(N/A): Olá! O segundo capítulo saiu antes do que eu esperei, justamente porque a fic já está com alguns capítulos escritos e eu estou me organizando para não atrasar com os outros. Queria agradecer a quem já visitou ainda que tenha sido apenas para ler o trailer; a participipação de vocês me é muito importante!
Espero que gostem dessa estreia. Novos capítulos, em breve.
Beijos,
Lis Black.
Cap. I – Brincando com o destino
Fazendo um bico, ela subiu as escadas pulando os degraus de dois em dois, os livros apertados entre seus braços e bufando palavrões inaudíveis. Estava com o rosto escarlate, os pulmões ainda lutando para inalar o ar depois de ter passado minutos seguidos esperneando sem uma trégua sequer; apesar de estar habituada em executar sermões de longa duração, brigar com James sempre deixava a garota excepcionalmente cansada, mais do que o comum. Respirava fundo, tentando recobrar o ritmo da sua respiração, mas o esforço de subir a escada só a atrapalhava mais ainda.
Absorta em seus muxoxos, mal prestava atenção no caminho que seguia e, quando faltavam cerca de dez degraus para atingir a porta do dormitório, pisou em falso e escorregou, rolando escada abaixo. Lily Evans parou exatamente ao final da escadaria em forma de espiral da torre de Gryffindor e mesmo sem levantar o rosto, pode sentir um indivíduo completamente familiar se aproximando a passos suaves do local em que a ruiva agora estava caída de bruços, os olhos cheios de lágrimas devido à raiva que a consumia plenamente. Ela colocou uma mecha de seus cabelos ruivos brilhantes atrás da orelha.
- Eu pedi para você não correr, não pedi? Tão teimosa, Lily... Esse seu gênio ainda vai te consumir, sabia? Eu estou pensando seriamente em lhe dar uma poção calmante de Natal. – ele disse com um tom que pretendia ser brincalhão e acusador simultaneamente, enquanto estendia a mão para ajudá-la a se levantar – Sinceramente, você não ganha nada com isso.
- Ganho preciosos minutos longe de você, Potter. Isso vale o meu dia, mesmo que eu tenha que cair dessa maldita escada centenas de vezes. – ela retrucou emburrada, pegando-lhe a mão, ainda que a contragosto. Ela ficou em pé e fitou o garoto sorridente parado ao seu lado, balançando-se apoiado em seus dois pés - Mas o quê, realmente, há de tão engraçado? – ela perguntou, aborrecida – Você nunca viu ninguém cair antes, por acaso?
Enquanto recolhiam os livros jogados ao chão, James observava a ruiva astutamente, estudando cada movimento de seu corpo para então escolher as palavras certas para pronunciar. De fato, era extremamente fácil lidar com Lily Evans, se você soubesse exatamente o que dizer; talvez, por isso, James sempre escolhia o caminho mais difícil, irritando a garota repetidas vezes. Dizer o que ela queria ouvir era, verdadeiramente, muito simples e isso acabava com toda a emoção da conquista. E, por outro lado, James estava determinado a conquistá-la pelo o que ele era, e não pelo que fingia ser apenas para satisfazê-la.
- Acontece que seres tão incrivelmente baixos como você tem menos propensão a cair, mas ainda assim você consegue rolar escada a baixo, ruiva. Admirável! – ele riu e nada ela podia dizer contra, já que tinha plena consciência da baixa estatura com a qual fora abençoada - Lily, você é tão inteligente... Podia realmente começar a usar essa sua capacidade intelectual com coisas úteis de verdade e não com ninharias como fazer uma bela porção para agradar o velho Slugh. – ele disse, fingindo falso interesse, enquanto entregava a menina uma pilha de livros.
- Eu não faço boas poções para agradar nenhum professor, mas porque eu quero ser uma profissional melhor do que com certeza você será. – ela respondeu, mas viu que ele não se deu por vencido – Ok, Potter. Então me diga o quê, na sua humilde opinião, não é desperdício de intelecto. – ela disse, revirando os olhos e recebendo os livros.
