Pessoal, fiquei muito feliz com os Reviews. Vou tentar postar todo dia, por isso os capítulos vão ser divididos no máximo em 3 partes. Esse aqui foi dividido em 2.
Vou parar de tagarelar, curtam o cap. Bjss e até amanha :*
Capítulo I- Parte 1
O demo ainda dormia. Isabella Swan estava espremida contra a janela da carruagem. O fazendeiro a seu lado literalmente resfolegou, jogando o considerável peso sobre ela. Cada movimento vinha acompanhado de um horrível cheiro de peixe amanhecido, misturado com suor.
Ela olhou novamente para o homem sentado à sua frente. Mesmo dormindo, o rosto pálido, de feições finas e nariz aristocrático, era arrogante. A simples lembrança dos frios olhos azuis que a fitaram ao entrar na carruagem, em Londres, lhe causava arrepios. As feições dele lembravam as de Satanás no quadro Paraíso Perdido que seu pai tinha na biblioteca de casa. Com certeza se tratava de um típico cidadão londrino, preguiçoso, inútil, beberrão, presunçoso, conquistador, fruto degenerado de anos de cruzamento da espécie.
Bella engoliu em seco. Seu tio era um nobre, afinal. E se ele fosse tão frio quanto aquele sujeito?
O cocheiro fez uma curva para entrar no pátio de uma estalagem. Bella se retraiu para esquivar-se ao toque desagradável da volumosa coxa de seu vizinho, e o movimento brusco fez com que ela batesse o cotovelo no painel de madeira abaixo da janela da carruagem. Ela apertou os lábios para sufocar um gemido de dor, mas era tarde demais. O dorminhoco à sua frente acordara.
Os olhos azuis e frios brilhavam de raiva. O sujeito fitou-a, e o olhar profundo passeou lentamente desde uma mecha castanha que ela sentia cair sobre a testa, descendo até o decote do vestido simples. O lábio superior se curvava num leve sorriso malicioso. Bella tinha vontade de desaparecer atrás da cortininha da janela. Até mesmo o gordo fazendeiro ficou sem-graça.
Felizmente, a porta da carruagem se abriu naquele momento.
— Green Man! — gritou o cocheiro. — Melhor descerem para esticar as pernas.
Antes de descer, o mal-encarado olhou mais uma vez na direção de Bella. Quando ele saiu, o vizinho de assento soltou um longo suspiro, que, no fundo, expressava a mesma sensação de Bella.
— Que alívio — o fazendeiro murmurou, espremendo-se ao sair pela portinhola da carruagem.
Bella esperava ansiosa por sua vez. Estava sentada desde a partida de Liverpool, e tinha a impressão de que seu corpo inteiro estava dormente. Quando o cocheiro lhe estendeu a mão, ela aceitou agradecida e esticou as pernas sobre o chão de pedra.
— A senhorita está bem? — Um par de pequenos olhos cinzas a fitaram com preocupação, por sob espessas sobrancelhas escuras.
— Sim, obrigada. Estou bem. — Ela soltou a mão do homem para retirar duas moedas da bolsinha, que desapareceram entre os dedos carnudos do cocheiro.
— Espero que alguém a venha buscar — disse ele, embolsando a gorjeta.
Bella olhou ao redor e puxou o cordão da bolsinha.
— Tenho parentes que moram aqui perto.
— Ótimo. — O homem tocou na aba do chapéu. — Bem, então, boa noite, senhorita. — Ele se aproximou e acrescentou, baixando a voz: — Se eu fosse a senhorita, manteria distância daquele sujeito que estava na carruagem... o grã-fino.
Bella meneou a cabeça.
— Certamente.
— O gordo fede a peixe. Mas o grã-fino... — O homem balançou a cabeça. — Ele cheira a...
— Coisa maligna. Eu sei. Espero nunca mais vê-lo.
