Autora: Emily Giffin

Título original: Something Borrowed.

Essa história não me pertence. Apenas estou a postando no universo de Card Captor Sakura.


CAPÍTULO II

Acordo com o meu telefone tocando e por um segundo sinto-me desorientada em meu próprio apartamento. Então, ouço a voz estridente de Meiling na minha secretária eletrônica, insistindo que eu atenda, atenda, por favor, atenta! De repente, meu crime entra em foco! Sendo rápido demais e meu apartamento gira. As costas de Syaoran estão voltadas pra mim, bem delineadas e incrivelmente atraentes. Dou uma cutucada nele com força.

Ele se vira e olha pra mim: - Que horas são?

Meu rádio-relógio nos informa que são 7h15. Fazia duas horas que tenho trinta anos. Correção, uma hora. Nasci no fuso horário da região central do país. Syaoran sai rápido da cama catando suas roupas, que estão espalhadas pelo o quarto. A secretária eletrônica emite dois bipes, interrompendo Meiling. Ela telefone de novo e fica o tempo todo falando sobre Syaoran não ter voltado para casa. Mais uma vez, minha máquina a interrompe no meio da frase. Ela telefona mais uma vez, gemendo: - Acorda, vai, me telefona! Preciso de você!

Quando começo a me levantar, percebo que estou nua. Sento de novo e me cubro com um travesseiro. - Oh, meu Deus! O que a gente fez? - Minha voz está rouca e trêmula. - Será que eu devo atender? Dizer a ela que você dormiu aqui?

- Claro que não! Não atenda... Deixa-me pensar por uns segundos.

Ela se senta só de cueca, esfrega o maxilar, agora um pouco coberto pela o sombreado de início da barba. Um pavor doentio e capaz de me deixar sóbria se apodera em mim! Começo a chorar, o que nunca ajuda em nada! Nada mesmo!

- Olha só, Sakura. Não chora! - Diz Syaoran. - Tudo vai acabar bem.

Ele veste o jeans e depois a camisa, puxa o zíper, enfia a camisa para dentro da calça e abotoa com eficiência, como se fosse uma manhã como outra qualquer. Em seguida verifica as mensagens no celular. - Merda, 12 chamadas não atendidas. - Ele diz, sem parecer muito preocupado. Apenas seus olhos castanhos revelam sua ansiedade.

Depois de se vestir, Syaoran senta de novo na beira da cama e apóia a testa sobre as mãos. Percebo que ele está respirando forte pelo o nariz. O ar para dentro e para fora. Então, ele olha pra mim, recomposto. - Certo! É isso que vai acontecer. Sakura olha pra mim.

Obedeço às suas instruções, ainda agarrada ao travesseiro.

- Tudo vai ficar bem. Escuta só... - Explica Syaoran, como se estivesse conversando com um cliente numa sala de reuniões.

- Estou ouvindo. - Digo.

- Vou dizer a ela que fiquei na rua até mais ou menos cincos horas, e depois fui tomar café com o Yue. Pronto, ela não vai desconfiar de nada!

- O que eu falo pra ela? - Quero saber. Mentir nunca foi o meu forte! Fato.

- Diga apenas que você saiu da festa e veio para casa... Diga que você não consegue se lembrar com certeza se eu ainda estava lá quando você saiu mais que você acha que eu ainda estava lá com o Yue. E não deixe de dizer que você "Acha"... Não seja tão taxativa. E isso é tudo o que você sabe, certo? - Ele aponta pra o meu telefone. - Liga de volta pra ela, agora! Vou ligar pra o Yue assim que sair daqui. Entendeu?

Balanço afirmativamente a cabeça, meus olhos verdes se enchendo de lágrimas novamente, enquanto ele se levanta. - E fique calma! - Ele diz, sem maldade, mas com firmeza. E logo ele já está na porta, uma das mãos na maçaneta, a outra percorrendo o cabelo castanho rebelde, o suficiente pra ser o deixar mais sexy.

- E se ela já tiver falado com o Yue? - Pergunto quando Syaoran já está no meio do corredor. Depois digo pra mim mesma. - Estamos muito ferrados! Muito mesmo.

