, ouço as vozes como se estivessem no andar diretamente acima do meu, mas não ouço passos. Será que isso tudo é no terceiro andar?' Enquanto pensava saiu para o pátio, e tinha começado a se encaminhar na direção do gramado quando ouviu estrondos vindo da direção da escada, e que parecia, pelo som, saltos. GRANDES saltos, como se a pessoa estivesse pulando lances inteiros, o que a fez virar assustada para olhar o que estava acontecendo.
Um rapaz veio "voando" da escada aterrissando a apenas cinco passos de distância, e ele já ia se virar para sair correndo na direção dela quando a viu e pareceu congelar no mesmo lugar, a encarando com olhos arregalados. Usagi mal conseguiu formar um pensamento coerente; primeiro, porque a situação era meio absurda e segundo, porque ele era o homem mais lindo que ela já havia visto, ainda que o mais bagunçado também. Os cabelos negros estavam em pé como se alguém os tivesse puxado, e parecia que alguns botões da farda haviam sido arrancados com violência, pois ela estava toda amarrotada e aberta de forma que era possível ver o pescoço e parte do peito e ombro levemente bronzeados. O olhar de Usagi caiu sobre os lábios entreabertos e ofegantes, e ela sentiu as bochechas esquentarem quando percebeu para onde estava olhando, seu olhar culpado seguindo automaticamente para os próprios pés.
Ela tinha a impressão de já ter visto aquele rapaz antes. Nenhum garoto chamava sua atenção daquele jeito, mas ele tinha algo de diferente. Era uma figura quase que... familiar. A fez sentir saudades, mas não soube de quê, exatamente. "Mas ele é tão bonito... e os olhos dele são de um tom de azul tão profundo... NÃO! USAGI BESTA, PENSANDO ESSAS COISAS DE UM DESCONHECIDO!! Ai Kami³, eu sou horrível! É melhor eu sair daqui antes que pense mais besteira!"
Usagi se virou tomando todo cuidado para não olhar na direção do rapaz e retomou a passos firmes o trajeto para o gramado, mas mal tinha dado cinco passos quando ouviu estrondos ainda mais pavorosos vindo das escadas novamente. Ao se virar viu a sombra do que parecia ser uma multidão descendo os degraus, e pelo olhar de terror no rosto do garoto, parecia que as portas do inferno estavam se abrindo para engoli-lo de uma só vez e para todo o sempre.
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Mamoru estava desesperado. Já havia escapado de algumas situações assustadoras, mas nunca, NUNCA em toda a sua curta vida de 18 anos tinha passado por algo assim. Depois de quase ser sufocado por uma multidão ensandecida – não pergunte como, mas parecia que o colégio inteiro tinha conseguido se enfiar na sala do 3-C – , ter sido esticado por garotos fanáticos, ser assediado descaradamente por garotas que mal conheciam sua banda mas queriam um autógrafo e uma lasquinha dele assim mesmo (muito provavelmente o fato dele ser famoso contribuiu pra solidificar essa resolução), ter que apertar os lábios entre os dentes quase os arrancando fora pra evitar ser beijado por um garoto que segurava um pôster que parecia ter saído de uma revista de fofocas feminina com a foto dele – e mais ainda, pra terminar de matá-lo de vez, a foto do vocalista do Three Lights bem ao lado da sua – ele conseguiu, de alguma forma, se espremer por debaixo das pernas do garoto louco e sair engatinhando por debaixo da multidão. Ouvindo um 'peguei!' aqui e um 'ói ele passando ali!' acolá, avistando algumas calcinhas ocasionalmente quando acontecia de mergulhar por debaixo das pernas de alguma garota - e evitando os dedinhos ávidos da dona das pernas - e sentindo algumas apalpadas indecorosas em suas partes traseiras ele conseguiu alcançar a porta e, por conta da confusão e quantidade de gente na sala, conseguiu pular os quatro primeiros lances de escada sem ninguém perceber que ele havia saído ainda.
