DISCLAIMER: Fruits Basket não pertence a mim. Infelizmente.


Capítulo 2: Temporada de Caça


Um dia depois do capítulo anterior.

O telefone tocava na casa de Shigure. Uma vez. Duas.

Shigure se levantou de sua cadeira reclinável azul, suspirando. Olhou pesarosamente para seu castelinho de cartas de baralho, semi-pronto em cima de sua mesa de escritório. Estava quase terminando o sexto andar – seu castelo estava ficando uma coisa colossal.

O telefone tocou uma terceira vez.

'Já vai, já vai,' disse ele, como se o telefone fosse realmente escutá-lo. 'Não se pode mais nem montar um império sossegado nessa casa…'

Saiu arrastando os pés pelo corredor, mas, antes que alcançasse o almejado aparelho, um vulto florido passou correndo na sua frente.

'Peço licença para atender ao telefone!' exclamou Tohru, em seu vestidinho cheio de florzinhas, carregando uma colher de pau e com um pano de prato no ombro. Pegou o fone. 'Alô?'

Shigure observou interessado enquanto ela fechava os olhos com força, encolhia os ombros e segurava o telefone o mais longe possível de seus queridos tímpanos. 'M-Momiji!' disse ela, quando conseguiu se aproximar do bocal. 'Muito bom dia para o senhor também, Momiji.'

Bem, já que não era uma loiraça européia de olhos da cor do céu e pescoço alabastrino, Shigure não estava interessado. Tendo isso decidido, o escritor deu meia-volta, visando seu lindo quarto cheio de livros – além do mais, seu castelinho o esperava.

'Hein?' dizia Tohru, ainda estremecendo educadamente com a voz estridente que Momiji usava ao telefone. 'Hã — o senhor Hatori vem aqui? P-por que devo esconder o senhor Shigure? Ah — está bem, vou passar pra ele, com licença, Momiji, muito bom dia pro senhor. Senhor Shigure!' chamou ela, quando Shigure estava prestes a se trancar em seu quarto outra vez.

'Siiim?' disse Shigure, só seus olhinhos aparecendo pela fresta da porta.

'Telefone para o senhor,' disse Tohru, agitada. 'Momiji diz que o senhor Hatori tem a intenção de vir aqui interrogá-lo, e tem investigado métodos de tortura.'

Tohru só viu os olhos de Shigure ficarem do tamanho de pires, e ele foi correndo atender.


Kyo pegou a caixa de leite dentro da geladeira.

'Você viu o Shigure?' perguntou ele para Tohru.

'Eu o vi pela manhã,' disse ela, ocupada com as muitas panelas em cima do fogão. 'Ele disse que ia se trancar no armário embaixo da escada, embora eu nunca tenha sabido desse tal armário nesta casa.'

'Hum,' disse Kyo, pouco interessado. 'Quer que eu te ajude? Desse jeito você vai queimar alguma coisa.'

Tohru virou-se para ele, muito emocionada. 'Você me ajudaria mesmo? Isso me deixaria muito feliz, Kyo! Muito obrigada por ser tão solidário!'

'Ah… que seja,' murmurou ele, meio desconcertado com a alegria dela. 'Então vai, chega pra lá. O que você tá cozinhando?'


BAM-TAM.

Que espécie de onomatopéia é essa, perguntaria um desavisado. Eu responderia: barulho de Hatori chutando a porta para abri-la, ao invés de tocar a campainha como o doutor bem educado que ele era.

Mas Hatori estava pê da vida.

Um Hatori pê da vida é algo que só se vê uma vez na vida, e jamais se esquece. Era por isso que Tohru estava paralisada no hall de entrada, olhando com dois olhos deste tamanho enquanto Hatori chutava a porta, quebrava a porta em duas e entrava batendo os pés.

'Ah… senhor… Ha… tori?...' Tohru demorou a conseguir falar, tamanho era seu choque. 'P… posso ajudá-… lo?'