Bella sorriu para o cocheiro e entrou na estalagem. Era uma construção sólida e aconchegante. A luz e o som de vozes escapavam pelas janelas. Era possível ouvir até mesmo o tilintar dos utensílios de prata e das canecas, misturado às gargalhadas dos homens no salão principal. O aroma de cerveja e carne assada penetrou-lhe nas narinas, mas seu estômago se contorceu em protesto. Estava cansada demais para comer. Tudo que precisava era de um quarto e de uma cama quentinha onde pudesse se deitar.
O estalajadeiro ajeitou os cabelos oleosos e comprimiu os lábios, fitando Bella quando ela se aproximou do balcão da recepção.
Ela respirou fundo e levantou os ombros. Não tinha tempo a perder com cara azeda.
— Preciso de um quarto para passar a noite, por favor.
— Não temos nenhum.
— O senhor deve ter pelo menos um! — Afinal, ela não poderia aparecer na casa do tio àquela hora da noite. — Partirei logo cedo. Vim visitar meu tio, o conde de Hale.
O homem riu com escárnio.
— Ah, o conde é seu tio? E eu sou sobrinho do príncipe! Vá andando, moça. Conheço o seu tipo e não gosto de gente como você na minha estalagem.
Bella arregalou os olhos.
— O senhor não pode estar pensando que eu... que eu sou...
— Eu sei o que você é, rapariga, e lhe peço que saia da minha estalagem o quanto antes.
Nesse momento, um homem alto e de cabelos loiros entrou no saguão. O brutamontes atrás do balcão fez uma reverência.
— Pois não, milorde? O senhor precisa de algo?
— Parece-me que está faltando um pouco de compaixão nesse seu coração de pedra, Demetri — disse o homem com voz pastosa, sem tirar os olhos de Bella. — Você não teria coragem de enxotar essa pobre donzela no meio da noite, teria?
— O senhor conheça essa sirigaita, milorde? — O estalajadeiro olhou desconfiado para Bella, que obviamente não conhecia seu salvador.
— Bem, ainda não fomos formalmente apresentados, mas eu estava esperando por ela. — O homem se aproximou para escorar na parede. As palavras tinham um forte odor de bebida. O loiro certamente tinha esvaziado uma garrafa de conhaque.
Bella deveria ter ficado apavorada, mas havia algo de familiar no sujeito. Ela estudou discretamente os olhos azuis e o sorriso torto. Talvez fosse parecido com um dos tantos jovens que procuravam seu pai para discutir sobre política, e juntos emborcar canecas e mais canecas de ponche de rum.
— Acompanhe-me, senhorita — disse o estranho. — O quarto fica por aqui. — Ele seguiu na direção da escadaria e se apoiou no corrimão.
O sujeito só podia estar confundindo-a com outra pessoa. Mesmo assim Bella o seguiu escada acima e ao longo do corredor, cansada demais para dizer qualquer coisa. Com certeza a pessoa que o acompanhante loiro estava esperando não chegaria mais àquela hora da noite, e se chegasse, certamente entenderia a situação e não se importaria de compartilhar o quarto, por uma noite, apenas.
Finalmente o sujeito encontrou o quarto que estava procurando. Ele abriu a porta e se afastou para que Bella pudesse entrar. Ela parou na soleira. Havia algo que precisava ser esclarecido.
— Este não é o seu quarto, é, senhor?
O homem recostou o ombro largo contra o batente e sorriu. Era impossível ficar imune ao brilho jovial daqueles olhos, ainda que fosse um brilho de embriaguez. E para completar, ainda havia aquelas covinhas nas bochechas. Bella sorriu em resposta.
— Não, o meu fica no fim do corredor.
— Ah. — Bella tentou disfarçar o desconforto ao sentir o hálito de conhaque. — Nesse caso, muito obrigada. — E entrou no quarto. Mas o sujeito continuou parado no mesmo lugar, impedindo-a de fechar a porta, a menos que resolvesse esmagar os dedos do atrevido. — Agradeço muito, milorde.