Quando chegou no corredor do primeiro ano ouviu alguém gritar lá de cima 'ele saiu!', mas pelo visto o bolo humano na porta da sala estava tão grande que ainda não tinha dado chance de alguém sair em seu encalço. Ele sentia o coração martelar, prestes a partir suas costelas e saltitar palpitando corredor afora. Pulou os dois últimos lances de escada, aterrissando direto no primeiro andar. Mas aí, ao se virar pronto para correr porta afora direto para a liberdade, ele a viu. Congelou na hora. 'Como é que ela conseguiu chegar aqui embaixo tão rápido?!'
Ela o estava olhando, e ele estava paralisado; se sentia acuado e com medo de que qualquer movimento brusco a fizesse "avançar". Mas então se deu conta de que teria sido impossível ela ter chegado ali antes dele, já que ela estava mais à frente. 'Isso quer dizer que ela não estava lá em cima com o resto do colégio. Mas como...?' Ele parou para examiná-la melhor. Ela tinha os longos cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo alto. De perto deveria, se muito, chegar à altura de seu peito. Tinha uma aparência meio frágil, tão menor que ele e com um corpo delicado e ao mesmo tempo muito bonito, as pernas bem torneadas se esticando convidativas para fora da saia azul escura da farda. Olhou nos olhos dela. Lindos, de um azul claro e sereno, com longos cílios e... eram familiares. Bem familiares. 'Onde será que eu já vi mesmo esses olhos antes... '
Ela, do nada, se virou e saiu pisando resoluta na direção oposta a ele, e Mamoru apenas arqueou as sobrancelhas surpreso. 'Ela não deu a mínima a mim. Eu nem me lembro qual foi a última vez que uma garota parou, me encarou e depois seguiu na direção oposta sem nem esboçar alguma reação.' Em meio a toda aquela batalha de olhares entre ele e a garota, Mamoru acabou se esquecendo de fugir. Mas quando ouviu o estrondo de vários corpos tentando ocupar a mesma escada ao mesmo tempo a realidade o esbofeteou bem no nariz e ele olhou em desespero na direção do barulho, se perguntando mentalmente se ele deveria fugir, se dava tempo para fugir, se ele cabia na lata de lixo ali perto ou se deveria se jogar no chão e se fingir de morto. Concluindo que provavelmente iam catar o corpo dele e dividir em pedaços entre os integrantes do fã-clube generalizado do colégio, optou por correr, passando direto pela garota que apenas ficou ali parada com um olhar atordoado.
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"Nossa, como ele corre rápido", foi tudo que Usagi foi capaz de pensar depois de ver o rapaz disparar num flash de pernas compridas em direção ao ginásio de eventos. Depois do que pareceu ser o resto do colégio todo passar correndo por ela na mesma direção que o moreno tinha ido, Usagi despertou do choque provocado pelos acontecimentos incomuns e foi em direção à mesinha onde a igualmente atordoada Makoto estava.
"Usagi-chan, você sabe o que está acontecendo?", perguntou a moça olhando confusa na direção onde a multidão tinha sumido, sem ter certeza de que seus olhos estavam funcionando bem naquela manhã. A loira apenas sacudiu os ombros, sentando-se e começando a abrir seu bentō.
"Nem eu sei Mako-chan, mas me arrisco a dizer que aquele é o novo estudante. Não me lembro de tê-lo visto aqui antes."
"Bom, não sei qual o motivo do alvoroço todo. Tudo bem que ele me pareceu ser um gaaato, mas não vi o porquê de até os garotos terem corrido atrás do menino. Quer dizer, nem quando seu irmão chegou aqui há duas semanas a coisa ficou feia assim. Tinha até um grupinho atrás deles, mas não chegou a esse ponto". Makoto então pareceu lembrar-se de algo e se virou rapidamente para a amiga "Usa, você não me disse que só quem não veio foi o seu primo?"
"Sim, foi exatamente o que eu disse", Usagi afirmou, tentando entender aonde a amiga queria chegar.
