NO GOOD FOR ME

ShiryuForever94

Notas: Agradecimento especial a Áries Sin pelos conselhos sobre a coerência do texto e pelo suporte emocional quando acho que só escrevo besteira. XD

Disclaimer: Esta é uma fanfic, feita por fã, para fã. Feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G, Lost Canvas e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal.

AVISO: Fanfiction é trabalho feito com o humor e cuidado de cada ficwriter. De tal maneira, se a pessoa que for ler não aprecia os casais que invento ou que faço menção, aconselho a mudar de história. Não tenho temperamento para ser gentil com flammers nem aceito patrulhamentos quanto ao meu gosto pessoal. Críticas são sempre bem vindas quanto às qualidades ou enganos dos meus trabalhos, quanto à escolha dos pares que utilizo, não. Cada qual com seu gosto. Em hipótese de acharem o meu gosto um tanto excêntrico, tanto melhor, não sou autora de qualquer história, muito menos de qualquer leitura. Agradeço conselhos, críticas construtivas e se for o caso, elogios. Boa leitura a todos e também incentivo que corrijam algum engano que eu cometa, sem problema algum, não sou perfeita nem tenciono ser. Vivo para ser aprendiz de viver.

Capítulo Dois

Milo's POV

Hoje faz seis meses que não falo com ele. Pelo menos não como costumava ser. Está um temporal dos infernos lá fora. Shaina saiu daqui há algum tempo e estou me sentindo muito solitário.

Oh, não, não é por causa de minha pretensa noiva que estou solitário.

Quem me dera.

É por causa dele. Meu melhor amigo. Talvez ex-melhor amigo. Era sempre com ele que eu ia conversar. Talvez monologar fosse uma definição melhor.

Estou andando de um lado para outro como um animal enjaulado, cerrando os punhos a cada momento e em cada minuto pensando nele.

Eu odeio você, Camus!

Odeio seu jeito fechado, detesto seu ar perdido e, simplesmente é imperdoável o que fez comigo! Eu nunca pensei... Mentira, até pensei algumas vezes...

Não sou um homem confuso, não sou alguém cheio de dúvidas sobre branco e preto, pois entendo o mundo o suficiente para compreender nuances de cinza e tons diversos de uma mesma situação.

Eu me gabo de conhecer muito bem todas as pessoas e de saber tirar conclusões sobre alguém com alguma facilidade. Adoro explorar a mente das pessoas e descobrir como elas pensam e reagem. Vinha funcionando muito bem, nunca tive problemas.

Até conhecer Camus.

Deixem que eu lhes diga quem sou. Meu nome é Milo de Escorpião. Sou grego de nascimento e quase patrimônio tombado deste Santuário de Atena.

Alguns me dizem que tenho beleza ímpar dada minha pele um pouco bronzeada pelos treinamentos sob o sol grego, outros acham que sou um exibido e fanfarrão. Geralmente quem não me conhece muito bem tem a idiota sensação de que sou um palhaço, apenas por que posso ser alguém um tanto bem humorado, mas não confundam isso com ser engraçadinho, nem brincalhão, muito menos imbecil. Eu respeito as pessoas o bastante para não interferir muito em variadas situações, a menos que me peçam.

Fora isso, não gosto que me conheçam ou se façam de íntimos meus a menos que eu permita. É um traço que possuo, o que queriam de um escorpiano? As pessoas não se tornam amigas minhas porque querem, mas porque eu quero e permito. Simples, não? Eu me considero tremendamente fácil de lidar. É só não querer se meter na minha vida e nem me dar ordens. Muito menos por palavras em minha boca que eu não disse. Nunca me subestime e poderemos conviver até que bem.

Nunca quis ser popular, apenas sou do jeito que sou e dou um valor extremo aos meus amigos.

Na verdade, valor extremo mesmo sempre dei a Camus, meu amigo de nem sei quanto tempo e é por isso que estou tão machucado no momento.

