Título: Sangue do meu sangue
Classificação: K+
Fandon: Bonanza
Autora: Crica ( Sem Beta, todos os erros são meus)
Categoria/Gênero: Western/aventura/família/drama
Sinopse: Não importa o quão grave seja a situação, o quanto custe, o que seja necessário fazer porque os laços de sangue são muito mais fortes.
Nota: Todos os personagens de Bonanza pertencem à CBN e à Bonanza Ventures. Aqui nada é meu. Este é mais um trabalho, sem fins lucrativos, de uma fã.
SANGUE DO MEU SANGUE
CAPÍTULO 2
O cheiro estranho de gás ainda pairava no ar junto com uma quantidade absurda de poeira. Não havia como abrir seus olhos. Não havia como respirar normalmente e tossir era a única opção para expelir toda aquela massa poeirenta de dentro de seu corpo. Dentro da mais completa escuridão, Joe não distinguia onde estava e sequer era capaz de dizer se estava sozinho ou não. Imediatamente, todos os alarmes soaram dentro de sua cabeça: Adam. Onde estaria Adam? O que teria acontecido com seu irmão maior depois de tê-lo empurrado para dentro da caverna que se formava ao lado do rastro de fogo que cresceu com a combustão do gás natural?
Apesar de não enxergar dentro do breu que era aquele canto da mina, sentia-se tonto e seus ouvidos zuniam, provocando-lhe fortes dores de cabeça. Elevou a mão direita até a têmpora e, ao tocá-la, sentiu a pontada onde um líquido viscoso e morno escorria. Estava sangrando. Isso explicava, em parte, as tonturas e as dores fortes. Tinha batido a cabeça em algum lugar ou sido atingido por algo na explosão, não poderia afirmar agora, mas o fato é que aquilo doía como o diabo.
Joseph permitiu que seu corpo cansado se ajeitasse sobre o chão frio e úmido. Seu ombro esquerdo parecia diferente, talvez inchado e, ao tentar erguer o braço foi que percebeu estar ferido ali também. Provavelmente deslocado, pensou. Decidiu, por fim, dar-se um tempo maior para absorver o choque e pensar com clareza no que fazer. Foi aí que sentiu a pressão sobre suas pernas. Puxou-as com força, mas apenas a direita soltou-se debaixo do entulho. A esquerda ainda estava muito presa e começava a formigar. Mais uma vez, empurrou o corpo para cima e sentou-se. A impressão que tinha é que o teto não estava muito distante de sua cabeça. Não conseguiu firmar sua atenção porque uma onda de náusea e confusão o invadiu, levando-o para o silêncio de sua inconsciência.
o-o-o-o-o-o
_ Hoss, traga o outro mapa que está na cabana! – Benjamin ordenou ao filho do meio que cavava furiosamente perto dali.
_ Senhor – Tomás tinha uma expressão preocupada _ Não poderemos continuar por aqui.
_ O que?- Cartwright gritou mais alto _ Como não? Temos que cavar e tirar os homens de lá!
_ Eu sinto muito, senhor – o mineiro secou o suor que escorria pelo rosto, com a manga da camisa_ Infelizmente topamos com uma rocha das grandes e não poderemos explodi-la.
_ Temos dinamite e nitroglicerina no galpão, homem!
_ Sim, senhor, mas não sente o cheiro? Há gases lá dentro que incendiarão com a explosão – fixou a picareta no meio do cascalho _ E temos também que nos preocupar com a estabilidade do que sobrou dos túneis. Se fizermos as coisas sem pensar, poderemos provocar outros desabamentos e acabar soterrando os que ainda estiverem vivos.
_ Você tem razão, Tomás – Ben levou as mãos ao alto da cabeça e respirou profundamente. Não estava pensando direito. Precisava tomar as rédeas de suas emoções ou seus filhos e os outros mineiros não teriam chance _ Vamos ver o mapa e buscar uma entrada alternativa.
Os Cartwrights, pai e filho, seguiram o mineiro até a mesa do acampamento e, com ele, observaram o mapa da mina, analisando-o.