Ele se vira e olha pra mim do corredor. Por um segundo, acho que ele ficou bravo. E que vai gritar comigo pra que eu me controle. Que isso não é questão de vida ou morte! Mais o tom dele foi delicado. - Sakura, nós não estamos ferrados. Já resolvi tudo. Você apenas fala o que eu disse pra você falar... E, Sakura?

- O quê?

- Sinto mesmo!

- É! - Suspiro. - Eu também! – Respondo.

Será que estamos falando um com o outro... Ou com Meiling? Logo que Syaoran foi embora, vou para o telefone, ainda me sentindo tonta. Demoro alguns minutos, mas finalmente crio coragem pra ligar pra Meiling. Ela está histérica. Histérica mesmo. - O filho da mãe não veio para casa ontem à noite! É melhor que ele esteja deitado em uma cama de um algum hospital! Você acha que ele me traiu?

Começa a dizer que não. Que provavelmente ele saiu com Yue, mas penso melhor. Isso não parecia óbvio demais? Será que eu deveria dizer isso se eu não sei de nada? Não consigo pensar! Minha cabeça está estourando, e meu coração batendo forte! De tempos em tempos, o quarto volta a girar.

- Tenho certeza de que ele não estava traindo você! - Ela assua o nariz.

- Porque você tem tanta certeza?

- Porque ele não faria isso com você, Meiling. - Não consigo acreditar nas minhas palavras. Na facilidade que elas saíram. O que foi isso?

- Bem, então onde é que está, droga? Os bares fecham lá pelo quartos, cincos horas. E agora são 7h30.

- Eu não sei... Mas, tenho certeza de que existe uma explicação lógica!

O que de fato, é que existe! Ela me pergunta a que horas que eu fui embora, se ela ainda estava lá e com quem estava. Exatamente as perguntas para as quais Syaoran havia me preparado! Respondo com cuidado, com fora instruída! Sugiro que ela telefone pra Yue.

- Já liguei! - Disse ela. - E aquele imbecil, idiota, não atendeu o maldito celular!

Sim, nós temos uma chance! Ouço um clique de uma ligação na espera, e Meiling desaparece. Depois volta, dizendo que é o Syaoran e que ela vai me telefonar assim que puder. Levanto e ando cambaleante até o banheiro. Olho no espelho. Minha pela está toda manchada, avermelhada. Meus olhos estão com rodelas de rímel e lápis da maquiagem e ardem porque dormi com as lentas de contato. Tiro as rapidamente, segundos antes de ter uma ânsia de vômito sobre a privada. Não vomito por causa da bebida desde os tempos de faculdade, e mesmo assim isso só aconteceu uma vez. Porque sempre aprendo com os meus erros. A maior parte das pessoas na faculdade diz: - Nunca mais vou fazer isso. Então fazem de novo no fim de semana seguinte. Mas eu mantenho a palavra! É assim que sou. Vou aprender com essa também. Deixa só eu me safar dessa.

Tomo um banho, fico livre do cheiro de fumaça no cabelo e na pele e deixo o telefone sobre a pia, esperando Meiling me ligar dizendo que está tudo bem. Mas as horas passam e ela não liga. Por volta do meio-dia começam as ligações pelo aniversário. Meus pais fazem sua serenata anual e o tradicional "Adivinha onde nós estávamos trinta anos atrás, nesta data?". Consigo disfarçar e brincar com eles, mas não é fácil. Não mesmo! Meu irmão implicando comigo, me chamando de mostrenga como sempre me chamou. E por ai... Lá pelas três horas estou sem notícias de Meiling e ainda estou enjoada! Bebo de uma vez um copo de água enorme, tomo dois antiácidos e considero a possibilidade de pedir ovos fritos, e bacon. Remédio em que, Meiling acredita piamente quando está de ressaca. Mas, sei que nada vai aplacar a dor de esperar, imaginando o que estará acontecendo, sem saber se Syaoran se ferrou, ou que nós dois estávamos.

Será que alguém nos viu juntos no 7B? No táxi? Na rua? Alguém além do Clow, cujo trabalho é não saber? O que estará acontecendo no Upper West Side, no apartamento deles? Será que deu a louca e ele resolveu confessar? Será que ela está fazendo as malas? Será que estava fazendo amor o dia todo para aplacar a consciência pesada dele? Será que ainda estão brigando, dando voltas e mais voltas em torno de acusações e negações?