Não se preocupem, não há um corte sequer nessa escultura grega que chamo de corpo. Ah, não sou um idiota arrogante, apenas meço as coisas pelo que são e, sim, eu sou um homem bonito e bem cuidado, sou um cavaleiro, uma arma mortal, um general assassino da mais alta elite de Atena.

E vou me casar. Ou acho que vou. Nem falei com Shaina sobre isso ainda.

Por que você esperou tanto, Camus? Por que não disse tudo que tinha a dizer já naquela nossa conversa sobre casamento? Não entendeu quando eu falei de ambivalência, não foi? Não compreendeu que eu o estava sondando para saber exatamente o motivo de você não namorar ninguém? Você é brilhante, Camus, sempre foi, mas em assuntos emocionais talvez nem tanto. Eu vi, há muito tempo, que eu não fico normal quando você está por perto e ao mesmo tempo eu tenho medo. Medo de não me enquadrar num mundo que já é tão confuso.

Do que eu estou falando?

Estou atropelando um pouco a história, mas acontece que nem mesmo eu, que sempre sei de quase tudo e tenho a melhor noção das pessoas que me cercam, consegui reparar antes que... Que aquele...

"Seu idiota francês! Por que não me contou? Por que simplesmente não me contou?"

Balanço minha cabeça e desembaralho alguns cachos loiros. Estou sozinho ao extremo hoje. Está chovendo demais e a chuva, estranhamente, me dá a ideia de confusão de sentimentos.

Eu vou me casar. Ou acho que vou.

Eu já disse isso. Era apenas um namoro, era somente algo que tinha que ser. Eu tentei falar com ele, juro que tentei, mas não consegui. A gente não vira para o melhor amigo e pergunta se pode namorar uma garota ou se nosso melhor amigo, por acaso, está interessado na gente.

E eu? Estou interessado nele? Se estou, que diabos estou fazendo noivo de uma mulher? Nem sei mais como eu me sinto. Não podia ser mais simples e a gente possuir um guia interno de sentimentos?

Não, nada é muito simples em nossas vidas. Meu raciocínio está dando mais voltas do que eu gostaria e sozinho olhando a tempestade fica ainda mais claro que nada tem solução simples na minha vida.

Do que eu estou falando?

De sentimentos guardados, trancados e sombrios. De amor e de sentimento de perda, de ódio e de amor. Estou falando de lealdade, de honra, de caráter. Eu o odiei tanto, francês, quando você apareceu à minha frente lutando contra Atena até eu compreender por fim que era por Atena que você lutava. Eu não lhe disse adeus naquela morte, eu não lhe disse adeus na outra morte, quando lutou com Hyoga.

Meu Zeus, Camus, quantas vezes eu terei que ver você morrer? Quantas vezes eu vou ter que suportar olhar para seu templo gelado sem saber o que o dia de amanhã nos trará? E, quantas vezes eu não vou dizer nada? Por que me colocou nessa ridícula situação? Ou fui eu mesmo quem entrei nela?

Na verdade, eu tive e tenho medo de ser quem sou, de sentir o que sinto e de saber que uma jovem amazona estava apaixonada por mim e me queria para ela. Tenho medo de magoar Shaina, de magoar você e de magoar a mim mesmo. Eu não sei como me sinto embora me gabe de ser um sujeito fantástico e de conseguir conhecer a alma de quem se aproxima de mim!

O que eu fiz? Eu, um dos mais destemidos, traiçoeiros e perigosos cavaleiros de Atena me refugiei no comum, no mais fácil, no que todo mundo espera. Eu resolvi namorar uma mulher e eu resolvi ser normal.

"Diabos, Camus, o que é normal para nós?"

Como se ele estivesse aqui para ouvir... Se fosse antes, com certeza ele estaria. Ele sempre foi bom ouvinte e, acredite quem quiser, tem sempre bons conselhos e eu estou precisando de conselhos, só que não do tipo que eu posso pedir a ele.

Estou indignado e ao mesmo tempo estou magoado. Continua chovendo a cântaros e eu estou com sensações desagradáveis. Não estou feliz e isso não é o normal numa pessoa que pretende se casar.