"E se... aquele garoto era ele?", Makoto perguntou ansiosa, do mesmo jeito que Mina falava quando descobria uma fofoca bombástica e queria fazer suspense.
"Não acredito, Toki-niichan disse que ele só voltava no próximo mês.", Usagi falou com desinteresse enquanto estufava as bochechas com arroz e pedacinhos de cenoura.
"E se o seu irmão se enganou e seu primo voltou antes? É natural que as pessoas façam mais estardalhaço por um vocalista. E me permita acrescentar, QUE vocalista", Makoto falou enquanto se abanava com as mãos, a baba escorrendo.
"Eww, eeeca Mako-chan, é o meu primo!" Usagi franziu o nariz fazendo cara de nojo. "Ainda assim me recuso a acreditar que aquele era o Mamoru, Toki teria me contado se ele fosse voltar mais cedo".
"E se seu irmão tiver esquecido? Você não reconheceria seu próprio primo?" Makoto perguntou voltando a comer seu lanche com calma.
"Não me lembro muito de como ele era, eu sentia um pouco de medo do Mamoru porque ele tinha aquele jeito frio, sabe. E tinha ciúmes também, porque Toki-nii mal tinha tempo para mim depois que eles começaram a andar juntos. Quando começaram a ir mais lá em casa foi pra ensaiar, e foi aí que tomei horror a sons mais... agressivos", ela completou, estremecendo levemente. "As poucas vezes que saíam da garagem para comer eu geralmente estava trancada no quarto para abafar o barulho, ou então ia para a casa de uma de vocês. Algumas vezes jantamos juntos, mas foi só", Usagi voltou a comer seu lanche com uma expressão meio emburrada.
"É, me lembro dessa época, tinha dias que juntava todas nós pra uma "noite do pijama". Eu fazia doces, Mina e você atrapalhavam, Rei te pirraçava, Ami transformava a receita de bolo numa aula de química... foi divertido" O olhar de Makoto já estava longe quando ela sacudiu a cabeça e voltou para a realidade "Mas tem certeza de que não se lembra de como ele era fisicamente, nem um pouquinho?", Makoto insistiu com olhar de cachorro pidão e uma voz meio chorosa.
Rolando os olhos, Usagi vasculhou na memória imagens de uma pessoa que ela tinha pouco se importado em manter. "Bom, me lembro que ele não era muito mais alto que eu. A pele dele era meio pálida, sem vida. Acho que só", ela completou com tédio e voltando a comer o lanche que trouxe de casa.
"Bom, apesar de ter passado REALMENTE rápido por aqui, deu para perceber que aquele cara tinha um belo bronzeado. É verdade que era uma cor leve, mas definitivamente não era sem vida. E ele era beeem alto. Droga, ele era mais alto até do que eu! E olha que eu quase nunca encontro um cara mais alto do que eu. Pelo que você me descreveu do seu primo, ele tinha cara de ser super esquisito. É, acho que você tem razão, Toki-kun teria te contado se Mamoru-san estivesse voltando para cá". Makoto voltou a mastigar seu lanche enquanto olhava distraidamente para a direção onde quase o colégio inteiro havia corrido.
Ela achava estranho Usagi nunca falar nada sobre o primo ainda que sob o pretexto de não se darem muito bem, mas a parte esquisita já começava daí; Usa não era de "não se dar bem" com as pessoas. Sua amiga era meio atrapalhada e tímida, mas qualquer pessoa que a conhecesse sempre seria bem tratado por ela, e geralmente acabava sendo cativado pela meiguice da garota. Como pode ser que um familiar não se dê bem com ela? E Makoto podia dizer pela forma que Usagi ficava chateada quando o assunto era discutido que ela também não gostava dessa situação ruim com seu primo. "O que será que pode ter dado errado entre esses dois...?"