O medo deve suplantar todas as emoções; seja uma vergonha sufocante ou um arrependimento; porque, por mais maluco que possa parecer, acho que não estou culpada por ter traído minha melhor amiga. Nem mesmo quando encontro no chão o preservativo que usamos. A única culpa real que reconheço é a de não me sentir culpada. Mas vou me arrepender mais tarde, logo que souber que não corro perigo. Oh, por favor, meu Deus, nunca fiz nada assim. Por favor, permita que eu me safe dessa. Estou disposta a sacrificar toda a minha felicidade futura. Qualquer chance de encontrar um marido. Penso em todos os acordos que tentei negociar com ele quando ainda estava na escola, crescendo. Por favor, não permita que eu tire menos de B nesta prova de matemática. Por favor, faço qualquer coisa; até preparar sopa para os pobres todos os sábados em vez de apenas uma vez por mês. Bons tempos aqueles. E pensar que um C algum dia simbolizou tudo o que poderia dar errado no meu mundo tão organizado. Como é que pude, mesmo que de forma passageira, ter optado pelo caminho do mal? Como pude cometer um erro tão enorme, com tanto potencial para alterar minha vida, e tão completamente imperdoável?

Chega finalmente o momento em que não consigo mais suportar. Ligo para o celular da Meiling, mas cai direto na caixa-postal. Em seguida ligo para a casa deles, na esperança de que ela atenda. Em vez disso, Syaoran atende. Eu me retraio toda. - Oi Syaoran. Aqui é a Sakura! - Digo, tentando soar natural! Você sabe a madrinha do seu casamento que está prestes a acontecer; sendo a mulher que ele foi pra cama na noite passada.

- Oi, Sakura! - Ele diz casualmente. - E aí? Você se divertiu ontem à noite?

Por um segundo acho que ele está falando de nós dois e fico horrorizada com o desprendimento dele. Mas logo ouço Meiling ao fundo, clamando pelo telefone, e percebo que ele está apenas se referindo à festa. - Ah, claro, foi ótimo, uma festa e tanto! - Mordo meu lábio. Meiling já arrancou o telefone da mão dele. O tom dela é bem alegre, está completamente refeita.

- Puxa, me desculpa, esqueci de ligar de volta para você. Sabe como é por um tempo a situação esteve dramática por aqui.

- Mas você está bem agora? Está tudo bem com você... E com Syaoran? - Tenho dificuldade em dizer o nome dele. Como se de alguma forma fosse dar bandeira.

- Hum, é, espera só um minutinho.

Percebo que ela fechou a porta, ela sempre vai para o quarto quando fala ao telefone. Fico imaginando a cama deles com dossel, a cama da Charles P. Rogers que ajudei Meiling a escolher. Logo, logo será o leito nupcial dos dois. - Ah, é, agora eu estou bem. Ele estava com o Yue, foi só isso. Eles ficaram fora até tarde e acabou indo tomar café da manhã. Mas é claro, você sabe, ainda estou fazendo o gênero, furiosa. Disse que é totalmente patético, um cara de 34 anos, noivo, ficar fora a noite inteira. Patético, você não acha?

- É, acho que sim. Mas sem maiores conseqüências. - Engulo em seco e penso, sim, aquilo não teria maiores conseqüências. - Bem, fico satisfeita que vocês tenham se entendido.

- É, estou numa boa, eu acho. Mas ainda assim... Ele deveria ter telefonado. Não aceito esse tipo de merda, entende?

- Sei... - Digo e depois corajosamente acrescento; - Eu disse que ele não estava traindo você.

- Eu sei... Mas ainda assim fico imaginando Syaoran com alguma stripper desmiolada ou coisa parecida. É a minha imaginação fértil. - Foi isso que a noite passada representou? Sei que não sou uma desmiolada, mas terá sido uma escolha consciente da parte dele ir para a cama com alguém antes do casamento? Não, certamente não. Certamente ele não escolheria a madrinha da noiva.

- Enfim, e você, o que achou da festa? Sou uma amiga tão horrível... Fico bêbada e saio cedo. E, oh, merda! Hoje é que é o dia mesmo do seu aniversário. Feliz aniversário! Meu Deus, eu sou a pior de todas, Saki! - É você é a amiga má.