Hatori virou seu olho azul na direção dela. Tohru entrou em pânico.

'Onde está o cachorro do meu primo?' disse o médico, em voz sepulcral.

'E-e-e-ele, ele, ele tá e-e-em al-algum lugar, m-m-ma-mas eu não o ve-vejo há muito t-te-tempo!' exclamou ela, gaguejando loucamente.

Hatori estreitou o olho. Ergueu o nariz. E farejou.

Tohru estava embasbacada. Já tinha visto Shigure com hábitos de cachorro (como da vez em que ele enterrou uma porção de ossos do jantar no quintal), mas agoraHatori também?

'Consegue achar o senhor Shigure desse jeito, senhor Hatori?' perguntou ela, interessada de repente, até se esquecendo de seu ataque de pânico.

'Não,' disse ele, virando-se novamente para ela. 'Cheiro de arroz queimando.'

Tohru arregalou os olhos. 'AAAAAAAAAAHHHHHHHH, O ARROZ!'

E saiu correndo para a cozinha. Hatori pôde concentrar-se em sua busca.


'KYAAAAAAAAA!Como me achou?'

'Você e sua mania de Harry Potter. É lógico que você estaria debaixo da escada. Mas esse lençol não te escondeu nem um pouco, seu balofo. Saia daí, vamos.'

'Nunca me pegará vivo, Haa-san!'

Shigure fugiu por debaixo das pernas de Hatori. Quem mandava ele ser alto de pernas longas? Pareciam traves de futebol.

Hatori disparou atrás de seu primo canídeo. Já iam longe quando Tohru apareceu na porta da frente.

'Não quer vir jantar conosco, senhor Hatoriiii?' gritou ela, mas ele não a escutou.


Ayame curtia uma tarde ao ar livre, tomando sorvete numa lanchonete super-chique junto com Mine. A garota vestia um de seus lindos vestidos de babados, ele vestia azul-turquesa de mangas compridas, formavam um casal no mínimo chamativo no meio da rua.

Hoje era quarta-feira, meio da semana, dia de feriado improvisado! Nada melhor numa quarta, em que todos estão trabalhando, do que sair pra tomar sorvete e esbanjar carisma.

'Ha! Ha! Ha! Ha!' riam os dois, por motivo nenhum em particular.

Mine olhou para o lado.

'Ei, chéfis, aqueles ali não são seus primos?' disse ela, apontando para uma nuvenzinha de fumaça no horizonte.

A nuvenzinha só crescia. E se aproximava.

'Ops,' disse Ayame, com seus grandes olhos verdes ainda maiores que o normal.

Antes que ele pudesse se esconder, a nuvenzinha aproximou-se tanto que estava logo ali, e um Shigure todo descabelado já o havia avistado. E correra a se proteger atrás de Ayame.

'Aaya, ele quer me bater, me salva!' chorava Shigure, olhando por cima do ombro do outro.

Ayame observou horrorizado enquanto a poeira da nuvenzinha se dissipava. Ali no meio, ofegante, um olho azul fulminava os dois. Hatori, outrora impecável, parecia um guerrilheiro.

'T… Tori-san!' exclamou Ayame, abrindo os braços e fingindo que não via o brilho assassino do primo. 'Que coincidência encontrá-lo por estas bandas da cidade! Não quer tomar sorvete comigo e com Mine?'

'Que bom encontrar você por aqui, Ayame,' disse Hatori, rouco, um sorriso mau espalhando-se por seu rosto. 'Você vem comigo também.'

Dali a pouco, o médico, sem um dos sapatos, já estava arrastando pela gola da camisa dois adultos mui respeitáveis que gritavam como garotinhas.

Mine só observava. Quarta-feira realmente era um dia interessante! Na semana anterior fora aquele papagaio que cantava como Frank Sinatra e bicava como um demônio. Ela ainda tinha as marcas.