- Bom, parar de ser tão rabugenta é uma opção. Mas, deixando isso de lado, eu diria que começar estudar formas de me fazer feliz, no lugar de estudar para os NIEM's, seria um bom emprego para a sua massa cinzenta. – ele disse, passando a mão nos cabelos.
- Por Merlin, tenha dó! – ela exclamou, dando as costas a James – Potter, me faz um favor, certo? Se mata. Ia ser uma forma ótima de economizar o oxigênio do mundo.
Então Lily começou a andar a passos apreçados, novamente em direção a escada. Começou a subir seus degraus, dessa vez de forma mais tranqüila, mas parou abruptamente ao ouvir a voz de James.
- Quê isso, Lily? Não precisa ser tão difícil, vai! Nem vai ser tão ruim assim, juro que não... Me aceitar na sua vida, na verdade, seria a coisa mais incrível que você já teria feito nos seus dezessete anos de existência.
Ela voltou-se para ele, a raiva dessa vez explícita em seu olhar. Seu corpo tremia levemente e se manter em pé de repente pareceu uma tarefa difícil de ser executada. Segurou os livros só com um braço e ergueu o dedo indicador da outra mão na direção de James, que ia desfazendo sua postura à medida que a menina se aproximava. Ele fez uma careta, imaginando o que viria a seguir.
- Escute aqui, James Potter: eu sou maior de idade, vacinada e, de certa forma, independente. Então não venha você me dizer o que é melhor para mim, está bem? Eu estudo desde a hora que acordo até quando vou dormir, exceto nos momentos em que não estou sendo torturada no Clube do Slugh ou quando não estou pagando os meus pecados monitorando pirralhos do primeiro ano e certos cabeças-ocas do sétimo, se é que você me entende. Em suma: nem se você fosse o mais maravilhoso dos seres dotados do cromossomo Y, o que claramente não é, eu o colocaria na minha vida, porque simplesmente... Ora, eu NÃO tenho tempo para isso. – ela parou um instante, recobrando o fôlego – Deu para entender ou quer que eu faça mímica?
- Recapitulando: o problema, agora, não sou eu, mas sua falta de tempo? – James perguntou, enquanto fazia um biquinho falsamente inocente – Isso não é problema, Lils, juro que não vou pegar no seu pé, você terá o tempo que precisar para realizar todas as suas atividades. Sem neura.
Ela fez uma cara de choro, como se finalmente se rendesse a uma batalha perdida. Franziu o cenho e bateu um pé no chão, esperneando como uma garotinha de cinco anos.
- Ah, Potter, tenha pena de mim, vá! – pediu em um fiapo de voz, que desestruturou completamente o sorriso pródigo que se formava no rosto de James. Ela novamente virou para a escada e começou a caminhar em passos arrastados, deixando evidente o cansaço por realizar todas as tarefas de que reclamara.
Subiu as escadas vagarosamente, os pensamentos vagos, onde flutuava o rosto penoso do garoto que ela havia deixado no andar de baixo, fitando-a com uma mistura de preocupação e solidariedade. Refletiu sobre todas as suas obrigações, enquanto só tinha dezessete anos e o direito de aproveitar como um adolescente comum o seu último ano de escola: fazendo brincadeiras com os amigos, organizando festas de despedidas e estudando, mas sem tamanha exigência, para os NIEM's. Pensando nisso, a raiva voltou a refletir no olhar de Lily, pulsando em suas veias como um veneno que se espalhava, e ao adentrar no seu dormitório, ela fechou a porta atrás de si com a maior força que conseguiu reunir, jogou no chão os livros que segurava e começou a chorar.
O dormitório estava aparentemente vazio. Junto com Lily, lá dormiam mais quatro garotas, entre as quais estavam suas melhores amigas, Melina Murphy, uma loira de olhos negros, e Liana Donovan, uma morena de olhos incrivelmente azuis; a última, naquele momento, cumpria uma detenção monitorada por Remus Lupin e as outras duas meninas, chamadas Isabella e Jennifer, estavam em alguma parte da escola. Somente Melina presenciou o momento em que Lily sentou-se no chão do quarto e debruçou-se em lamúrias.
- Lily? – chamou Mel, cuidadosamente, antes de se aproximar da amiga – Lily, por Merlin, o que houve?