- Ah, foi ótimo. A festa foi tão divertida. Muito obrigada por ter planejado tudo... Fiquei completamente surpresa... Realmente incrível! - Ouço a porta do quarto deles se abrindo e Syaoran diz alguma coisa sobre estarem atrasados.

- É, na verdade preciso correr, Sakura. Nós vamos ao cinema. Você quer vir?

- Hum, não, obrigada.

- Tudo bem. Mas o jantar de hoje à noite está de pé, certo? No Rain, às oito horas.

Tinha esquecido completamente dos planos de encontrar Syaoran, Meiling e Tomoyo para um pequeno jantar de aniversário. Não há a menor chance de eu conseguir encarar Syaoran ou Meiling hoje à noite; e com certeza não os dois ao mesmo tempo. Digo a ela que não sei se vou que estou realmente de ressaca. Apesar de ter parado de beber as duas, acrescento, antes de me lembrar que mentirosos costumam oferecer detalhes sem muita importância. Meiling pareceu não notar.

- Talvez você se sinta melhor mais tarde... Ligo para você depois do cinema.

Desligo o telefone achando que foi fácil demais. Mas em vez de me sentir aliviada, acabo ficando com uma vaga insatisfação, uma tristeza, desejando que fosse eu quem estivesse indo ao cinema. Não com Syaoran, é claro. Apenas alguém! Com que rapidez eu dou as costas ao meu acordo com Deus! Quero um marido novamente. Ou pelo menos um namorado. Sento no sofá com as mãos cruzadas sobre o colo, meditando sobre o que fiz com Meiling, esperando a culpa chegar. Ela não chega! Foi porque tive o álcool como desculpa? Estava bêbada, fora do meu perfeito juízo. Penso na minha aula de Direito Penal no primeiro ano da faculdade. Intoxicação, assim como infância, insanidade, coação e indução, é uma desculpa legal, uma defesa onde o réu não é imputável por ter se engajado numa conduta que de outro modo seria um crime. Droga! Aquilo foi apenas intoxicação involuntária. Bem, foi Meiling quem me fez beber aquelas doses todas. Só que pressão do grupo não constitui intoxicação involuntária. Ainda assim, é um atenuante que o júri pode levar em conta! Claro, responsabilize a vítima. O que há de errado comigo?

Talvez eu simplesmente seja uma pessoa má. Talvez a única razão para que eu tenha sido boa até agora tenha menos a ver com a minha firmeza de caráter e mais a ver com o medo de ser pega em flagrante! Obedeço às regras porque tenho aversão ao risco. Nunca roubei supermercados quando era adolescente em parte porque sabia que era errado, mas principalmente porque sabia que seria a primeira pessoa a se dar mal. Nunca colei em nenhuma prova pela mesma razão. Até hoje sou assim, não levo pra casa nada do escritório porque de alguma forma acredito que as câmeras de vigilância vai me pegar em flagrante! Então, se é isso que me motiva a ser boa, será que realmente mereço crédito? Será que sou mesmo uma pessoa boa? Ou apenas uma pessimista covarde?

Tudo bem. Talvez eu seja mesmo uma pessoa má. Não há outra explicação plausível para a minha falta de culpa. Será que fiz isso com a Meiling de propósito? Será que a noite passada foi motivada por ciúme? Será que me ressinto de sua vida perfeita, da facilidade com que ela consegue as coisas? Ou talvez, de forma subconsciente, em meu estado de embriaguez, estivesse acertando as contas das coisas erradas que fez comigo no passado. Meiling não tem sido sempre uma amiga perfeita. Longe disso. Começo a apresentar o caso ao júri, lembrando-me de Yukito, no tempo do primário. Estou me dando conta de uma coisa... Senhoras e senhores do júri, considerem a história de Yukito Tsukishiro.

Meiling Yoshida, eu crescemos como melhores amigas, ligadas pela geografia, uma força maior do que todas as outras quando se está no primário. Nós nos mudamos para a mesma rua sem saída em Naperville, Indiana, no verão de 1976, bem a tempo de assistir ao desfile do bicentenário da cidade. Marchamos lado a lado, batendo os mesmos tambores vermelhos, brancos e azuis que o pai dela comprou para a gente. Ainda me lembro da Meiling se inclinando para o meu lado e dizendo: - Vamos fazer de conta que somos irmãs. A idéia me deixou arrepiada... Uma irmã! E naquele exato momento foi o que ela se tornou para mim.