_ Veja, senhor – apontou um conjunto de túneis _ Seus filhos e Frank foram até esta parte do túnel norte e os outros três mineiros trabalhavam na mesma sessão, um pouco mais fundo. Pelo tempo que passou, acredito que estivessem bem aqui.
_ E isso nos dá alguma resposta? – Hoss quis saber.
_Sim, senhor Hoss – Tomás desenhou com um lápis, um caminho, sobre o mapa _ Se nos concentrarmos em cavar aqui e aqui, onde as paredes internas são mais finas, poderemos abrir duas entradas que darão no corredor principal e, com sorte, alcançaremos os túneis adjacentes onde estão nossos homens.
_ O que estão esperando? Hoss, leve todos os homens que encontrar para o lado norte e comece a escavar. Eu irei até Virgínia e trarei todos os que puder para ajudar.
_ Se o senhor me permitir – o mineiro pediu a palavra _ Irei até o acampamento de Pinewoods. Lá há muitos homens e equipamento. Posso trazê-los em menos de uma hora e com os que o senhor conseguir na cidade, com um pouco de sorte, chegaremos a eles ao amanhecer.
_ Faça isso, meu rapaz – Voltou-se para o filho _ Cuide de tudo enquanto estou fora, Hoss. Você está no comendo com Tomás. Trarei lampiões e suprimentos.
_ Está bem, pai – Eric concordou _ E, pai, fique calmo. Nós vamos encontrá-los. Eu sei que vamos.
_ Voltarei o mais rápido que puder, filho.
Os olhos de Ben Cartwright transpareciam uma dor que poucas vezes seu filho do meio vira neles. O homem estava esgotado, mas mantinha-se uma muralha. O jovem alto sabia que seu pai não descansaria até o momento em que seus irmãos e os trabalhadores estivessem a salvo, fora daquelas paredes, mas também sabia que o coração de seu velho estava por um fio.
_ Vamos lá, pessoal! – Hoss deu a ordem _ Vamos cavar o mais rápido que pudermos e adiantar o serviço até que chegue a ajuda. Os homens lá dentro precisam de nós!
o-o-o-o-o-o-o
Novamente o cheiro forte de mofo e umidade se misturava à poeira assentada sobre o solo rochoso.
Uma mão gelada tocou o rosto do mais moço dos filhos de Ponderosa, num movimento incerto, despertando-o.
Joe abriu os olhos com certa dificuldade, piscando repetidas vezes, mas a escuridão não lhe permitia ver nada. Sentira claramente algo bater em seu rosto. Algo macio e, imediatamente lembrou-se de que poderia haver mais alguém ali com ele.
O jovem tateou o chão no escuro, percorrendo o espaço ao redor do próprio corpo. Nada. Era necessário expandir a busca. Joseph colocou força nos braços e impulsionou o corpo para cima devagar. Estava sentado sem por o estômago pela boca, apesar de sua cabeça tilintar como um sino de domingo. Puxou o ar com força e expirou, esvaziando os pulmões. Arrastou-se mais para o lado direito e tornou a tatear o chão, esbarrando em alguma coisa.
_ Adam? – o rapaz focou a visão, sem nenhum sucesso _ Adam, é você? – Passou a mão sobre o que parecia um corpo deitado. Seu coração falhou uma batida ao tocar a pele fria _ Adam, se é você, responda-me, pelo amor de Deus. Não estou vendo coisa alguma...
Só o silêncio ecoava dentro da cabeça do rapaz.
_ Certo, Joe, acalme-se e comece a agir feito um homem – falava consigo mesmo _ Como o pai diria, uma coisa de cada vez... – puxou ainda mais o corpo para perto do outro, mas sua perna esquerda, ainda sob os escombros o impediu de continuar _ Porcaria! – gemeu baixo e apertou a região acima do joelho, no intuito de aliviar a dor que sentia _ Tinha esquecido dessa droga de perna. O jeito vai ser tentar verificar o seu estado daqui mesmo, como der.
Joseph esticou os braços, suportando as pontadas no ombro deslocado e apalpou o que parecia o colete da outra vítima. Dentro de um dos bolsos, encontrou um objeto metálico que logo identificou como um relógio de bolso. Definitivamente era seu irmão ali. Adam nunca se separava de seu precioso relógio de bolso. Era com ele que o mais velho controlava seus atrasos e cobrava sua pontualidade nos compromissos de trabalho. Maldito relógio!