A garota ruiva mal conseguia visualizar a sua companheira, seus olhos afundados em lágrimas grossas. Ela suspirou como se exalasse para fora de si algo que a consumia e então abraçou Melina como se não a visse há muito tempo, enquanto afagava o rosto nos longos cabelos morenos da amiga.
- Ah, Mel, eu não consigo mais, não consigo...
- Lily Evans, você quer fazer o favor de me falar o que aconteceu? – perguntou novamente, colocando o rosto de Lily entre suas mãos – Foi o James? Droga, eu pedi para ele ser mais suave com você, ele andou exagerando com as críticas desde que você saiu com o Diggory mês passado...
- Não é nada disso, Mel, por favor... – Lily tentava dizer, entre um soluço e outro.
- Então vocês brigaram, de novo, porque motivo? Na boa, Lily, eu acho que você deveria assumir de uma vez o que sente pelo James, porque tudo isso já está tão cansativo emocionalmente para todos que eu não sei mais nem o que te aconselhar. Aliás, para quem odiava ontem, hoje você já está apaixonada demais, não acha? – Mel perguntou, a voz com um leve tom de brincadeira, como se quisesse mostrar à amiga algo que só ela não percebia.
- Caramba, Melina, eu não estou apaixonada pelo Potter! – conseguiu por fim falar, sem ser interrompida por um soluço, ficando em pé em frente à Melina – Aliás, o único que não é culpado por eu estar assim é aquele garoto.
Uma sombra de desentendimento passou pelo rosto de Melina; ela fitou a feição da amiga a sua frente e depois focalizou os livros jogados no chão. Passou um tempo variando seu olhar de um para outro, até que finalmente pareceu ter compreendido a razão para o choro de Lily.
- Eu. Não. Acredito. – ela disse baixinho, enquanto caminhava até a sua cama e nela sentar na mesma posição que estava antes de Lily chegar ao quarto, as pernas cruzadas e apoiando nelas um livro de adivinhação – Poupe meus nervos, Lily. E eu aqui preocupada, pensando que algo realmente sério tinha acontecido. Onde já se viu, chorar por causa de provas. Você é garota mais inteligente do nosso ano. Se você está chorando por isso, eu já devia ter desistido da escola.
Lily fez uma cara carrancuda, como se esperasse essa reação da amiga há muito mais tempo. Recolheu todos os seus livros, jogou-os na sua própria cama e depois seguiu para sentar-se ao lado de Mel, já novamente absorta em sua leitura.
- Certo, é o seguinte: já chega! É aula pela manhã, aula pela tarde, mil deveres para fazer à noite, relatórios de monitoria, vigilância de detenções... A escravidão já era, meu bem! Então, porque diabos eu estudo as vinte e quatro horas do dia? Estão me achando com quê, com cara de elfo doméstico? Não há criatura nesse mundo que aguente! – ela despejou as palavras de uma só vez, suspirando ao final, visivelmente mais aliviada.
Mel olhou de soslaio para Lily, um sorriso de descrença formando em seu rosto.
- Ok, e o que você vai fazer? Uma revolução escolar? Uma passeata estudantil? Um abaixo assinado anti-NIEM's? – ela perguntou, um sarcasmo profundo marcando a sua tonalidade de voz.
- Claro que não, bobinha. Eu vou fazer um pedido. Isso deve bastar. – respondeu a ruiva, um sorriso de superioridade em sua face.
Subitamente, um pavor intenso se espalhou por todo o corpo de Melina. Ela saltou da cama e caminhou até ficar ao lado de Lily, que já estava curvada sob seu baú, evidentemente procurando por algo.
- Pelas ceroulas de Merlin! Cadê a Lily Evans que eu conheço e o que você, ser lunático, fez com ela? – perguntou Melina, a voz urgente, sacudindo Lily pelos ombros.
- Morreu! Aquela Lily está a sete palmos abaixo de chão e deu lugar a outra, com uma nova filosofia de vida: carpe diem, já ouviu falar? – Lily gargalhou abertamente enquanto se livrava dos braços da amiga – Eu não vou me jogar pela janela, não se preocupe. Não sou assim tão drástica quanto você.