Dormíamos uma na casa da outra todas as sextas e sábados durante o ano e na maior parte dos dias da semana durante o verão. Fomos capazes de captar as nuanças das famílias uma da outra, detalhes que você só conhece quando é vizinha de porta de uma amiga. Sabia, por exemplo, que a mãe de Meiling dobrava as toalhas em três, com todo o capricho, enquanto via TV, que o pai dela tinha assinatura da Playboy, que gulodices eram permitidas no café da manhã e que as palavras merda e droga não tinham nada de mais. Tenho certeza de que ela também observou muita coisa na minha casa, embora seja difícil dizer o que faz da sua vida uma vida única. Dividíamos tudo roupas, brinquedos, quintais, até mesmo nosso amor por Andy Gibb, o Bee Gees, e por unicórnios.

Na quinta série descobrimos os meninos. O que me leve a Yukito, minha primeira paixão de verdade. Meiling, assim como todas as outras meninas da sala, gostava de Takashi Yamazaki. Eu até entendia os encantos pelo o Yamazaki. Eu admirava a sua liderança no beisebol; o modo como ele casualmente e sem esforço nenhum golpeava a bola para longe do alcance de todos em direção ao alto, quase na vertical. Mas, eu adorava Yukito! Seu cabelo cinza, seu sorriso gentil. Adorava o modo de girava o lápis número dois e entre os lábios carnudos, deixando mordidinhas simétricas perto da borracha sempre que estava bastante concentrado. Adorava o modo como ficava animado e feliz quando brincava com as meninas; ele era o único menino que jogava com a gente, os outros meninos preferiam beisebol e futebol. Adorava o modo como era sempre gentil com o garoto menos popular da sala, Lee Rock, um sujeito terrivelmente gago que tinha o cabelo cortado em forma de tigela.

Meiling ficava intrigada, se não irritada, com a minha dissidência, assim como também a nossa boa amiga Chiharu Mihara, que se mudou para a nossa rua dois anos depois da gente; Meiling e Chiharu gostavam de Yamazaki, mas não daquele jeito, e insistiam em dizer que Takashi era muito mais bonito e muito mais legal... Dois atributos que podem meter você em encrenca quando você escolhe um garoto ou um homem; uma percepção que tive mesmo aos dez anos de idade.

Todos nós tínhamos certeza de que Meiling levaria o grande prêmio, Yamazaki. Não apenas porque ela era mais destemida do que as outras meninas, dirigindo-se a Yamazaki toda empertigada na lanchonete ou no quintal, mas também porque ela era a menina mais bonita da sala. Com as maçãs do rosto salientes os olhos grandes, harmônicos, e um nariz delicado, Meiling tinha um rosto que agradava a todas as idades, embora na quinta série ninguém soubesse dizer ainda exatamente o que faz uma pessoa ser bonita. Não acho que aos dez anos eu chegasse a compreender o significado de maçã do rosto e estrutura óssea, mas sabia que Meiling era bonita e sentia inveja da aparência dela. Chiharu também, e sempre que tinha uma chance dizia isso abertamente a Meiling, o que me parecia totalmente desnecessário. Meiling já sabia que era bonita e, em minha opinião, não precisava que essa informação fosse reforçada todos os dias.

Então, naquele ano, no Halloween, Chiharu, Meiling e eu nos reunimos no quarto de Chiharu pra improvisarmos nossas fantasias de ciganas; Meiling havia insistido que seria uma excelente desculpa para usarmos bastante maquiagem. Enquanto ela apreciava seus brincos que imitavam brilhantes, recém-adquiridos, olhou-se no espelho e disse: - Sabe de uma coisa, Sakura? Acho que você está certa.

- Certa sobre o quê? - Perguntei, sentindo uma onda de satisfação, imaginando a que discussão anterior ela estava se referindo. Meiling colocou um dos brincos e olhou para mim. Nunca vou esquecer aquele sorrisinho debochado no rosto dela, apenas uma leve insinuação de um sorriso de escárnio.

