Kalahari

Capitulo 1

Deserto do Kalahari 1930

Eu ouvi a voz gritando na minha direção, somente isto. Depois, mergulhei no escuro.

Quando voltei a mim, sentia a todo o meu corpo doer. Ainda estava viva, pois muito duvidava que morto sentisse dor. Pelo menos nenhum viera me contar. Sem muita coragem tentei abrir meus olhos, mas me arrependi no mesmo instante, pois uma fincada percorreu toda a minha cabeça me fazendo gemer doloridamente.

Alguém falou alguma coisa ao meu lado, eu não entendi nada, apenas que a voz demonstrava alegria. Fiz nova tentativa e lentamente, mesmo sentindo que minha cabeça se abria ao meio, eu abri meus olhos.

_Ohh! – a luz quase me cegara. Aos poucos comecei a tomar ciência das coisas ao meu redor. Eu estava sendo transportada por algum veiculo de rodas, um automóvel, podia ouvir o motor barulhento, não sei como não o percebi antes. Depois senti o cheiro de couro, erva, conhaque e para o ultimo cheiro, meu nariz se enrugou, pois era um cheiro pungente de excremento. Um solavanco fez meu corpo pular onde estava sem qualquer controle meu. Doeu muito!

Depois, passei a sentir um calor que abrandava em toda a minha face, levei minha mão até meus olhos, como proteção. Eu tentava firmar minhas vistas, as imagens eram confusas, desfocadas para ser mais exata. Mas que se formavam aos poucos e, finalmente, eu pude identificar a primeira delas, um par de olhos redondos e grandes, com íris negras que me fitavam intensamente. Depois uma boca bem desenhada, com lábios grossos que se esticaram em um sorriso composto de dentes brancos e perfeitos. Mas a cabeça não era bem formada, era redonda demais e o nariz grosso em formato de batata. Eu estava confusa olhando para aquele rosto de pele escura quando a voz saiu dos lábios, era bela. Mas eu nada entendia do que falava.

_O quê? O que você disse? – ele tornou a falar e eu fiquei pensando se a batida na minha cabeça havia afetado meu juízo, outro solavanco, outra dor fincada. Lágrimas saíram dos meus olhos. Tomei a decisão de ficar em pé, precisava saber onde estava exatamente, coordenar minhas idéias. Mas uma mão pequena e escura me impediu de levantar e o homem negro voltou a falar naquela língua estranha. Um clarão na minha cabeça me fez lembrar de coisas parciais. De estar sentada embaixo de uma arvore, o calor era sufocante e bebi o ultimo gole de água do meu cantil. Sim, as lembranças vinham como jorros. Eu estava no deserto de Kalahari e meu nome é Isabella Swan.

Com um tapa bem dado eu tirei a mão atrevida que se encontrava em cima de um seio meio. O homem não gostou, mas eu muito menos e lhe mostrei os dentes antes de o ameaçar:_Te corto os dedos se voltar a me tocar!

Acho que ele entendeu meu recado e se afastou. Eu me ergui sentindo toda a dor do mundo em cada pedacinho do meu corpo e, me arrependi na mesma hora. Pois assim que coloquei meu nariz para fora do banco, dei de frente com a cara de um animal estranho que tinha a língua para fora, como se tivesse sido esganado. Os olhos eram como de vidro, sem vida. Moscas rondavam a cabeça do bicho e o cheiro, horrendo, me fez colocar a mão sobre meu nariz, eu descobrira de onde vinha o odor de esterco.

Não havia me enganado, estava mesmo em um carro que se movimentava rapidamente através da savana. Era uma espécie de jipe. O sol ainda estava a pino, com todo o seu calor que somente se intensificava com aquele animal fedorento e as moscas nojentas. Virei, e este gesto foi um suplício, algo repuxou no meu pescoço. Olhei para frente, lá estava o homem negro que me olhava ressentido, por que será? Mas ao volante, eu vi com alivio a outro homem e percebi que ele tinha origem ocidental, mesmo usando a um chapéu de abas largas. Tentei me aproximar do banco, mas outro solavanco fez meu corpo pular e desta vez eu não me contive:_Santo Deus! Não tem um lugar neste deserto infernal com menos buracos?

Ai, a dor se dissipou por completo quando o estranho voltou-se sorrindo. Ele tinha a tez morena e um rosto simpático, composto de um nariz reto e bem feito e lábios marcantes. Mas eram os olhos negros que me chamaram a atenção.

_Senhora, seja bem vinda ao mundo dos vivos! Assustou meu amigo Moabe aqui! Pensamos que teríamos a um funeral quando chegássemos na fazenda Cullen.

_O que? Quem? Onde? – acho que ainda não havia me recuperado por completo, pois feito uma pateta fazia perguntas seguidas, mas em monossílabas, praticamente. Sem a decência de coordenar três palavras em uma única frase.

O estranho riu, a voz era profunda e simpática. Ele voltou para frente e eu vi que o pescoço era comprido e bem formado indicando que ele era alto. Depois olhei para frente e me perdi com o que vi, estávamos atravessando de carro perto de uma manada de zebras. Elas corriam com suas listras embaixo do sol e era a coisa mais linda que eu já vira em minha vida. O sol fazia ondulações no ar, era como se fumaça saísse dos contornos dos corpos fortes daqueles animais.

_Jacob Black! – o barulho dos cascos eram tão altos que superou o barulho do motor, mas me pareceu que o estranho falara alguma coisa. Eu me voltei para ele com má vontade e não me enganara, ele falava comigo novamente.

_Sim?

_Não!

_Não entendi!

_Notei!

Bufei, aquela conversa me chateou profundamente!

Não, estava mesmo era chateada com o modo como o estranho ria, mas, ele havia se identificado, eu não ouvira.

_Desculpe, você me falou seu nome, acho que não ouvi.

_Sim, você não ouviu nada do que eu disse. Agora sabemos como se meteu naquela trilha.

A trilha? Lembrei-me de cair de joelhos após achar a sombra daquela arvore e lá me recostei. Eu havia andado muito embaixo daquele sol quente, meus pés estavam em carne viva e, eu ainda tinha que agradecer por morrer lentamente, ao invés de levar um tiro no meio da testa. Como mesmo eu havia me metido naquela encrenca? De olhos bem abertos eu revi exatamente, com todos os detalhes sórdidos, o dia em que embarcara naquela roubada.

_Meu nome é Isabella Swan.

_Sim madre, sabemos! Aliás tivemos uma sorte danada de te encontrar viva e inteira!

Madre?

Arregalei ainda mais meus olhos e olhei para baixo, para mim mesma. Meus dedos agarraram a cruz pequena que estava pendurada no meu peito pelo cordão fino. Depois, eles deslizarão pela roupa que eu usava, uma batina. Minha mente me transportou para o passado quase três meses atrás. Eu me via na mesa de um escritório no porto, preenchendo papeis de registro de embarque, enquanto olhava assustada para a janela. Lembrei de escrever no campo ocupação, Religiosa, Madre Superiora Swan.

Depois um salto e me vi no navio, colocando para fora meu jantar na mureta do convés. Alguma coisa aconteceu e o navio, um cargueiro pequeno de pesca, foi abordado por outro maior, homens maus pularam no convés e foi um corre e corre. Estávamos sendo atacados por piratas bem no meio do nada, para onde eu olhava só via mar e armas apontadas para o meu nariz. Lembro-me nitidamente de me ajoelhar no chão do convés e me valer da cruz em meu peito.

O problema era que eu não sabia rezar!