Capitulo 1.
Rose não considerava importante estar aborrecida. Depois de um dia duro, um pouco de tédio era bem-vindo, já que dava a sua mente e a seu corpo a oportunidade de recarregar. Não importava acabar um turno de dez horas depois de uma esgotante semana de sessenta horas e entrar em um vestido de noite e usar sapatos com saltos de dez centímetros. Nem sequer se queixava por estar num banquete no salão do Brown House enquanto um discurso depois de outro lhe esgotava a mente.
O que importava era que seu companheiro deslizava a mão por sua coxa embaixo da toalha de mesa de linho branco.
Os homens eram tão previsíveis…
Ergueu o copo de vinho e, movendo-se no assento, roçou a orelha de seu par com o nariz.
- Adrian?
- Mmm? – os dedos subiram um pouco mais.
- Se não tirar sua mão… digamos nos próximos dois segundos… vou fincar com muita força o garfo de sobremesa sobre ela. Vai se machucar, Adrian – se recostou e bebeu um gole de vinho, sorrindo acima do borda da taça enquanto ele arqueava uma sobrancelha - Vai demorar um mês para poder voltar a jogar golfe.
Adrian Ivashkov, solteiro cobiçado, temido promotor e convidado de honra no Banquete da Escola de advogados de Denver, sabia como manejar as mulheres. E estava há meses tentando se certificar do melhor jeito de manejar aquela mulher.
- Rose… - suspirou, presenteando-a com seu sorriso mais encantador e brilhante - Quase terminamos por aqui. Por que não vamos para minha casa? Podemos… - no ouvido sussurrou uma sugestão descritiva, imaginativa e, com toda certeza, anatomicamente impossível.
O som de um celular tocando poupou Rose de ter que responder e a Adrian o salvou de ver-se submetido a um pequeno procedimento cirúrgico. Vários dos convidados que compartilhavam a mesa se moveram para verificar seus bolsos e bolsas. Com uma inclinação de cabeça ela se levantou.
- Perdão. Creio que é o meu – afastou com uma oscilação sutil de quadris e de suas longas pernas. Aquele corpo no interior de um vestido vermelho, com as costas nuas, fez que mais de uma cabeça se voltasse. A pressão arterial de alguns se elevou. As fantasias entraram em erupção.
Consciente das reações que provocava, mas indiferente a elas, saiu do salão e atravessou o vestíbulo para os telefones. Abriu a bolsa de noite, que continha um pó compacto, lápis de lábios, seu distintivo, dinheiro de emergência e sua nove milímetros, extraiu uma moeda de quatro centavos e realizou o telefonema.
- Hathaway – enquanto escutava, jogou para trás seu cabelo castanho escuro e revirou os olhos de uma tonalidade castanha aleonada - Estou indo para lá – desligou, voltou-se e viu que Adrian Ivashkov avançava em sua direção. Com objetividade teve que reconhecer que era um homem atraente com o aspecto muito distinto. Era realmente uma pena que por dentro ele fosse tão comum - Sinto muito Adrian. Tenho que ir.
A irritação fez que ele franzisse o cenho. Em sua casa estava preparada uma garrafa de conhaque Napoleão, lenha para acender a lareira e uns lençóis de cetim.
- Vamos, Rose, ninguém poderá substituir você?
- Não – o trabalho era sua prioridade, sempre. - Ainda bem que tem ficar aqui Adrian. Pode desfrutar do resto da festa.
Mas ele não pensava em se render com tanta facilidade. Acompanhou-a pelo vestíbulo até a noite de outono.
- Por que não volta quando tiver terminado? Podemos continuar onde o paramos.
- Não paramos em lugar nenhum, Adrian – entregou o ticket do estacionamento a um manobrista - Deve aprender a abandonar uma guerra quando esta já está perdida, não penso em começar nada com você – suspirou quando ele a envolveu com um braço.
- Vamos, Rose, esta noite você não veio apenas comer essas boas iguarias e escutar os intermináveis discursos de um grupo de advogados – baixou a cabeça e murmurou junto a seus lábios - não usou este vestido para me manter longe de você. O colocou para me deixar louco e conseguiu.
