Adaptação da obra literária "O Visconde que me amava", de Julia Quinn.
~PRÓLOGO~
Edward Anthony Masen Cullen sempre soube que morreria jovem.
Não, não na infância. O pequeno Edward nunca teve motivos para refletir sobre a própria mortalidade. Seus primeiros anos de vida, desde o nascimento, foram o sonho de qualquer menino.
Ele era herdeiro de um antigo e abastado viscondado. Ao contrário de outros casais aristocratas, porém, os Cullen eram muito apaixonados um pelo outro e consideravam o nascimento de seu primeiro bebê a chegada de um filho, não só a de um herdeiro. Portanto, não houve festas nem festivais; nenhuma comemoração além do olhar orgulhoso que os pais lançaram à criança.
Carlisle e Esme foram pais jovens. Ele acabara de completar 20 anos e a esposa tinha apenas 18, mas eram sensatos e fortes, e amavam o filho com uma intensidade e uma devoção raramente vistas em seu círculo social. Para horror de sua mãe, Esme insistira em amamentar o bebê, e Carlisle nunca concordara com a visão geral de que os pais não deviam conviver nem conversar com os filhos. Ele levava o menino em longas caminhadas pelos campos de Kent, falava-lhe sobre filosofia e poesia antes mesmo que ele compreendesse as palavras e lhe contava, todas as noites, uma história para embalar seu sono.
Como o visconde e a viscondessa eram muito jovens e apaixonados, ninguém se surpreendeu quando, apenas dois anos depois do nascimento de Edward, um irmãozinho mais novo, batizado com o nome de Emmett, juntou-se a ele. Carlisle logo adaptou a rotina diária para levar os dois filhos em suas caminhadas e passou uma semana metido nos estábulos trabalhando com o coureiro para criar uma mochila especial que mantivesse Edward preso às suas costas enquanto o bebê, Emmett, ia em seus braços.
Os três percorriam os campos e cruzavam riachos, com o pai discorrendo sobre coisas maravilhosas – flores perfeitas, céus azuis e límpidos, cavaleiros em armaduras reluzentes e donzelas em perigo. Esme costumava achar graça ao vê-los retornar com os cabelos revoltos pelo vento e queimados de sol, e ao ouvir Carlisle dizer: "Viu? Aqui está nossa donzela em perigo. Nós temos que salvá-la!". Edward se lançava nos braços da mãe, rindo ao jurar protegê-la do dragão que cuspia fogo e que eles tinham visto a apenas três quilômetros na estrada que levava à aldeia.
– Três quilômetros? – sussurrava Esme, com a voz mais horrorizada que era capaz de produzir. – Meu Deus, o que seria de mim sem três homens fortes para me proteger?
– Emmett é um bebê – observava Edward.
– Mas ele vai crescer – costumava responder a mãe, desgrenhando os cabelos do menino –, assim como você. Ainda vai crescer muito.
Carlisle sempre tratara os filhos com o mesmo afeto e devoção, porém, tarde da noite, quando Edward aninhava o relógio de bolso dos Cullen no peito (que Carlisle, que o recebera do próprio pai em seu 8o aniversário, lhe dera quando completara 8 anos), gostava de pensar que sua relação com ele era especial. Não que Carlisle o amasse mais – na época os irmãos Cullen já eram quatro (Jasper e Daphne nasceram bem próximos um do outro), e Edward sabia muito bem que todos eram muito amados.
Não. Edward gostava de pensar que sua relação com o pai era especial simplesmente porque ele o conhecia havia mais tempo. Afinal, por mais que Emmett conhecesse o pai, Edward sempre teria dois anos a mais que ele. E seis a mais que Jasper. Quanto a Daphne, bem, além de ser uma menina (que horror!), ela conhecia o pai oito anos inteirinhos a menos que ele e, como Edward gostava de lembrar, seria sempre assim.
Carlisle Cullen era simplesmente o centro do universo do filho mais velho. Era alto, tinha ombros largos e sabia montar um cavalo com a desenvoltura de quem já nascera fazendo isso. Sempre sabia as respostas das perguntas de aritmética (mesmo quando nem o tutor era capaz de chegar ao resultado), não via razão para os filhos não terem uma casa na árvore (e construiu uma) e sua gargalhada era a mais calorosa que existia.
