Ser semideus têm, sim, suas vantagens; mas se me perguntassem, eu preferiria mil vezes ser mortal.

Ser semideus é perigoso, assustador, e, se não te destruir fisicamente, te destrói psicologicamente. É justamente por isso que estou escrevendo esse diário. Mamãe disse que seria bom para mim desabafar tudo que tem rolado através desse caderno, e eu não irei mantê-lo, acho que isso pode ajudar alguns semideuses de primeira viagem, digamos assim.

Se você acredita que isso é ficção e que tirei tudo da minha mente, excelente, continue a leitura e divirta-se, admiro sua capacidade mortal de ignorar o que acontece bem embaixo do seu nariz. Mas, se por acaso você se identificar com quaisquer elemento ou personagem nessas palavras, por favor, pare! Procure ajuda, coloque seus pais contra a parede e não hesite em nos procurar, pode ser sua única chance de fazer isso antes que eles o encontrem…

Bom, quem avisa amigo é, certo?

Meu nome é Perséfone Jackson, sim, como a deusa, mas as pessoas costumam me chamar de Percy.

Tenho doze anos e posso até mesmo estar notada no livros dos recordes como a aluna que mais foi expulsa de escolas em menor espaço de tempo. Seis escolas em seis anos. Pois é, alguns cantam, outros dançam, mas meu talento é ser expulsa de todos os colégios que frequento.

Eeeee! Parabéns para você Perséfone!

Eu sou o que você provavelmente chamaria de criança problemática, mas eu realmente não procuro o desastre, ele que me encontra! Não é culpa minha se tanques cheios de peixes explodem justamente quando eu encosto nele, nem que o canhão tenha atingido o ônibus… Como eu poderia fazer qualquer uma dessas coisas? Eu, uma simples menina de doze anos!

Okay, não é tããão verdade assim essa afirmação, mas naquela época até poderia ser considerado uma meia verdade.

Ah, só para deixar registrado, eu odeio passeios escolares!

Naquele ano eu frequentava a Academia Yancy, que era justamente uma escola para gente da minha laia.

Veja bem, eu sou disléxica e ainda por cima tenho déficit de atenção, isso tudo somado a um pavio curto. E eu nem era a aluna mais bagunceira da classe, por assim dizer. Eu poderia facilmente fazer uma lista de alunos que deveria estar numa prisão de segurança máxima!

E, sortuda como sou, estava sendo arrastada contragosto para uma fantástica excursão até o Metropolitam Museum of Art, e eu admito que até gostaria de ver uma ou duas velharias gregas, já que eu até gostava do tema, mas, quando se tinha quase trinta pré-adolescentes alucinados dentro de um ônibus amarelo, todo gosto pela coisa se esvai e eu apenas gostaria de me enfiar debaixo das cobertas e torcer para que eles não me pegassem. Naquela época, os alunos da Yancy eram a coisa mais assustadora que eu conhecia.

Revirei os olhos.

Para começo de conversa eu nem deveria estar ali. Eram minhas últimas semanas na Academia Yancy, mamãe havia me avisado que me tiraria da escola antes do fim do ano (é uma longa história, mas vamos por partes) e me buscaria em breve, pessoalmente. Devido a isso, eu até tentei argumentar com o corpo docente, mas eles afirmaram que até que fosse dito o contrário eu era aluna da Yancy — mas na verdade eles só deviam estar com medo que eu explodisse a escola enquanto estavam ausentes.

O que me restava era depositar toda a minha esperança no professor de latim, Sr. Brunner. Eu o adorava, na verdade ele era o único professor que eu gostava. O Sr. Brunner era um cara maneiro, o melhor que eu já conheci na verdade. Ele estava na meia-idade, tinha cabelos ralos e barba desalinhada, e andava em uma cadeira de rodas motorizada. Não havia nada mais bacana na Academia Yancy do que ele e sua assustadoramente grande coleção de armas e armaduras romanas. A aula dele era a única que não me fazia dormir.