A leve irritação que sentia aumentou.
- Estou aqui nessa noite porque respeito você como advogado – a rápida cotovelada que ela deu nas costelas o deixou sem ar e o obrigou a retroceder um passo - E porque pensei que poderíamos passar juntos uma noite agradável. O que visto é assunto meu, Ivashkov, mas não o escolhi para que pudesse me apalpar por baixo da mesa nem para que fizesse uma sugestão ridícula sobre como poderia passar o resto da noite.
Não gritava, mas também não se preocupava em manter a voz baixa. Nela trilava a ira, como gelo sob o nevoeiro. Consternado, Adrian ajeitou o nó de sua gravata e olhou para direita e esquerda.
- Pelo amor de Deus, Rose, calma.
- Pensava em recomendar o mesmo a você – disse com doçura.
Ainda que o manobrista fosse todo olhos e ouvidos, com educação pigarreou. Rose se voltou para aceitar as chaves.
- Obrigado – ofereceu um sorriso e uma gorjeta generosa.
O sorriso fez que o coração do jovem se acelerasse e que não olhasse a nota antes de guardá-la no bolso. Estava demasiado ocupado sonhando.
- Ah… conduza com cuidado, senhorita. E volte cedo.
- Obrigado – jogou o cabelo para trás e com fluidez sentou diante do volante do Mustang conversível - Nos veremos nos tribunais, promotor - arrancou e se foi.
O palco dos crimes, fosse na rua ou dentro de um lar, num meio urbano, suburbano ou no campo, tinham uma coisa em comum: a aura de morte. Como policial com quase dez anos de experiência, Rose tinha aprendido a reconhece-la, absorve-la e arquivá-la, enquanto se dedicava ao procedimento preciso e mecânico da investigação.
Ao chegar, já tinham isolado meio quarteirão. O fotógrafo da polícia tinha terminado e estava guardando seu equipamento. O corpo tinha sido identificado. Por isso a haviam chamado.
Havia três patrulhas com as luzes acesas cujos rádios não deixavam de emitir ruídos. A morte sempre atraía espectadores, que se apertavam por trás da fita de isolamento amarela, ansiosos para dar uma olhada na morte para reafirmar que se achavam com vida e ilesos.
Como a noite era fresca, antes de sair do carro, pegou o chale que tinha jogado no assento traseiro. A seda afastou o frio de seus braços e costas. Mostrando o distintivo ao policial novato que controlava a multidão, agachou-se para atravessar a barricada. Sentiu-se agradecida ao ver Stan, um policial veterano que tinha o dobro de tempo de carreira que ela e não tinha pressa para pendurar seu uniforme.
- Tenente – a saudou, depois sacou um lenço e realizou uma tentativa valente de limpar o nariz.
-O que temos, Stan?
- O morto estava diante da porta do bar falando quando apareceu um carro – guardou o lenço no bolso - As testemunhas dizem que o carro apareceu a toda velocidade, em direção norte, e lançou uma descarga de balas sem parar.
- Algum pedestre ferido? – podia cheirar o sangue, ainda que já não fosse fresco.
- Não. Alguns cortes pelos vidros que voaram, isso é tudo. Eles acertaram o alvo. – olhou acima do ombro - Ele não teve nenhuma chance, tenente. Sinto muito.
- Eu também, eu também – baixou a vista até o corpo estendido sobre o cimento manchado. Na vida já tinha sido pouca coisa, e nesse momento era ainda menos. Tinha um metro sessenta e cinco, cinqüenta quilos de importância, todo ossos e com uma cara que até a uma mãe teria custado amar.
Wild Hill Billings, as vezes cafetão, as vezes trapaceiro, sempre informante.
Mas, maldição, era seu informante.
- E a pericia?
- Já estiveram por aqui – confirmou Stan - Estamos prontos para colocá-lo no gelo.
- Então pode faze-lo. Tem uma lista de testemunhas?