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Mamoru não percebeu quanto tempo havia ficado encolhido atrás das caixas de som e instrumentos no fundo do ginásio até ouvir o sinal que indicava o término das aulas regulares tocar. Pensou em esperar o horário de reunião dos clubes acabar, mas já estava sentindo dor nas pernas por tê-las encolhido durante um período tão longo num espaço tão apertado para ele. Ajeitou o cabelo e a farda e arriscou dar uma olhada à sua volta para então sair quando teve certeza de que estava sozinho no local.
O Ginásio de Apresentações era enorme e ficava reservado para apresentações desportivas e shows, como o que aconteceria no começo do mês seguinte, motivo pelo qual havia tantas caixas de som, instrumentos e o "esqueleto" de um palco ali naquele momento. E adivinha só? Sim, a Soulless também se apresentaria no Festival Anual Amaterasu Para Novos Talentos. Ia ser mais como uma apresentação de cortesia, já que o intuito do festival era revelar novos potencias talentos e diversos "olheiros" importantes de todo o país estariam lá para ajudar a selecionar os vencedores de cada categoria e faturar mais uma pedra preciosa para suas empresas. Por gostar muito do diretor, acabou cedendo ao desejo do amigo de seu pai adotivo de fazer uma apresentação de cortesia para encerrar o festival. Infelizmente, quem estaria fazendo a abertura do mesmo era... A Three Lights. "Deus, esse nome me persegue", Mamoru pensou com desgosto.
Mamoru e Seiya, o vocalista da Three Lights, tinham uma relação de "ódio à primeira vista". Tudo começou durante uma aula de Educação Física onde Mamoru havia superado Seiya durante uma corrida, e o outro, sempre acostumado a ser melhor em tudo, começou a implicar com seu quase-sósia. Mamoru não suportava "gente barulhenta" e começou a revidar só por pirraça. Desde então tudo era motivo de competição entre os dois no colégio, desde notas até quem conseguia comprar o último pudim da cantina, e passaram a se tratar por... se é que dá para dizer que eram xingamentos, mas bem infantis.
Quando Mamoru descobriu que Seiya tinha uma banda e que estava disputando com ele a atenção do público adolescente seu ódio cresceu, pois as duas bandas tinham estilos totalmente diferentes e ele se irritava por ser comparado ao outro rapaz, e para completar seu desgosto, não raramente e principalmente durante entrevistas ele era obrigado a ouvir as pessoas apontarem como ele era parecido com o "pouca-perna". E o pior é que era verdade. Só que Seiya tinha as feições mais delicadas do que as de Mamoru e era mais baixo, sem contar que tinha o cabelo mais longo e uma franja "suspeita", segundo o rival.
Seiya tinha viajado para fazer uns shows uma semana após a chegada dos outros integrantes da Soulless no colégio e Mamoru não sabia como havia sido durante a semana na qual seu "inimigo" teve que dividir a atenção com seus amigos, mas podia adivinhar que o outro não tinha gostado. Ele estava ansioso para que o "cara-de-pastel" voltasse de viagem por dois motivos: O primeiro era para infernizá-lo, o segundo era para ter um pouco de paz. Quando o outro voltasse talvez pelo menos a "gangue" feminina se dividisse entre os Three Lights e os Soulless, pois Mamoru tinha certeza de que o estilo musical da banda de Seiya não chamava tanto a atenção do público masculino.
"Mas chega de pensar no babaca", e com isso Mamoru resolveu prestar atenção no seu caminho para evitar ser "emboscado" por algum fã louco. Mas quando chegou ao pátio frontal do colégio, apesar de perceber muitos olhares sobre si, não viu ninguém se aproximar. Logo ele concluiu que o diretor devia ter tomado conhecimento sobre a confusão armada na hora do intervalo envolvendo ele e o resto do colégio, e provavelmente tinha reunido os alunos no auditório para tentar frear a situação. Mamoru não conteve um sorrisinho sarcástico. "Claro que o Diretor Takeda deve ter descoberto, como ele não saberia? uma manada de loucos correndo pelo colégio inteiro... Se apenas todos os outros tivessem reagido como aquela garota..." ele pensou, se lembrando da loirinha que tinha feito "pouco caso" dele. E falando nela...
