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Gambit lutou para permanecer consciente; se desistisse, seria o seu fim.
Ele sentiu o aperto no peito e a dor se tornando cada vez mais intensa à medida que o ar ia se evadindo de seus pulmões. Seus olhos embaçados não enxergavam quase nada. Cada peça de roupa que vestia exigia dele o dobro de esforço quando tentava se mover.
A parte mais perturbadora é que ele não fazia ideia de como tinha ido parar ali.
Vendo um feixe de luz a poucos metros acima de onde estava, Gambit colocou toda a sua força em cada músculo de seu corpo numa tentativa de emergir.
Ele estava prestes a chegar à superfície quando avistou um vulto que parecia afundar lentamente. Não foram precisos mais que alguns segundos para que Gambit percebesse que a sombra pertencia à Vampira.
Gambit se encontrou num impasse. Se tentasse alcançar o corpo dela, talvez não houvesse ar o suficiente para levá-los a salvo até a superfície; em contrapartida, se subisse para respirar antes de socorrê-la, seria Vampira quem provavelmente não sairia com vida.
Sem dispor de tempo para pensar, Gambit agiu. Com movimentos rápidos, mesmo que dificultosos e doloridos, ele conseguiu chegar até Vampira em pouco tempo. Agarrou-a pela cintura com um dos braços enquanto o outro lutava para trazer à tona o peso de dois corpos.
Em poucos segundos – que pareceram quase infindáveis para ele – Gambit conseguiu respirar. Sentiu o ar entrando pelo nariz e boca, enchendo seus pulmões, e o alívio. Segurou a cabeça de Vampira para fora da água, sendo que ela estava desacordada.
Gambit olhou ao seu redor e, mesmo com o sol machucando os seus olhos, conseguiu avistar terra firme a uns cinquenta metros de onde se encontravam. Ele retirou a jaqueta que ela usava, tentando diminuir o peso, e, juntando o resto da força que lhe restava, nadou em direção à praia.
Além das suas roupas pesadas e da dificuldade em respirar, ainda havia o peso do corpo de Vampira. Mas Gambit não a deixaria simplesmente se afogar enquanto ainda tivesse forças. Ele era sua última chance.
Para sua sorte, o mar estava calmo; as ondas eram raras e acabaram os impulsionando para mais perto da margem.
Após alguns longos minutos, eles finalmente alcançaram terra firme.
Por alguns instantes os dois corpos permaneceram estendidos de bruços à beira da praia.
Gambit tentou se mover, mas mal conseguiu abrir os olhos. Estava completamente esgotado. Sua cabeça rodava, todos os músculos de seu corpo doíam. Ele ainda não conseguira controlar a respiração e o aperto no peito ainda não se fora. Seu corpo todo queimava, não apenas pelo esforço, mas também pelo calor. Estava difícil se focar.
Em algum momento, tendo juntado forças, Gambit conseguiu se virar. Permaneceu estendido de costas na areia, ouvindo os batimentos de seu coração nos ouvidos. Durante os primeiros segundos ele não conseguiu manter os olhos completamente abertos, pois o sol não permitia. Piscou várias vezes e protegeu seus olhos sensíveis colocando uma das mãos acima deles. Até onde os olhos podiam alcançar havia apenas areia e água, exceto por algumas formações rochosas e alguma vegetação com esparsos coqueiros.
Gambit virou o rosto para o seu lado esquerdo e com os olhos cerrados encontrou o corpo inerte de Vampira quase ao alcance de seu braço. Foi quando ele se lembrou de que ela não respirava.
Num movimento brusco – do qual ele imediatamente se arrependeu, pois se tornou doloroso demais –, Gambit se sentou. Retirou o casaco e as botas ensopados o mais rápido que seu corpo foi capaz e rastejou até estar de joelhos ao lado dela.
Ele a virou com cuidado. Por sorte a roupa dela estava intacta, assim ele não correria o risco de tocá-la acidentalmente.