Por que não consigo esquecer aquele bendito dia em que você me beijou? Por que não fez isso antes de eu me comprometer com Shaina? Por que me deixou chegar a esse ponto, Camus? Você não é meu amigo? Meu melhor amigo?

Não tenho a menor noção do que posso fazer e escolhi me afastar para pensar. Só que esse afastamento dói, incomoda e me deixa nervoso além do razoável. Eu não sou nervoso, mas posso ser colérico. Como você está, Camus? Não consigo saber nada de você, pois simplesmente acho que eu era seu único amigo nesse Santuário.

Ah, sim, eu sei de sua proximidade com Saga, pois passaram algum tempo no inferno sendo preparados para aquela maldita missão de matar Atena. Só que eu sei que não é o bastante. Por que?

Ora, porque nós dois levamos anos construindo nossa amizade, aquela amizade especial que nos permitia comunicarmos nossos sentimentos com olhares e gestos. Na verdade, mais do meu lado que do seu, porque até hoje ainda fico meio em dúvida dos sinais que você envia com sua linguagem corporal.

Uma prova disso? Você me beijou e eu não esperava! Eu sempre fui tão bom em prever ações e eu não esperava! Eu fiquei furioso com você! Não pelo motivo de não ter gostado, mas talvez porque gostei e agora não sei o que fazer sem magoar alguém. Ou magoar a mim mesmo.

O que digo? O que faço? Fugir de você foi bem mais fácil que encarar seus olhos vítreos de azul inexpugnável. Engraçado como essa palavra se aplica a você. Aliás, é impressionante como sua aura distante pode enganar tanto. Você não é distante, só é retraído. Não é bem essa a palavra também. O que você é, Camus? Talvez apenas sincero sobre o que sente? Sincero? Você nunca me disse nada antes e... Sinceridade é marca do seu signo, aquariano maluco. Só que dessa vez, parece que você não foi totalmente sincero comigo.

Droga, voltar sempre a esse problema está me cansando.

Por que não consigo respostas de você como consigo de Shaina? Ou de Mu? Ou de Aiolia? Por que com você é um verdadeiro labirinto? Por que, Camus?

Eu não sou preconceituoso, não dou a mínima para se uma pessoa é homossexual, heterossexual, bissexual, pansexual, assexuada ou sei lá qual rótulo queiram empregar. O mundo já tem problemas o bastante sem termos que pensar sobre com quem alguém gostaria de viver a vida e fazer sexo, ou não fazer. Você, Camus, deveria, DEVERIA saber disso. Eu costumo apreciar almas e não corpos. As almas não mudam, os corpos sim. Por que estou falando nisso?

Por que eu sei agora, um tanto tarde, que você, meu grande amigo Camus está apaixonado por mim. Ou estava, há seis meses. E isso fez diferença para mim. Tanto que apesar de ter me comprometido com Shaina, não tive coragem de dar-lhe sequer uma aliança de noivado. Nem a pedi ainda, tudo são planos, muitos planos. Eu simplesmente não consegui.

E daí?

Saio andando pelo meu imenso quarto e penso nisso. Não, não é em Shaina, nem no casamento que me concentro. É nele.

Aliás, nos últimos seis meses tenho pensado muito nele. Não falei mais com ele, não do jeito como costumava ser. Não que eu esteja zangado.

Bem, talvez um pouco zangado. Nem admitir que estou furioso com ele eu consigo?

Por ele não ter me contado nada nesses anos todos, por eu nunca ter sabido. Poxa vida, ele é meu melhor amigo e eu nem sabia que gostava de homens? Pior ainda, jamais desconfiei que ele poderia gostar de mim. Estou sendo idiota. Acabei de dizer que não ligo para rótulos e apenas porque ele disse estar apaixonado por mim eu o presumo homossexual? E se ele for demissexual? Para quem não sabe é aquela pessoa em que a atração sexual surge somente quando existe envolvimento, algum liame emocional, afetivo, intelectual. A estética não importa, apenas sentimentos.

