Eles jantam os brownies, igual crianças travessas; Katniss acredita que eles ainda são crianças em alguma classificação perversa e irrelevante. Debaixo da mesa, ela pôe seus pés descalços sobre os sapatos de Peeta.

"Por quê está tão bem vestido?" ela provoca, enchendo mais um copo de leite pra ele. Peeta, ainda fragilizado, olha confuso com a pergunta. "Esperando alguém pra te filmar?".

A piada não tem graça. As câmeras são um assunto delicado, mas o que não é? Água é um assunto delicado. Comida sempre vai ser. Árvores também têm seus fantasmas. As chamas que Peeta acende pra fazer os pães. Katniss apenas fica olhando pra ele, esperando uma resposta.

"Se sentiria melhor se me vestisse igual o Haymitch?" Peeta pergunta, sobrancelhas cerradas, irritado de novo. "Andando por aí com manchas de vômito na camisa?"

"Pode ser," Katniss diz. Ela pressiona um pouco mais os pés sobre os dele. Ele resmunga algo pra si mesmo, um hábito que começou depois do telessequestro, e que ela detesta. Ela fica olhando ele terminar de beber o copo de leite.

Ela não quer que ele vá embora. E ele não vai. Sem dizer uma palavra, eles sobem as escadas e vão para o quarto dela. Katniss fecha a porta, apesar de não ter ninguém em casa. Sem olhar pra Peeta, ela tira o vestido sem modéstia. Ela sobe na cama e se deita virada pra parede, escuta ele tirar o cinto, a calça, ouve ele deixar os sapatos organizadamente junto à parede. Ele sempre fazia isso quando estava no trem, como forma de respeitar o espaço dela, ou até mesmo de respeitar o próprio calçado. Quando ele era um prisioneiro de Snow, bastava ela lembrar dos sapatos dele contra a parede, e de como ele se ajoelhava pra arrumá-los antes de se deitar com ela.

Como sempre, o clima fica estranho por no máximo dez segundos: os cotovelos de Katniss, a perna de Peeta, seus narizes, a respiração deles. Então o lençol sobe até os ombros, eles afundam nas cobertas, e de repente tudo fica mais caloroso e confortável, as cicatrizes dele deslizando contra as dela.

Eles não se beijam esta noite, mas ele fica ereto com o toque das coxas dela, o que traz um sorriso no rosto Katniss, apesar de que não deveria, pois isso significa que ele passou muito tempo sozinho pra somente isso o deixar excitado. Ela pensa da primeira vez que o sentiu, dentro do saco de dormir nos primeiros Jogos, ele pedindo perdão com o olhos quando ela o encarou confusa, sonolenta. Ele estava vermelho, angustiado, talvez com medo que ela fizesse algum comentário que pudesse ser pego pelas câmeras.

Depois que ele cai no sono deitado no seu ombro, ela desliza a mão por dentro da camisa dele. É uma excitação boba lembrar que uma vez este garoto já esteve dentro dela. Só uma vez: na noite antes da entrevista dos segundos Jogos. Haymitch deu todo o crédito a Peeta por ter inventado a história da gravidez de Katniss, mas foi ela quem deu a ideia pra ele, naquela noite, quando sussurrou que ele precisava usar alguma coisa. Aquela foi a última noite que ela se sentiu feliz, juntamente com outros momentos felizes: o piquenique no telhado, Peeta desenhando ela, o pôr do sol, sua mão entrelaçada na dele caminhando pro quarto dela, juntos. Ele riu quando ela sugeriu que podia ser a última chance deles tentarem fazer sexo, e ela riu quando ele ficou boquiaberto ao perceber que ela estava falando sério. Foi estranho, rápido, mais risadas nervosas e mãos trêmulas do que prazer, mas quando terminaram, ela nunca tinha se sentido tão próxima a alguém, deitados ali, sua face contra a dele, Peeta tentando não soluçar em gratidão, Katniss esforçando ao máximo pra não ama-lo. Falhando, como falhou em tudo que era importante pra ela.

Peeta murmura pequenos lamentos no seu sono, a coisa mais patética que ela já ouviu. Ela se aperta contra ele, enroscando a perna na cintura dele, desejando que fosse maior pra faze-lo se sentir seguro.

No início da manhã ele começa a se mexer. Ela vira pro outro lado da cama, escondendo o rosto no travesseiro, não está pronta pra começar o dia com ele aqui e sem nada pra fazer. Ele rola na cama aconchegando nela, bocejando em seu ouvido. Ela não se mexe, esperando que ele capte a mensagem, mas ele apenas joga o braço na cintura dela e suspira, relaxando.

Quando a luz do sol bate na janela, ela sonha coisas estranhas, meio sonolenta, meio acordada. É raro ela sonhar, qualquer coisa que não seja pesadelo é raro, e esses sonhos são repletos de ansiedades, mas sem perigo real. Por duas vezes ela sonha que levanta da cama e desce as escadas chateada porque Peeta foi embora quando ainda dormia. Quando ela realmente acorda, virando na cama sob o peso dele, ela fica aliviada por ele estar ali, e também irritada com seu alívio.

Às vezes ela sente como se Peeta fosse um daqueles itens misteriosos que vieram dentro da mochila que ela agarrou na Cornucópia: o que diabos eu devo fazer com isso? Até mesmo fora da arena ela não tem energia pra carregar peso extra. Ela faz carinho nos cabelos dele, vendo ele dormir. Ele é tão pesado, apertando contra as costelas dela, fica difícil pra ela respirar.