- Você está certa sobre o Yukito. Acho que também vou gostar dele.

- O que você quer dizer com "Vou gostar dele", Meiling?

- Estou cansada de Takashi Yamazaki. Agora eu gosto do Yukito. Gosto dos sorrisos dele!

- Ele só tem um sorriso! - Rebati.

- Bem, então eu gosto do sorriso dele!

Olhei para Chiharu em busca de apoio, de palavras que explicassem que uma pessoa não podia simplesmente decidir gostar de outra pessoa. Mas é claro que ela não disse nada, apenas continuou passando seu batom cor de rubi, fazendo biquinho para um espelho de mão.

- Não acredito em você, Meiling!

- Qual é o seu problema? - Perguntou ela. - A Chiharu não ficou chateada comigo quando eu gostava do Takashi. Nós dividimos o Takashi com toda a nossa série durante meses. Não é, Chiharu?

- Mais tempo do que isso. Comecei a gostar dele no verão. Lembra? Na piscina? - Concordou Chiharu, sempre incapaz de enxergar todo o quadro. Olhei na direção dela, que abaixou o olhar com remorso. Aquilo era diferente. Aquilo era Yamazaki. Ele já havia caído em domínio público. Mas Yukito era exclusivamente meu. Naquela noite eu não disse mais nada, mas o passeio pela vizinhança em busca de doces estava arruinado. No dia seguinte, na escola, Meiling mandou um bilhete para Yukito, perguntando a ele se gostava de mim, dela ou de nenhuma das duas; com quadradinhos ao lado de cada opção e instruções para que ele assinalasse uma delas. Ele deve ter assinalado o nome de Meiling, porque na hora do recreio eles já tinham se tornado um casal.

O que significa dizer que eles anunciaram que "estavam namorando", mas nunca passavam nenhum tempo de verdade juntos, a não ser que você conte alguns telefonemas à noite, freqüentemente combinados com antecedência e com direito a Chiharu dando risadinhas ao lado dela. Eu me recusei a participar ou discutir seu novo romance. Na minha cabeça, não fazia diferença que Meiling e Yukito nunca tivessem se beijado, ou que fosse apenas à quinta série, ou que eles tivessem terminado duas semanas depois, quando Meiling perdeu o interesse e decidiu que voltaria a gostar de Takashi Yamazaki. Ou, como minha mãe disse para me consolar, que a imitação era a mais sincera forma de lisonja.

Só o que contava era que Meiling tinha roubado Yukito de mim. Talvez ela tenha feito isso porque realmente tenha mudado de idéia a respeito dele; foi isso que disse a mim mesma para poder parar de odiá-la. Mas o mais provável é que Meiling tenha ficado com Yukito apenas para me mostrar que era capaz de fazê-lo ficar com ela!

Então, senhoras e senhores do júri, Meiling Yoshida merecia isso. Aqui se faz aqui se paga. Talvez esse seja o seu castigo merecido. Fico imaginando as expressões dos jurados. Eles não estão convencidos. Os representantes masculinos do júri parecem perplexos, como se não entendessem nada do que está sendo dito. Não é sempre a garota bonita que fica com o garoto? É esse precisamente o modo como o mundo deveria funcionar. Uma mulher mais velha, num vestido discreto, aperta os lábios. Ela está enojada pela simples comparação; um noivo comparado a uma paixão da quinta série! Pelo amor de Deus! Uma mulher impecável, quase bonita, vestindo um terninho Channel amarelo-canário, já identificou Meiling como aliada. Não há nada que eu possa dizer para mudar a opinião dela ou atenuar minha ofensa. A única jurada que parece sensibilizada pela história de Yukito é uma garota meio gordinha, de cabelos bem curtos, cor de café aguado. Ela se apóia com desleixo na borda da bancada e de vez em quando empurra os óculos para cima do nariz adunco. Essa garota está a meu favor, inspirei seu senso de justiça. Ela está secretamente satisfeita com o que fiz. Talvez porque ela também tenha uma amiga como Meiling, uma amiga que sempre consegue tudo o que quer.