Sem perder mais tempo, Gambit prestou primeiros socorros. Primeiramente, tentou massagem cardíaca. Uma vez, duas vezes, três vezes. Descendo o ouvido até o peito dela, percebeu que suas tentativas não surtiram resultados. Ele mal conseguiu ouvir o coração dela bater.
O próximo passo seria tentar respiração boca a boca, mas ele sabia que se a tocasse seriam dois inconscientes e então ele provavelmente não poderia fazer mais nada para ajudá-la.
Gambit passou uma das mãos pelos cabelos ensopados e grudentos de areia, aflito. Então, ele a observou por um instante. Ela parecia dormir em paz. Ele afastou o pensamento imediatamente, pois não lutara até ali para deixá-la morrer daquela forma.
Ele seguiria com o procedimento. Chegou à conclusão de que alguns segundos em contado com a pele dela não seriam suficientes para derrubá-lo.
Afastou os cabelos que cobriam o rosto dela e tentou retirar os grãos de areia grudados neste sem tocá-la.
Na primeira tentativa, ele assoprou na boca dela fazendo o mínimo de contato físico possível e por poucos segundos. Surpreendentemente nem ao menos sentiu o puxão dos poderes dela.
Tentou mais uma vez, agora se prolongando um pouco mais. E então mais uma vez. Na próxima tentativa, Gambit tampou o nariz dela com uma das mãos e segurou o queixo dela com a outra, enquanto seus lábios se demoraram sobre os dela. Com os dedos mais uma vez entrelaçados, ele massageou o seu peito. Mais uma vez se demorou sobre os lábios, sobrando vida para dentro dela.
Com uma tossida dolorosa, Vampira por fim expeliu a água que a impedia de respirar. Aliviado, Gambit se afastou para que ela pudesse voltar a respirar normalmente.
Confusa, Vampira tentou se sentar, mas como não foi capaz, acabou se contentando por levantar a cabeça e se apoiar no cotovelo esquerdo, ignorante da presença do jovem Acólito.
A situação só começou a querer fazer algum sentido na cabeça de Vampira quando ela ouviu uma voz lhe perguntando se estava bem. A voz era áspera devido à água salgada, mas ainda assim as palavras foram ternas.
Vampira virou o rosto assustado para o lugar de onde vinha a voz e deparou-se com Gambit, ajoelhado a poucos centímetros de distância.
A adrenalina que percorreu o seu corpo pela surpresa lhe deu forças para se sentar, porém não fez mais nenhum movimento quando seu corpo inteiro congelou.
Os olhos arregalados dela se fixaram nos nele por vários segundos, sem conseguir largá-los. Mas mesmo sem olhar ao seu redor, Vampira tinha noção de onde estava. Ela sentia seu corpo coberto queimar com o calor assim como os desconfortáveis grãos de areia roçando na sua pele.
Gambit, por sua vez, não disse palavra; preferiu que ela tomasse a iniciativa assim que estivesse recuperada.
Vampira tentou falar, mas sua boca seca impediu que as palavras saíssem. Ela limpou a garganta e após mais uma tentativa, conseguiu finalmente encontrar a voz.
"O-o-o que aconteceu?" ela gaguejou, tão atordoada quanto confusa.
Gambit caiu sentado, estando ainda mais fatigado do que antes. "Longa história, chère. Longa história."
Quando os olhos dele se afastaram dos seus, Vampira finalmente olhou em volta. Não havia nenhum sinal de vida. "Onde nós estamos?"
"Não faço a menor ideia."
Vampira franziu as sobrancelhas, confusa. "Como assim? Não foi você que me trouxe aqui?"
Foi a vez dele de ficar confuso. "Quoi?"
Ela levou as duas mãos à cabeça; nada parecia fazer sentido. "O que você fez comigo?"
"O que eu fiz com você?" ele perguntou, aturdido. "Eu acabei de salvar a sua vida."
"O que você fez comigo?" ela reiterou, agora em tom ameaçador, frisando cada palavra e ignorando a sua última afirmativa.