Você tem sentimentos por mim, Camus. Você disse que estava apaixonado por mim e... E o que?

O problema é que, na verdade, não tenho a menor ideia do que fazer. Não sei como falar com ele, nem o que dizer a ele. Eu fiquei tão zangado, tão zangado...

Decidi que eu vou me casar. Ou acho que vou. Isso não pode ser categorizado como decisão se há dúvidas. Ou pode? O que sinto por Shaina? Talvez eu devesse ir a fundo em minha alma e descobrir, mas talvez eu tenha medo de descobrir algo que não quero descobrir. Desde quando sou confuso e sinto medo desse jeito?

Eu acho que estou um pouco obcecado com isso. A questão é que entrei em pânico com os lábios dele sobre os meus, com o cosmo quente dele encostando no meu, com os braços dele me apertando naquela noite.

No meio da rua numa noite qualquer.

Foi exatamente assim, no meio de uma rua da qual não sabíamos o nome, numa noite bonita e morna que eu descobri que ele...

"Camus, por que simplesmente não consegue falar comigo?" Estou falando sozinho. Nem servos há por aqui agora. Eles já foram dormir, coisa que eu deveria estar fazendo. Se pelo menos Shaina estivesse aqui. Do que eu estou falando agora? Como eu iria falar disso com minha futura esposa? Por que penso nisso e sinto tristeza? Eu quero uma esposa?

Droga, Camus! Você bagunçou tudo que eu pensava que sabia sobre mim! Fico imaginando uma conversa muito louca com minha namorada.

"Olha, Shaina, o que você acha de eu, seu quase noivo, estar pirando por que descobri que meu melhor amigo é gay, ou apenas gosta de mim e, não bastando isso, agora estou cheio de dúvidas sobre se caso com você ou se me atiro nos braços dele?"

Realmente uma cena normal e comum para namorados... Ah, Shaina... Nós tivemos uma pequena discussão, para ser sincero. Aliás, nosso namoro nunca mais foi o mesmo depois que Camus me beijou.

Acho que fiquei tão perdido assim por não ter ao meu lado o meu amigo ruivo cordial e controlado todos os dias.

Certo, nem sempre tão cordial, mas sempre meu amigo. Não posso culpá-lo, também não sou um anjinho sempre, muito pelo contrário.

Não sei quem foi que se afastou, não sei quem deixou de falar primeiro com o outro. Eu pensei que ele me procuraria no dia seguinte para se explicar, mas nada. Ele nem mesmo apareceu nos treinos que havíamos combinado.

Sou orgulhoso demais para ir lá e dizer alguma coisa. Ele quem me deve explicações. Isso é ridículo, ele não me deve explicações! Por que eu estou assim tão furioso?

Na verdade, eu sei o motivo. Por que eu gostei do beijo dele, do corpo dele e do cosmo dele e agora estou confuso. Por que eu já não sei se deveria me casar porque me sinto como me sinto. Eu sinto falta dele.

Sinto falta de cada muxoxo mal humorado e de cada olhar de esguelha. Sinto falta de ele fazer cara de coisa nenhuma para absolutamente qualquer situação, sinto falta de ficar olhando pela janela do templo de Aquário enquanto ele faz alguma comida maluca e jura que eu vou adorar.

Vocês não fazem ideia do quanto escargot pode ser nojento. Eu odeio comidas muito frescas e só aceitei comer algo chamado cuisses de grenouilles (coxas de rãs) porque ele jurou que eu ia adorar.

Eu odiei!

Não, eu não sou falso. Disse isso a ele que, ao seu modo "extrovertido" de ser, apenas recolheu os pratos e me trouxe um belo hambúrguer.

"Você é mesmo um cretino, Camus. Por que simplesmente não vem aqui dizer que tudo foi um engano e que vamos continuar sendo melhores amigos?" Se é que é isso mesmo que eu quero.