Mas havia apenas uma coisa que me incomodava nele — aliás, não só uma, mas isso não importa agora —, ele me olhava como se soubesse que havia algo errado comigo. Ou, quem sabe, eu só estivesse sendo paranoica, já que mamãe sempre me ensinou a desconfiar das pessoas — colegas de escola, professores, e todos aqueles que não fossem ela (mamãe era um pouco super-protetora).

A questão era que, constantemente, Sr. Brunner ficava parado e me observando quando pensava que eu não estava olhando (mamãe me ensinou a tomar cuidado com essas coisas). Eu sequer era uma figura bonita de se ver! Eu era baixa e não estava em minha melhor forma graças ao meu gosto por doces (oh, doces!), além disso meu cabelo estava totalemente ressecado nas pontas, já que eu havia pintado-as de azul, que agora estavam desbotadas e meio esverdeadas, isso tudo sem contar com as lentes que ninguém sabia que eu usava — castanhas, no tom do chocolate, sobre meus olhos verde-mar. Mas, se tinha uma coisa que eu gostava em mim, era a minha pele, ela não tinha espinha alguma, nem cravos e nem essas coisas nojentas que apareciam na cara de outras pessoas da minha idade; era dourada, e, sem humildade, parecia refletir no sol…

…Mas eu ainda preferiria ser mais encorpada.

Suspirei longamente com esse pensamento.

— No que está pensando? — Grover me questionou.

Imediatamente notei que estava roendo as unhas enquanto olhava através da janela do ônibus. Ah, ainda bem que eu não perco tempo as pintando.

Ah, oi? — Sai do meu transe e engasguei com um pedaço de unha. Eca!

Grover era meu melhor (e único) amigo. Grover não parecia fazer o estilo da Yancy, ele não era exatamente o que se esperava de um problema. Só era meio estranho. Bom, eu sei que ele deve ter repetido o ano muitas vezes, já que ele já tinha uma barba nascendo no queixo. Era aleijado, e tinha um atestado eterno para não ter de participar da Educação Física, isso graças a uma doença muscular nas pernas. Humph! Não se engane, ok? Ah, onde estava essa doença muscular no dia de enchilada? Some! Além disso, ele era um alvo fácil, o que me levava a ter de defendê-lo. Felizmente, contanto que eu não me machuque, mamãe não vê problema nenhum em 'gesticular com ênfase' na cara de quem realmente merece (ora, você verá que ela não é uma mãe exatamente normal!)

— No que você está pensando? — Ele repetiu a pergunta.

— Nada — Soou mais apático do que eu queria, mas não me importei, sabendo que Grover entenderia. Voltei a roer as unhas e encarar a rua.

Até aquele momento, tudo estava indo até que muito bem. Estava. E se eu tivesse ignorado a provocação, tudo poderia ter continuado bem. Ah, como eu fui burra! Tai uma coisa que eu gostaria de mudar, não discutir com a ruiva sardenta Nancy Bobofit.

Nancy era uma cadela. Simplesmente. Uma daquelas valentonas que sempre estava lá para implicar com você, mas que nenhum professor via (exceto o Santo Brunner, que deveria ganhar um Nobel por isso). Como eu gostaria de dar uma gesticulada na cara dela! Ela era uma das que deveria ir para a prisão, e não só por ser uma cleptomaniaca, mas por ser uma maldita vadia que não merecia respirar o mesmo ar que todas essas outras sete bilhões de pessoas respiravam. Ela o contaminava com sua nancysse aguda, e posteriormente iria infectar mais pessoas, e então gerar um apocalipse nancyzico. Eu a odiava profundamente e era 100% recíproco.

Ouvi-a rir com as amigas.

— O casalzinho brigou — Falou com desdém.

Eu e Grover nos encaramos e então fizemos gesto de vômito.