- Talvez nós sejamos amigas por isso, sabe? Temos tanta coisa em comum... – Melina respondeu, visivelmente ofendida.
- Não mais. Agora eu vou viver a vida de uma forma leve, sem qualquer tipo de drama. – respondeu Lily, sorrindo abertamente, o olhar perdido na ideia de algum plano que surgia.
- Certo, você está louca. Completamente pirada. – concluiu Melina, caminhando de um lado para o outro – E o que se pode fazer com uma pessoa nesse estado? Eu não vou te internar, James me mataria de forma lenta e dolorosa e depois jogaria o meu corpo para os gigantes e eu seria devorada como sobremesa. Ok, - ela parou, às costas de Lily – escuta, Lils. Isso que você quer fazer... Sabe que não é brincadeira, não sabe?
- Isso, querida Mel, é uma coisa que nós veremos em um segundo... Me deixe só achar aquele troço... – a voz de Lily foi ficando mais abafada à medida que ela colocava a cabeça dentro do baú, tentando procurar o objeto mais a fundo.
- Céus, isso é culpa minha. Eu não devia ter lhe dado...
- A fonte. Se bem que isso está mais para poço que para fonte... – Lily completou, enquanto apoiava em sua mão uma caixinha minúscula – Eu sabia que não devia ter jogado fora, algo me disse que eu ia, em algum momento, precisar fazer um pedido.
Ela caminhou até a cama de Melina, com a amiga em seus calcanhares. Sentou-se e, mal podendo se conter de tanta ansiedade, foi abrindo com cuidado a caixinha que tinha nas mãos. Dentro estava uma espécie de reservatório rochoso, de um cinza brilhante; tinha, em seu interior, um pó que mais parecia um tipo de purpurina cintilante e transparente. Era tão pequeno e tão raso que Lily podia segurar entre seus dedos anular e indicador e, ao fazer isso, o seu olhar, juntamente com o da garota ao seu lado, faiscaram quase tanto quanto o pó que jazia dentro do depósito redondo à sua frente.
- Você nunca acreditou em misticismo. – Melina observou, a voz sem nenhuma emoção.
- Eu também não acreditava em magia até meus onze anos, e cá estou eu. – respondeu Lily, dando de ombros. – Agora, chega de ser mal-tratada, chega de escravidão de maiores de idade...
As duas não conseguiam tirar os olhos do objeto, pareciam enfeitiçadas pelo mesmo. Só o fizeram quando Lily, com muito esforço, se levantou e caminhou até o banheiro. Um minuto depois, a ruiva retornou com a fonte cheia de água. Caminhou, segurando o objeto cuidadosamente com as duas mãos, até ficar ao lado da mesinha que tinha próxima a cama de Melina. Lá, depositou a fonte e seguiu para a sua mala de onde, depois de muito mexer, tirou um anel dourado com uma pequena esmeralda verde. Enquanto caminhava até a mesa, olhou desconfiada para Melina, que desde que vira a fonte, não havia se movido um milímetro sequer.
- O que foi? Está em transe, por acaso? – perguntou Lily, tentando ocultar o nervosismo que estava lentamente se apoderando de seu corpo.
A ruiva nunca foi de acreditar em mitos. De fato, toda a parte da magia que estudava coisas míticas como charadas do destino e previsões era, por ela, consideradas a maior perda de tempo. Mesmo com esse ceticismo, conseguia ser amiga de Melina, conhecida em todo o colégio por sua crença absoluta em espiritualidade e que era justamente filha da professora de Adivinhação de Hogwarts. Havia ocorrido que, no natal passado, há quase um ano, em uma tentativa frustrada de mudar os ideais de Lily, Mel tinha dado a amiga um objeto conhecido vulgarmente como fonte dos desejos. "Basta encher com água pura, jogar um objeto pessoal seu e fazer um pedido", tinha dito. No entanto, Lily se limitou a sorrir em agradecimento e jogar o presente no fundo de seu baú, de onde ele não havia saído até aquela noite.
- Você disse que nunca ia acreditar nesse tipo de coisa, que era baboseira minha. – disse Melina, um sorriso amarelo nos lábios.
