Reticências.

Capitulo 2

_Desça daí! – olhos grandes e amarelos brilharam para ela, que estava embaixo da arvore com as mãos na cintura e, sem o menor interesse de mover-se, o felino protestou miando.

_Sr. Anderson, realmente gostaria de saber como conseguiu se meter nesta arvore se tem medo de altura? – ela deixara sua leitura ao ouvir o choro insistente de seu gatinho de estimação. Aquela semana fora a segunda vez que ele subira na mesma arvore. Da última, passara a quase toda noite se lamentando, o que obrigara o pai dela a sair no frio da madrugada para resgatar o felino. Ela suspirou profundamente, evidenciando sua insatisfação com Sr. Anderson.

_Veja a bela confusão em que nos meteu! Papai esta no campo, ele não pode tirá-lo daí e, francamente, tinha mesmo que ir para o galho mais alto? – ela não esperava de fato, que o gato lhe respondesse além de um novo miado e, lentamente, livrou-se de seus sapatos e meias, para depois, tirar seu casaquinho de lã. Um novo miado, mais longo e fino a fez erguer o rosto.

_Oras, poderia ter um pouco mais de paciência, não é mesmo? – Esme contornou o tronco da arvore e procurou pelo melhor lado para começar a subir. Ela apoiou um pé numa depressão do tronco e depois impulsionou seu corpo para cima e conseguiu com extrema facilidade segurar-se no primeiro galho. Sentindo firmeza, apoiou o segundo pé e com a outra mão se segurou em outro galho e assim passou a subir com cuidado a arvore alta e antiga do quintal de sua casa. Levou-se quase três minutos e ela olhou para baixo e constatou que estava em uma altura razoável.

_Sr. Anderson, estou chegando. – o gato ouviu o som da voz de sua dona e miou novamente. Ela estava as suas costas e logo chegaria até o galho em que ele se encontrava. Mas algo aconteceu que chamou a atenção do preguiçoso felino o fazendo pular do galho e cair com elegância no chão. Como se mais nada importasse, ele passou a lamber insistentemente uma de suas patinhas dianteiras.

_Mas que atrevimento! Sr. Anderson... – um barulho estranho, de algo se quebrando e depois um baque surdo no chão fez com que o gato desse um pulo de lado e corresse para a segurança do interior da casa. Levou-se alguns segundos até que um gemido baixo fosse ouvido, para depois um grito de dor, profundo e desesperado saísse dos lábios da jovem Esme.

A noite veio com o vento gelado, típico do outono. Os passos dele, lentos e seguros eram ouvidos através da calçada em um ritmo cadenciado. Ele se aproximou da porta do hospital e com elegância a abriu para em seguida entrar. O ar quente o recepcionou, seguido do sorriso tímido da jovem enfermeira parada no saguão principal.

_Bom noite, Dr. Cullen! – a enfermeira, Srta. Macphee, estava com uma bandeja de medicamentos na mão. Ele sorriu de leve e retribuiu o cumprimento. Este gesto deveria ser visto como simples e corriqueiro, mas resultou em um esfoguear nas faces brancas da jovem enfermeira que teve a um acesso de tremedeira e deixou cair no chão a bandeja de prata, causando um barulho que se propagou por todo o corredor do hospital que dava acesso aos quartos da enfermaria. Acostumado que estava, o jovem médico abaixou e recolheu a bandeja a entregando a moça que sentia seu coração querer fugir pela boca. Ela não sabia ao certo como proceder com o jovem doutor. Passara toda a tarde daquele dia planejando as palavras certas e o momento exato a oferecer seus lábios. Mas diante dos olhos claros e gentis, ela esquecera-se de tudo, até mesmo de como respirar.

O jovem Dr. Cullen não poderia, jamais, acusar a pobre enfermeira de alguma coisa, visto que ela era somente uma vitima do acaso. Acaso sim, pois se Carlisle Cullen não tivesse salvo a vida do Elton Smith, que quase se afogara na represa da cidade, ele não teria ido até o hospital. Teria seguido com passagem livre pela cidade de Columbus em direção ao centro do país. Mas o inusitado se fez presente na vida do reservado médico. Ele, Carlisle, nunca acreditou em destino, mas julgava que a vida tinha seu começo e seu fim. Para uns, a poeira eterna, para ele, por enquanto, o dia eterno e a noite sem fim. E foi sem receios que ele aceitou o convite do velho médico do hospital a substituí-lo por um curto período de tempo. Por motivos que ele jamais poderia revelar, impôs sua única condição, de prestar seus serviços à noite somente.

_Dr. Cullen! – a voz que soou logo atrás dele não o surpreendeu, pois ele ouvira os passos suaves de Sóror Raphaela, austera e de poucas palavras, ela fora reticente quanto limitar o atendimento do jovem médico somente à noite. Mas, fora convencida com uma eloqüência constrangedora sobre o fato da cidade ser calma e o hospital ter registro somente dos surtos que vinham com a mudança de estações. O que de fato não era um problema e, o Dr. Milton dera garantias de que estaria de volta no curto período de dois meses.