— Cale a boca! — Rosnei ao ouvir o riso dela mais uma vez.

— Percy, não vale a pena! — Grover advertiu e acenou com a cabeça, indicando para mim quem nos observava meticulosamente, esperando um motivo para me dar uma detenção.

Sra. Dodds. Era a professora de matemática, adorava Nancy e me considerada gerada pelo próprio diabo. Usava sempre um casaco de couro preto, mesmo estando com seus cinquenta anos (ou mais). Ah, sabe quando ela chegou a escola? No meio do ano, depois da professora anterior ter um colapso nervoso.

Ela me encarava como se esperasse que eu tirasse do bolso uma bazuca coberta por lantejoulas e purpurina. Ela era a professora que eu menos gostava — e eu não gostava da maioria deles. Oh mulherzinha! Parecia ter saído diretamente do inferno para me atormentar! A simples presença dela me fazia ter vontade de pular da janela do ônibus em movimento e correr direto para casa.

Ah, se eu soubesse…

Eu realmente deveria ter pulado...Realmente.

Sr. Brunner era nosso guia no museu.

Eu estava elétrica, e não só pela hiperatividade, mas também por adorar mitologia grego-romana.

Minha mãe era a pessoa mais viciada nisso que você poderia conhecer, antes de dormir ela me contava histórias mitológicas. As minhas favoritas eram aquelas que envolviam heróis, mais em geral eu não gostava dos heróis em si, só das histórias. Eu não sabia todas as histórias, mas eu conseguia reconhecer as estátuas e até lia um pouco de grego. Esse era o mais legal na minha mãe: ela não ligava para matemática e biologia, ela queria mesmo era que eu aprendesse histórias e línguas antiga e ficava orgulhosa quando eu conseguia aprender uma nova palavra.

Em outra ocasião, aquele teria sido o passeio perfeito para mim. Eu, o melhor professor, o melhor amigo e diversas estátuas com mais de mil anos de idade. Mas aquele com certeza não era o meu dia.

O professor nos reuniu diante de um marco tumular — uma coluna de pedra com metros de altura e uma esfinge no topo —, e começou a nos explicar sobre ela. Se chamava estela, e foi feita para uma menina com mais ou menos nossa idade. Eu até teria captado mais informações, mas era difícil com toda a conversa rolando ao meu redor.

Suspirei e revirei os olhos, tentando me acalmar. Eu estava de TPM nesse dia, acho que foi isso que salvou minha vida…

Calma…

— Algum comentário Srt. Jackson — Sim, de todo mundo que estava falando, foi a minha voz que ele ouviu.

— Não, senhor.

Sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela.

— Pode nos dizer o que esta figura representa?

Oh, claro que eu sabia! Conhecia aquela história muitíssimo bem! Minha mãe me contou ela quando eu já havia me acostumado com boa parte da violência nos mitos, aquele fora especialmente nojento — talvez em decorrência de eu ter imaginado Cronos assando e então cortando os bebês, para só então comê-los com bastante molho de churrasco num sanduíche do Subway.

— Cronos comendo os filhos. — Respondi com propriedade.

Na aula dele eu me esforçava.

— Muito bem — Brunner assentiu — Pode nos explicar por q-…

Eu o interrompi:

— Cronos era o titã, hm, rei, digamos assim… — Hesitei, ele acenou com a cabeça, indicando para que eu continuasse — Cronos destronou o pai, Urano. Mas Cronos era um pouco paranoico e levou-o a devorar os próprios filhos, temendo que um dia eles também os destronassem — Eu quase pude ver os olhos do professor brilharem de expectativa, o que só me incentivou — Esses filhos eram os deuses. Mas Réia, esposa-irmã de Cronos, não permitiu que ele comesse o bebê Zeus e o trocou por uma pedra, sem que o marido soubesse — O que nos leva a pensar que Cronos é um pouco míope, para não notar a diferença entre um bebê e uma pedra, mas abafa o caso — Zeus cresceu e mais tarde deu uma mistura de, hmmm — forcei-me a lembrar — Mostarda e vinho! — Recordei e vi o Sr. Brunner sorrir — Bom, os irmãos foram vomitados e houve aquela grande reunião de família e por fim os deuses venceram e ficaram com o controle da televis- digo, cosmos.