Ele a avistou sentada em um banco que ficava ao lado de um canteiro, e ela parecia estar distraída. "Bom, talvez o diretor tenha conversado com o colégio inteiro, mas isso ainda não impede alguns de se aproximarem. Estando acompanhado pelo menos eu sei que diminui as chances de alguém vim atrás de mim." e com essa desculpa que ele mesmo se deu começou a se aproximar dela. Óbvio que por ter sido aparentemente evitado o fez ficar curioso sobre a garota, e a sensação de que ele já a tinha visto antes não desaparecia, o deixando mais intrigado ainda. "Estranho, eu conheço esses olhos... Ela é tão linda..."
Mamoru começou a sentir a mão suar e achou estranho; ele nunca ficava nervoso por causa de uma garota. Apenas uma, em toda sua vida, havia conseguido deixá-lo ansioso. Ele ignorou o friozinho que sentiu na barriga, terminou de encurtar a distância que o separava da loirinha, respirou fundo e falou: "Posso me sentar?"
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"... Me sentar?" Usagi se deu conta de que alguém havia falado com ela e levantou a cabeça para ver quem poderia ser e o que a pessoa queria, e então ela percebeu que era o rapaz que ela tinha encarado mais cedo. Seus olhos se arregalaram e ela ficou sem saber como reagir. "Minha nossa, como ele é bonito..." mas ao perceber o que estava pensando, rapidamente tratou de fechar a boca que nem tinha percebido que estava aberta e olhou recomposta para o moreno que estava de pé na frente dela. Ele parecia estar meio... "Corado? Será que ele estava correndo de novo?"
Mamoru não sabia o que fazer. Ela apenas estava olhando para ele, e isso o deixou nervoso. "Será que ela não quer que eu me sente e está procurando uma forma de dizer isso sem ser grossa?Acho que é melhor sair antes de ouvir algo que sei que não vou gostar..." "Bom, eu achei que estava sozinha aqui e pensei em fazer companhia, mas..."
"Não! Quero dizer, sim eu estou sozinha. Desculpa, eu só estava distraída, pode se sentar aqui" E com isso ela deu um sorriso tímido para ele. Mamoru sentiu o friozinho em sua barriga diminuir para um nível mais agradável, achando muito fofo o jeito envergonhado dela falar.
Usagi sentiu suas bochechas arderem de vergonha enquanto ele sentava ao seu lado. "Ai que vergonha, agi como uma estúpida, agora ele deve pensar que sou lerda! Mas também ele me pegou desprevenida, droga, ele é tão bonito... NÃO! Usagi boba, pensando besteira DE NOVO!" Olhou em volta e percebeu que várias pessoas estavam olhando para eles dois, algumas garotas pareciam querer matá-la com o olhar e isso a fez se sentir mais envergonhada ainda.
Mamoru decidiu começar a conversar para quebrar o silêncio tímido que havia se instalado entre eles. "Desculpa ter aparecido de repente, mas meus amigos resolveram me pregar uma peça e me deixaram sozinho, e você parece ser a única pessoa daqui que não tem vontade de arrancar um pedaço meu". Usagi o ouviu falar surpresa e pensou que suas bochechas fossem derreter quando ele a deu um sorriso sincero, deixando à mostra seus dentes alvos e perfeitamente alinhados.
"Hmm... bom, eu não te conheço, não é mesmo? Não tenho um motivo para correr atrás de você. Hehe" E ela tentou lançar um sorriso sincero como o dele, mas conseguindo apenas uma versão mais tímida, e então percebeu que ele a estava olhando espantado. "O que houve? Eu disse algo errado?!" e ela ia continuar desajeitada, atropelando as palavras falando rápido quando ele levantou as mãos tentando acalmá-la.
"Não, não! Você não falou nada de errado, só fiquei um pouco... surpreso." E ele deu um sorrisinho nervoso. O que havia de diferente nesta garota? Ela pareceu sincera quando disse não ter um motivo pra correr atrás dele, nem pareceu reconhecê-lo. "Você está esperando alguém?"