_Boa Noite, Sóror Raphaela! – o fato era que a religiosa havia mudado de idéia por completo e todas as noites ela rezava pela volta do bom Dr. Milton. Sóror Raphaela passou a pedir também, em suas orações, pela alma das enfermeiras e freiras que trabalhavam naquele hospital. Ela dizia que o pecado estava à solta na cidade e creditava ao jovem médico este infortúnio.

_Boa Noite doutor! Preciso que o senhor venha imediatamente até a enfermaria 5. Temos uma fratura de fêmur.

_Exposta?

_Não! Mas devo alertá-lo de que se trata de uma jovem senhorita... – Carlisle sentiu no modo soturno com que falara Sóror Raphaela toda a implicância daquele caso.

_É claro que poderei contar com seu auxilio neste caso! Vá na frente por favor, vou até a minha sala deixar a maleta e vestir o jaleco. – que Sóror Raphaela não tinha do que acusar o jovem doutor, que sempre fora cordado e profissional em suas atitudes. Mas que ele era diferente dos outros homens e causava a um frenesi constrangedor com todas as mulheres que tinha algum contato, indiferente da idade ou estado civil, era o problema. Ela também pedia pela alma do jovem, pois que ele não tinha culpa de haver nascido assim! Enquanto ela caminhava até o quarto 5, de onde se podia ouvir o choro baixo da jovem Esme Platt a sofrer com a fratura interna, ela passou pelos outros leitos e seu semblante fechara-se. O leito 3 era ocupado pela Sra. Moliere, que não estava preocupada em portar-se como uma doente e, enfeitava as faces sem qualquer pudor. Sóror tentara ao longo da tarde lhe ministrar um xarope para a fingida crise de tosse da Sra. Moliere, onde fora repelida de todas as formas possíveis.

_O dia em que a senhora for médica, espero estar enterrada a sete palmos!

_Esta com a voz bem firme para quem se diz vitima de uma crise de tosse! - A Sra. Moliere, com excesso de cinismo, colocara sua mão sobre a boca e voltara a tossir escandalosamente.:_O que sabe, além de tua reza? Vá! Se deseja me fazer algum bem, peça a Deus que tenha misericórdia de mim, que acho que ainda morro com esta tosse!

_Somente o altíssimo sabe o dia de nossa morte!

_Então que ei de definhar até lá de tanto tossir! Preciso urgentemente do Dr. Cullen, já o mandou chamar...?

Sóror Raphaela meteu a mão no bolso de sua roupa abaixando a sua cabeça, ela sabia exatamente quantas vezes deveria rezar com seu rosário. Entrando no leito 5, lá estava a jovem Platt, tão branca quantos os lençóis a tremer de dor.

_Santa madre, eu temo pela minha filha, onde está o médico? – o desespero na voz do Sr. Platt não comoveu a austera religiosa, ela concentrou de forma intensa seus olhos na face da jovem Esme antes de falar.

_O Dr. Cullen logo virá! – ao termino destas palavras, eles ouviram os passos no corredor. Três pares de olhos voltaram-se ansiosos para a porta. Apenas Sóror mantinha seus olhos fixos na jovem machucada, que arregalou e muito aos seus olhos no momento que a figura do jovem médico apareceu na soleira. Esme abriu seus lábios, não por que fosse gemer de dor, mas por não conseguir evitar de suspirar em meio a sua dor física.

_Você é o médico? – a incredulidade estava marcante na voz do Sr. Platt.

_Sim, eu sou o doutor Cullen. – ele caminhou reto até o leito, seus olhos estavam fixos na perna que já se encontrava exposta até a altura da anca. Rapidamente ele tirou um par de luvas de borracha do bolso do seu jaleco branco as vestindo.

_Mas você é muito novo! Onde está o doutor Milton? – Oliver Platt olhou intrigado para a figura sombria de Sóror Raphaela que estava posicionada ao lado de Esme e lhe suspendia de forma contrita a vestimenta.

_O Dr. Milton teve que se ausentar por motivos pessoais. O está fazendo a gentileza de cobrir esta ausência, pois não tivemos tempo de recrutar a um médico mais experiente de outra cidade.

Ainda desconfiado, Oliver Platt esqueceu-se por completo do estado de sua filha e passou a sabatinar o jovem doutor. Os olhos experientes do fazendeiro mostravam a imagem de um homem jovem e extremamente atraente, vestindo um jaleco branco. Mas sua mente lhe dizia que o homem a sua frente, que mesmo demonstrando intensa concentração, mais se associava a um artista de revista e palco, do que a um médico.

_Quando você se formou? Qual é a sua experiência?

O Dr. Cullen já estava acostumado a este tipo de reação por parte de seus pacientes e familiares. Mas ele finalmente teve que olhar para o rosto da jovem Esme. O momento que tanto temia havia chegado, visto que ela não fizera alarde quando ele entrara pela porta, o que, ele julgou ser efeito do choque somente. Mas agora que ele teria que olhar em sua face, seus receios, que o acompanharam por todo o corredor, antes de adentrar a enfermaria, voltaram com impressionante força.

Será que ela se lembraria dele?

Olá, queridos leitores (as), estou agradavelmente surpresa com a quantidade de leitores que acompanham esta fic neste site. Ficarei ainda mais feliz se puder ler alguns reviews!