Ouvi risinhos e então a voz estridente de Nancy Bobofit murmurando para a amiga:

— Como se fôssemos usar isso na vida real. Em nossas entrevistas de emprego eles não perguntaram "Por que Cronos devorou os filhos?"

— Parafraseando a excelente pergunta da Srt. Bobofit — Sr. Brunner ergueu um pouco a voz chamando a atenção de todos. Ouvi Grover murmurar "Se ferrou" para Nancy — Isso importa na vida real? Srt. Jackson, já que o senhor demonstrou bastante dominío sobre o mito, por que não nos responde? — Me ferrei.

Hm — Pigarreei — É que… — Risadinhas foram ouvidas e então notei que meu momento de glória havia acabado —… Não sei, senhor.

O professor pareceu desapontado, mas assentiu.

— Mais um ponto e meio por sua excelente e bem humorada explicação, Srt. Jackson — Ele sorriu melancolicamente — Para completar seu pensamento, eu gostaria de acrescentar que Cronos foi destroçado pelos próprios filhos, pela própria foice, e então jogado na parte mais escura do Mundo Inferior…

— O Tártaro — Completei ao mesmo tempo que ele.

— Sim. E é com esse feliz comentário que eu anúncio a hora do almoço. Pode nos levar para fora, Sra. Dodds?

A turma saiu. Um bando de animais famintos em busca da caça, meninas metidas e garotos bobões. Ah, as pessoas com quem eu tenho que conviver…

Eu e Grover estávamos prestes a sair quando o Sr. Brunner me chamou. Indiquei para que Grover seguisse em frente, afirmando que eu estaria logo atrás.

— Perséfone — Okay, nunca é legal ouvir aquele tom de decepção dizendo o meu nome. Nunca é legal ouvir meu nome e nem um tom de decepção, mesmo quando separados. Odiava os dois. — Você tem que aprender a responder minha pergunta.

— Mas eu respon-!

— Não sobre o mito. Sobre a vida real!

— Ah…

— O que a senhorita aprende comigo é vitalmente importante — Advertiu — E de você, quero apenas o melhor!

A pior parte era que eu não conseguia ficar com raiva. Era muita pressão para cima de mim por parte dele, querendo que eu fosse a melhor em tudo.

Ele era um cara bacana? Pra caramba! Mas querer que eu fosse tão boa, ou melhor, que os outros era simplesmente utópico demais — eu mal conseguia aprender fração, quem dirá aplicar conhecimento histórico na minha vida! Eu não fazia nem ideia do que eu faria quando me formasse — se me formasse.

Segurei o suspiro e assenti melancolicamente, me afastando lentamente do professor de latim.

Os alunos foram reunidos em frente ao museu, assistindo ao trânsito de pedestres da Quinta Avenida.

Digamos que o dia não estava aquela coisa bonita de se ver, uma intensa tempestade se formando nos céus com as nuvens super escuras, mas devia ser só culpa do aquecimento global, já que o tempo estava estranho já fazia um tempo — desde o Natal. Tivemos nevascas, inundações e incêndios causados por raios. Daqui a pouco aparece um furacão, não duvido nada…

Mas alguém notou? Não.

Bufei enquanto me sentava ao lado de Grover, a beira de um chafariz, longe dos outros — quem sabe assim ninguém percebe que somos da escola dos lesados esquisitos?

— Detenção? — Ele perguntou.

— Não — Resmunguei — Mas ele bem que podia me dar um tempo as vezes! Eu não sou nem um tipo de gênio…

Ficamos calados por um momento, eu esperava que meu amigo me agraciasse com algum pensamento profundo e renovador, mas ele me vem com isso:

— Posso comer sua maçã?

