Papel Timbrado

(By Lithos of Lion)

Capítulo 2 – A Crueza da Realidade

Aos poucos sentiu o barulho da praça voltar aos seus ouvidos. As lágrimas em seus olhos ainda corriam de forma abundante e chamavam a atenção de uma ou outra pessoa mais solidária, mas nenhuma se aproximava dele.

Chacoalhava o envelope, até que resolveu rasgar aquele lacre e ver finalmente o que tinha dentro. Qual seria o resultado...

Ele não perderia nada com aquilo, não ele que já perdera tudo. Sem Yuki o que denominava vida não importava mais. A vida dele não era nada quando se via sem o outro, afinal como ele tantas vezes afirmara era aquele amor que o fazia ter ânimo e seguir em frente.

A dor era forte, mais forte do que realmente poderia suportar. Traição. Abandono. Mágoa. Amor... Ódio...

Mistura de sentimentos que o faziam querer gritar e correr para qualquer lugar, se esconder para sempre, fugir... Ele queria fugir.

O papel amarelado chegou em suas mãos, passou a mão pelas letras gravadas a tinta sobre ele.

Leu.

HIV – Soro Positivo.

Choque. Palavras cruzando a sua mente.

Soro Positivo...

Soro Positivo...

Soro Posi..

Sor..

Positivo..

AIDS!

Vírus da Imunodeficiência Adquirida...

AIDS!

O que diziam na escola. MATA.

AIDS MATA!

Soro Positivo...

Morte...

Tudo gira.

oOo

- Suichi! Suichi! Você está bem!!! – ouviu uma voz familiar o amparando, sentia-se zonzo. – Alguém, alguém por favor, me ajude aqui.

Passos. Alguém se aproxima? Tampe, lacre novamente esse papel... Não deixe que vejam... Quem me socorre. Você me conhece...

Eu conheço essa voz.

- Suichi... Suichi sua consciência está voltando... Não... Rápido, preciso de ajuda!

Som de ambulância...

Já estou morrendo.

Onde está Yuki... Chamem o meu Yuki. Eu não posso, não sem vê-lo... Deixe que eu...

Escuridão.

oOo

Hospital – Tokyo

- Esse garoto teve sorte, mais sorte ainda de alguém conhecido o encontrar. Como pode chegar em um estado como este? Parece que não se alimentava há dias...

- Doutor, ele ficara bem? – o médico continua o exame, frio e distante em seu posto.

- Vocês jovens, montam suas bandas e esquecem de vocês próprios, largam-se em um tipo de vida que não tem mais volta... Pobre rapaz.

- Doutor... – seguro o braço dele. – Estou perguntando se Suichi irá se recuperar.

- Claro que vai, foi atendido a tempo e já está tomando soro, veremos mais de seu estado quando acordar. Mas, creio que não será só essa a providência a ser tomada.

- Algo grave? – o médico o olhou de maneira estranha.

- Quando ele acordar veremos quais providências tomar, no momento, seu estado é estável.

Hiro se sentou inconformado ao lado da cama do amigo. Queria mais informações, não sabia o que levara Suichi a estar naquele estado...

Suichi estava bem mais magro, os olhos estavam fundos e sua pele terrivelmente pálida. Nunca vira o amigo, que estava sempre alegre, daquela forma, tão frágil.

Passou as mãos levemente pelos cabelos rosados do outro. Será que fora alguma briga com Yuki? Quando o procurara no apartamento não encontrara nenhum dos dois e já fazia algumas semanas que Suichi havia sumido dos ensaios da banda, sem avisar ninguém, nem mesmo a ele.

O outro suspirou pesadamente.

- Que susto me deu Suichi...

Estava indo a caminho da casa do amigo, onde ele morava antes de ter conhecido Yuki Eire. Foi quando o encontrou...

Estava curvado sobre si mesmo, no banco da praça, parecia estar passando mal, terrivelmente mal. Quando se aproximou notou que já perdia a consciência, amassava um papel com violência nas mãos e não deixava que ninguém o soltasse. Seu rosto estava repleto de lágrimas.

Pediu ajuda. Gritou por ajuda.

Ela veio, a ambulância chegou e agora estava ali, ao lado do amigo, que dormia pesadamente em um leito de hospital.

O papel sumira, talvez retirado pelas mãos dos médicos. Isso o incomodava. Suichi não queria que pegassem o papel, tinha certeza.

O que tinha naquele papel?

Sentiu movimentos e um arfar meio assustado, levantou o olhar e se defrontou com os violeta que acabavam de se abrir... Um sorriso cálido brotou no rosto pálido preso ao leito.

- Hiro.

A mão fraca segurou na sua.

- Calma, estou aqui. Trouxe você para o hospital, não estava bem... – Suichi procurou algo sobre si mesmo.

- Onde está? Onde está o papel... – tentou se levantar, mas foi impedido por Hiro.

- Não sei, acho que com os médicos, acalme-se, você não pode se esforçar...

O Olhar de Suichi se preencheu novamente com lágrimas e com um empurrão afastou as mãos que o seguravam.

- Não toque em mim... Não pode tocar em mim...

- Mas, Suichi... O que...

Levantou-se. Tentou arrancar a agulha que lhe levava soro até as veias, não conseguia, estava fraco, muito fraco. As coisas começaram a girar novamente. Hiro se aproximou, tentava fazer com que voltasse para a cama.

Tentava com todas as forças empurrá-lo, fazer com que se afastasse dele.

Enfermeiras entraram no quarto. Agora não conseguia resistir mais...

Sedativo.

Sentiu as únicas forças que possuía se esvaírem...

A última coisa que viu foi o rosto assustado de Hiro...

Hiro.

Inconsciência.

Continua...