"Eu não fiz nada além de tentar te ajudar. Eu impedi que você se afogasse" ele respondeu, mais rispidamente do que pretendia.
"Eu não acredito em você" ela retrucou enquanto seu rosto ganhava uma fisionomia cada vez mais feroz.
Vampira se recusava a acreditar no que ele dizia. Cada palavra não deveria passar de mentiras descaradas.
Era isso que ele fazia: mentia, enganava, fingia, usava quem fosse até conseguir o que queria. Um mutante que teve a coragem de se tornar lacaio de Magneto não seria mais que isso.
"Acredite no que quiser" ele disse, com impaciência.
Quando Vampira percebeu que Gambit estava prestar a se levantar, arranjou forças e, sem que ele esperasse, arremessou-se contra ele, fazendo-o cair de costas. Cada mão sua pressionando o ombro dele contra o chão, seu corpo fazendo peso sobre o dele, uma perna de cada lado do corpo dele.
"Por que e como você me trouxe pra cá?" ela perguntou entredentes.
Gambit não disse ou tentou nada. Apenas um sorriso afetado surgiu sobre o rosto dele.
Confusa pela falta de atitude dele, Vampira deixou sua guarda baixar por apenas um instante, que foi mais do que o suficiente para que Gambit agisse.
Com movimentos que Vampira foi incapaz de acompanhar, Gambit rolou seus corpos, invertendo assim suas posições. Agora ele estava por cima dela. Gambit segurou os punhos dela dos lados da cabeça dela enquanto suas pernas impediam que as dela o atingissem.
O peso do corpo dele sobre o seu e a maneira com que ele a segurava tornaram suas tentativas de se soltar inúteis.
Gambit aproximou o rosto do dela propositalmente para inervá-la e murmurou: "Por que está me acusando, chère?"
Vampira não achou necessário responder. Aquela situação ficava cada vez mais sem sentido. "Por que não diz logo o que quer comigo?"
"O que eu quero com você?" ele perguntou retoricamente, com aquele mesmo sorriso afetado. Estava começando a achar que ela não se lembrava do que acontecera ou não queria se lembrar.
De repente, ele ficou em silêncio. Seus olhos vermelhos percorriam o rosto dela de uma maneira que tornou aquela situação intolerável para Vampira.
"Me solta!" ela gritou quase perdendo o controle.
"Se não o quê?" ele provocou "Estamos sozinhos aqui. Ninguém vai te ouvir."
"Não preciso de ajuda."
Era verdade. Seu ponto alto era a luta corporal, além de ter o melhor professor, a ofensiva era seu treinamento principal.
Infelizmente para Vampira, na posição em que se encontrava, as chances estavam contra ela.
Os dois estavam exaustos, o que tornava qualquer movimento mais laborioso. Gambit era mais forte fisicamente, entretanto Vampira sabia que força não importava quando se tinha técnica. O problema era que Gambit tinha os dois. Ele conseguiu segurá-la de uma forma que era como se conhecesse seus pontos fracos. Talvez ele de fato conhecesse, ela pensou.
A ira que Vampira sentiu no primeiro instante que percebeu estar presa, logo se transformou em medo.
O corpo de Gambit prensando contra o seu a apavorou, a desarmou, pois nem mesmo os inimigos arriscavam chegar tão perto dela.
Nem eles correriam o risco.
Ela não compreendeu por que aquela cena parecia tão familiar, como se estivesse se repetindo. Mas ela não tinha tempo para isso.
"Você tem duas opções, chérie. Primeira: você pode acreditar que eu sou tão vítima quanto você aqui e assim poderemos encontrar uma maneira de sair daqui juntos; ou, segunda: pode continuar me acusando e terminar sozinha. De qualquer maneira, podemos passar o dia todo aqui. O que acha?"
"Eu tenho outra ideia."