Encarei minha maçã. Eu adorava maçã, era uma das minhas frutas favoritas, mas eu não tinha muito apetite então entreguei a ele.

Minha vontade era de entrar num daqueles táxis que transitavam pela rua e ir direto para o apartamento da minha mãe, numa área residencial ali perto. Já não a via desde o Natal. Não via a hora de voltar para casa, mas Grover ainda não sabia — ninguém além do corpo docente sabia, e nem pretendia até a véspera da ida (mamãe havia dito para não dizer a ninguém). Eu não via a hora de abraçá-la, e de assistir filmes com ela. Ela ficaria feliz em me ver, tanto quanto eu ficaria ao vê-la.

Estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando tive a brilhante ideia de olhar mais uma vez ao redor, dando de cara com Nancy Bobofit surrupiando a bolsa de uma idosa. Revirei os olhos. Ela viu. Comprei uma briga. Ah, excelente!

Ela caminhou até mim ao lado de suas amigas feiosas, um sorrisinho de desdém no rosto salpicado de sardas. Okay, Percy, se acalme. Faça como o orientador disse, conte até dez, ignore…

Mas eu estava de TPM, e quando ela deixou cair seu lanche meio comido no colo do meu melhor amigo.

— Oops — Oh, ela não fez isso!

Estava furiosa, fiquei tão irritada que deu branco. Só sei que, quando voltei a consciência, Bobofit estava se afogando no chafariz, balançando os braços freneticamente mas não conseguindo levantar a cabeça da água.

Levei um susto e, no mesmo momento, ela se ergueu do chafariz ofegante e cuspindo água.

— P-Percy tentou me afogar! — Para alguém sem folego algum, ela gritava bem alto.

E então, lá estava Sra, Dodds, bem ao meu lado. Procurei por Sr. Brunner, quando o encontrei vi que ele estava lendo, alheio a tudo a sua volta. Os alunos, por sua vez:

Você viu…

A água…

— …Parece que a agarrou…

Não entendi nada, mas eu estava muito encrencada.

— Agora, meu bem… — Sra. Dodds disse.

— Não! — Grover guinchou — Fui eu quem a empurrei!

— Ah, Grover…. — Murmurei —… está tudo bem.

— Vamos, querida — Sra. Dodds bradou — Agora!

Eu e Grover nos encaramos como se fossemos nos ver pela última vez. E poderia ter sido.

Nancy Bobofit sorriu falso e eu, no auge do meu ódio, lhe direcionei um olhar de 'vou te tranformar em ração de peixe', e quase sorri quando a vi estremecer e perder aquele sorrisinho.

Me virei para a Sra. Dodds, mas ela já estava em frente a entrada do museu, no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.

Como ela havia chegado lá tão depressa?

Ok, acho que é importante citar que não só desastres acontecem comigo. Coisas estranhas e fisicamente impossíveis também. Sei lá, acho que meu cérebro adormece ou coisa do tipo, e, quando me dou conta, perdi alguma coisa. O orientador havia dito que isso era graças ao déficit de atenção, e eu acabava interpretando tudo errado.

Tanto faz.

Fui em direção a professora.

O pior que poderia acontecer seria eu ter de comprar roupas novas para a maldita ruiva.

Aparentemente esse não era o plano, já que ela havia me obrigado a segui-la até a sessão greco-romana. Exceto por nós, toda a galeria estava vazia. Aquilo estava me dando arrepios, eu sentia como se Sra. Dodds fosse me pulverizar.

— Você tem causado problemas, meu bem.

— Eu sei — Resmunguei.

— Achou que ia se safar dessa?

Ah, excelente, agora vou ir para o reformatório por ser acusada de tentativa de homicídio, é o que toda garota procura, não? Gemi em protesto graças a esse pensamento.