Ele ensinou Edward a cavalgar. A atirar. A nadar. Levou-o pessoalmente ao colégio Eton, em vez de enviá-lo em uma carruagem com criados, como a maior parte dos pais fazia. E, ao ver o rapaz lançar um olhar nervoso à escola que se tornaria seu novo lar, teve uma conversa em particular com ele e lhe prometeu que tudo ficaria bem.
E ficou. Edward nunca duvidou disso, afinal, seu pai nunca mentira para ele.
O garoto amava a mãe. Faria qualquer coisa para mantê-la em segurança e feliz. Mas, ao crescer, tudo o que fazia – cada realização, cada objetivo, cada sonho e esperança – era dedicado ao pai.
E então, um dia, isso mudou. Era engraçado, refletiu mais tarde, como a vida de alguém podia mudar num único instante, como tudo podia ser de um jeito num minuto e, no seguinte, simplesmente se transformar em algo... diferente.
Aconteceu quando Edward tinha 18 anos e fora passar as férias de verão em casa. Estava se preparando para o primeiro ano em Oxford. Frequentaria a mesma faculdade do pai e sua vida era tão maravilhosa quanto a de qualquer rapaz aos 18 anos. Havia descoberto as mulheres e – talvez melhor ainda – sido descoberto por elas. Os pais ainda se reproduziam animadamente, somando Eloise, Francesca e Gregory à família, e Edward fazia o possível para não revirar os olhos ao passar pela mãe no corredor, grávida do oitavo bebê! Era um pouco inconveniente, na opinião dele, dar à luz naquela idade, mas o rapaz guardava as opiniões para si.
Quem era ele para duvidar da sabedoria de Carlisle? Talvez também ainda quisesse mais filhos na avançada idade de 38 anos.
Foi em um fim de tarde que Edward soube. Estava retornando de uma longa e agitada cavalgada com Emmett e havia acabado de passar pela porta da frente de Aubrey Hall, o lar ancestral dos Cullen, quando viu a irmã de 10 anos sentada no chão. Emmett ainda estava nos estábulos por causa de uma aposta ridícula que exigia que o perdedor escovasse os dois cavalos.
Anthony parou abruptamente ao ver Daphne. Se era estranho vê-la sentada no chão do salão principal, era mais esquisito ainda flagrá-la chorando.
Ela nunca chorava.
– Daff – chamou ele, hesitante, ainda jovem demais para saber o que fazer ao ver uma mulher em prantos e imaginando se algum dia saberia –, o que foi...
No entanto, antes que pudesse terminar a pergunta, a menina ergueu a cabeça e a profunda tristeza naqueles grandes olhos castanhos atravessou-o como uma faca. Ele recuou alguns passos, sabendo que algo estava muito errado.
– É o papai – murmurou a menina. – Ele morreu.
Por um momento, Edward teve certeza de que ouvira mal. O pai não podia estar morto. Outras pessoas morriam jovens, como o tio Hugo, mas ele era pequeno e frágil. Bem, ao menos menor e mais frágil que Carlisle.
– Você está enganada – disse a Daphne. – Tem que estar enganada.
Ela balançou a cabeça.
– Foi Eloise que me disse. Ele estava... ela estava...
Edward sabia que não devia sacudir a irmã enquanto ela soluçava, mas não pôde evitar.
– Ela quem, Daphne?
– Uma abelha – sussurrou a menina. – Ele foi picado por uma abelha.
Por um momento Edward não pôde fazer nada além de fitá-la. Finalmente, com a voz rouca e irreconhecível, falou:
– Um homem não morre por causa de uma picada de abelha, Daphne.
Ela não respondeu, ficou apenas sentada no chão enquanto se sacudia convulsivamente, tentando conter as lágrimas.
– Ele já foi picado uma vez – acrescentou Edward, e sua voz soou mais alta. – Eu estava com ele. Nós dois fomos picados. Passamos por uma colmeia e uma abelha me picou no ombro. – Sem se dar conta, ergueu a mão e tocou o local atingido tantos anos antes. Acrescentou num murmúrio: – E outra o pegou no braço.
Daphne o encarou com uma expressão assustada.
– Ele ficou bem – insistiu Edward. Podia ouvir o pânico na própria voz e sabia que estava deixando a irmã apavorada, mas não conseguia se controlar. – Um homem não pode morrer por causa de uma picada de abelha!
Ela balançou a cabeça, com os olhos escuros aparentando de repente um grande cansaço.
– Foi uma abelha – afirmou novamente. – Eloise viu. Num minuto ele estava de pé ali e no outro estava... estava...