Ele assentiu com um aceno de cabeça.
— Água — disse. — Aposto que está louca para tomar um banho.
— Obrigada, seria mesmo maravilhoso. — Lavar a poeira da viagem realmente era mais do que o sonhado. — Mas não quero incomodá-lo.
— Incômodo algum. — As covinhas ficaram ainda mais profundas. — Edward irá me agradecer por isso. Mandarei trazer a água.
— Quem é Edward? — Bella indagou, mas o novo amigo já tinha desaparecido no corredor.
Bella encolheu os ombros e fechou a porta. O misterioso Edward que ficasse para o dia seguinte, quando sua mente estivesse mais descansada e preparada para decifrar todo aquele enigma.
Em minutos, uma mocinha apareceu com água quente e uma toalha. Bella esperou que ela saísse, e então se despiu. O calor da lareira aquecia o ambiente enquanto ela se livrava da maresia que pesava sobre o corpo e os cabelos. Após o banho, enquanto se enxugava, ela deu uma olhada nas roupas usadas. Durante os últimos três dias não pudera trocar por outras, limpas, e a idéia de voltar a vestir aquelas outra vez era insuportável. A solução foi pendurá-las para tomar um pouco de ar. Com sorte, estariam com uma aparência melhor na manhã seguinte.
Bella sentiu um aperto no peito. Por que o pai tivera de insistir que ela viesse para a Inglaterra? Era incontável o número de vezes que ele falara mal da aristocracia inglesa, chamando-a de vírus letal da Inglaterra, de bando de idiotas. Mas quando estava à beira da morte, ele insistira e a fizera prometer que iria procurar o irmão dele, o conde de Hale.
Bella suspirou, enquanto escovava os cabelos. Se ao menos a promessa tivesse lhe trazido um pouco de paz! Mas tudo o que trouxera fora ansiedade e aborrecimento. Depois que dera a notícia às irmãs Stanley sobre a mudança para a Inglaterra, Bella não tivera mais nenhum minuto de sossego e fora obrigada a ouvir até o último momento as duas senhoras tentando fazê-la mudar de idéia.
— Como Charlie pôde lhe pedir isso? — Jéssica, a mais baixa e robusta das duas, perguntou pela milésima vez quando Bella fechou a porta da casa de seu pai pela última vez.
— O pedido foi feito em um momento de delírio — respondeu Lauren, a mais alta e magra, tocando na mão de Bella. — Não é tarde para mudar de idéia. Mandaremos um recado para o navio.
Jéssica concordou com tanta veemência que os cachinhos grisalhos balançaram sobre a cabeça.
— Seu pai morreu, Bella. Agora você precisa fazer o que é melhor para você.
— O que acontecerá se você for para a Inglaterra e o conde não a receber? Você estará sozinha, à mercê de homens inescrupulosos. — Lauren estremeceu.
— É verdade, Bella — concordou Jéssica. — Você teve uma infância calma e tranqüila aqui na Filadélfia. Não tem idéia de como é o mundo. Só conhece os americanos, e os homens americanos pertencem a uma liga distinta daquela dos corruptos ingleses. São como água e óleo.
— Os ingleses são devoradores de mulheres — Lauren sussurrou.
— É verdade. Aqueles duques, condes e nobres em geral, eles acham que as mulheres são objetos.
Bella balançou a cabeça para afastar as lembranças desconfortáveis. Era tarde demais para arrependimentos. Já estava na Inglaterra e esperava ser bem recebida pelo tio. Se não fosse...
Não, era melhor nem pensar nessa hipótese.
Edward Cullen, o duque de Masen, contemplava distraído as chamas da lareira, em uma sala reservada, quando foi interrompido pela chegada do major Emmett McCarty.