- Sim, a maioria não serve para nada. Era um carro negro ou azul. Um bêbado afirma que era uma carroça dirigida por demônios de fogo - Jurou com um humor característico dos veteranos, conhecendo o suficiente a Rose para saber que não se ofenderia.
- Vamos ver o que podemos conseguir – estudou a multidão... habituais de bares, adolescentes em procura de ação, alguns sem lar e ...
Suas antenas vibraram ao fixar a vista em um homem. Diferente dos outros, não tinha os olhos carregados de repulsa ou excitação. Estava relaxado, com a jaqueta de couro aberta ao vento, revelando uma camisa de flanela e o reflexo de prata de uma corrente. Seu corpo alto e magro lheu deu a impressão de agilidade. Jeans apertados e desbotados cobriam as pernas compridas até as botas de combate. O cabelo castanho se agitava com a brisa e se encrespava em cima do pescoço.
Fumava um charuto fino e observava o palco tal como tinham feito os olhos de Rose. A luz não era boa, mas chegou à conclusão de que estava um pouco bronzeado, o que se encaixava muito bem com o rosto bem definido. Os olhos eram profundos, o nariz longo. A boca era forte, dessas que pareciam a ponto de exibir uma careta desdenhosa com facilidade.
O instinto a impulsionou a catalogá-lo como um profissional, antes que movesse os olhos e os fixasse nela com um impacto parecido ao de um poderoso murro.
- Quem é o cowboy, Stan?
- O… Oh – a cara cansada de Stan se enrugou no que poderia ter sido um sorriso - Uma testemunha – informou; dava a impressão de que o tipo combinaria perfeitamente com um Stetson e um cavalo
- E? – não virou a vista quando a equipe forense se ocupou do corpo. Não era necessário.
- É o único que nos deu uma história coerente – Stan sacou um bloco de notas, umedeceu o polegar e passou algumas folhas. - Diz que se tratava de um sedan Buick 91, com placa do Colorado com as letras ACF. Diz que não pôde ver os números, porque estava com as luzes apagadas e estava ocupado procurando cobertura. Segundo ele, a arma soou como uma AK-47.
- Soou? - "interessante", pensou. Em nenhum momento apartou os olhos dos da testemunha - Talvez… - calou ao ver seu capitão cruzar a rua. O capitão Christian Ozera foi diretamente para a testemunha, moveu a cabeça, sorriu e o envolveu no equivalente masculino a um abraço. Trocaram-se várias palmadas nas costas. Ao que parece o capitão se encarrega dele neste momento. Rose guardou sua curiosidade como se fosse um prato extraordinário para saborear mais adiante - Terminamos aqui, Stan.
Dimitri estava observando ela desde o momento que viu uma perna longa e esbelta sair pela porta do Mustang. Valia a pena olhar uma mulher como aquela, mesmo naquela situação. Gostou dos seus movimentos, com uma graça atlética e concisa que não desperdiçava nem tempo nem energia. E, com certeza, tinha gostado da sua aparência. Seu corpo pequeno, cuidado e sexy, tinha curvas suficientes para avivar o apetite de um homem, e com toda aquela seda vermelha agitando ao vento… o cabelo castanho escuro, ladeando um rosto digno de se guardar num camafeu, contribuiria para que um homem olhasse com mais interesse para ela do que as jóias antigas de sua avó.
Era uma noite fresca, mas uma só olhada naquela mulher fez com que Dimitri sentisse calor.
Não era um jeito ruim de manter-se abrigado enquanto aguarda, já que, nas melhores circunstâncias, não era um homem que gostava de esperar.
Não ficou surpreso quando ela mostrou o distintivo ao jovem policial que fazia o cerco. Ela tinha uma beleza com a autoridade sobre seus exuberantes ombros de nadadora. Acendeu um charuto e imaginou que seria uma ajudante do promotor do distrito, depois compreendeu o erro cometido ao ver que se punha a conversar com Stan.
Ela tinha a palavra tira escrita na testa.
