A chave da porta da frente

Becos escuros. Ruas desertas. Sombras, sussurros. Noites e frestas. Fria na espinha. Beijos roubados. Sexo e vertigem. Amor e pecado.

House e Cuddy mantinham uma relação escondida, tinham finalmente se entregado ao sexo e não sabiam exatamente o que isso significava.

Cuddy tinha medo de se envolver demais e House era cauteloso para não se machucar. Combinaram manter em segredo o que quer que fosse que estavam tendo. Não era namoro, mas também não era só sexo. Na verdade os dois já estavam entregues, só não assumiam isso.

Cuddy tinha decidido ser uma mulher moderna, segura e desencanada. House estranhou a princípio, mas se deixou levar pela idéia do relacionamento aberto, ele não precisaria demonstrar sentimentos se ela dizia que o que tinham era só sexo.

O único problema é que o sexo os levava cada vez mais a um envolvimento e chegou uma hora em que ele queria apenas passear de mãos dadas e dormir abraçado. Ele queria Cuddy inserida em sua rotina e não apenas de passagem.


As brincadeiras de teor sexual continuavam como se nada estivesse acontecendo. Mantinham a eterna cena 'eu tenho mais poder do que você' quando estavam perto de alguém, mas era só ficarem sozinhos que redefiniam as posições. Juntos eram apenas House e Cuddy, sem hierarquia nenhuma.

Cuddy tinha se desprendido um pouco de se jeito autoritário, se entregando à algumas fantasias que jamais correria o risco de realizar se não fossem feitas com ele.

Eles transavam em seu escritório e no escritório dele, nas salas da clínica, nos banheiros, no terraço e até dentro de seu carro, no estacionamento subterrâneo. Ela quebrou todas as regras como diretora do hospital. Estar com ele exalava perigo e isso a excitava a um ponto em que não conseguia tomar nenhuma decisão racional.

House estava gostando disso. Gostava de vê-la perder o controle e esquecer onde estavam apenas para se entregar a ele. Ele a tinha em suas mãos, mas talvez ela o tivesse antes.

Foi para casa mais cedo aquela noite, esperar por ela. Pensou em fazer alguma coisa especial, mas teve medo que ela pensasse que ele estava evoluindo o relacionamento para um lugar mais sério e se afastasse por causa disso. Apenas tomou um banho e esperou.

Ela chegou no horário combinado e saiu no horário combinado. A hora de ir embora era marcada por ela, ele não podia nem argumentar e pedir mais uns minutinhos.

"Não adianta eu pedir pra você ficar, né?

Ela passou a mão em seu braço e lhe deu um beijo na bochecha.

"São as regras. Eu quebrei algumas com a condição de poder criar outras."

"Isso não é justo."

Ele a puxou com força fazendo-a cair na cama, agarrou em seus cabelos e deu um beijo de tirar o fôlego para logo depois a empurrar de lá em tom de brincadeira.

"Vai embora, sua hora já passou."

Cuddy sorriu e terminou de colocar seus sapatos, mandando um beijo para ele antes de fechar a porta.

Eles tinham deixado um almoço combinado no dia seguinte, mas House não apareceu. Ele deixou uma mensagem falado que estava ocupado com sua paciente e só conseguiram se ver à noite, quando Cuddy foi procurá-lo em sua sala.

"Está tudo bem? Fiquei sabendo que você perdeu sua paciente."

"Tudo bem."

Ele mal conseguiu responder, estava chateado de verdade, nos últimos dias tinha se envolvido com ela e sua família sem querer. Ele odiava se aproximar de pacientes por isso, quando alguma coisa de errado acontecia, ele se sentia culpado.

"Você quer dormir em casa hoje? Eu não queria dormir sozinho.."

Ele segurou em sua mão e olhou em seus olhos, fazendo um pedido sincero. Em qualquer outra ocasião isso teria sido apenas mais um flerte, mas não hoje.

