Capítulo II

Mais Memórias

Cinco anos depois…

Mary Jane atravessou a barreira da estação de King's Cross. Calmamente, percorreu a plataforma, em direcção ao comboio vermelho, sempre atenta ao que a rodeava. Procurou os amigos com o olhar, mas em vão. Decidiu procurar um compartimento vazio para eles.

Pelo caminho, avistou Angelina Johnson e Alicia Spinnet, suas colegas de Gryffindor. Gostava muito de conversar com Angelina, mas não se dava tão bem com Alicia. Esta última gostava de salientar o facto de a jovem ter como melhores amigos três rapazes e, como tal, andar sempre com eles.

Acenou às duas, antes de prosseguir. Finalmente, encontrou um compartimento ainda vazio. Vestiu o uniforme de Hogwarts e estava a pegar na varinha, quando ouviu vozes, atrás de si.

– MJ!

Eram os gémeos Weasley, seguidos por Lee Jordan.

– Ah, olá rapazes. As férias correram bem?

Lee e George acenaram afirmativamente, mas Fred ficou calado, boquiaberto, olhando fixamente para a amiga.

– O que é isso que tens na mão?

Mary Jane corou, antes de responder:

– Hum. É um distintivo. De prefeito.

O compartimento foi abalado por um silêncio ensurdecedor. Durante alguns momentos que pareceram intermináveis, o rapaz limitou-se a fitar a amiga, enquanto os outros dois alternavam o olhar de um para o outro. A rapariga estava pálida, mas segurava o distintivo firmemente.

Por fim, Fred suspirou e, revirando os olhos, disse:

– Tudo bem. Eu já sabia. Quem mais poderia ser, se não a melhor aluna do nosso ano?

Subitamente, a temperatura pareceu subir alguns graus. O gémeo de Fred e Lee desataram às gargalhadas, Mary Jane forçou um sorriso e Fred esboçou um aceno.

– Eu 'tava a brincar! Acreditaste mesmo que eu ficar zangado por isso? – admitiu ele, começando a rir.

Mais aliviada, a jovem suspirou e sentou-se. Prendeu o distintivo na parte da frente do manto e observou os amigos, que se entretinham a arrumar as malas.

Desde que se conheceram, nunca mais se separaram. A força da sua amizade só poderia ser igualada pela que unia Harry Potter, Ron Weasley e Hermione Granger. Partilhavam tudo, desde os trabalhos de casa às detenções, passando pelas partidas que pregavam.

– 'Bora jogar qualquer coisa? – sugeriu Lee.

– Ups. Eu não posso. Tenho de ir ter com o resto dos prefeitos e, depois, tenho de patrulhar os corredores, durante um bocado. – disse, fazendo uma careta. – Mas eu volto.

E saiu do compartimento, deixando os rapazes sozinhos.

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Algumas horas depois, voltou ao compartimento. Deixou-se escorregar para um assento e aceitou o bolo que Lee lhe entregara.

– Aconteceu alguma coisa de jeito?

– Não. A não ser que consideres a visita do Montague interessante… – retorquiu George, com uma careta de nojo.

– Hum. Não. Definitivamente, não. – volveu ela.

– E os outros prefeitos? – inquiriu Fred, espreguiçando-se.

– Hum, deixa ver… Dos Slytherin, são dois perfeitos anormais. – respondeu, com um sorriso traquina. – Os prefeitos de Ravenclaw são demasiado quietinhos para o meu gosto. De Hufflepuff… temos o Cedric e uma miúda ruiva.

George engasgou-se com o seu sumo de abóbora e Fred arregalou os olhos de surpresa.

– Cedric? O Diggory? – inquiriu Lee, levemente amuado.

A jovem anuiu, observando as reacções dos amigos com uma sobrancelha erguida.

– Cedric? Que intimidades são essas, menina Sanderson? – gozou George, fingindo estar zangado.

Estranhamente, a rapariga corou violentamente. Mesmo assim, fitou o amigo nos olhos e retorquiu:

– Não são intimidades nenhumas.

Deitou uma olhadela ao outro Weasley, que fitava a sua varinha. Depois, este ergueu o olhar e, encarando a amiga, disse:

– Não te importas que amaldiçoemos o teu queridinho, pois não?

– Oh, vocês são impossíveis. – confessou ela, em voz alta, sem conseguir conter um sorriso.

Aquela atitude protectora não era nada estranha. Eles cuidavam dela como se fossem irmãos. E, verdade seja dita, para a jovem, eles eram os irmãos que nunca tivera.

– Descobri um novo feitiço. – anunciou ela, radiante. – É hilariante. Faz com que as pessoas fiquem carecas, de repente.

Um sorriso travesso surgiu nos rostos dos rapazes.

– Já o experimentaste? – perguntou, avidamente, Lee.

– Não. Estava a guardá-lo para um palhaço qualquer dos Slytherin.

Uma onda de compreensão percorreu o compartimento. Era óbvio para todos que a presa de Mary Jane seria Adrian Pucey, um Slytherin irritante.

De súbito, o comboio começou a abrandar. Os candelabros oscilaram violentamente, fazendo com que a luz piscasse. Sentiram frio, muito frio. E, depois, a luz falhou, deixando-os mergulhados nas trevas.

– O que se passa? – perguntou Fred, algures à frente da jovem.

– Não faço a mínima ideia. – respondeu ela, levantando-se e abrindo a porta do compartimento. – Todo o comboio está às escuras.