Menos de trinta anos, talvez um metro sessenta e cinco sem aqueles saltos altos. Era evidente que os policiais cada dia ficavam mais interessantes.
Da maneira que esperou, analisando a cena, os restos de Wild Hill Billings não lhe inspiravam nenhum tipo de sentimentos. O homem nesse momento não lhe servia.
Logo descobriria outra coisa, ou a outra pessoa. Dimitri Belikov não era um homem que deixasse que um assassinato se interpusesse em seu caminho.
Quando sentiu o olhar dela, deu uma tragada preguiçosa e soltou a fumaça. Depois moveu os olhos até que se encontraram com os da mulher. A contração que experimentou nas entranhas foi inesperada… espontânea e puramente sexual. O momento fugaz em que sua mente ficou mais limpa do que um cristal foi mais do que inesperado. Não tinha precedente. Foi um choque de poderes. Ela deu um passo para ele. Dimitri soltou o ar que não sabia que tinha estado contendo.
A preocupação que o embargava facilitou que Christian pudesse se aproximar pelas costas e o surpreendesse.
- Dimitri! Filho de uma cadela!
Este se voltou, preparado para qualquer coisa. Mas a fria intensidade de seus olhos se desvaneceu num sorriso que poderia ter derretido a qualquer mulher situada a vinte passos.
- Ozera – na relaxada calidez que reservava aos amigos, Dimitri lhe devolveu o abraço de urso antes de retroceder para observá-lo. Não via Christian fazia quase dez anos. Aliviou-o comprovar que tinha mudado tão pouco - Ainda segue com essa cara bonita, heim?
- E você ainda dá a impressão de que acaba de sair das montanhas. Deus, fico contente de ver você. Quando chegou a cidade?
- Faz alguns dias. Queria ocupar-me de um assunto antes de telefonar para você.
Christian olhou em direção do furgão da polícia forense.
- Seu assunto era esse?
- Parte. Alegro-me de que tenha vindo tão cedo.
- Sim – observou Rose e reconheceu sua presença com um aceno imperceptível - Dimitri, chamou o policial ou um amigo?
- Não é tão ruim que seja ambos – olhou o pouco que sobrara do charuto, atirou-o na sarjeta e o apagou com a bota.
- Matou aquele sujeito? - fez a pergunta com tanta naturalidade que Dimitri voltou a sorrir. Sabia que Christian não teria movido um cabelo se tivesse confessado nesse momento e lugar.
- Não.
- Vai me dizer o que aconteceu?
- Sim.
- Por que não espera no carro? Estarei com você em um minuto.
- Capitão Christian Ozera – Dimitri moveu a cabeça e riu entre dentes. Ainda que passasse da meia-noite, achava-se tão alerta como relaxado, com uma xícara de café ruim na mão e as botas apoiadas na escrivaninha de Christian. -Quem diria?
- Pensava que estava se dedicando aos cavalos e ao gado em Wyoming.
- E o faço. De vez em quando.
- O que aconteceu com seu título de advogado?
- Tenho ele guardado em algum lugar.
- E as forças aéreas?
- Continuo voando. O que passa é que já não uso uniforme. Quanto tempo demorará para trazer essa pizza?
- O suficiente para que chegue fria e não se possa comer –Christian se reclinou em sua cadeira. Sentia-se à vontade no escritório. Estava à vontade na rua. E tal como vinha acontecendo a mais de vinte anos, desde a escola primária, sentia-se à vontade com Dimitri - Não chegou a ver a quem disparou?
- Diabos, Ozera, tive sorte de conseguir distinguir o carro antes de morder o asfalto para me proteger. Ainda que também não acredito que isso ajude muito, já que o mais provável é de que fosse roubado.
- A tenente Hathaway está pesquisando. Por que não me conta que fazia com Wild Hill?
- Ele entrou em contato comigo. Tenho… - calou quando Rose entrou. Não tinha se preocupado em bater na porta e trazia uma caixa plana de papelão.