Cuddy não queria que eles evoluíssem o relacionamento, mas ele parecia tão frágil e ela era tão apaixonada. Ela poderia fazer isso, quando eram amigos, sem sexo, ela estava sempre lá para ajudar.

"Claro. Eu vou pedir pro Wilson ficar com a Rachel, só porque hoje é uma ocasião especial."

Ela quis deixar claro que era uma exceção e ele concordou com isso.

"Obrigado."

Ela fez um carinho em seu rosto e depositou um pequeno beijo em seus lábios.

"Fica bem, mais tarde eu passo lá."

Cuddy deixou a sala dele com o coração dolorido. Ela odiava vê-lo assim, odiava saber que ele era tão humano quanto ela, o House que não se importava era mais fácil de lidar. Ela quase conseguia fingir que era só sexo com ele, mas esse House sensível partia seu coração.

Desde quando se entregaram pela primeira vez, ela só pensava em como dizer para ele que o queria com todo seu coração. Ela sempre esteve apaixonada por ele e por isso tinha medo que o relacionamento acabasse. Se eles começassem algo sério e não desse certo, talvez nunca teriam outra chance.

Ela tentava se segurar e não se envolver mais ainda, se é que isso era possível. Dizia para si mesmo que o que tinham era só sexo e seguia suas regras. Hoje seria apenas uma exceção, ela não conseguiu ser forte o suficiente para resistir a ele.

House estava tocando alguma música de Tchaikovsky no piano quando ela tocou a campainha, ele pegou sua bengala e foi abrir a porta.

Cuddy abriu um sorriso lindo e se envolveu nos braços dele, enquanto pensava que era só por essa noite.

Ele estranhou seu jeito carinhoso, mas não disse nada, passou as mãos por suas costas e beijou seus cabelos, trazendo-a pra dentro.

"Você estava tocando piano? Eu ouvi lá de fora."

"É, eu estava me distraindo um pouco."

"Quer tocar alguma coisa pra mim? Eu adoro ouvir você tocar."

House sorriu e voltou ao piano.

"Quer fazer um jogo? Eu toco um tema e você tenta adivinhar de qual filme é."

"Claro. Eu sou ótima nisso."

Cuddy se sentou no braço do sofá e ficou de frente pra ele, esperando o jogo começar.

"Ok. Vamos ver por onde eu começo."

House começou a tocar.

"Ah, essa é fácil. Piratas do Caribe."

"Hum. Não sabia que você gostava desse filme, ou isso é só por causa do Johnny Depp?"

Cuddy deu uma risada.

"Talvez.. Que mulher não gosta do Johnny Depp?"

Ele olhou pra ela fingindo estar enciumado e mudou a música.

"Simpsons."

"Popeye."

"Flintstones."

"Inspetor Bugiganga."

"Pica Pau."

"Indiana Jones."

Ela sorriu.

"Eu disse que era boa."

House sorriu de volta e continuou a tocar.

"Lady Gaga? Sério?"

"Eu sou muito ligado em cultura pop. Mas você não devia saber essa, você ouve Lady Gaga? Sério?"

Ela deu uma gostosa gargalhada.

"Eu ouvi por aí. Acho que no ipod do Wilson."

Os dois riram juntos.

"Agora faz sentido."

House terminou de tocar a música e perguntou se ela queria ouvir alguma coisa em especial. Ela já tinha ganhado o jogo há muito tempo.

"Eu queria uma música...romântica."

"Romântica? Quer dizer que a senhorita é romântica agora?"

Ele piscou pra ela e começou a tocar uma música que tinha composto quando era mais novo.

"Você que fez? Ela é linda."

"Na verdade é trilha sonora de Notting Hill."

"Não é, não."

"Você gosta de Notting Hill? Sério Cuddy?"

"Pára House!"

Ela se levantou e deu um pequeno beliscão em seu braço, de brincadeira. Ele sorriu e inflou sua bochecha de ar, pedindo que ela lhe desse um beijo.

Cuddy segurou em seu rosto e depositou um beijo delicado, passando a mão por seu ombro e ficando abraçada com ele enquanto ele tocava a música.