"PUTA QUE PARIU, CAMUS!" Eu não costumo ser tão boca suja e nem estar tão bravo, mas essa porcaria de chuva está afetando meu humor. Ou será que o fato de Shaina ter me provocado de todas as formas e eu ter pensado no Camus enquanto a beijava me chamou a atenção?

O pior é que não foi a primeira vez. Faz algum tempo que eu simplesmente não consigo dissociar Camus de beijos e abraços. Isso que ele nunca me havia beijado ou abraçado daquele jeito e agora fico procurando pelo jeito como ele fez isso na maneira com que minha garota me beija.

Camus.

Que diabos o francês me fez que agora penso como ele está numa chuva dessas? Ah, mas eu sei. Não sei se eu já contei, mas ele adora xadrez, vinhos e ler muito. Deve estar lindamente refestelado na sua caríssima poltrona de design contemporâneo lendo algo que eu decididamente descartaria como, quem sabe, Marcel Proust.

Somente um francês, e um francês chamado Camus, para me fazer ler Marcel Proust. Eu li. O pior foi que seria interessante se não fosse tão complexo. Não que eu seja um imbecil, ou de poucas letras, é que meu estilo de ser é diferente. Realmente prefiro os clássicos de Júlio Verne, mais aventura e emoção.

O que eu quero da vida? Nossa, que pergunta profunda!

Talvez apenas ficar em paz. Talvez apenas...

Camus.

É alguma nova praga desenvolvida por controladores mentais! Penso nele muitas vezes embora saiba que ele provavelmente já esqueceu tudo isso e está tranquilo e calmo enquanto eu estou aqui bancando o imbecil. E eu não sou um idiota e odeio que tirem conclusões erradas a meu respeito.

Não apenas isso me preocupa hoje. Minha discussão com Shaina não foi agradável. Pela terceira ou quarta vez eu não consegui transar com ela.

Engraçado, tudo começou quando eu pedi a Camus opinião sobre se deveria ou não perder minha virgindade com Shaina e, bem, depois daquela cena de beijo num outro homem o que o metido a macho testosteronado fez?

O que um homem faria.

Bem, talvez o que um homem precisando se auto afirmar faria.

É pior do que vocês estão pensando.

Não, eu não fui atrás de Shaina. Oh, não... Eu fui para o meretrício de Atenas e paguei mais de uma prostituta. Ah, sim, eu transei até o sol raiar. Não, de jeito algum estou orgulhoso disso. Eu não tenho como contar essas coisas para qualquer um. Eu poderia contar a Camus, se ele ainda fosse meu amigo.

Mas que porcaria! Por que aquele francês orgulhoso não veio saber de mim? Não mais?

As coisas com Shaina andam tensas. Ela fica irritada porque eu simplesmente, várias vezes, não consigo! Eu não consigo me deitar com ela. Nem sempre foi assim. Um mês depois daquele beijo desgraçado do Camus finalmente fomos para a cama. Eu jurei que era virgem para ela. Talvez eu devesse ter sido sincero, mas não consegui. Estava envergonhado do que fiz no meretrício.

Era o tipo de coisa que eu não teria vergonha de contar para ele.

Para Camus. Bem, mas parece que não importa mais, parece que ele não é mais meu amigo. Tudo isso por que?

A chuva continua muito forte. Está ficando muito tarde. Talvez tarde demais. Talvez se nenhum de nós dois fizer alguma coisa, perderemos nossa amizade, se é que já não a perdemos. Será que posso ser amigo dele ainda? Não me importo se ele é difícil, chato, calado e distante por muitas vezes. Aliás, não me importo de jeito nenhum se ele quiser virar hare krishna e raspar o cabelo! Gosto dele. É fato.

"Isso, Milo, fique aí sentindo a falta daquele idiota!" Falo para mim mesmo enquanto resolvo beber um bom vinho, está até meio frio hoje. Ando até a cozinha, há uma pequena adega por aqui, presente do...

Camus.

Reviro os olhos pensando que nossas vidas estão entrelaçadas demais. E o que eu vou fazer a respeito?