- Ora, situações desesperadoras pedem medidas desesperadas. Se eu não ganhar nada com isso, perder é que também não vou. – disse a ruiva, se apoiando nos joelhos para ficar da altura da mesa – Qualquer objeto pessoal vale, certo? Eu só encontrei esse anel que o Potter me deu de aniversário...
- Se você aceitou de coração, é seu. Certamente vai valer. – respondeu Melina, pondo-se ao lado de Lily – Adianta alguma coisa eu pedir para você não fazer isso?
- Não. – a outra respondeu com a voz seca, avaliando o anel em sua mão como se repensasse no que estava preste a fazer.
- Lils, não faz isso... Você não sabe o que pode mudar. Você não sabe as consequências dos seus atos. Brincar com o seu destino desse jeito pode ser... Desastroso. – Melina disse, a voz sombria.
Lily olhou para a loira como se pedisse desculpas; em um gesto que ela achou mais idiota que fazer pedidos a uma poça cheia de água do banheiro, ela beijou o anel e afundou-o na fonte.
- Meu maior desejo é ser adulta. Formada e trabalhando, de preferência. Ter minha casa, meu emprego e minha vidinha sossegada, sem nenhum dos problemas que eu tenho hoje. Nada de estudos, nada de dever de casa, nada de Clube do Slughorn cara-de-sapo e, por Merlin, nada mais de monitorar escola. Vamos pular uns dois anos da minha vida, que tal? – ela perguntou, indecisa, olhando para a feição de pavor que se formava no rosto de Melina – É, dois anos está bom. É o que eu desejo... E desejo que aconteça agora.
Elas ficaram em silêncio. Colocaram os rostos em posição para que pudessem ver o conteúdo da fonte de cima e, por um segundo, pareceu que o anel iria permanecer na posição em que Lily o havia colocado. Mas, no instante seguinte, a água da fonte começou a borbulhar e o anel foi aos poucos sendo envolvido pela purpurina, que vagarosamente parecia ficar verde, o mesmo verde da esmeralda que enfeitava o anel.
- Ai, que droga. – resmungou Melina, mordendo o lábio inferior.
- O quê, não era para acontecer isso? – perguntou Lily, atônita, mas com um tom delicado que atenuava a causa de seu ceticismo.
- Pior: acho era para acontecer exatamente isso. – a voz de Mel agora parecia cercada de medo, enquanto ela se colocava em pé e puxava Lily pelo ombro, obrigando-a a fazer o mesmo movimento.
De cima, elas viram todo o processo acontecer. O anel agora estava se desfazendo na água, como se fosse um remédio efervescente. A pedra preciosa também executava o mesmo processo ao mesmo tempo em que pareci tingir o líquido e a própria fonte, que iam atingindo o tom verde, o mesmo da esmeralda, o mesmo dos olhos de Lily. As duas meninas deram um passo para trás quando o reservatório começou a regurgitar gota por gota, que iam lambuzando de tinta verde a cama de Melina, o chão do dormitório e tudo que conseguia alcançar.
- Epa. – arquejou Lily, colocando a mão na boca e observando a fonte começar a inchar, dobrando de tamanho com uma velocidade assustadora – Essa é a parte que a gente corre, concorda?
- Com toda certeza. – acentuou Melina, quando a fonte já havia atingido o tamanho da mesa onde estava apoiada.
E, no instante que as meninas deram as costas para sair do quarto, tudo explodiu. Ou pelo menos, parecia ter explodido, devido ao barulho que havia feito. E em um instante, tudo estava pintado de verde, cada cama do quarto, cada fio de cabelo que cobria o rosto molhado de Lily e Melina. Com a força da explosão, elas foram jogadas já bem próximas à porta, caídas de bruços. Melina estava desacordada e Lily ainda conseguiu visualizar a amiga ao seu lado e o quarto com o aspecto enlameado antes de colocar seu rosto no chão e desmaiar também.
(...)