— Edward, acho que vi aquele seu primo, Riley, no salão principal — comentou Emmett, enquanto passava as mãos sobre os cachos escuros. — Céus, ele continua com a mesma cara arrogante de sempre.
— Riley está aqui? — Edward ergueu uma sobrancelha. — Gostaria muito de saber que diabos ele está fazendo na vizinhança.
— "Diabo" é a palavra certa. — Emmett se juntou a Edward para aproveitar o aconchego da lareira. — Todas as vezes que olho para o homem só falta ver chifres e tridente. Você devia tomar uma providência com relação a seu primo.
Edward serviu uma taça de conhaque para o amigo, esticou as pernas diante da lareira e observou o fogo ardendo.
— O que você sugere? Assassinato, mesmo que por justa causa, não é visto com bons olhos na Inglaterra.
— Chame isso de extermínio. — Emmett tomou um gole do conhaque. — Você estaria livrando o país de um verme.
— Gostaria que todos pensassem como você. — O tom de Edward era amargo. — Ninguém vai acreditar que Riley representa uma ameaça à minha vida enquanto ele não jogar meu corpo nos degraus de uma delegacia.
— Não acredito que seja tão grave assim.
— Acredite. — Edward se pôs a numerar a série de acontecimentos. — A correia do meu cavalo se soltou sem mais nem menos, e eu caí quando estava saltando. Incompetência do cavalariço? O homem jurou que a correia estava bem presa na última vez em que verificou, e eu francamente acredito no meu empregado. Uma pedra caiu da torre de Masen e não me acertou por um milímetro. A construção tem milhares de anos e é sólida como uma rocha. Esbarraram em mim na London Street e eu quase fui atropelado por uma carruagem. Um acidente infeliz, apenas? A calçada vive cheia de gente e ninguém morre atropelado por isso. — Edward encheu a boca de conhaque.
— Se quer saber, acho que tudo não passou de uma série de acidentes — Emmett comentou.
— Exatamente.
— E ninguém associou nenhum dos acidentes a seu primo.
— Riley nunca está por perto. Não há nada que prove que ele seja o mandante. Já fiz algumas investigações, mas ninguém consegue provar que ele estava envolvido. Tem algumas pessoas em Londres que pensam que estou maluco, paranóico. Da última vez que procurei os serviços de um detetive para me ajudar com as investigações, o sujeito me disse que a guerra terminou e que eu deveria relaxar e me acostumar com a vida civil.
— Que maldição!
— É isso mesmo. — Edward se recostou na poltrona. — Agora sou obrigado a admitir que a idéia de Jasper de passarmos a noite aqui no Green Man em vez de seguirmos viagem não foi de todo ruim. Cheguei à conclusão de que será mais seguro para mim. Isso dará menos oportunidades a Riley de me enviar para o além. — Edward fitou Emmett. — Falando em Jasper, você não o viu por aí?
— Não.
— Lamentável. Ele está muito bêbado para ficar andando sozinho.
— Quem está bêbado?
Edward se virou e viu o loiro espiando pela porta entreaberta da sala.
— Ah, Jasper. Estávamos preocupados com você. Entre, se não estiver precisando do batente para se manter em pé.
— É claro que não estou precisando, Edward. — Jasper se aproximou a passos lentos praticamente se jogou sobre uma poltrona. — Vocês estavam falando sobre a deliciosa Tânia durante a minha ausência?
— Por favor, não se refira à minha futura esposa como "deliciosa" — Edward censurou o amigo.
— Sim, você tem razão. Tânia é tão deliciosa quanto uma ameixa seca.
— Jasper... — Edward contraiu as sobrancelhas e fez menção de se levantar, quando Emmett pousou a mão apaziguadora sobre seu ombro.
— Odeio dizer isso, Edward, mas Jasper está certo, desta vez. Meu Deus, homem, por que você acha que todos a chamam de Rainha do Mármore? Ela é fria como uma pedra.