"Ahh... sim. Vou embora junto com meu irmão para casa. Ele deve estar voltando a qualquer momento, só foi guardar uns materiais com uns amigos e já chega. É que eles têm uma banda sabe, e meu irmão trata o instrumento dele como se fosse um filho, e agora que vai ter essa... O que foi?" Usagi perguntou confusa quando notou que o garoto estava sorrindo enquanto a olhava.
"Nada, é só que você me pareceu ser bem tímida, mas acho que estava enganado". Usagi franziu o cenho, para logo depois arregalar os olhos realizando que ele queria dizer que ela havia se empolgado falando.
"A-ah! D-desculpa, é que eu me senti tão à vontade conversando com você, e-eu não-" E parou quando ele começou a rir, percebendo o que ela tinha falado. "N-não! Não pense errado de mim, não foi isso que eu quis dizer..." e olhou zangada na direção dele quando o rapaz começou a rir com gosto. "Droga! Baka!" Usagi virou as costas para o desconhecido, fazendo bico quando sentiu suas orelhas queimarem de vergonha. Mamoru achou o jeito dela adorável e tentou controlar o riso, olhando para a garota que estava agora de braços cruzados olhando na direção oposta.
"Desculpa, não quis te ofender. Só que é um pouco engraçado o jeito como você se envergonha fácil e tropeça nas palavras". Ele a viu ficar ainda mais vermelha e tentou aliviar um pouco a conversa. "Você se importa se eu perguntar o seu nome? É que eu tenho a impressão de que você me é familiar..." e esperou para ver a reação dela.
Usagi olhou para ele surpresa e se virou no banco de forma a sentar de frente para Mamoru. "Eu também tive a impressão de que te conhecia de algum lugar! Bom, meu nome é Usagi Tsukino, muito prazer!" E estendeu a mão para ele apertar. Mamoru olhou para Usagi incrédulo, mas antes que pudesse fazer qualquer comentário Motoki veio andando na direção deles e deu um sorriso ao vê-los sentados juntos.
"Mamoru, Usagi! Não sabia que vocês já tinham se encontrado! Bom, já terminamos de checar os instrumentos que chegaram hoje com você, Mamoru, e já arrumamos todos atrás do palco no ginásio, e eu passei na sua sala para pegar suas coisas, já podemos ir para casa. Os outros já foram embora, como você deve estar cansado da viagem decidimos deixar para passar no Crown amanhã. Ah Usa, Mamoru vai dormir lá em casa hoje! Não é fantástico? Vamos!" e com isso ele saiu tão empolgado que não percebeu a cara de espanto dos dois que ficaram ainda sentados lá no banco.
Mamoru se virou atordoado para Usagi. "Você é...!"
"Mamoru?!" Usagi sentiu como se seus olhos fossem saltar para fora das órbitas. Tudo o que lhe vinha na mente era "O QUE?!?!"
Mamoru sentiu o agradável friozinho na barriga virar um bloco de gelo. "DROGA, eu não estava preparado para isso, não era assim que eu planejava falar com ela. Bem que eu desconfiei desses olhos... Peraí, agora não é hora de pensar nisso, o que é que eu faço?!?!" e então ele se lembrou da promessa que havia feito ao primo. Respirou fundo, rezou para que ela não o desse as costas e tentou sorrir; quando percebeu que seus músculos faciais não pareciam concordar com sua última decisão ele tentou apenas soar calmo mesmo - afinal de contas, ele era o rei do controle emocional, certo? "Nossa, faz tanto tempo que não nos vemos, acabei não te reconhecendo, me desculpe." então ele abaixou os olhos para a mão pequena que ainda estava estendida. "É um prazer revê-la, Usagi" e segurou a mão macia delicadamente.