A cabeça de Lily estava pesada, como ficava sempre que ela passava a noite sob os livros. O seu corpo parecia não querer obedecer aos comandos do cérebro para se locomover; parecia que cada centímetro que ela se mexia resultava em um corte interior, que dilacerava seus músculos. Não conseguia gritar, não conseguia chamar por ninguém; sua voz parecia afundar junto com ela em um abismo de silêncio, onde só suas dores eram perceptíveis. Por um segundo, pareceu ter ouvido o seu próprio gemido, mas se deu conta que agora uma superfície fria tocava o seu corpo; nada parecido com a massa gosmenta que estava tocando a sua pele nos momentos anteriores.
Deu-se conta que, aos poucos, uma luz parecia querer atravessar os seus olhos cerrados e que ela forçava cada vez mais a manter fechados. Em um suspiro, percebeu que conseguia respirar, diferente do que pensava; fez um esforço, então, para tentar mover um dedo da mão esquerda, mas o esforço que há pouco teria sido em vão parecia, de repente, ser em excesso, e ela moveu não só um dedo, mas toda a mão, de foi diretamente a encontro de seu rosto.
- Ai. – gemeu baixinho, a voz rouca, quando a sua mão gelada tocou seu rosto com um pouco mais de violência que o necessário.
Respirou fundo e, compreendendo que de nada ia lhe adianta permanecer naquele estado, forçou-se a abrir os olhos. No início, a luz penetrou em sua íris como um breu, que a cegou diante de tudo que estava ao seu redor; só aos poucos Lily foi se acostumando com o novo ambiente, bem mais iluminado que aquele em que ela julgava se encontrar há pouco tempo. A primeira coisa que viu foram os pés do que parecia ser um tipo de poltrona; só então notou que o frio que sentia devia-se ao fato de estar deitada no chão nu do cômodo.
- Eu espero sinceramente que eu esteja sonhando... E que alguém me acorde logo, logo. – ela pôs-se em pé sob algum esforço e olhou ao seu redor – Ca-ram-ba. Que diabos...
O ambiente ao seu redor era bem simples. Um quarto amplo, com uma cama box de casal ao centro – sua colcha e lençóis mais desarrumados do que qualquer outro que Lily já tinha visto na vida. Sob a cama, pendurado na parede, um quadro de algum expoente do modernismo, provavelmente europeu, cujo nome a garota não se recordava. Ao lado esquerdo da cama estava a poltrona cujas pernas Lily havia visto ao acordar e, do lado direito, um criado-mudo com um jarro de flores e um porta-retrato com uma foto de duas pessoas que ela não conseguia reconhecer de longe. O guarda-roupa em frente à cama e, embutido no mesmo estava uma televisão enorme, ligada em um programa de culinária. As paredes eram de um branco gelo, e isso fez com que Lily esbanjasse imediatamente uma cara de desgosto.
- Legal, eu não faço idéia de onde estou. – ela resmungou, enquanto ia até o guarda-roupa e abria uma de suas portas, onde havia taxiado um espelho – E essa no espelho parece bem comigo, só que com uns peitos de dar inveja. – ela se mexeu e viu o seu reflexo a acompanhar.
E então ela entendeu. Não conseguia se mover, como se processasse a informação absurda que havia acabado de chegar ao seu cérebro. Palavras soltas como "desejo", "fonte" e "anel" vagavam em sua cabeça, tentando se unir e formular uma resposta que Lily já tinha há muito tempo, mas que negava por parecer o mais seguro. Ela avaliava cada parte de seu corpo que, na realidade, não havia mudado muito: estava uns cinco centímetros mais alta, mas isso não fazia com que ela deixasse de ter uma estatura um tanto abaixo da média; seus cabelos estavam mais longos, quase alcançando sua cintura, e agora tinha um ruivo mais escuro. Seu corpo categoricamente era o que mais tinha sofrido mudanças: seu rosto havia perdido totalmente as feições infantis e seus seios e seu quadril estavam mais desenvolvidos, porém nada que a tornasse irreconhecível se comparada a garota que era no dia anterior. Ela girou o corpo de um lado para o outro, examinando cada ângulo. Passou a mão na cocha direita e apertou-a, sentindo também a seda que formava a camisola verde que ela trajava.