Voltou para o interior do compartimento e sentou-se. Procurou o braço de George, que estava sentado a seu lado, e agarrou-o firmemente.

– Não estou a gostar nada disto. – murmurou, aproximando-se mais do rapaz.

– Não tenhas medo. Deve ter sido uma pequena avaria. – tranquilizou-a George, envolvendo-lhe os ombros com o braço.

– Oh, isto é ridículo. Lumos. – sussurrou Lee, ao lado de Fred.

Uma ténue luz iluminou o rosto dos quatro amigos, revelando o mesmo olhar preocupado.

Sentiram que o comboio retomava o seu caminho e suspiraram, aliviados.

Foi nesse instante que a porta do compartimento se abriu. Um segundo antes de descobrirem quem o tinha feito, sentiram-se ser trespassados por um frio cortante, ao mesmo tempo que reviviam as suas piores recordações.

O Dementor aproximou-se deles, respirando ruidosamente. Nitidamente, procurava alguém, uma vez que, ao fim de um longo minuto, retrocedeu em direcção ao corredor, deixando-os gelados e abatidos. Fred teve a presença de espírito necessária para fechar a porta, antes de se deixar cair no seu banco.

– Vocês estão bem? – quis saber Lee, numa voz fraca.

– Agora já estou melhor. Com mil Hipogrifos, nunca me tinha sentido tão deprimido em toda a minha vida! – admitiu George, que ainda abraçava Mary Jane.

Accio sapos de chocolate. – convocou a jovem. – Comam; vão se sentir muito melhor.

Os rapazes obedeceram e, assim que deram a primeira dentada, o frio aterrador que os invadira começou a derreter.

Inesperadamente, a porta do compartimento abriu-se de novo e um vulto entrou, aos tropeções.

– Não me faças mal! – gritava, em pânico.

A luz voltou, nesse momento, dando a conhecer o imprevisível visitante: Draco Malfoy. Todavia, não era o Malfoy do costume: estava pálido e tinha os olhos arregalados de medo.

– O que estás aqui a fazer? – perguntou Fred, num tom de gozo. – Com medo dos Dementors?

O rapaz não reagiu, limitando-se a olhar por cima do ombro, tentando vislumbrar outra daquelas horríveis criaturas.

– Se eu fosse a ti, Malfoy, saía daqui. É que eu tenho um novo feitiço e ainda não encontrei uma cobaia em quem o testar. – ameaçou a rapariga, numa voz de falsa doçura.

Hesitante, o rapaz não se moveu. Quase poderiam ver o seu cérebro a trabalhar, avaliando as suas hipóteses: fugir dos Dementors ou de uma maldição?

– Hum, opção errada.

Apontou a varinha ao loiro e murmurou a fórmula de uma maldição. Instantaneamente, todo o cabelo loiro de Draco Malfoy caiu.

Os quatro amigos rebolaram-se a rir, perante aquela visão tão caricata. Por seu lado, o Slytherin apalpava a cabeça, onde, agora, se podia ver uma reluzente careca. Soltou um grito e abandonou o compartimento, batendo com a porta atrás de si.

– Essa foi genial! Até o deixaste sem fala! – disse George, por entres risos.

– Até se esqueceu das suas habituais ameaças! – continuou Lee.

– Viram o pavão, como entrou aqui? Parecia que ia molhar as calças, a qualquer momento! – concluiu Fred, provocando ainda mais gargalhadas.

– Correcção: pavão sem penas! – acrescentou Mary Jane, limpando as lágrimas dos olhos, ao mesmo tempo que controlava o riso.

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Estranho. Não sei porque é que me estou a lembrar disto, agora. Já passou tanto tempo!

Voltou, de novo, a sua atenção para a carta que estivera a ler. Já a tinha lido dezenas de vezes, desde que a recebera, nessa mesma tarde. Acabara por se deixar cair num estado de transe, onde a realidade e as recordações se misturavam muito.

Limpou uma lágrima que teimava em cair. Tinha tantas saudades dos gémeos e de Lee! Dava tudo para estar com eles, naquele instante! As cartas que eles lhe enviavam ajudavam a esquecer parte das saudades, mas não era o suficiente.

As férias de Verão que antecediam o início do seu sexto ano em Hogwarts pareciam arrastar-se mais do que o costume. Contava, frequentemente, os dias que faltavam para voltar à escola. E o tempo, caprichosamente, teimava em continuar a passar devagar.

Já estava farta de todas as festas e jantares a que os seus pais a obrigaram a assistir. Usavam sempre o mesmo argumento (Mary Jane, querida, você já tem dezasseis anos! Não acha que chegou a altura de se começar a dar com as pessoas certas?) e de nada valia a sua opinião (Mãe, eu já lhe disse que não quero ter nada a ver com essas pessoas! Eu só quero estar com os meus amigos!).

E, cúmulo dos cúmulos, os seus pais estavam a organizar uma festa para a apresentar à sociedade mágica, após o seu décimo sétimo aniversário!

Quero sair daqui! Esmurrou a almofada, enraivecida.

Baixou o olhar para a carta que Fred lhe escrevera, a contar a partida que tinham pregado ao primo de Harry. Leu a última linha:

Nós vamos ver a Taça Mundial de Quidditch. Espero ver-te lá.

Uma chama de esperança acendeu-se no seu peito, dando-lhe forças para aguentar a terrível semana que se seguiria.