"Eu fiz quando estava na faculdade, talvez no dia em que vi você na aula do professor Seagal."

Os olhos dela brilharam com a informação.

"Você fez ela pra mim?"

Ele balançou a cabeça de forma afirmativa.

"Eu não sabia que o senhor era romântico."

Ele puxou Cuddy pela cintura e a sentou em seu colo, fazendo carinho em seu pescoço e a beijando apaixonadamente.

Nessa noite não fizeram sexo, eles se amaram.

Cuddy deixou que ele dormisse abraçado com ela, mas foi embora ao amanhecer, antes dele acordar.

Quando dirigia para sua casa deixou que pequenas lágrimas caíssem de seus olhos. A noite tinha sido mágica, romântica, delicada. Ela queria ter isso todos os dias, mas infelizmente hoje tudo voltaria ao normal. O normal que tinha imposto em sua cabeça.

House acordou sentindo a falta dela. Durante dias e dias ele se conformou com suas regras, mas hoje não. Ele não queria que ela brincasse com ele, tinha sentimento envolvido. A partir daquele dia ela teria que fazer uma escolha, amor e um relacionamento de verdade com ele ou nada.

Ele era simples e objetivo.

House invadiu a sala de Cuddy quando ela conversava com Foreman e Chase.

"Eu preciso falar com você."

"House, eu estou ocupada agora. Na verdade eu tenho um caso pra você."

"Tudo bem eu aceito o caso, agora preciso conversar com você."

Ela percebeu que ele estava sério demais para ser brincadeira. Entregou o caso para Chase e pediu que ele e Foreman os deixassem sozinhos.

"O que aconteceu com você?"

"Eu quero um relacionamento."

"O quê?"

"É isso ou nada de sexo."

"Mas House, nós tínhamos combinado."

"E quero um relacionamento assumido."

"House, eu não estou entendendo."

"É uma resposta fácil: Sim ou Não."

"Você não pode estar falando sério."

Ele se virou e foi mancando até a porta.

"Eu já tenho a minha resposta."

Cuddy ficou paralisada, não era isso que ela queria. A resposta era sim, mais do que isso, ela diria sim com todo seu coração. House tinha dado um intimato, ou ela o perderia para sempre ou teria que enfrentar seus medos.

Durante aquele dia ele nem ao menos olhou em seus olhos quando cruzou com ela no almoço, a indiferença dele machucava.

House estava machucado também, só conseguia pensar que ela tinha vergonha dele, o sexo era bom mas a sua presença ao seu lado não era o suficiente. Ele não iria se rastejar implorando que ela ficasse com ele, de jeito nenhum, já tinha insistido muitas outras vezes e ela tinha fugido em todas.

Cuddy pediu para que uma enfermeira a avisasse quando ele estava indo embora, ela iria atrás dele para conversar.

Foi bipada quando ele já estava no saguão e saiu rapidamente de sua sala.

"House?"

Ele ouviu seu nome mas passou reto por ela.

"House."

Ele continuou a ignorando, completamente, já estava próximo a porta quando ela gritou:

"HOUSE."

Ele parou e percebeu que toda a atenção daquele saguão estava nele. Médicos, enfermeiras, pacientes, seguranças, todos estavam curiosos para ver até onde aquela briga iria.

Cuddy foi se aproximando dele assim que ele se virou para ela, esperando para ouvir o que ela queria lhe dizer.

"Fala."

Ele disse do jeito mais ríspido que conseguiu, mas ela não ligou, apenas continuou caminhando até ficar bem próximo dele, segurou em seu rosto e o puxou para um beijo completamente intenso.

House ficou surpreso com o ataque dela, ela não tinha se importado nem com a intensidade do beijo e nem com a quantidade de pessoas que os observavam sem acreditar no que viam.

Ela o soltou apenas para dizer:

"Não é só sexo. Nunca foi."

Eu quero a chave, a chave da porta da frente.

Eu quero agora e eu quero pra sempre.