"Ele que venha até mim se me quiser de volta!"

Ah, claro. Que papo mais... Gay?

Talvez alguém que vá ler isso ria e diga que é só uma briguinha de bichas. Que nome horrível! Por que não se chamam os heterossexuais de bicho? Por que nós quem temos que ter apelidos e...

"Por Atena!"

Nós? Nós quem temos apelidos? Do que diabos eu, Milo de Escorpião estou falando?

Eu abro o vinho e tomo uma bela taça dele. Vinho francês La Tâche, da casa Romanée-Conti. A cor, o suave aroma. Engraçado que aprendi a apreciar isso com ele. Quem? Ah, adivinhem.

Camus.

Certo, estou um pouco obcecado. Ah, se vocês o conhecessem... Ele é uma pessoa maravilhosa.

"Tão maravilhosa que estou aqui, me doendo de não conseguir me comunicar com ele de novo. Por que fazemos isso a nós dois, Camus?"

Sento-me na minha cama gigantesca. Sempre gostei de minha cama. É bem grande e confortável, tem bons lençóis e, bem, Shaina também gosta, embora ela tenha o péssimo hábito de sempre querer dormir do lado esquerdo e eu quem gosto de dormir no lado esquerdo.

"E você dorme no lado direito, depois de tomar dois copos de água gelada, de vestir um pijama negro e de pentear seus longos fios com primor. Também sei que liga o abajur para ler ao menos dez páginas do livro que estiver lendo naquela semana e que não dorme, nunca, sem vistoriar sua casa inteira com seu cosmo gelado. Ah, Camus, sei coisas demais a seu respeito."

Por que mesmo foi que eu fiquei irritado com ele? Por que ele não me conta as coisas dele? E por que diabos ele precisaria contar se eu sei tudo que há para saber? Se sempre estive lá, afinal eu estive, ou estava, lá o tempo inteiro e se eu... Droga, Camus... Você não tem que me contar nada porque eu praticamente sempre estou lá quando as coisas acontecem, quando você recebe missões que não gosta e vai assim mesmo. Estou sempre lá quando seu bolo de frutas queima porque se distraiu lendo sobre a matança das orcas não sei onde e saímos correndo para apagar o quase incêndio.

Ou talvez porque, Camus é estabanado várias vezes e eu quem recolho cacos de vasos de cristal que ele quebra distraído pensando ao mesmo tempo na evolução do fito plâncton e nas vertentes da literatura inglesa.

"E você é o único que sabe que eu sou neurótico ao ponto de organizar minhas meias por cores e tons, minhas camisas por estações do ano e que minha listagem de CDs favoritos tem ordem cronológica, ordem de artista e ordem de nome do cd... Sim, sou maníaco, mas você nunca se incomodou com isso."

O que eu e Shaina temos em comum? Além de sermos venenosos? Tenho que rir. Ela é ótima pessoa, eu gosto demais dela, mas eu...

"Sinto sua falta, Camus."

Falar assim em voz alta faz parecer melodramático e sem sentido. Falar alto assim faz soar como se eu estivesse confessando algo.

Eu estou.

"Eu confesso! Eu confesso! Eu digo o que você quiser, aquariano estúpido, mas por que não vem aqui me dizer por que eu? Por que não o Saga que foi com você pro inferno? Ou Shura? Tiveram bastante tempo para conversar naquela parte negra de suas vidas. Por que eu, Camus? Por que não podemos ser apenas amigos e..."

Calo-me quando as palavras perdem o sentido. Calo-me quando sinto uma lágrima imbecil rolar pelo meu rosto. Eu sei o porquê... Porque não é o suficiente. Por que estamos tão unidos que sermos amigos talvez não seja mais o bastante.

Eu estou com medo, Camus. Eu quase nunca sinto medo, mas em meus pesadelos você está lá, dizendo que eu não mereço sua amizade e que você não me quer perto de você. Eu não sei o que fazer, Camus. Não sei...

E um escorpião sempre sabe o que fazer...