Sra. Dodds ajeitou os punhos do casaco.

— Achou que se safaria dessa? — Repetiu.

Okay, ela é uma professora e não pode te machucar. O máximo que você vai levar é uma suspensão, Percy! Pare de suar frio imediatamente!

— V-vou me esforçar mais senhora — Tentei argumentar. Eu parecia um chihuahua de tanto que tremia.

Um trovão sacudiu o edifício.

— Não somos estúpidos, Perséfone Jackson — Ela disse.

Tenho minhas dúvidas, pensei em dizer mas mantive a boca calada (era mais prudente). Eu não fazia ideia do que ela falava.

Será que os professores descobriram meu estoque secreto e ilegal de doces que eu vendo no dormitório? Ou talvez tivessem descoberto que eu pegava a maioria dos meus trabalhos da internet sem ter lido livro algum. Eles tirariam minha nota? Me fariam ler o livro?

— E então? — Exigiu.

— Senhora, eu não…

— O seu tempo se esgotou — Sibilou ela.

E então uma coisa estranha aconteceu. Todo mundo pensa que um ou dois (ou três, ou quatro, ou todo o corpo docente) professores são monstros, mas ninguém espera que os olhos deles comecem a brilhar como carvão de churrasco, que os dedos se estiquem e virem garras, e muito menos que seus casacos virem grandes asas de morcego e com dezenas de presas na boca. Pois isso aconteceu com Sra. Dodds, e ela estava prestes a me estraçalhar.

Pra fechar com chave de ouro, me aparece o Sr. Brunner trazendo consigo a arma mais intimidadora, rara e poderosa de todas — uma caneta!

Sim, ele me tacou uma caneta. O que ele esperava que eu fizesse com ela? Escrevesse: "não devo irritar professoras-demônios" nas paredes do museu?

Me desviei da professora maligna. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minhas mãos já não era mais uma caneta, era uma espada. Uma espada! A espada de bronze que o Brunner sempre usava em dias de torneio.

Minha professora de matemática (foque na parte do MATE, por gentileza) virou-se em minha direção com um olhar assassino.

Eu continuava tremendo como um chihuahua.

— Morra, meu bem! — Ela rosnou e então voou para cima de mim.

Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu: enfiei a espada na desgraçada.

Assim que a lamina a atingiu no estômago e atravessou seu corpo ela se transformou em um montinho de areia amarela, sim, reduziu-se a pó sem deixar nada para trás além de um forte cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, sentia como se ela ainda me encarasse com aqueles olhos malignos.

Eu estava sozinha. Uma caneta em minha mão. Ouvia uma voz dentro da minha cabeça falando "Ela mereceu! Ela mereceu!".

O que foi tudo isso? Onde estava o Sr. Brunner?

Ah! Já sei o que aconteceu! Algúem batizou meu refrigerante!

Com aquele pensamento, retornei para o lado de fora onde tinha começado a chover.

Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Bobofit ainda estava lá, encharcada pelo banho no chafariz, resmungando com suas amigas feiosas. Quando me viu, disse:

— Espero que Sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro!

Oi?

— Quem?

— Nossa professora de matemática, dããã!

Eu pisquei. Não tinhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr, mas preferi não fazer mais papel de idiota e me virei e continuei andando.

Grover teve a mesma reação quando o interroguei, mas havia algo de errado com sua fala — era hesitante.

Ouvi um trovão ressoar e então vi o Sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, mas ele não estava mais sozinho lendo seu livro.

Uma figura impaciente batia o pé e discutia com ele, vestia um elegante vestido azul-turquesa e calçava scarpins beges. Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança lateral muitíssimo bem trabalhada e tinha uma bolsa Louis Vuitton.

Oh, oh…

Agarrei a mão de Grover com uma mão e na outra apertava a caneta do Sr. Brunner.

— Vem!