- Tá brincando... Isso não pode estar acontecendo de verdade, de jeito nenhum. Merlin, não precisava me levar tão a sério, de maneira alguma. – ele sussurrou, olhando para o teto – Certo, muita calma nessa hora. Você é uma pessoa controlada, Lily, focus nisso!
Ela inspirou um pouco de ar e virou para a porta do quarto que, só agora ela havia notado, estava aberta. Vestiu um robe e seguiu para a porta; colocou a cabeça para fora do cômodo e fitou um corredor pequeno, onde havia mais duas portas e uma saída que parecida dar para a sala, que foi para onde ela seguiu, deixando para trás o barulho da tv. Ao chegar no outro recinto, andando nas pontas dos pés, reiniciou seu processo de reconhecimento de território. Avaliou os dois sofás cinzas que estavam sob um tapete vermelho na sala, que tinha mais outra televisão gigantesca e um aparelho de dvd's colocados em uma estante enorme, que tinha ainda vários cd's de música e dvd's, algumas revistas semanais e alguns objetos com formas estranhas, aparentemente com colocação para enfeitar.
A garota constatou que, quem quer que morasse naquele lugar seria um irrevogável admirador de coisas excêntricas; porém, não deixou de ficar aliviada com a dedução de que, apesar disso, pareciam ser pessoas normais. Depois, ela reparou que estava enganada em outro aspecto: ao olhar além da janela da sala, ela viu a certa distância o ponto máximo de alguns prédios, o que significava que ela estava em um apartamento e não em uma casa, como havia imaginado a princípio. No outro extremo do cômodo, sem nenhuma porta para separar, ficava a cozinha. Atrás de uma mesa comprida de mármore cinza, havia o básico: geladeira, fogão, forno microondas e outros eletrodomésticos ao lado da pia. Havia ainda um enorme armário embutido, provavelmente lotado de outros objetos. Tudo muito moderno e requintado, minuciosamente arquitetado, bem diferente dos padrões com que Lily estava acostumada.
Apesar de nunca ter vivido em uma casa ruim, aquilo realmente era mais do que Lily estava acostumada. Cada objeto de decoração, cada móvel parecia ter sido colocado lá por um profissional especializado em organização de casas; todo o espaço era calculado para que tudo ficasse em seu devido lugar sem que atrapalhasse o movimento de quem vivia naquela habitação. Depois de examinar todo o ambiente com o máximo de precisão que a sua surpreendente calma permitia, ela virou-se para uma mesinha redonda que ficava entre os dois sofás e apanhou um punhado de papéis que estavam ao lado do telefone que lá se encontrava.
- Ligar para papai, ligar para a costureira... – ela lia, passando de papel a papel – Legal, uma conta de telefone endereçada a mim. Nem tudo é perfeito, afinal, eu tinha mesmo que estar endividada. Lily Evans, Avenida 01, Prédio 145, Apartamento 1502, 15º andar... – ela parou, prendendo a respiração – 15º ANDAR? – o pânico tomou conta de sua voz e de seu rosto, que agora mirava tudo ao seu redor como e pela primeira vez visse cada objeto, cada móvel ali presente - Certo, eu moro aqui. EU MORO AQUI! – ela jogou os papéis para cima e começou a andar em círculos - Mas as paredes são brancas... Eu jamais pintaria as paredes da minha casa de branco! Eu já tenho branco o suficiente na minha pela para morar em um lugar tão branco quanto eu! E tão alto... Onde eu enfiei meu pavor de altura, onde? – ela perguntou a si mesma, coçando a cabeça.
- Ainda pensando nisso, Lils? Pensei que depois de aprender a voar você tivesse superado esse trauma. – ele deu um beijo na testa da garota – Bom dia, meu amor.
Lily ficou estática, não sabia ela se por causa da voz que tinha ouvido, da pessoa que tinha visto, por James ter lhe dado um beijo ou se pelos três motivos juntos. Ela o acompanhou caminhar pelo corredor, uma toalha enrolada em sua cintura e a outra nas mãos, secando o cabelo. James entrou no mesmo quarto de onde Lily tinha saído e aparentemente mudou o canal da televisão, colocando em uma recepção onde tocava uma música de alguma banda que ela não reconheceu.