- Pediu pizza? – deixou a caixa na mesa de Christian e estendeu uma mão - Dez dólares, Ozera.
- Rose Hathaway, Dimitri Belikov. Dimitri é um velho amigo – pegou dez dólares da carteira.
- Senhor Belikov – depois de dobrar o dinheiro com meticulosidade e guardá-lo na bolsa de lantejoulas, depositou a mesma, sobre as pastas.
- Senhorita Hathaway.
- Tenente Hathaway – corrigiu. Levantou a tampa da caixa, analisou os ingredientes e escolheu uma fatia - Pelo que entendi estava na cena do crime.
- Pelo jeito é o que parece - baixou as pernas da escrivaninha para adiantar seu torso e pegar também um pedaço da pizza. Captou a fragrância dela acima da pizza. Era muito mais tentadora.
-O brigado – murmurou Rose quando Christian lhe passou um guardanapo. - Fico me perguntando o que fazia participando de um tiroteio com meu informante.
- Seu informante? – Dimitri estreitou os olhos.
- Exato – Rose reparou na cor de seus olhos, eram escuros como a noite. E nesse momento eram tão frios como o vento que soprava contra a janela.
- Hill me contou que passou o dia inteiro tentando falar com seu contato policial.
- Fazia um trabalho de campo. - Dimitri arqueou as sobrancelhas e percorrel o olhar pela seda vermelha.
- Campo?
- A tenente Hathaway dedicou todo o dia a rastrear uma operação de drogas – interveio Christian - E bem, garotos, por que não começamos de novo desde o princípio?
- Bem – Rose deixou o pedaço pela metade dentro da caixa, limpou os dedos e tirou o chale.
Dimitri apertou os dentes para evitar que a língua caísse. Como ela lhe dava as costas, teve o doloroso prazer de avaliar quanto sedutora podia ser suas costas nuas, o quanto era esbelta, reta e emoldurada entre seda de cor vermelha.
Depois de deixar o chale sobre um arquivador, Rose recuperou seu pedaço de pizza e se sentou no canto da escrivaninha de Christian.
Dimitri se deu conta que ela era consciente do que fazia a um homem. Podia ver esse conhecimento feminino em seus olhos. Sempre tinha acreditado que cada mulher conhecia qual era seu arsenal, mas era um osso duro quando uma mulher se encontrava tão bem armada como aquela.
- Wild Hill, senhor Belikov… - começou Rose - Que fazia com ele?
- Conversava – sabia que a resposta era arredia, mas nesse momento tentava julgar se tinha algo entre a sexy tenente e seu velho amigo. Seu velho e casado amigo. Aliviou-o e o surpreendeu um pouco não perceber a mínima atração entre eles.
- Sobre o que? – a voz de Rose seguia sendo paciente, inclusive agradável. Como se interrogasse um menino pequeno com uma deficiência mental.
- A vítima era o informante de Rose – recordou Christian a Dimitri - Se ela quiser o caso…
- E o quero.
- Então é seu.
Para ganhar tempo, Dimitri pegou outra fatia de pizza. Ia ter que fazer algo que odiava e que lhe deixava com um nó na garganta. Pedir ajuda. E para obtê-la teria que compartilhar o que sabia.
- Demorei dois dias em localizar Billings e convencê-lo a falar comigo – também tinha custado duzentos dólares em subornos para limpar o caminho, mas não era um sujeito que contava o preço até o resultado final. - Estava nervoso, realmente não queria falar até ter ao lado a presença de seu contato policial. Assim que o tentei – olhou a Rose. Deu-se conta de que estava exausta. Demorara a detectar a fadiga, mas estava ali… na ligeira queda das pálpebras, nas leves sombras que tinha sob os olhos - Lamento que o tenha perdido, mas não acredito que sua presença tivesse mudado algo.
- Nunca saberemos, não é verdade? – não permitiria que o pesar nublasse sua voz ou seu juízo - Por que tomou tantas providências para contatar Hill?
- Havia uma garota que trabalhava para ele. Jade. Provavelmente este seja seu nome profissional.