Ele ajeitou-se de pé nas muletas e então caminhou o mais rápido que pôde atrás de mim, eu nem me importava com a chuva, apenas andava apressadamente em direção aos dois adultos que pareciam estar tendo uma conversa cheia de farpas mais a frente.

A mulher se virou para mim quando eu estava centímetros longe dela.

Era assombrosamente bonita e elegante, passava um ar de realeza. Tinha gigantescos olhos cor de chocolate ao leite que podiam não ser nada doces quando ela queria, mas ao me ver as duas orbes castanhas se iluminaram como se estivessem refletindo o sol. Um sorriso se formou e ela me puxou para um abraço,

— Percy! — Ela disse alegremente, mas parecia preocupada — Você está bem? — Frisou a parte do bem enquanto me apertava mais ainda.

— M-mãe! Não consigo respirar! — Arfei.

— Oh, desculpe — Me soltou sorrindo, e então acariciou meus cabelos — Senti tanto sua falta meu amor! — Beijou minha testa.

Podia sentir Brunner e Grover nos encarando preocupados e então trocarem olhares cumplices.

— Eu também — Sorri para ela e abracei sua cintura, sentindo seu cheio de maçãs preencherem minhas narinas.

Ficamos abraçadas por um segundo.

Minha mãe, Sara García. Era a mulher mais inacreditável desse mundo; ela me adotou quando eu era mais nova e minha mãe biológica morreu num incêndio misterioso em seu local de trabalho. Eu tinha quase um ano, e nem me lembro direito de Sally Jackson, só de um sorriso gentil e sentimento de segurança — mas ainda era uma figura tão desconhecida quanto meu pai. Sara e ela eram amigas, e assumiu minha guarda. Me permitiu, inclusive, manter o sobrenome Jackson — por mais que seja Perséfone García Jackson. Eu já disse que ela é maravilhosa? Pois ela é. Bonita, gentil, inteligente, talentosa e simplesmente única. Era incrível que não fosse casada.

— S-senhora… — Grover murmurou ao tentar formar uma frase.

— Você deve ser amigo de Percy — Ela concluiu — Grover — Lembrou-se do nome que eu dissera a ela — Sou Sara García, muito prazer — Estendeu a mão para que ele apertasse, mas Grover parecia tremer diante da presença dela.

Quase pude ouvir ele fazer um "bééé" quando ela soltou sua mão.

— O que você faz aqui, mamãe? — Enfim notei que aquilo não fazia sentido.

Sr. Brunner fez muxoxo e minha mãe voltou a se virar para ele.

— Ela veio levá-la — O professor explicou. Fiz um perfeito "o" com a boca. Sabia que ela iria me buscar, mas aquela não exatamente a hora certa — Mas ainda acho que deveria deixar que Percy conclua seu ano letivo, Sra. García.

— Ela concluirá em casa, como sempre devia ter feito! — Minha mãe disse severamente — Não é seguro que ela fique aqui. Nem em lugar nenhum.

— Mas, senhora…!

— Cale a boca! — Ela direcionou um olhar assassino para Grover quando ele tentou contestar e depois suavizou a expressão — Você entende, não é, querido? — Abaixou-se para ficar na altura de Grover e então acaricou sua barba. Grover engoliu a seco.

— Não será bom que ela fique desprotegida, Sara — Brunner tentou argumentar — Aqui ela tem a Grover e a mim, é o melhor.

Desprotegida? Segurança? É impressão minha, ou eu estou sendo excluída da conversa?

— Teve sua chance, professor e veja só o que aconteceu! — Minha mãe apontou para dentro do museu — Ela poderia… Ah! Eu prefiro nem pensar! — Contorceu o rosto numa careta de puro terror — Percy irá comigo, e sem objeções! Pegue suas coisas querida, despeça-se dos colegas e nós já vamos. Só consegui vaga dois quarteirões daqui, e é arriscado enrolar.

… Alguém pode me explicar o que está acontecendo?