'Oras,' disse ela, de repente, vendo as dezenas de taças de sorvete em cima da mesa, quando os gritos já haviam cessado e os três haviam sumido. 'Eu é que vou ter que pagar a conta…?'


Alguns minutos depois, lá estavam Shigure e Ayame, chorando como crianças porque o Haa-san/Tori-san era muito mau, amarrados cada qual à sua cadeira. Estava tudo escuro na salinha.

Dois fachos de luz se acenderam, um deles na cara de Shigure e o outro na de Ayame. Os dois pararam de chorar e começaram a piscar.

Hatori segurava as duas lanternas, sentado num banquinho. Já estava arrumado outra vez, mas ainda não estava feliz. 'Expliquem-se,' disse ele.

Dois riachinhos de lágrimas já caíam pelo rosto de Shigure. 'Buááá, Haa-san, explicar o quêêê?' choramingava ele.

'Ontem, Akito estava vendo televisão,' disse Hatori. 'Programa de auditório.'

'Ops,' repetiu Ayame.

'Auditório?' repetiu Shigure, apertando os olhos para ver Hatori no meio de toda aquela luz. 'E o que isso tem a ver com nosso seqüestro?'

'Ontem não pude sair para procurar vocês, porque Akito ficou de cama o dia inteiro por esforço excessivo,' continuou o médico. 'Fiquei o tempo todo preso a ele. E hoje de manhã ele resolveu reclamar no meu ouvido por umas duas horas porque eu ainda não havia achado vocês, e estou estressado desde então.' Ele sorriu malevolamente outra vez. 'Aposto que nunca tinham me visto irritado, priminhos.'

Os dois seqüestrados estavam encolhidinhos em suas cadeiras, suando frio. 'Haa-sa…'

'O que se passava pela sua cabeça quando você resolveu escrever aquele livro, Shigure?' exclamou Hatori, ligando e desligando a lanterna na cara de Shigure, como um pisca-pisca furioso.

'Ninguém vai acreditar naquilo, Haa-san!' guinchou Shigure, tentando fugir da luz. Hatori perseguiu seus olhos.

'Você se transformou na frente das câmeras!' gritava Hatori, histérico, parando de brincar com a lanterna. 'Em cadeia nacional! Naquela bosta de programa ao vivo!Sabe o que isso pode acarretar à nossa família? SABE?'

'Ah, aquilo,' murmurou Shigure, com um sorriso sem-graça. 'Aquela senhorita não resistiu e se jogou em meus braços, sabe como é, o charme dos Souma… eu fui pego de surpresa, Haa-san!' berrou ele, quando Hatori reiniciou o pisca-pisca.

'Devo dizer que as moçoilas do auditório acharam a forma canina de Shigure uma graça,' disse Ayame, tentando interceder pelo primo.

'Vocês sabem que não tem como alterarmos a memória de todas as pessoas que assistiram ao programa…' disse Hatori, finalmente se cansando e batendo com a lanterna na cabeça de Shigure. 'E Akito quer que eu dê um jeito nisso. Me digam agora, que jeito?'

'Não tem jeito!' disseram os dois seqüestrados, com sorrisos do tamanho do rosto.

'Akito está ferrado dessa vez,' cantarolou Shigure. 'Não há nada que vocês possam fazer. Vamos ter que simplesmente aceitar que muita gente sabe de nós agora.'

Hatori deu um suspiro cansado. 'Está certo, seus malditos,' concordou ele, desligando as duas lanternas. Tudo voltou à sua escuridão original. 'Tchau pra vocês, vou tentar acalmar a besta-fera do Akito.'

'Ei! Não deixe a gente aqui—'

Mas Hatori já saíra e batera a porta.


Hehe, cabô!

:D Adorei os reviews, e vou gostar mais ainda de escrever essa fic (porque é a minha primeira realmente original…).

Continuem mandando reviews, plis!

Zu