"O que 'tá fazendo?" ele balbucia as palavras na clavícula dela, pegando ela de surpresa. Ela continua mexendo no cabelo dele como se não estivesse envergonhada por ter sido pega no flagra.

"Checando se tem piolho," ela diz. Ele ri.

"Achou algum?"

"Ainda não, mas só comecei agora."

Ele levanta o rosto rindo pra ela, limpando a boca com as costas das mãos. Ela sabe que ele vai ficar com mal hálito, e que os lábios dele ficam macios pela manhã. Uma angùstia começa a acumular dentro dela, querendo dizer que ela foi sabotada pra se sentir assim. Peeta apoia no cotovelo e arruma os cabelos dela, emaranhados, bagunçados. Ela precisa de um banho.

"Algum piolho?" Katniss pergunta enquanto ele puxa os cabelos dela entre os dedos.

"Diversas colônias," ele fala dando risada. "Como tem dormido ultimamente?"

Sem você, ela pensa. Parece que ele consegue ler os olhos dela, mesmo quando ela não se permite dizer uma palavra. Não é justo resumir a vida em dois estados: com ou sem Peeta. Ele beija a ponta do nariz dela e se senta na cama, espreguiçando. Katniss espera ele levantar, descer as escadas e começar a assar qualquer coisa na cozinha, mas ele só fica ali, sentado, ombros baixos, então ele alcança o pulso dela. Ela vê ele levantar delicadamente o curativo, procurando o corte. E treme quando o vê.

"Katniss," ele fala suavemente. Isso a pega de surpresa: quando foi a última vez que alguém disse seu nome em voz alta? Na verdade, não faz muito tempo, mas é a primeira vez que ela sente que seu nome pertence a ela e a mais ninguém.

"Não foi nada demais," ela diz, puxando o pulso pra longe dele. "Só queria saber a sensação. Deixa pra lá. Você não entederia."

"Tá certo." debocha, tirando o lençol das pernas. O cessar fogo entre eles acabou. "Como eu posso entender alguma coisa que acontece com você?"

Enquanto veste suas roupas ele resmunga mais palavras incoerentes. Desta vez, não enfia a camisa por dentro da calça, nem coloca o cinto. Ele vai embora do quarto com as mãos fechadas em punho, e Katniss o ignora olhando pro teto. Ela ainda está sob os efeitos de sentir o corpo dele contra o dela durante a noite, e fica alerta, sabendo a raiva que dá quando ele a faz se sentir desse jeito, mas dessa vez resolve fazer alguma coisa. Seu corpo tem necessidades: OK. Ela sempre foi escrava disso. Um desejo vai ser substituído pelo outro, e isso basta. Ela não pode ama-lo, porque isso acabou, foi uma tentativa fracassada, mas ela pode atravessar aquela cerca quando a eletricidade está desligada, e ir atrás do que precisa.

Eles ficam indiferentes durante o dia, mantendo a proximidade mas evitando o olhar. Peeta vai pro pátio dos fundos misturar tinta, usando amoras estragadas pra fazer o vermelho ficar com mais cor de sangue. Ela não quer saber o que ele vai pintar com aquilo, mas o observa pelo canto do olho enquanto esculpe flechas na mesa da cozinha, espalhando lasca de madeira pra todos os lados.

"O verão está chegando," ele anuncia quando entra de supetão em casa ao meio dia, seus braços carregados com jarros de tinta.

Grande merda, ela quer falar, mas apenas dá de ombros, mantendo o foco no trabalho. Ele deixa a porta do pátio aberta, os pássaros cantam lá fora, e vai preparar o almoço pra eles. Katniss está usando um vestido simples e botas, imaginando se ele deixaria ela fugir e visitar o túmulo de Prim. Ela não tem certeza se quer ir sozinha hoje, e culpa ele por essa incerteza. Ele complica tudo, como sempre.

"Vou atrás de tijolos depois do almoço," ele diz enquanto ela come o sanduíche que ele preparou. "Pra montar um forno aqui atrás no pátio."

"Não pode usar o que já tem na sua casa?" ela pergunta. Foi especificamente instalado pra ele depois que mudou pra Vila dos Vitoriosos.

"Não quero ficar voltando pra lá o tempo todo," ele murmura. Ela abre a boca pra perguntar por quê, então lembra como às vezes vê Prim nas escadas da casa dele quando o sol bate na janela do segundo andar.

"Tudo bem," ela diz, deslizando as botas pra frente tocando na ponta dos sapatos dele. "Eu te ajudo."

Eles trabalham em silêncio, nenhum deles comenta que a sensação de pegar tijolos na cidade é como roubar de um cemitério. Se esperam ter algum tipo de vida aqui alguém vai ter que enterrar o resto dos ossos carbonizados. Katniss não se oferece, nem ele. Ele treme com o peso quando traz o carrinho de mão de volta pra casa, e não deixa que ela carregue.

"Eu levo," ele diz quase virando a caçamba quando ela tenta ajudar. Ela vira os olhos, e depois desse fora, mantém uns dez metros de distância entre eles. Quando chegam em casa ele começa a descarregar os tijolos no pátio, e ela pega seu arco na cozinha e vai direto pra floresta.

"Pra onde você vai?" ele grita. Ela não responde, esperando pra ver se ele vem correndo atrás derrubando ela no chão. Ela quer que ele venha. Mas ele não vai.


Continua...