Penso nos tempos do segundo grau, quando Meiling seguiu conquistando todos os garotos que quis. Posso vê-la beijando Edward Elricperto do nosso armário no corredor e recordar a inveja que brotava em mim quando eu, sem namorado, era forçada a testemunhar a desavergonhada demonstração pública de afeto dos dois. Edward tinha sido transferido para a nossa escola vindo de Columbus, Ohio, no outono do nosso terceiro ano, e imediatamente se tornou um sucesso em todos os lugares, menos na sala de aula. Apesar de não ser muito brilhante, ele era a estrela do nosso time de futebol, o armador titular do nosso time de basquete e, é claro, nosso principal arremessador do time de beisebol na primavera. E, com aquele jeito bonitão de namorado da Barbie, as meninas o adoravam. Takashi Yamazaki, parte dois.

Só que, infelizmente, ele tinha uma namorada chamada Winry, lá em Columbus, com quem alegava ser 11O% comprometido; uma expressão do jargão esportivo que sempre me incomodou por sua óbvia impossibilidade matemática. Ou pelo menos costumava ser, antes de Meiling entrar na história, depois de assistirmos a um jogo em que Elric, não permitiu nenhuma rebatida válida contra o Central e ela decidir que ele tinha de ser dela. No dia seguinte ela o convidou para assistir ao musical "Os miseráveis". É de se esperar que um atleta que pratica três modalidades de esporte como o Elric não seja muito chegado a musicais, mas ele concordou em acompanhá-la, e com bastante entusiasmo. Depois o espetáculo, na sala de estar de Meiling, Elric carimbou um baita chupão no pescoço dela. Na manhã seguinte, certa garota cujo nome é Winry de Columbus, Ohio, levou um tremendo pé na bunda. E bem, dado! Apenas pra acrescentar...

Eu me lembro de conversar com Chiharu sobre a vida privilegiada que Meiling levava. Discutíamos Meiling com muita freqüência, o que me levava a imaginar o quanto elas fofocavam a meu respeito. Chiharu argumentava que não era apenas o visual ou o corpo perfeito dela, era também a sua segurança, o seu charme. Sobre o charme eu não sei, mas, olhando em retrospecto, concordo com Chiharu quanto à segurança. Era como se Meiling tivesse a perspectiva de uma mulher de trinta anos, só que ainda no segundo grau. Tinha a compreensão de que nada daquilo importava, de que só se vive à vida uma vez e de que vale a pena ir à luta. Ela nunca se intimidava, nunca ficava insegura. Incorporava aquilo que todo mundo diz quando recorda os anos de ginásio: - Se eu soubesse disso naquela época.

Mas se há uma coisa que posso dizer sobre Meiling e seus namoros é isto: Ela nunca nos dispensou por um cara. Sempre colocava as amigas em primeiro lugar; o que é incrível para uma menina no segundo grau. Às vezes ela chegava mesmo a dispensar o namorado, porém mais freqüentemente apenas nos incluía nos programas. Formávamos uma fila de quatro no teatro. O namorado da vez, depois Meiling, Chiharu e eu. E Meiling sempre sussurrava seus comentários em nossa direção. Ela era impetuosa e independente, ao contrário da maioria das meninas do colégio, que permitiam que seus sentimentos por um rapaz as engolisse. Naquela época eu achava que ela simplesmente não os amava o suficiente. Talvez Meiling quisesse apenas manter o controle, e, sendo a pessoa que amava menos, era isso o que conseguia. Não sei se ela realmente se importava menos ou apenas fingia, mas sei que mantinha cada um deles à sua mercê, mesmo depois de dispensá-los. Veja Elric, por exemplo. Ele está morando em Iowa com a esposa, três filhos, dois labradores e ainda manda e-mails para Meiling no aniversário dela. Isso sim é que é poder! Com certeza!

Até hoje Meiling fala com nostalgia sobre os bons tempos do ginásio. Eu me encolho todas as vezes que ela diz isso. É claro, tenho algumas boas lembranças daqueles dias e desfrutei uma popularidade razoável; um bom benefício adicional por ser a melhor amiga de Meiling. Adorava ir aos jogos de futebol com Chiharu, pintar nossos rostos de laranja e azul, ficar enrolada em cobertores nas arquibancadas e dar tchau para Meiling enquanto ela animava a torcida lá no campo. Adorava nossas idas aos sábados à noite até a sorveteria Colonial, onde sempre pedíamos a mesma coisa; um sundae de baunilha com calda de caramelo e chocolate, uma torta de caramelo, chocolate e amendoim e um brownie de chocolate duplo; e depois dividíamos tudo entre nós três. E eu adorava o meu primeiro namorado, Hideki Motosuwa, que me chamou para sair durante nosso último ano.