Usagi se surpreendeu com o toque; nem havia se dado conta de que sua mão ainda estava estendida, congelada no ar, e sentiu que todo o seu rosto estava esquentando de vergonha. Sem nem pensar no que estava fazendo ela puxou a mão de volta, e quando viu os olhos azuis escuros começarem a tomar aquele tom frio ela se lembrou do que Motoki a disse no dia em que o prometeu se dar bem com Mamoru: "Mamoru não é frio, ele quer apenas proteger seus sentimentos". Novamente uma pontada de culpa apertou seu peito e o nervosismo começou a tomar conta de seus pensamentos. "E agora, ele deve ter entendido tudo errado! Faz alguma coisa Usagi, QUALQUER COISA! Ai, Kami, o que é que eu faço pra consertar?!" E então a primeira coisa que veio em sua cabeça ela fez.
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GLOSSÁRIO
Bentō: Tipo de marmita japonesa com refeição para uma pessoa, também conhecido como obentō.
Gakuran: Farda tradicional masculina dos colégios japoneses.
Kami: Divindade do Xintoísmo, espiritualidade tradicional do Japão.
Eu sei que a maioria (se não todos que leram esta fic) provavelmente já conhecia estas palavras e seus significados, já que elas são comuns por aqui, mas preferi colocar a definição de cada uma de qualquer forma. Sempre tem uma primeira vez, certo? Apesar de achar provável, ainda assim não posso tomar como garantido de que todos estão familiares com esses termos, acho que seria meio rude de minha parte... ou não, não sei. o_ô
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Coloquei apenas o que era importante na nota em negrito, então, quem quiser pular todo o resto, sinta-se à vontade ;)
Muito obrigada a todas vocês que me agraciaram com reviews, sintam-se devidamente abraçadas e paparicadas pelo nosso querido Mamo-chan: Princess Usako Chiba, sailor eternal, Isa moon, Estrela Lunar, Miss-Mandison, syssa-chan e Zillam Sup. Me desculpem pela demora de atualizar, sei que mereço um chute na canela. Canelas e dedos mindinhos dos pés além de serem ótimos detectores de móveis também são pontos vitais. Quê? Não acredita? Bata o seu pra você ver.
Mas cortando a baboseira, vamos ao que interessa: No capítulo anterior, naquela nota super dramática e chorosa eu falei que ia precisar da participação de quem estivesse lendo, certo? Pois é, a primeira coisa é: Vocês acham que os capítulos estão muito longos? Se sim, posso diminuir. Se não, a média de palavras de cada um tende a ser entre 7.000 e 10.000. Escrever pra mim mesma é um prazer, mas escrever pra compartilhar, pelo menos na minha opinião, só é prazeroso se quem está lendo também estiver gostando, então, se o tamanho dos capítulos não estiver agradando, posso diminuir ou aumentar, de acordo com o que vocês preferirem ;)
A outra "coisa" é: Vocês gostariam que eu acrescentasse aqui o desenvolvimento do relacionamento de Makoto/ Ami/ Rei/ Mina com seus respectivos (futuros) pares? Sim? Não? Ia ocupar espaço que poderaia ser usado de forma melhor? Novamente, vocês é que mandam =)
E, por último (e menos interessante), minhas desculpas esfarrapadas. Eu tenho pouquinho tempo livre e, apesar de ter até aproximadamente o capítulo quatro digitado, preciso revisar tudo antes de atualizar, por isso demorei de colocar o capítulo novo. Mas espero que tenham gostado do segundo, ele foi um pouquinho mais longo do que o planejado e não seria postado até o fim de semana, mas graças a um (meio que) puxão de orelha que recebi, acabei virando a noite pra revisar o capítulo e acrescentar partes que não tinham antes nem no original, espero ter me redimido pela demora. Novamente, se notarem qualquer coisa errada ou que não agradou, por favor, falem comigo. Fico mais que feliz em modificar.
AH SIM, quando à minha segunda pergunta para vocês... alguém aqui percebeu alguma relação entre o comportamento estranho do Zoi e o costume de uma personagem muito conhecida nossa...? Hmmm, ficadica ;D