- Sim – Rose assentiu - Loira, pequena, cara de menina. A prenderam algumas vezes pelo que fazia na rua. Terei que comprovar, mas creio que faz umas quatro ou cinco semanas que não aparece pela noite.
- Encaixa – Dimitri se levantou para encher a xícara de café -Billings conseguiu um trabalho para ela faz aproximadamente nesse tempo. No cinema – deu um gole e se voltou - Não falo de Hollywood, e sim de material pesado para espectadores particulares e o com dinheiro bastante para comprar esses pratos fortes. Fitas de vídeo para aficionado em coisas mais fortes – encolheu os ombros e se sentou outra vez - Não posso dizer que me incomoda, acredito que são pessoas adultas e responsáveis por elas mesmas. Ainda que eu prefira o sexo pessoalmente.
- Mas não falamos de você, senhor Belikov.
- Oh, não tem que me chamar de senhor, tenente. Parece frio quando tratamos temas tão incandescentes – se recostou com um sorriso no rosto. Por razões que não ia se preocupar em explorar agora, tinha vontade de sacudir aquela fachada - Bem, o resultado é que algo assustou Jade e ela desapareceu. Não faço parte dos que pensam que uma prostituta tem um coração de ouro, mas ao menos esta tinha consciência. Enviou uma carta ao senhor Frank Cook e senhora - olhou a Christian - Frank e Tasha Cook.
- Tasha? – Christian ergueu as sobrancelhas - Tasha e Frank?
- Os mesmos – o sorriso de Dimitri era irônico - Mais velhos amigos, tenente. Há um milhão de anos tive o que se poderia chamar.. uma amizade íntima com a senhora Cook. Mas como ela é uma mulher com juízo sensato, casou-se com Frank, estabeleceu-se em Alburquerque e teve um casal de lindos filhos.
Rose se moveu e cruzou as pernas com um roçar de seda. Notou que o cordão de prata que sobressaía acima da camisa de Dimitri era uma medalha de São Cristóvão, o santo padroeiro dos viajantes. Perguntou-se se o senhor Belikov sentia a necessidade de proteção espiritual.
- Suponho que isto nos conduz a outra parte que não seja o caminho das recordações, verdade?
- Oh, conduz justo até a porta de sua delegacia, tenente. Apenas gosto de algumas voltas de vez em quando – pegou um charuto e o passou por seus dedos longos antes de pegar o isqueiro - Faz um mês, a filha mais velha de Tasha… Elizabeth. Chegou a conhecer a Liz, Christian?
Christian negou com a cabeça. Não estava gostando para onde se conduzia à conversa.
- Não a vejo desde que usava fraldas. Quantos anos têm agora, doze?
- Treze. Recém feitos – acendeu o isqueiro e aspirou o charuto. Ainda que sabia que a fumaça não eliminaria o sabor amargo de sua garganta - Preciosa, como sua mãe. Também com o temperamento aceso como o de Tasha. Teve alguns problemas em casa, desses que imagino que a maioria das famílias experimenta de vez em quando. Mas Liz decidiu ir embora.
- Ela fugiu de sua casa? – Rose compreendia muito bem a mentalidade dos jovens que decidiam fugir.
- Meteu algumas coisas em sua mochila e foi embora. Não é errado dizer que há algumas semanas Tasha e Frank estão vivendo num inferno. Chamaram à polícia, mas a via oficial não os levou a nenhuma parte – exalou a fumaça. - Sem querer ofender. Dez dias atrás me chamaram.
- Por que? – inquiriu Rose.
- Já disse. Somos amigos.
- Costuma procurar a ladrões e esquivar-se de balas pelos amigos?
- Faço favores as pessoas - pensou que o sarcasmo não lhe caia mal. Uma arma a mais em seu arsenal.
- É um investigador com licença?
Com os lábios apertados, Dimitri estudou a ponta do charuto.