Jasper bateu sobre o ombro de Edward, ou pelo menos tentou, pois a mão escapou por um triz.
— Escute o que Emmett está dizendo, Edward. Ele é inteligente. É um herói de guerra como você. Se ele está dizendo para você se manter afastado de Tânia, faça isso. Ela não é a única mulher do mundo. Todas as solteiras, e até mesmo metade das casadas, dariam tudo para ser a duquesa de Masen.
— Duvido — Edward respondeu, incrédulo. — Já estive com todas as moças disponíveis no mercado de casamento. Céus, tenho sido perseguido por elas desde a morte de meu pai. Estou cansado disso. Tânia servirá aos meus propósitos. Ela não é nenhuma debutante. É filha de uma duquesa, por isso saberá cuidar da minha casa. — Ele olhou diretamente para Jasper. — E tenho certeza de que cumprirá com os outros deveres do matrimônio.
— Bem, pelo menos ela poderá lhe dar um herdeiro — Jasper comentou. — Mas você não gostaria que o processo fosse um pouco mais divertido?
Edward corou.
— Tenho certeza de que Tãnia e eu vamos nos entender muito bem.
— Mas por que a pressa? — Emmet indagou. — Você só tem vinte e oito anos, rapaz! Eu tenho trinta e não estou com nenhuma pressa de me casar. — Inclinou o corpo para frente. — Você sobreviveu à guerra. Por que a afobação de arrumar um herdeiro, agora?
— Era exatamente sobre isso que eu estava falando, Emmett. Meu ambicioso primo Riley não perde a esperança de ser o próximo duque de Masen.
Mais tarde, Edward acompanhou os amigos embriagados aos respectivos quartos e seguiu sozinho para o seu. Infelizmente estava muito sóbrio, pois era preciso uma quantidade ainda maior de conhaque capaz de derrubá-lo. Ainda mais com o turbilhão de pensamentos que lhe agitava a mente.
O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas últimas fagulhas que ainda queimavam na lareira. Edward tirou as botas, as meias e a camisa, atirando as peças ao chão conforme se despia. Não estava exatamente animado com a idéia de pedir a mão da filha do duque de Denali. Não que o duque fosse ficar surpreso ou contrariado. Ao contrário, da última vez que se encontraram no White's, o homem dera todas as dicas de que ficaria muito satisfeito com a união.
Edward tirou as calça e as ceroulas. Casar-se com Tânia não seria a tragédia que Emmett e Jasper anunciavam; afinal, ele nunca esperara encontrar o amor no Almack. Além do mais, teria de se casar de qualquer maneira, algum dia. Quem sabe, com os laços do matrimônio atados, Riley não desistisse.
Nu, Edward caminhou até o lavatório. A água estava fria, mas depois que estivera na guerra, ele se acostumara ao desconforto. Fechou os olhos, mentalizando a imagem de Tânia Denali. Cabelos loiros arruivados, olhos claros... Constituição miúda, baixa. A cabeça da moça não chegava ao seu ombro. Uma imagem do belo penteado da jovem lhe veio à mente. Não que ela fosse feia, mas a personalidade desinteressante fazia dela uma moça não muito atraente.
Edward enxugou o rosto em uma toalha e concluiu que não queria se casar com Tânia. Preferia se casar por amor, mas nunca encontrara uma mulher que lhe despertasse tal sentimento.
Nesse instante um ruído chamou sua atenção. Céus, havia mais alguém no quarto! Como ele fora se descuidar? Mas, afinal, não esperava encontrar confusão no Green Man, e era exatamente por isso que aquele se tornava o local perfeito para uma armadilha.
Edward apanhou o atiçador da lareira. Só então viu a banheira ao lado, e parou. Meias, anáguas, vestido... Roupas femininas?
Agora ele sabia por que Jasper estava zombeteiro. O safado levara uma prostituta para o quarto.