Edward sentiu algo muito estranho crescendo dentro dele, como se estivesse prestes a explodir.
– E no outro ele estava o quê, Daphne?
– Morto.
O rapaz deixou a irmã sentada no salão e subiu os degraus de três em três até o quarto dos pais. Não era possível que Carlisle estivesse morto. Um homem não podia morrer por uma picada de abelha. Era impossível. Uma loucura. Carlisle Cullen era jovem e forte. Alto, com ombros largos e músculos poderosos. Por Deus, nenhuma abelhinha insignificante poderia tê-lo derrubado.
Mas quando ele alcançou o salão do andar de cima, percebeu, pelo silêncio absoluto das dezenas de criados que aguardavam ali, que a situação era grave. E seus rostos de compaixão... Pelo resto de sua vida, Edward seria atormentado por aquela imagem.
Ele achou que precisaria abrir caminho até o quarto dos pais, mas os criados lhe deram passagem imediatamente e, quando Edward empurrou a porta com violência, já sabia. A mãe estava sentada na beirada da cama, sem chorar nem emitir som algum, apenas segurando a mão do marido enquanto se balançava lentamente para a frente e para trás.
Carlisle estava imóvel. Imóvel como um... Edward não queria nem mesmo pensar na palavra.
– Mãezinha – disse ele com dificuldade.
Ele não a chamava assim havia anos. Desde que saíra de Eton, ela se tornara "mãe". Esme se virou devagar, como se tivesse ouvido a voz dele muito longe.
– O que aconteceu? – murmurou Edward.
Ela balançou a cabeça e desviou os olhos, impotente.
– Não sei – respondeu.
Seus lábios permaneceram entreabertos, como se ela quisesse dizer mais alguma coisa e tivesse esquecido o quê.
Edward adiantou-se com movimentos desajeitados e grosseiros.
– Ele se foi – disse Esme enfim, com a voz bem baixa. – Ele se foi e eu... ah, meu Deus, eu... – Pôs uma das mãos na barriga redonda. – Eu disse a ele... Ah, Edward, eu disse a ele...
Ela parecia prestes a desmoronar. Edward engoliu as lágrimas que queimavam seus olhos e faziam sua garganta arder e se colocou ao lado dela.
– Está tudo bem, mãezinha – falou.
No entanto, ele sabia que não era verdade.
– Eu disse a ele que este seria nosso último bebê – continuou ela, ofegante, soluçando no ombro do filho. – Falei que não poderia ter outro, que teríamos de tomar cuidado e... Ah, Deus, Edward, eu faria qualquer coisa para tê-lo aqui e lhe dar outro filho. Não entendo. Simplesmente não entendo.
Anthony segurou sua mão enquanto ela chorava. Não disse nada. Parecia inútil tentar dar voz à dor em seu coração.
Ele também não entendia.
Os médicos vieram mais tarde, à noite, e se mostraram igualmente desconcertados. Já tinham ouvido falar sobre mortes assim, mas nunca em alguém tão jovem e forte. Carlisle era tão enérgico, tão vigoroso... Ninguém jamais poderia imaginar. Era verdade que o irmão mais novo do visconde, Hugo, morrera de forma inesperada no ano anterior, mas não se podia dizer que esse tipo de coisa era necessariamente um problema familiar. Além disso, embora Hugo tivesse morrido sozinho, ao ar livre, ninguém notara nenhuma picada de abelha em sua pele.
De qualquer forma, não procuraram por uma.
Ninguém poderia ter previsto aquilo, continuavam a repetir os médicos, até que Edward sentiu vontade de estrangular todos eles. Finalmente, pediu que fossem embora e pôs a mãe na cama. Instalou-a em um quarto desocupado, porque Esme ficara muito agitada ao pensar em ficar na cama que dividira durante tantos anos com o marido. Anthony também conseguiu pôr os seis irmãos para dormir, dizendo-lhes que eles conversariam pela manhã, que tudo ficaria bem e que ele tomaria conta de todos, tal como o pai teria desejado.
Então, foi até o aposento em que o corpo de Carlisle se encontrava e olhou para ele demoradamente. Fitou-o durante horas, quase sem piscar. E, ao deixar o pai, saiu com uma nova visão da vida e uma nova consciência sobre a própria mortalidade.
Carlisle Cullen faleceu aos 38 anos. E Edward simplesmente não podia imaginar-se superando o pai de forma alguma, nem mesmo em idade.
Os bons se vão rápido...