Hideki também gostava de respeitar regras, uma versão católica de mim. Ele não bebia ou usava drogas e ficava culpado só de conversar sobre sexo. Meiling, que perdeu a virgindade quando estava no segundo ano, com um espanhol que fazia intercâmbio e se chamava Diego, ficava sempre me instruindo a corromper Hideki. "Segure o negocio dele assim e eu garanto, não tem erro." Só que eu estava perfeitamente feliz com as nossas longas sessões de agarramentos na caminhonete da família dele e nunca tive de me preocupar com sexo seguro e com dirigir embriagada. Portanto, se as minhas lembranças não eram glamourosas, pelo menos eu me divertia razoavelmente.

Tive meus momentos ruins também: - Os dias em que o cabelo ficava horroroso, as espinhas, as infernais fotos de turma, nunca usava as roupas certas, ficava sem par para dançar nas festas, não conseguia me livrar do excesso de gordurinhas dos tempos de bebê, era cortada dos times, perdia eleições para tesoureiro da classe. Além de uma avassaladora angústia que ia e vinha à minha revelia; ou, mais precisamente, uma vez por mês; aparentemente fora do meu controle. Coisas típicas da adolescência, realmente. Clichês, porque isso acontece com qualquer um. Qualquer um menos Meiling, isto é claro! Meiling que pairou por esses tumultuados quatro anos de escola sem sofrer rejeições, intocada pela maldição da feiúra adolescente. É claro que Meiling adorava a escola, e a escola adorava Meiling. Outro fato!

Muitas garotas com essa visão de seus anos de adolescência costumam se dar mal mais tarde na vida. Elas aparecem nas reuniões de dez anos de formatura dez quilos mais gordas, divorciadas e saudosas de seus longínquos dias de glória. Mas a maré dos dias de glória ainda não acabou para Meiling. Ela não sofreu nenhuma grande derrota ou decepção. De fato, a vida só fica cada vez mais doce com ela. Como minha mãe disse um dia, não muito ao estilo dela, o mundo come na mão de Meiling. Essa costumava ser; e ainda é; a melhor definição. Meiling sempre consegue o que quer. E isso inclui Syaoran, o noivo dos sonhos!

Deixo uma mensagem no celular dela, que vai estar desligado durante o filme. Digo que estou cansada demais para sair para jantar. Só de conseguir me livrar do programa já me sinto menos enjoada. De fato, de repente, estou morrendo de fome. Procuro meus cardápios e telefono para pedir um hambúrguer com queijo eheddar e batata frita. Acho que não vou conseguir perder dois quilos até o feriado do Memorial Day. Enquanto espero pela minha entrega, lembro de quando Meiling e eu brincamos com a agenda todos aqueles anos atrás, imaginando o futuro e o que os trinta anos trariam.

E aqui estou eu, sem o meu marido boa-pinta, sem a babá responsável e sem os dois filhos. Em vez disso, meu aniversário mais importante está manchado para sempre por um escândalo... Mas, afinal, não faz sentido ficar me martirizando por isso. Aperto o botão de rediscagem do telefone e acrescento ao meu pedido um milk-shake de chocolate grande. Posso ver minha garota no canto da bancada dos jurados piscando para mim. Ela acha que o milk-shake é uma excelente idéia. Afinal de contas, não é verdade que todos têm direito a alguns momentos de fraqueza no dia do seu aniversário?

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CONTINUA!


N/A: E aqui está mais um capítulo fresco e muito bom! Estou realmente amando fazer essa adaptação, é um pouquinho cansativo porque tenho os nomes e as aparências e algumas coisas para ficar um pouco igual ao anime. Mais estou realmente amando fazer isso e eu acabo lendo novamente o livro com os personagens de Card Captor Sakura. É um sonho! *-*

Lindíssimas, obrigada por comentarem! =)