Edward colocou o atiçador de volta na lareira e se aproximou com cautela da cama. A moça estava dormindo, coberta até o pescoço. Quando ele acendeu uma vela, ela murmurou algo e o cobertor escorregou um pouco, expondo o ombro nu.
Era uma mulher bonita. Os cabelos estavam soltos, espalhados sobre o travesseiro. Edward estudou com cuidado suas feições. Os cílios eram compridos, as maçãs do rosto salientes e o pescoço elegante. Sob a sombra da vela a moça parecia jovem e inocente.
— Vamos lá amorzinho, já é hora de acordar.
Edward tocou-a no ombro. A pele era macia e quente. Ele vislumbrou então a linha dos ombros delicados, e imaginou-se depositando ali pequenos beijos. Embora, na verdade, ele esperasse que ela não acordasse naquele momento. Podia ser uma prostituta, mas mesmo assim poderia se assustar, se abrisse os olhos e contemplasse o corpo de um homem à sua frente, nu e excitado.
A jovem se mexeu e afundou no travesseiro. Quem seria ela? Será que Jasper a teria mandado vir de Londres? Edward achava que não, mas obviamente era um desperdício uma mulher daquelas numa estalagem como o Green Man. Ela poderia muito bem passar por amante de um homem rico. Sua amante?
Edward pensou na idéia e ficou surpreso ao descobrir que era tentadora. Mas a decisão poderia ficar para a manhã seguinte, pois estava claro que a pobre mulher estava exausta. Ele se deitou do outro lado da cama.
Primeiro, Edward inalou o perfume doce, delicado e feminino. Em seguida, respirou fundo e sentiu um peso suave sobre seu peito, e um calor agradável ao longo do corpo. Então algo redondo e macio roçou em seu braço direito. E ele se lembrou que era a mulher, ao lado de quem se deitara na véspera.
Ela ainda dormia, e Edward engoliu em seco, tentando se controlar para não se comportar como um animal.
Saboreie o momento, disse a si mesmo.
Lentamente, ele abriu os olhos e percebeu que as cobertas tinham escorregado um pouco durante a noite. O braço delicado da jovem descansava sobre seu peito. James divisou a linha do pulso e do braço, o ângulo macio formado pela dobra do cotovelo. Uma cortina de longos cabelos castanhos escondia a face da misteriosa mulher e o pequeno seio que lhe roçava o braço.
Edward ergueu a mão com todo o cuidado, pois não queria que ela acordasse ainda, e tocou de leve nos cabelos. Eram macios, com tons variados de castanho e vermelho. Seus dedos deslizaram então entre as mechas sedosas, levantando-as para que pudesse ver o rosto. A pele da mulher era branca como uma porcelana, não sardenta como a de algumas mulheres. Parecia uma princesa de conto de fadas. Com certeza, era a prostituta mais bela que ele já vira.
Edward não fazia a menor idéia de onde Jasper tinha encontrado aquela beldade, mas, no momento, isso não importava. Afinal sua mente estava ocupada com pensamentos bem mais interessantes.
Ele sorriu, pousando os lábios sobre a boca da mulher.
Bella teve o sonho mais estranho de toda a sua vida. Estava em uma cama enorme e não fazia a menor idéia de como tinha ido parar ali, sem uma peça de roupa. Mesmo assim não estava frio. Não, na verdade, estava bem quente. Havia algo grande e quente próximo ao seu corpo, e ela se aconchegou um pouco mais. Era muito bom.
Em seguida, sentiu uma pressão suave contra os lábios. Firme e ao mesmo tempo macia. Como veludo. Sedutora. Seus lábios se moveram então para explorar a nova sensação e foram recompensados com um calor úmido.
Acorde, disse uma vozinha dentro dela. Algo tão gostoso assim não podia ser boa coisa. Mas Bella ignorou a advertência.