_ Depois eu é que sou o preguiçoso, não é, irmãozão? – brincou com o próprio nervosismo diante da inércia do outro _ O que há, heim? Decidiu tirar uma folguinha e vai me deixar com todo o trabalho? - continuou com seu exame às cegas do corpo de Adam _ Oh, meu Deus...
Os dedos do jovem rapaz tocaram uma poça de sangue ao lado do corpo. Adam estava, certamente, muito ferido. Precisava ser rápido e estancar aquele sangramento, mas como fazê-lo se sequer era capaz de enxergar o ferimento? Joe retirou o lenço que levava amarrado ao redor do pescoço com a intenção de estancar o sangue. Continuou tateando sobre a lateral esquerda do corpo de Adam até que suas mãos se depararam com um pedaço grande de madeira que parecia sair do meio das costelas de seu irmão.
_ Adam, o que você foi arranjar? – seu estômago balançou como se uma nuvem de borboletas dançasse dentro dele _ O que eu vou fazer agora, homem? Não posso tirar essa coisa de você e também não podemos deixá-la aí por muito tempo ou terá uma infecção daquelas. Que inferno! – passou os dedos por dentro de seus cabelos, numa atitude de desamparo _ Eu sei, eu sei... O pai ia comer o meu fígado se me ouvisse xingando dessa forma, mas você há de convir que a situação não é das melhores, meu irmão. E até o pai perderia o senso se estivesse nessa conosco.
O mais moço dos Cartwright esquecera-se completamente de suas dores diante da situação de seu irmão. Não havia muito o que fazer: se retirasse a lasca de madeira do corpo de Adam, a hemorragia o mataria em minutos e deixá-la onde estava também não era a melhor opção, mas ali, naquele momento, era a única alternativa de ganhar tempo para tentar uma fuga ou esperar pelo resgate.
Joseph decidiu por concentrar seus esforços em libertar sua outra perna para que tivesse mais mobilidade e, assim, ajudar Adam. Arrastou seu corpo e sentou-se junto ao monte de entulho que o prendia. Com as próprias mãos cavou e soltou as pedras maiores. Seus dedos ardiam e podia sentir a terra ferir sua carne, mas não havia opção. Era urgente ser ver livre para poder tomar outras providências. Por fim, estava solto. Fez força para mover a perna e a dor subiu pelos ossos até a altura do quadril. Não lhe faltava mais nada: sua perna estava quebrada e, bem quebrada, avaliando a intensidade da dor que sentia. Teve vontade de chorar e sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, mas não hesitou em pisar sobre o pé da perna ferida contra a parede próxima e puxar com toda força, colocando o osso no lugar e soltando um grunhido pelo sofrimento.
_ J...Jo... – um fio de voz trêmulo chamou-lhe a atenção.
_ Adam?- Joe engoliu o urro que pretendia soltar e deixou o nome de seu irmão sair de sua boca em meio a respiração entrecortada _ Adam?
_ Joe... – mais uma vez, a voz, quase inaudível, pronunciou seu nome.
Imediatamente o rapaz arrastou-se na direção do sussurro que ouvira, encontrando seu irmão.
_Graças a Deus... – Ainda tateando, encontrou a testa do outro, sobre a qual depositou a palma de sua mão, verificando-lhe a temperatura.
_ Joe...- outro sussurro.
_Estou aqui, Adam. Está muito escuro. Não dá para ver nada, fique calmo.
_ Jo...
_ Não fale, está bem? Você está ferido e precisa poupar suas forças. Vou encontrar uma forma de nos tirar daqui e você sabe que o pai já está lá fora movendo mundos e fundos para nos resgatar, então, relaxe e deixe tudo conosco, certo?
Não houve mais nenhuma palavra, nenhum sussurro. Adam aquietou-se e Joseph acreditou que seu irmão perdera a consciência novamente e ele agradecia por isso. Se fossem morrer ali, que pelo menos um deles não tivesse que passar por toda aquela agonia.
o-o-o-o-o
CONTINUA