Vampira percebeu que a única maneira de derrubá-lo seria fazendo algo que detestava mais do que tudo: usar seus poderes. Ela sabia que ia odiar ter aquele cajun arrogante em sua cabeça, mas seria a única solução.
Vampira tocou os lábios dele com os seus.
Duros, gelados.
Ela não se moveu mais, apenas fechou os olhos com força e esperou pela pior parte: quando ela sentia todos os pensamentos, todas as lembranças, todas as experiências, todos os segredos dele tomarem sua mente, tornando-se seus.
Segundos mais tarde e nada acontecera; Vampira não sentiu seus poderes agindo. Tudo que sentia eram sensações confusas que ela não conseguia compreender ou bloquear.
Algo estava errado, ela soube no mesmo instante. Seu coração nunca bateu tão disparado.
Vampira se afastou e abriu os olhos como se o mundo de repente fosse outro.
Gambit disfarçou a surpresa e sorriu maliciosamente. "Intéressant."
Vampira o fitou assombrada. Vendo o rosto transtornado dela, Gambit a soltou instantes mais tarde. Vampira tentou se levantar, mas caiu sentada no mesmo lugar.
Gambit meio que riu. "Não funcionou tão bem quanto da última vez, não é?" ela lhe lançou um olhar ainda mais confuso sem se importar em ter os olhos marejados "Ah, é mesmo" ele continuou, sarcasticamente. "Você não se lembra do nosso último encontro."
Na verdade, ele também não. Mas as câmeras de segurança na base dos Acólitos lhe contaram tudo que ele precisava saber. Ele assistiu à garota nocauteá-lo com um simples beijo. Ousado, ele pensara na época. Garota de atitude.
"Do que você está falando?" ela perguntou; agora seu tom não era mais de ameaça e sim de aflição. "Como viemos parar aqui?"
Gambit franziu o cenho sinceramente para a última pergunta. "Não lembra mesmo?"
Ela lembrava não mais do que alguns flashes.
Lembrava-se de ter acordado naquela manhã com uma dor de cabeça insuportável. Depois disso tudo se tornou branco. Então, ela se encontrou em um lugar completamente estranho. Havia um homem em uma espécie de tumba e de repente ele se levantou. Parecia um pesadelo. Foi o que ela achou que fosse: um pesadelo.
Vampira voltou a si. "Se me lembrasse, não teria perguntado, imbecil."
Gambit fechou o rosto, parecendo se ofender com o nojo com o qual ela o xingou. "Você ainda vai me agradecer" disse, antes de se afastar, sentando-se a alguns metros de distância dela.
Cabisbaixa, Vampira tentou se lembrar de mais alguma coisa, mas apenas serviu para sua cabeça doer mais do que antes.
Ela estava começando a acreditar que Gambit não tinha mesmo nada a ver com o fato de eles estarem ali. Aos poucos ela começou a deixar a guarda baixa.
De garota durona e inabalável, Vampira se transformou em nada mais que uma garota assustada.
Gambit viu com o canto dos olhos a expressão desolada sobre o rosto dela. Ele desconfiava que as palavras ásperas e a grosseria eram apenas um mecanismo de defesa para manter as pessoas afastadas.
Ele se levantou e se aproximou dela. Vampira viu a sombra dele, mas não se moveu.
"Nós vamos sair dessa, d'accord?" ele afirmou, quase sem jeito.
"Eu não quero a sua ajuda" ela retrucou, bufando, sem olhar diretamente para ele.
Gambit respirou fundo, tentando não perder a paciência. "Mas precisa dela. Se você ainda não percebeu, todos estavam trabalhando juntos contra um mal maior."
Ela lhe olhou de soslaio; seu rosto não menos duro. "Isso não faz de você menos meu inimigo" afirmou entredentes.
Gambit bufou e saiu caminhando sem rumo, resmungando algo em francês.
Continua…
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Glossário:
Chère/Chérie – Querida
Quoi? – O quê?
Intéressant – Interessante
D'accord? – Está bem?
N/A: Obrigada por ler, espero que tenha gostado ;)