Ouviu então um estranho gemido e a pressão sobre os lábios cedeu. Ela suspirou, na esperança de que voltasse, e aconteceu, só que desta vez no pescoço, mais especificamente embaixo da orelha. Bella ergueu o queixo para que o doce contato deslizasse com mais facilidade ao longo da pele, parando bem acima dos seios arfantes.
Mas, então, algo quente e rígido cutucou a parte baixa de suas costas, e desceu um pouco mais até os quadris, deslizando e deixando um rastro de calor por onde passava. Céus, seu corpo estava em chamas. Ela se curvou, ofegante.
— Minha nossa, você é uma delícia, docinho...
Uma voz masculina.
Bella abriu os olhos e se deparou com um par de olhos dourados, cabelos bronze e lábios esculpidos... descendo até seu mamilo.
Ela gritou e empurrou as duas mãos contra um peito desnudo. Gritou mais uma vez, tirando as mãos como se tivessem tocado em fogo.
— O que...
O homem se sentou, com o cenho franzido. Bella aproveitou a oportunidade para apanhar o travesseiro e jogar contra o estranho.
— Afaste-se, seu, seu... indecente!
— Indecente?
O sujeito se desviou, mas Bella deu outra investida, acertando-o na orelha, desta vez.
— Foi isso mesmo que eu disse! Saia da minha cama. Saia do meu quarto ou gritarei até derrubar este lugar!
— Você já está gritando.
— Pois gritarei mais alto ainda.
Ela se sentou, erguendo o travesseiro como se fosse uma arma poderosa e ameaçadora, mas os olhos do homem tinham um brilho estranho. Ele não olhava para o seu rosto. Bella acompanhou então a direção do olhar e quando se deu conta atirou o travesseiro, ofendida.
Nesse instante a porta do quarto se abriu e outra mulher gritou.
— Edward!
— Maldição — murmurou o homem. — Tia Carmem... O que a senhora está fazendo aqui?
Bella olhava horrorizada para a multidão de rostos que estava à porta. Entre eles o mal-humorado estalajadeiro, ainda mais carrancudo, dois lacaios com um sorriso malicioso no rosto, o bêbado da noite passada tentando sem sucesso conter o riso, e duas senhoras de rostos enrugados, olhinhos curiosos e a cabeça emoldurada por elegantes toucas de tecido.
— Edward — a mais alta disse novamente, mas dessa vez não gritou.
Ela e a companheira olhavam para o travesseiro que Bella segurava, o único obstáculo entre aplatéia e sua completa nudez.
Bella corou e escorregou na cama, puxando a fina coberta até o pescoço.
— Tia, que prazer em vê-la. Perdoe-me, mas não posso me levantar. — Edward sentiu o rubor subindo pelo rosto. Nem ficaria surpreso se constatasse que todo o seu corpo estava vermelho, incluindo uma parte que insistia em manter erguida a coberta fina. Ele mudou de posição.
— Edward... — A tia parecia ter perdido as palavras.
Mas tudo que Edward conseguiu fazer foi dar um leve sorriso, enquanto olhava para os rostos à porta. Carmem Cullen, a irmã mais velha de seu pai, o encarava do alto de seus setenta anos, tão ruborizada quanto ele. Irina Wallen, a sempre presente amiga, estava ao lado dela. Irina, que tinha em torno de sessenta anos, era baixa e delicada. Uma ilusão apenas, pois, ao primeiro sinal de fofoca, ela saía farejando como um ratinho para se inteirar das novidades.
Jasper, que finalmente deixara o riso escapar, olhava sobre o ombro de Carmem. Os lábios do rapaz se moviam como um peixe fora d'água, sem soltar nenhum ruído, enquanto uma das mãos ia e voltava na horizontal, na altura do pescoço. Edward não sabia ao certo o que ele estava tentando dizer, mas cortar a garganta de alguém, de preferência a de Jasper, lhe parecia uma ótima idéia.
Continua na Parte 2...