- Não sou muito aficionado às licenças. Consegui algumas informações e tive um pouco de sorte em rastreá-la pelo norte. Depois os Cook receberam a carta de Jade – apertou o charuto com os dente e sacou uma folha dobrada com desenhos florais do bolso interior da calça - Ganhara tempo se a ler você mesmo –disse, passando-a para Christian.
Rose levantou e apoiou uma mão no ombro de Christian enquanto lia.
Era um gesto curiosamente íntimo, mas assexual. Dimitri chegou à conclusão de que se tratava de um gesto que falava de amizade e confiança.
A caligrafia era tão atraente como o papel mas o conteúdo não tinha nada que ver com flores e fantasias infantis.
Estimados senhor e senhora Cook:
Conheci a Liz em Denver. É uma garota muito agradável. Sei que lamenta muito ter ido embora e agora ela regressaria para a casa se pudesse. Eu a ajudaria, mas tenho de sair da cidade.
Liz está metida em problemas. Eu deveria ir à polícia, mas estou muito assustada… alem disso, não creio que escutassem a alguém como eu. Sua filha não encaixa nesta vida, mas não a deixam ir. É jovem, e tão bonita, e creio que estão ganhando muito dinheiro com os filmes. Eu estou nesta vida há cinco anos, mas algumas das coisas que querem que façamos para a câmera me deixam de cabelos em pé.
Me parece que mataram uma das garotas, por isso eu vou embora antes de que me matem. Liz me deu seu endereço e me pediu que eu escrevesse para dizer que sentia muito. Está assustada para valer e espero que a encontrem bem.
Jade.
P.D. Têm um lugar nas montanhas onde fazem os filmes. E um apartamento na Segunda Avenida.
Christian não devolveu a carta, e sim a deixou em sua escrivaninha. Tinha uma filha. Pensou em Allison, doce, alegre e com seis anos, e engoliu a ira.
- Poderia ter ido a minha casa com isso. Tinha que ter ido.
- Estou acostumado a trabalhar sozinho – deu uma tragada no charuto antes de apagá-lo - Em qualquer caso, iria falar com você depois de resolver algumas coisas. Consegui o nome do cafetão de Jade e queria tirar alguma informação dele.
- E agora está morto – manifestou Rose com voz impassível enquanto girava o corpo para olhar pela janela de Christian.
- Sim – Dimitri estudou seu perfil. Não era apenas raiva que emana dela. Havia muito mais - Deve ter corrido a conversa que eu o andava procurando e o fato que ele estava disposto a falar comigo, me faz pensar que estamos tratando de um lixo bem relacionado e que nem pisca antes de matar.
- É um assunto policial, Dimitri – murmurou Christian.
- Não discuto isso – pronto para pactuar, estendeu as mãos - Também é um assunto pessoal. Vou continuar pesquisando,Ozera. Não há nenhuma lei contra isso. Sou o representante dos Cook… seu advogado, se precisamos uma desculpa legal.
- É o que é? – com as emoções outra vez controladas, Rose o olhou. - É advogado?
- Quando me convém. Não desejo interferir na investigação – disse a Christian - Quero à menina de volta, a salvo, junto a Tasha e Frank. Darei toda minha cooperação. Qualquer coisa que saiba, vocês também saberão. Mas deve de ser recíproco. Me passe um policial que possa trabalhar comigo, Christian –esboçou um leve sorriso, como se o divertisse a idéia - E você deveria saber o quanto odeio solicitar um colega oficial para um trabalho. Mas aqui quem importa é Liz. Sabe que sou bom –aproximou o corpo - Sabe que não fugirei. Me dê seu melhor homem e agarraremos esses canalhas.
Christian levou os dedos a seus olhos cansados. Sabia que podia ordenar que Dimitri que abandonasse o caso. E que perderia seu tempo. Também podia se negar a cooperar, a compartilhar qualquer informação que o departamento descobrisse. Sim, sabia que Dimitri era bom, e tinha uma idéia do tipo de trabalho que tinha realizado como militar.
Não seria a primeira vez que Christian Ozera pulava as regras. Tomada à decisão, indicou a Rose.
- Ela é meu melhor homem.
